Give me love.
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Ninguém reparava nela, e por que reparar? Sua intenção era ficar invisível. Apenas executar seu trabalho e pronto. Alias, não tinha muito que reparar em uma garotinha miúda como ela, a não ser pelas enormes asas brancas em suas costas. –“ótimo presente, pai.”- era seu único pensamento.
Ela passara a vida inteira fazendo e desfazendo o amor acontecer, executando o trabalho de seu pai, observando e aprendendo a teoria do amor. Apenas a teoria. Ela não era capaz de amar.
O ódio, sendo o sentimento contrário do amor, esse sim conseguia atingi-la em cheio, e toda vez que ela puxava a corda prateada de seu arco e acertava sua flecha em alguém, ela sabia a dor que isso causava em cada um, e se deliciava com isso. Errado? Ela não pensava assim. Se ela sofria com a dor do não amar, por que os outros deveriam não sentir dor com o amar? Não seria a toa que os antigos mitos diziam que o cupido era o deus do amor por conta de sua crueldade. Se o pai era assim, imagine sua filha, obrigada a fazer seu serviço.
Mas toda vez que a garota mirava sua flecha, ela também via o outro lado do amor, o lado que ignora a dor e é tomado por uma felicidade extrema, com os olhos da vitima brilhando ao encontrar a pessoa amada, uma felicidade que ela nunca sentiria. Malditas essas pessoas que possuem esse dom, ela largaria suas flechas em questão de segundos para ter uma pequena dose sequer dessa magia.
Infelizmente, o mais perto que ela poderia chegar de tal era mirando com seu arco um tiro certeiro no peito de uma pessoa qualquer.
O Amor é cruel. A garota sentia isso todos os dias, atirando em pessoas comuns, olhando sua vitimas sofrerem, e olhando para a própria sombra, observando suas asas enormes, com os olhos injetados de lagrimas, que só mostravam o peso do não amar.
Tudo isso por uma simples vontade, uma que ela sabia que nunca lhe seria possível, a vontade do amor. Mas nenhuma de suas flechas, por mais fundo que ela as cravasse em seu próprio peito, a levaria a tal sentimento.
***
Em uma tarde monótona como todas as outras, com sua única e infeliz atividade de brincar de tiro ao alvo com corações alheios, passeava invisível, como sempre, por um parque qualquer. Crianças brincavam, correndo e gritando, risos soltos ao vento, uma alegria pura, ela pode sentir. Sentir! Uau. Isso era quase inédito. Por pura diversão, resolveu sentar-se em um dos bancos e observar os pequenos. Ela merecia uma folga.
Hoje já havia acertado uns três pares de corações e ainda era começo de tarde! Embora não fosse muito feliz com o “emprego”, em dias assim se sentia um pouco orgulhosa. Pensava se seu pai sentiria o mesmo orgulho... mas logo esse pensamento ia embora e dava lugar aquela sensação de “tanto faz” que na verdade tanto importa. Ela balançou a cabeça de leve como que para afastar aquele pensamento de sua mente, fazendo os cabelos loiros quase brancos caírem um pouco sobre o rosto, afastou as mexas com os dedos, e voltou a observar as crianças, saindo de seu devaneio sobre o cretino chamado papai.
Do outro lado do parque havia um garoto, observava as mesmas crianças, olhos franzidos, pois a luz do sol pegava bem aonde ele se encontrava. Chamou a atenção dela, por um motivo inexplicável, e ela parou de olhar a crianças para observa-lo por um tempo. O garoto era alto e atlético, cabelos pretos e olhos muito castanhos, era um garoto muito bonito, usava uma regata preta cortada e uma bermuda, uma mochila pendurada nas costas, de vez em quando olhava para o celular, Una conhecia esses movimentos, estava esperando alguém. Teria ela encontrado a próxima vitima?
Ela se levantou e foi em direção ao menino, passou ao lado dele como qualquer pessoa passaria, e tratou de se empoleirar na arvore que estava logo atrás do banco aonde ele se encontrava. Sentada confortavelmente em um galho alto, encostou-se ao tronco e ficou na espera, observando a ótima vista do parque. Alias, subir em arvore era um dos prazeres de Una, algo que ela fazia desde pequena, fora que permitia as melhores vistas e os melhores ângulos, era perfeito!
Logo duas pessoas vieram andando em direção ao garoto, uma menina e um menino, “um casal perfeito!” foi o primeiro pensamento que veio na cabeça dela. A menina era linda, cabelos castanhos com mechas azuis, olhos castanhos, sobrancelhas arqueadas como se estivesse sempre desconfiada e um piercing no lábio inferior. O garoto tinha cabelos ruivos bagunçados, olhos verdes e roupas meio largadas no estilo “peguei a primeira coisa que vi na frente”, ele andava tão distraído que deu um leve tropeção nos próprios pés, o que fez a menina ao seu lado rir e ele ficar todo corado. Os dedos de Una já começavam a coçar.
O garoto que estava sentado no banco levantou ao avistar os amigos e foi na direção deles.
—Eai Arth! – pode ouvir o ruivo, que acenou para o outro menino.
—Fala Thom! – o garoto bagunçou ainda mais o cabelo do amigo. – Flora! – disse, sorrindo e dando um leve empurrãozinho na menina, que respondeu com um soco no braço do garoto.
Dois garotos e uma garota... Quem seria o escolhido pela flecha? A menina pensou, observando o grupo, já preparando uma flecha. “Bom, elas nunca erram.” Posicionou o arco, arrumou a flecha encantada de Eros, mirou no peito da garota e segurou, puxou a arma, soltou todo o ar do pulmão, como um ritual de concentração, e soltou a corda. E foi certeira no coração. Observou a mesma virar poeira, uma poeira rosa e brega que sempre aparecia quando o amor era certo, os olhos da menina piscaram uma vez, com a íris rosa por um segundo, e logo depois voltando para a cor normal. Tinha funcionado. Ela sempre acertava.
Agora Una precisava lançar a flecha par da garota, que ela iria direto para o coração da pessoa destinada a ser seu amor. Repetiu o mesmo ritual da flecha anterior, e apontou novamente para a garota, isso faria a flecha tomar seu rumo correto e acertar o alvo, soltou a corda que a prendia, e a observou ir em direção à garota e desviar para o menino ruivo logo em seguida, ele era seu alvo. E acertou em cheio seu peito, novamente ela viu a poeira rosa se espalhar, os olhos verdes ficarem rosa por um instante, e os dois trocarem olhares como nunca antes. Um olhar apaixonado, estranho, que nunca havia acontecido antes, mas que de repente parecia ser a melhor coisa do mundo.
O outro garoto nem sequer percebeu a interação que havia ocorrido ali, o que só significava mais sucesso para Una, que mais uma vez conseguiu passar despercebida. Ele continuou a conversar com os dois amigos, agora apaixonados, como se nada tivesse acontecido, e os três seguiram pela praça em direção ao café que ficava do outro lado da rua.
Una pensou que um café não era má ideia. Tinha se tornado uma viciada em cafeína desde que a sociedade evoluiu e o café se tornou tão popular, ainda mais essas redes de café que possuíam bolinhos deliciosos e bebidas derivadas que eram tão gostosas e diferentes. Ela adorava entrar em bares, restaurantes e lanchonetes e apreciar os mais diversos cardápios que o cartão ouro de seu papai oferecia.
Desceu suavemente de cima da arvore, ajeitou o arco em suas costas, entre as grandes asas brancas, que ela não sabia como os humanos comuns não conseguiam enxergar, e caminhou na mesma direção que o trio que ela havia interferido há pouco.
Entrou na cafeteria, e agradeceu aos deuses por ela não estar cheia de pessoas apressadas, ela odiava horários de pico. Foi ate o caixa e pediu um cappuccino de caramelo e um bolinho de chocolate com banana, então sentou no balcão, no banquinho mais afastado que tinha, esperando seu nome ser chamado, no caso Daniela. Ela nunca dava seu nome verdadeiro nos lugares, as pessoas podiam estranhar ou querer conhecer ela, e isso nunca dava certo.
Pegou seu celular dentro da bolsa, a mesma que carregava suas flechas encantadas, e olhou as mensagens, seu pai já havia recebido os novos corações e tinha mandado um “Boa filhota!”, havia algumas mensagens de seus irmãos espalhados pelo mundo, a maioria apenas se gabando no grupo sobre quantos corações tinham conseguido essa semana, outros reclamando sobre flechas que tinham quebrado no caminho “Eu realmente odeio quando isso acontece.”, ela pensou, mas não perdeu tempo digitando nada, ela preferia ficar quieta quando o assunto era família. Apenas dois irmãos ela conversava casualmente, Ian, que atuava na Itália, e Ryan, no Brasil. Ela gostava de conversar nos diferentes idiomas que eles haviam aprendido, e eram os únicos irmãos que não ficavam se gabando o dia todo.
—Daniela! Flora! – ouviu o atendente da cafeteria chamar seu nome, levantou e foi ate ele.
No caminho cruzou com a sorridente menina das mechas azuis, que olhava toda hora para a mesa onde os amigos estavam sentados, mas Una apostava que ela estava olhando só para o ruivo. Não conseguiu segurar um pequeno risinho ao observar os dois.
—Obrigada. – disse ao pegar seu pedido e voltou para seu lugar, no caminho de volta, a menina deu um sorriso amigável para ela. Simpática.
Assoprou o copo antes de dar um gole, sentiu o gosto da cafeína com leite e caramelo se espalhar dentro da boca, e pensou em quanto ela gostava daquele gosto. Era seu favorito. Mas ela se sentiu observada. Ela odiava quando as pessoas percebiam sua existência. Olhou ao redor e seus olhos se encontraram com o do garoto de cabelos castanhos que ela havia visto na praça, ela franziu as sobrancelhas para ele como quem diz “pare de me olhar antes que eu use minhas flechas pra causar uma dor pior em você” e voltou sua atenção para seu bolinho, que era muito mais importante que um garoto. Mas ele não parou de olhar pra ela.
“Mas que saco esse garoto. Na certa eu preciso flechar ele.”
Ela se levantou e resolveu terminar seu café fora dali, talvez voltar para a praça. Quem sabe não teria mais alguns corações lá. Caminhou em direção à porta, querendo socar o garoto que a encarava firmemente “Você não deveria nem me notar, por Eros porque fica me olhando?”, pensou, e não conseguiu não fazer uma careta, o que fez o garoto rir. Ela o encarou, brava, e ele sorriu pra ela, um sorriso galanteador, o que a fez rir, uma risada fria e sarcástica “Um garoto querendo flertar comigo, deuses! Só pode ser piada.”.
Abriu a porta do estabelecimento, deixando o garoto confuso com o tom sarcástico de sua risada, e curioso para saber quem era aquela garota.
***
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