Amor platônico: amar uma pessoa que não sente o mesmo amor por você. Quando não se é correspondido pela pessoa amada, você ama sozinho. É amar uma pessoa que não ama você.

— Você entende? — ela parecia preocupada.

Direcionei meu olhar para ela novamente, evitando a pergunta. Era claro que eu entendia. Ela estava apaixonada por outra.

Eu jamais poderia competir com a Cullen, afinal.

O que eu poderia oferecer? As mãos sujas de graxa, os trocados contados para um cinema, um trabalho mais ou menos, uma família problemática?

Que garota, no mundo, escolheria isso? Quando se poderia ter Edythe Cullen e seus carros de luxo, seus jantares em restaurantes finos, sua educação e sua polidez.

Se fôssemos comparar, chegava a ser ridículo.

Além do mais, a Cullen não era explosiva como eu.

Se eu tivesse a chance, pensei, acabaria estragando tudo.

— Riley? — ela tentou, a voz adquirindo o mesmo tom preocupado que havia em seus olhos.

Eu pigarreei, tentando conter o bolo que se formava em minha garganta.

— Sim, eu entendo. — minha voz traía minha derrota.

Bella suspirou e mexeu no cabelo escuro em um ato de nervosismo.

— Ela não vai... — comecei, sentindo a necessidade de prolongar aquele momento — Quero dizer, ela não vai brigar com você por estar aqui?

A garota, alguns centímetros mais baixa, me encarou com uma expressão de exaspero.

— Edythe não é assim. — ela pensou por um segundo, depois continuou — Ela entende que... Eu precisava fazer isso.

Os olhos azuis não desviavam do meu em nenhum momento.

— Eu não quis soar como se... Sei lá, como se ela fosse sua dona ou algo do tipo. — dei de ombros, enfiando as mãos nos bolsos.

Bella sorriu de forma triste, quase me pedindo desculpas.

— Ela é bem protetora, é verdade. Mas ela entende que o que nós tivemos... Digo, nossa amizade, é importante pra mim. Você é importante para mim, Riley...

Eu a olhei novamente, o bolo persistindo em subir pela minha garganta.

Droga, porque tinha que ser tudo tão complicado?

— ...Como uma amiga. — ela completou e franziu a testa. Não compreendi sua expressão, mas entendi porquê ela achou necessário esclarecer aquele ponto.

Ela me queria como uma amiga. Nada mais do que isso.

— Tudo bem, eu... Depois daquela noite, depois que beijei você... — eu a olhei, pedindo desculpas — Prometi a mim mesma que não estragaria as coisas de novo.

Ela suspirou baixo e desviou o olhar. Eu também olhei para baixo, para minhas botinas surradas — que provavelmente estariam pretas, com ou sem a graxa.

A chuva fraca que persistia em esfriar a noite em Forks batia na calçada de cimento, e eu desejava que as gotículas de chuva pudessem me fazer derreter e arrastar-me para longe.

Que pudessem lavar esse sentimento e me deixar ser apenas a amiga, a garota Biers, não a Riley apaixonada.

— Sabe eu... Talvez possa ser pedir muito, não quero parecer nenhuma babaca... — Ela se interrompeu e coçou os olhos, ainda sem me olhar, parecendo escolher as palavras com cuidado.

Eu esperei, paciente, aproveitando o pequeno momento para admirar sua pele um pouco úmida refletindo a luz da lua.

Por Deus, como eu poderia não me apaixonar por essa garota?

— Se estiver tudo bem pra você. Eu realmente gostaria que pudéssemos ser amigas.

Aquelas palavras me surpreenderam e me atingiram com força. Como eu faria aquilo?

Me peguei devaneando sobre como a minha vida tinha que ser tão problemática em apenas 17 anos de existência. O universo parecia estar sempre conspirando contra mim.

— Sabe... Eu me apaixonei por você desde o primeiro dia. — falei, de repente. A necessidade de confessar aquilo veio com força total e, sinceramente, acreditava que eu tinha aquele direito — Desde que vi seus olhos e seu sorriso tímido pela primeira vez.

Ela parecia querer falar algo, mas neguei com a cabeça. Sem interrupções, ou a coragem iria embora e aquelas palavras provavelmente nunca mais sairiam da minha boca.

— Eu nunca tinha... Me apaixonado, antes de você. Passava horas pensando em seus olhos e no porquê meu coração sempre disparava e minhas mãos suavam sempre que eu pensava em vê-la. Ou em como minhas pernas tremiam quando você estava perto, e sorria para mim. Sobre como tudo que eu queria era te abraçar mais apertado, te manter próxima a mim... Sobre como...

Balancei a cabeça, me recusando a chorar.

Me perguntei milhares de vezes como seria ter o gosto dos seus lábios. Era o que eu queria dizer, mas o bolo em minha garganta parecia ter vencido a batalha.

Alguns soluços escapavam por meus lábios cerrados, mas eu lutei para contê-los.

Ela tentou se aproximar, mas neguei novamente.

Eu ainda não havia acabado.

— Mas então eu comecei a ter medo. — ela agora parecia confusa, uma das mãos oscilava querendo me confortar — Eu tive medo porquê todos os meus pensamentos eram sobre você, e eu desejava saber se você sentia o mesmo, se pensava o mesmo sobre mim.

Eu não pude mais conter as teimosas lágrimas, que banharam meu rosto e minha camisa.

A dor espalhou lágrimas na minha camisa.

— Até eu perceber que... Você sentia o mesmo. Olhava com a mesma admiração, o mesmo desejo, a mesma paixão. Mas era tudo direcionado a ela.

Minha voz falhou. A dor me consumia de forma lenta, como eu já havia me habituado, mas era diferente. Estar ali, confessando todo o meu amor e todo o meu fracasso para ela, era demais.

— Riley... — ela parecia prestes a chorar também — Eu... Não sei o que dizer.

Ficamos em silêncio novamente, na chuva, enquanto eu tentava me controlar e controlar as lágrimas que me consumiam.

Me odiei internamente, por fazê-la ficar daquele jeito.

Um vento frio varreu a noite, fazendo-me estremecer e aliviando-me, um pouco, do meu desespero momentâneo.

Ergui o olhar para ela novamente.

Parecia derrotada. Parecia quase... Como eu.

E eu havia feito aquilo.

Machucando as pessoas que ama novamente, Biers.

Eu respirei fundo e esfreguei os olhos com força desnecessária — hábito que eu havia adquirido dela — e ergui a cabeça, sentindo as gotas de chuva me levarem.

Tudo isso...

Já havíamos passados dos limites.

— Vê-la machucada, por minha causa, não era o que eu queria. — ela sussurrou.

— Eu só quero que você fique bem, Bella. Afinal, o amor não isso? Não é estar junto, mas sim querer ver a pessoa feliz, mesmo que isso custe a sua felicidade.

— Citar Nicholas Sparks não ajuda muito. — ela meio tossiu, meio riu. Acompanhei seu sorriso por um segundo, percebendo que já era hora de colocar uma pedra naquilo e seguir em frente.

— Sabe, em um outro momento, eu seria babaca e pediria que você me desse amor como dá à ela. Eu te ligaria todas as noites, depois que meu sangue tivesse se afogado em álcool. Eu seguraria você e lutaria por você, lutaria por um canto, um espaço no seu coração. Eu nos deixaria queimar. Mas nós duas sabemos que isso não levaria a nada.

Ela suspirou, os olhos cálidos me encarando sob a chuva.

— Talvez eu deva deixar você ir.

Nos encaramos por um segundo e eu me virei de costas no mesmo momento em que ela deu meia volta e entrou no carro escuro parado a poucos metros de nós.

Um trovão ressoou, no céu e em meu peito, iluminando a rua assim como os faróis que a levavam para longe.

Eu a deixei ir.

Notas finais
TT: @pittymeequaliza
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!