Giz De Cera Preto
1 “luc”
Notas iniciais
Está riscando um papel com o giz de cera perto numa luz fraca e tremulante. Transpirando em uma febre permanente que gela a pele, com um cigarro que ele acendeu e esqueceu-se de fumar deixando queimar em metade cinza, metade papel. O jovem se volta para uma nova folha parda vazia, e rabisca algumas coisas que saltaram para sua mente, que a pessoa que vive em seus pensamentos o desafiou a desenhar. São incrivelmente precisos levando em conta o quanto sua mão treme, mas são movimentos claramente automático, como se ele tivesse feito isso milhões de vezes, e a pilha de papeis espalhados pelo quartinho, agora inutilizáveis por tanto giz preto, atiçavam minhas conclusões e curiosidade.
Não sei seu nome, então o chamo de Luc, mas não acho que ele goste pois o chamo e ele olha rapidamente por cima do ombro, pro lado onde fica a porta do banheiro. Paranóico, é a única palavra que pode descrevê-lo agora. Luc não viu nada além de escuridão, então proferiu um nome com um ponto de interrogação no final, e respondeu Ninguém. Não foi o meu nome, por isso não me pronunciei, veja bem. O rapaz se convence de que é apenas o som da solidão, pois seu gato ainda está dormindo, e eu não me sinto ofendido por isso.
Seus olhos estão de volta no esboço, tremeluzindo de excitação só com a idéia de terminá-lo para saber o que andou desenhando. Passa as costas da mão pela testa febril e encharcada, ninguém cuida dele além do sobretudo preto que uma vez foi de seu avô. Repousa a mesma mão sobre os olhos e ele odeia o que esta sentindo, odeia sentir, mas sente mesmo assim. Sente principalmente um aperto na garganta que lhe implora por uma noite de choro. “Outra vez, não.” Uma voz rouca e estrangulada sai de sua garganta, as primeiras palavras sóbrias que ouço em quatro dias de soluços. “Não.” Dessa vez ele soa mais firme.
O rapaz que atende por “Luc”, mas não é, se levanta, arrastando a cadeira em um barulho que atrapalha a madrugada das redondezas remotas de Tokyo. Provavelmente ele acordou o morador de baixo. Bem, um grande foda-se a isto. Ele está determinado a ir ao banheiro, buscar aquele vidro de Aspirina para uma dor de cabeça não tão forte para a quantidade de comprimidos que ele pretende tomar. E o rapaz nota que está com medo. Tem medo de abrir a porta, mas já está com a mão na maçaneta. Tem medo de abrir a porta e encontrar não seu banheiro, mas um vazio, ou o inferno, como muitas vezes o padre da rua de baixo disse que aconteceria. Ele não deveria temer o inferno, afinal, não sabia se acreditava em um.
Com esse pensamento, e pernas fracas, ele gira a maçaneta e empurra a porta.
Afinal, ainda era um banheiro que cheirava a putrefação. Sua aspirina ainda estava no armário atrás do espelho, como a de muitas pessoas estavam. Ele toma o resto, que é menos da metade do vidro, e engole tudo com a água da torneira. Voltando ao seu desenho, e rasgando-o ao meio. Faria outro novinho, um desenho-suicida, que original. Pensando bem, deveria ter desenhado primeiro e tomado os remédios depois. Há, Professora Kryss estava errada depois de tudo, a ordem dos fatores altera sim o produto. E o produto era o inicio de um desenho desengonçado, com a falta de um pulso firme, e logo uma testa suada na mesa, ao lado da folha parda que ainda tinha o giz e o punho de pé, como se ainda tivesse forças para desenhar.
Eu termino o desenho para ele, sei como ele gosta de fazer narizes triangulares e rostos finos, como a fumaça sempre sai escura e bonita e o sangue é feito com um gentil dançar de pulso, e não parece real nem ficcional. Quando ele acorda, muito depois, ele olha para o desenho a sua frente, transtornado por um suicídio falho. Luc encara, e coça sonolentamente o vômito seco na bochecha (eu não o deixei morrer), com uma dor de cabeça mais forte que nunca. E finalmente ele chora em derrota. Grita, horrorizado, pelo que ele acredita ter desenhado e eu me sinto ofendido dessa vez. Imaginei que ele gostaria de saber que não está só, que eu estou com ele. Mas agora me pergunto se ele se sente ainda mais sozinho na minha companhia.
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