Give Me Love
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Meia noite.
Está na hora, foi o que ela pensou.
Levantou-se do colchão surrado esticando casualmente os braços, numa tentativa inútil de diminuir a tensão sobre os ombros.
Olhou preguiçosamente ao redor daquele pequeno casebre abandonado em busca do arco de tamanho mediano. O avistou em cima da única mesa que tinha ali.
Aproximou-se e passou os dedos pelo objeto de madeira. Não demorou muito tempo e o incômodo começou a se alastrar por suas costas, se limitou apenas a cravar as unhas na palma da mão, em uma vã tentativa de diminuir a dor.
Não durou nem mesmo um minuto, olhou de relance as próprias costas e suspirou ao encontrá-las lá, tão pálidas como a neve.
Nunca entendeu realmente por que as tinha se não serviam para o propósito mais óbvio, voar.
Desconfiava que era apenas para alimentar a imagem clichê de cupido. Ridículo, foi o que passou pela cabeça dela várias vezes.
Pelo menos eu não uso uma fralda, refletiu com sarcasmo.
Partiu em direção à porta calçando os coturnos pelo meio do caminho.
Recebeu com carinho o ar gélido que provinha da noite em Nova York.
Ao passo que se afastava da sua humilde casa, ia observando as pessoas que caminhavam próximas ou a metros de distância. Eles não a viam, seria estranho se pudessem.
Olhou para o céu tentando ver a imensidão estrelar acima, mas as luzes que provinham da cidade atrapalhavam totalmente uma das visões que ela amava.
Resmungou a própria insatisfação.
Dois metros à frente duas moças conversavam e sorriam alegremente uma para a outra, Sakura as observou, ergueu o arco pondo a flecha atrelada a ele, e atirou. Atingiu em especial a moça da direita, que parou abruptamente atraindo a atenção da outra, que não teve reação alguma ao ver vê-la se aproximar imprensando-a no muro mais próximo.
O beijo veio logo a seguir, e Sakura passou calmamente por elas, sem ser notada.
Ao virar a primeira esquina deparou-se com o gatinho dourado que sempre a visitava. Estava sendo vigiada é claro, só gostaria de entender por que era um gato a fazer isso. Mostrou-lhe a língua infantilmente, e jurou que o viu revirar os olhos amarelos.
Seguiu o caminho sabendo que estava sendo seguida pelo felino, mas não se importou. Já estava acostumada afinal.
Preparou novamente o arco, atirando a flecha em um rapaz, que pareceu se surpreender com uma garota que passou por ele, segurou por impulso no braço dela, e engajou uma conversa.
Sakura não parou para ver, a parte dela, ela fez.
Avistou uma pracinha deserta, correu animada e sentou-se. Meio minuto depois o bichano estava parado a sua frente miando.
— Agrh! Não posso nem ao menos descansar?
O viu balançar levemente a cabeça em negação. Olhou indignada. Ia soltar meio mundo de impropérios, mas abaixou a cabeça cabisbaixa.
— Achei que depois de tudo... minha missão estava cumprida.
Ergueu as esmeraldas brilhantes até o animal, e o viu apenas encará-la. Caminhou até ficar em frente a ele, o bichinho pareceu que iria recuar, mas Sakura foi mais rápida e acariciou atrás da orelha dele o ouvindo ronronar.
— Bobão.
Passou a seguir o caminho anterior novamente, perguntando internamente até quando ia ficar fazendo aquilo.
Já faziam cinco meses que aquela era sua rotina, sair por aí, atirando flechas em pessoas.
Se perguntassem como ela entrou naquela vida ela diria, “acordei numa sexta-feira ouvindo — na minha mente — uma voz me dizer que eu tinha uma missão a cumprir, e tcharan! Asas e um arco e flecha”.
Nada emocionante, mas era a verdade.
Estava cansada, parecia que a cada casal que ela formava, uma parte de si clamava por algo, ou mais especificadamente, alguém.
Isso era assustador.
Parou em frente a uma boate aparentemente lotada e entrou, não era preciso ingresso ou nome em lista, afinal, ninguém a via.
Pegou a flecha e cravou-a nas costas de um rapaz loiro que gargalhava, o mesmo olhou para o amigo e o puxou para um beijo.
Avistou três pessoas, dois rapazes e uma moça. Pegou duas flechas e atirou nos dois rapazes, que imediatamente partiram para cima da morena com quem conversavam.
Em meio àquela bagunça e barulheira, vislumbrou olhos negros a observando enquanto se remexia ao som da música. Aquele policial... sempre o encontrava, não importava onde estivesse, e ele sempre parecia enxerga-la, diferente de todas as pessoas.
O calafrio que sentiu no estômago passou a ser bem recebido, de tão acostumado com a sensação sempre que o via.
Saiu, e o ar gélido a fez tremer rapidamente. Correu e rodopiou, atirando a todas as direções, simplesmente sabia o destino que deveria dar a cada flecha.
Sentiu a presença atrás de si, e sabia que dessa vez não era o bichano.
O homem de cabelos escuros parou a metros consideráveis, e Sakura mais uma vez se perdeu na imensidão negra que eram os olhos dele.
Mas... por que ele era o único que parecia vê-la?
Resolveu que aquele não era o momento de perguntar ou testar, e correu, correu o máximo possível. Em seus lábios um mínimo sorriso, queria poder voar naquele momento.
Seus cabelos rosados e compridos esvoaçavam às suas costas, e ela avistou o pequeno casebre em que morava.
Entrou rapidamente, ofegante. Tinha uma sensação estranha no peito. O bichano estava deitado fogosamente no colchão.
— Hm, folgado.
Sorriu para ele que miou carinhosamente.
— Por que aquele moço sempre parece me ver?
Não houve resposta, mas ela não a esperava, estava apenas refletindo alto.
— E eu sinto algo tão estranho quando o vejo...
Cobriu o rosto com as mãos, estava corada.
— E ele é tão bonito...
Quis soltar gritinhos, mas algo em sua mente a impediu de prosseguir com aquela estranha euforia.
Algo em sua cabeça parecia gritar “é a sua vez”.
Sakura sentiu-se tonta, parecia inebriada pela própria consciência. Institivamente esticou os braços até a flecha mais próxima.
“É a sua vez querida”
Não faria aquilo se soubesse que doía, mas estava sentindo-se entorpecida. Sentiu quando passou a flecha pelo pescoço, afinal o que era aquela ânsia de liberdade que ela estava tendo?
Não sentiu a dor quando a cravou no pescoço, mas algo mudou.
O coração pareceu bater apenas naquele momento.
E ela apagou, tendo como última visão apenas os olhinhos amarelos do bichano.
Mais tarde jurou ter visto também olhos negros brilhantes e um rosto pálido próximo ao seu, mas talvez estivesse sonhando.
∞
Abriu os olhos vagarosamente, tentando entender de onde vinha toda aquela claridade que quase a cegava, certamente não era do casebre onde morava.
Respirou fundo e segundou depois tornou a abri-los, dessa vez analisando o local, pôde perceber que estava em um hospital, e com um soro ligado a sua veia.
Mas afinal por que estava ali?
Estava saindo da cama quando uma mulher vestida de branco entrou.
A mulher lhe dirigiu o olhar, e sorriu.
— Ah, então acordou.
Sakura franziu o cenho.
— Por que estou aqui?
Ela olhou em seus olhos novamente e disse com tranquilidade.
— Porque sua missão acabou, é a sua vez.
Assustada a rosada olhou a mulher, e percebeu o tom castanho claro, quase amarelo que tinha seus olhos. Cabelos dourados e aparentemente macios.
Arregalou os olhos.
— Bichan...a?
A mulher a olhou divertida e balançou a cabeça.
— É a sua vez Sakura, foi bom te acompanhar.
Olhou para ela confusa.
— Porque você fica repetindo que é minha vez? Minha vez de quê?
A loira não disse nada, apenas abriu a porta do quarto, e parecia literalmente que estava a expulsando do recinto.
Sakura queria entender, mas não questionou. Sentia que teria as respostas logo, logo.
Antes de sair ouviu a voz da mulher mais uma vez.
— Preste atenção na foto querida.
A rosada quis perguntar a que foto ela se referia, mas em um lampejo de memória lembrou-se da fotografia que carregava sempre no bolso do short, mas que percebeu ter esquecido durante os últimos meses.
Enquanto andava pelos corredores passou a analisar a foto. Era ela, com seus cabelos rosados bem mais clarinhos, e curtos. Estava abraçando um garotinho emburrado de cabelos e olhos negros, mas era visível no olhar dele que estava contente.
Lembrava vagamente de momentos da sua infância em que estava sempre acompanhando o rapazinho.
Lembrou de quando tropeçou na calçada quando voltava do colégio, e ele revirou os olhos mas voltou para ajudá-la.
Lembrou do quanto gostava dele, e do quanto amava quando chegava o final de semana e podia passar a tarde inteira com ele.
Durante aqueles meses ela sentiu algo faltando, assim como sentiu durante os últimos anos da sua vida, quis entender por vezes o que era aquele vazio, mas agora... ela podia ver quase claramente.
Passou a não só andar, como correr pelos corredores, de repente parecia que o lugar era um labirinto.
— Sas...
O nome estava na ponta da língua.
— Sas...
Estava gritando.
— Sasu...
Avistou a saída. E lá estava, sentado na escadaria de entrada.
Ele pareceu perceber a agitação atrás de si e levantou-se.
— Sasuke-kun!
Ele não previu o corpo que o colidiu, e desequilibrou-se.
Já no chão e atordoado, tentou levantar, e conseguiu a custo, porém o pequeno corpo que o abraçava não desgrudou de si em nenhum momento.
Afastou a garota um pouco de si, apenas para poder enxergar o rosto dela.
E arfou. O coração retumbou no peito, e ele passou a tocá-la apenas para ter certeza que estava mesmo ali, que tudo que via não era ilusão, que aquela que via constantemente nos últimos meses era ela mesmo.
— Sasuke-kun...
Sem perceber estava enxugando as lágrimas que desciam em cascata pelo rosto alvo dela.
— Sakura, eu... – perdeu a fala.
— Pensei que nunca mais te encontraria. – ela completou o que ele não pôde dizer.
A apertou com força em um abraço, sendo retribuído.
Tendo a certeza que não seria rejeitado, puxou o rosto dela em direção ao seu e a beijou.
Sakura custou a acreditar que aquilo era real, mas a prova estava ali. Nos lábios dela.
Percebeu que um implorava silenciosamente ao outro, “dê-me amor”.
Quando se afastaram ela sorriu, e encostou sua testa à dele.
Pelo canto do olho teve um vislumbre de pelos dourados e olhos amarelos.
— Bichana... Obrigada. – moveu os lábios em um agradecimento mudo.
A felina balançou o rabo e desapareceu, para nunca mais voltar.
Sakura olhou para Sasuke, e sussurrou apenas para ele ouvir.
— Dê-me amor.
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