Give Me Love
9 Quando foi que as coisas ficaram tão bizarras?
Notas iniciais
Pov's Samira.
Miguel está estranho. Muito, muito estranho.
Não consigo entender o motivo, embora algo nesse seu novo jeito me agrade.
Depois que Melinda foi embora parece que nossa amizade de alguma maneira se tornou mais forte. Não sei explicar, mas é como se a cada dia me sentisse ainda mais ligada à ele. Claro que seu comportamento contribui muito para isso.
Quando Miguel voltou da casa de praia na segunda, parecia um poço de carência. Sério! Nem quando voltou do Brasil, vi Miguel demonstrar tanta saudade. Fomos ao lago três vezes naquela semana e na sexta, ele me deixou escolher o filme. Miguel Johnson me deixou escolher o filme no dia dele de escolher! Nunca tinha visto isso antes. Dá pra acreditar que ele nem mesmo reclamou enquanto assistíamos a um romance cheio de drama? Aposto que Miguel prefere engolir agulhas de trinta centimetros a assistir drama. Ação e suspense são muito mais a cara dele. Mais uma coisa estranha, na parte em que o mocinho confessa está apaixonado pela mocinha e tudo mais, ele me deixou segurar sua mão sem protestar! Ele sempre revirava ou olhos ou suspirava quando eu fazia isso. No domingo fomos jogar boliche — ele é péssimo nisso, mas eu amo -, sabe quantas vezes vamos ao boliche no ano? No máximo duas vezes e só se eu ficar no pé dele durante meses. Dessa vez ele me deixou jogar em paz sem ficar me apressando e nem fez cara feia quando eu ganhei de dezesseis a três dele. Acho que ele está doente.
Ou talvez ele esteja mais bonzinho por conta do aniversário na semana que vem. Dizem que as pessoas tendem a ficar mais emotivas perto da data de seus aniversários, li isso em uma revista científica, ou será que foi em uma revista teen? Ah, sei lá! Não importa agora.
O que realmente importa é que não faço ideia do que dar a ele de presente. É difícil presentar alguém que já tem tudo.
– O que acha de uma camisa de futebol do Brasil? — Amber diz com os olhos arregalados como se tivesse tido a ideia do ano.
Amber e Megan estavam instaladas na minha cama. Em tese deveriam me ajudar a escolher um bom presente. Em tese.
– Miguel não joga futebol. — digo fazendo uma careta.
– É só pra ter. — ela diz como se fosse óbvio. — Você não disse que ele adorou o Brasil?
– As paisagens. Ele não falou nada sobre futebol.
– E se você desse um relógio pra ele? — Megan diz enquanto vasculha meu criado mudo em busca de um CD.
– Relógio? — pergunto em dúvida. — Eu queria dá uma coisa legal.
– Ei! — Megan protestou. — Eu gosto de relógios.
– Dá um jogo de xadrez então! — Amber fala me mostrando a língua. — Talvez seu namorado nerd goste.
– Você sabe que ele não é meu namorado. — digo automaticamente.
– Não foi o que pareceu nas últimas semanas. — Megan está com um sorrisinho estampado no rosto.
– Não estou entendendo. — falo. E não estou mesmo.
– Fala sério, Sami. — Amber diz gesticulando com as mãos. — Ele não tira os olhos de você nem por um segundo. E você também, é como se ele fosse seu sol.
Sinto meu rosto enrubescer. Não gosto do rumo que nossa conversa está indo. É pessoal demais.
– Não vejo as coisas dessa forma. — tento me defender.
Amber sorri. Seus olhos são tranquilos e doces quando ela diz.
– Samira, podemos te conhecer menos que Miguel, mas te conhecemos o bastante para saber que você está apaixonada.
– Só se for pelo Papa! — digo me levantando da poltrona.
– Miguel se converteu ao catolicismo? — Megan pergunta entre gargalhadas.
– Vocês estão ficando malucas! Beberam suco de caixinha demais. — Estou exasperada. O modo Supremo Tomate foi acionado.
– Em um belo dia, e esse dia não está tão distante, você se dará conta de que o que estamos falando não é nada senão um estudo quase científico da epistemologia do amor jovem. — Megan fala séria.
– Você tem noção de que eu não entendi nada do que você disse, né? — pergunto arqueando uma sobrancelha.
– Isso é o de menos. Fiquei um tempão tentando decorar essa frase. — Que cara de pau!
– É verdade, ela ficava me perguntando se estava boa e tals, mas eu nem sei o que é epistemologia. — Amber diz com ar inocente.
Também não sei o que é epistemologia. Vou dar uma pesquisada quando estiver a sós. Ou talvez eu pergunte a Miguel, ele com certeza deve ter a resposta. Será que ele está em casa agora? Eu bem que poderia ir lá. Podemos assistir a um filme enquanto comemos brigadeiro com pipoca. A ideia me parece bem melhor que continuar discutindo a epistemologia do amor jovem, ou seja lá o que isso for.
– Aposta quanto que ela está pensando nele nesse exato momento? — Ouço Megan sussurrar entre risadinhas.
– Nem precisa de aposta. É só olhar para esse sorrisinho. Ela está parecendo uma boba apaixonada.
Será que elas esqueceram que estou aqui e posso ouvir? Suspiro. Essa história já está começando a me cansar.
– Já chega! — digo de saco cheio. — Vocês não estão me ajudando em nada e eu tenho que fazer meu trabalho de trigonometria.
Amber e Megan compartilharam um olhar rápido.
– É impressão minha ou ela está nos enxotando? — Amber pergunta a Megan.
– Acho que a resposta está na cara dela de velha rabugenta. — Megan já começa a recolher suas coisas. Amber a imita sem deixar de resmungar por nenhum segundo.
Assim que elas saíram me concentrei em ouvir os sons que vinham do quarto de Miguel. Sabia que ele estava em casa e podia ouvir uma banda de blues tocando bem ao fundo. Sorri e comecei a escalar com cuidado o galho que ligava nossas varandas. Aterrissei com um baque surdo e abri com tudo as portas duplas do quarto.
Miguel estava deitado na cama concentrado em um livro qualquer. Ele pareceu quase ter um ataque cardíaco quando me viu.
– Como entrou aqui? Tenho certeza que não abri a porta para você.
Reviro os olhos e aponto para a árvore as minhas costas.
– Quantas vezes vou ter que dizer que não quero você se arriscando nesse galho? Nossas casas são ao lado.
– Deixe de se preocupar comigo o tempo todo, Miguel.
– Paro quando você deixar de se colocar em risco o tempo todo. — Ele parece irritado. — Prometa que vai usar a porta como qualquer ser humano normal a partir de hoje.
Fico calada.
– Prometa . — repete.
Como ele é autoritário.
– Vou tentar. — Não sou de ceder tão facilmente.
– Vou passar a trancar as portas da varanda, então. — ameaça.
– Você é um chato, Miguel. — Suspiro e me dirijo a sua cama. — Não há perigo algum.
– Quando você vai entender que estou apenas cuidando de você? — ele pergunta sério. Parece cansado.
– Vou tomar mais cuidado, tudo bem? — cedo.
Ele não parece satisfeito, mas deixa passar. Sento na cama ao seu lado. Miguel está usando seus óculos, normalmente ele usa as lentes, mas como um bom CDF prefere os óculos em casa.
– O que veio fazer aqui? — pergunta. Percebo que ainda está chateado.
– O que aconteceu com o "Boa tarde, Sami. É bom ver você"? — brinco.
– Boa tarde, Sami. É bom ver você. — diz. O sarcasmo é palpável.
– Vim ver o que estava fazendo. — respondo sua pergunta anterior.
Miguel levanta o livro. Leio o título rapidamente.
– Esse? — Por que será que isso não me surpreende? — Por que não tenta algo mais atual?
Ele coloca o livro de lado e bate ao seu lado na cama. Saio da beira e deito ao seu lado com as costas encostadas na cabeceira.
– Porque prefiro os clássicos. — Ele dá de ombros. — Preciso falar com você.
Falar comigo. Não gosto do tom sério que ele assume. O que será que eu fiz dessa vez?
– Sério? Aposto que é pra me pedir dicas de livros. — brinco.
– O que tem de errado com meus livros?
Finjo pensar.
– Eles foram escritos no século passado. Tenho certeza que podemos dar uma atualizada nisso aí. — Aponto para a enorme estante que cobre quase completamente a parede direita de seu quarto. — O que acha de Nicolas Sparks?
Agora é sua vez de pensar.
– Vou pensar no seu caso. — diz por fim.
Reviro os olhos.
– Acho que vovó Anna e você tem o mesmo gosto literário.
– Então sua avó tem bom gosto.
Ele suspira e coloca os óculos de lado.
– Posso conversar com você agora ou vai continuar tentando me distrair?
Fixo meus olhos em um ponto qualquer na varanda e balanço a cabeça.
– Antes que pense que vou brigar com você, quero que fique tranquila. Você parece tão tensa.
Não adianta. Não faço ideia do que ele quer falar comigo, mas sinto meu coração está apertado e os músculos rígidos como se estivesse prestes a ser atacada.
– É sério, você não fez nada. — Ele sorri. Soa forçado. — Pelo menos nada que eu saiba.
Ele ri de novo e fica óbvio que está nervoso.
– Tudo bem, então. — ele respira com cuidado. — Preciso saber como se sente em relação a mim.
Não entendo o que ele quer dizer com isso.
– Como assim? — pergunto.
– Essas últimas semanas tudo o que tenho tentado fazer é desvendar você, mas descobri que sou um pesquisador de merda. Odeio ter que ir direto a fonte, mas preciso mesmo de uma resposta.
Olho para Miguel. Se ele pretendia me dar uma explicação, seu objetivo fracassou por completo. Estou ainda mais confusa.
– Por que está tentando me desvendar?
– Se você me disser o que significo para você, Sami, prometo que vou responder todas as perguntas que você tiver para mim.
Seu olhar é intenso demais. Desvio os olhos.
– Não entendo o que você...
– Apenas responda. — ele me corta.
Sei que ele não me dirá nada antes que eu responda essa droga de pergunta. Por que diabos ele resolveu me perguntar isso? O que ele significa?!
Continuo com os olhos presos na varanda. Os minutos se passam e sei que ele está ficando cada vez mais agitado ao meu lado. Tenho que responder. Mas o que dizer?
– Você é meu amigo. — digo o óbvio porque é mais fácil.
– Sim, mas e o resto? — ele cobra.
Quero muito ir para casa agora.
– O resto? — Preciso de tempo.
– Sami olha para mim. — sua voz é suave ao meu lado.
Não consigo. Continuo imóvel. Ouço ele suspirar mais uma vez e então sair de seu lugar. Encolho as pernas no momento exato em que ele se coloca a minha frente. Olho para baixo constrangida, mas de imediato ele pega meu queixo e me obriga a olhar em seus olhos.
– Você sabe que pode confiar em mim. — ele diz afagando minha bochecha. Não tenho como escapar.
– Eu sei que posso.- Ainda me sinto desconfortável demais. — Só não consigo... Você sabe como eu...
– Shiii. — ele coloca os dedos em meus lábios. — Confia me mim.
Tomo fôlego e começo novamente.
– Nos conhecemos desde bebês, Miguel. Não faço ideia do porquê dessa pergunta, mas sua importância na minha vida não tem tamanho. Você é meu amigo, meu companheiro, é a primeira pessoa a quem recorro quando tenho problemas e a única que vejo que consegue entender meus surtos sem pirar. Não consigo ver uma vida sem que você faça parte. Não uma vida boa pelo menos.
Sinto minhas bochechas pegando fogo. Nunca me expus dessa forma. Nada do que falei era mentira e não me arrependo delas se eram necessárias de alguma forma para ele. Mas não consigo parar de me sentir nua.
– Sou apenas um amigo para você? — Ele parece concentrado.
O que mais ele quer?
– Como assim, apenas?
– Responda. — Não parece mais um pedido.
– O que você quer que eu diga, Miguel? — Não dá mais pra continuar dessa jeito.
– O que custa responder logo? — ele pergunta passando os dedos pelos cabelos. — Você apenas me ver como um amigo?
– Como vou saber o que responder se você nem mesmo me explica o motivo da pergunta?
Miguel puxa uma grande lufada de ar e entrelaça seus dedos nos meus.
– Não quero que nossa amizade se acabe, mas sinto que não basta mais.
O QUÊ?
Sinto meus olhos arderem. O que eu fiz de errado?
– Quero que saiba que pensei muito antes. Pensei em todas as hipóteses e em todas as suas respostas. Sei que há uma grande chance das coisas serem diferentes pra você. Talvez você nem queira mais falar comigo e se isso acontecer, não faço ideia de como vou seguir em frente, mas não posso viver mais com a dúvida. Não posso passar o resto da minha vida pensando em um e se.
– Miguel, o que...
– Por favor deixe-me terminar. — ele pede. Balanço a cabeça concordando novamente. — Sou um tolo de não ter percebido isso antes, acho que todo mundo sempre soube que ia acontecer. Eu gosto de você, Sami. Mais do que pensei ser possível.
Estou estática. Paro de respirar. Não pode ser o que eu estou pensando. Não, não, não.
– Eu-eu também gosto de você. Somos amigos. — digo. O que estou pensando tem que está errado.
– Não, Sami. — Ele acaricia meu rosto. — Sou seu amigo, mas espero ser muito mais que isso.
Não. Alguém me diz que estou sonhando. Ele não pode me dizer uma coisas dessas. Ele está mesmo me dizendo o que eu acho que acabo de ouvi-lo dizer?
Continuo parada. Voltar a respirar parece uma coisa impossível. A gravidade distante.
Balanço a cabeça.
– Você está me dizendo que... — Não consigo terminar.
– Que não quero mais ser só seu amigo. — ele repete. Nunca o vi mais sério. Como ele pode me propor uma coisa dessas sem nem mesmo tremer.
Não sei o que responder. Como agir. Não há um manual para esse tipo de coisa. Não consigo olhar em seus olhos.
– Você não vai me dizer nada? — ele diz trazendo me rosto pra cima novamente.
– Não sei o que dizer. — confesso. — Acho que nunca pensei nessa possibilidade.
Miguel me olha atentamente por alguns segundos. Parece se esforçar para resolver um conflito interno.
– Talvez isso ajude a nós dois então.
É o que basta. Não tenho tempo de reagir. Não consigo evitar. Em uma fração de segundos Miguel cola seus lábios nos meus. Uma de suas mãos está em minha nuca enquanto outra escorrega pelo meu rosto contornando seu desenho. Um calor preenche meu peito e percorre o restante do corpo. Meus ouvidos latejam e meu sangue parece pulsar com mais intensidade. Sua boca é quente e macia. Sua língua desliza em meu lábio inferior e involuntariamente abro mais a boca. Seus lábios se movem com rapidez nos meus e arrepios descem sem parar por meu corpo. Sinto sua língua pedir passagem e concedo com um suspiro. Nossas bocas se encontram em uma dança rítmica e frenética. E então, é assim que é ser beijada?
Sei que isso já foi longe demais. Se eu quiser que nossa amizade ainda tenha uma chance preciso parar. Não posso beijar meu melhor amigo. Me afasto e levanto da cama antes que a vontade de permanecer naquilo me corrompa ainda mais.
– Preciso ir para casa. — digo já me dirigindo a porta. Uma mão me impede de chegar até ela.
– Você ainda não me disse nada. — Miguel diz. Sua mão ainda permanece em meu braço.
– Acho melhor conversarmos depois. — Preciso de tempo para digerir tudo isso.
– Só me prometa que vai pensar em tudo o que eu disse. — sua voz soa triste. Acho que não tive a reação que ele queria.
– Prometo. — digo baixinho e ele me solta.
Abro a porta e saio como se minha vida dependesse disso.
Chego em casa arfando. O que diabos acabou de acontecer? Céus, eu acabo de beijar meu melhor amigo!
Sou uma idiota por não ter percebido isso antes. Preciso de uma opinião de fora, alguém que possa me ajudar a entender essa maluquice. Ligo para Amber e mando uma mensagem para Megan. Elas chegam dentro de vinte minutos. Megan respirando forçadamente com o capacete da moto em baixo do braço.
– Você está viva? — Amber tem os olhos arregalados. — Pela sua voz pensei que estivesse sufocando!
– Fechem a porta. — digo e elas obedecem.
– Você está nos assustando. — Megan avisa. — Primeiro você nos expulsa e depois liga pedindo socorro. Você está recebendo espírito por acaso?
Reviro os olhos, não estou com cabeça para piadas.
– Miguel me beijou. — digo de imediato.
Vejo ambas abrirem a boca ao mesmo tempo.
– Pode repetir? — Tenho a impressão de que os olhos de Amber vão sacar das órbitas.
– Miguel. Me. Beijou.
Elas continuam sem respirar.
– Que droga! Chamei vocês aqui porque preciso de ajuda. Não é hora de virar ameba.
– Você não pode soltar uma bomba dessas e ainda esperar que a gente cate os miolos imediatamente. — Megan toma fôlego. — E aquele papo de eu-não-gosto-dele-somos-apenas-amigos?
– Ainda somos apenas amigos.
– Ainda? — Amber sorri maliciosa.
– Por favor, Amber não me deixe mais confusa. — peço ainda transtornada.
Por que não conta a história do começo? — Megan sugere.
– Eu fui no quarto dele assim que vocês saíram...
– Então foi pra isso que nos expulsou? — Amber faz cara de ofendida.
– Não. Fui apenas conversar com ele, saber o que era epistemologia e aí ele...
– E ele te disse o que é epistemofobia? — Amber de novo.
– É epistemologia. E não, não deu tempo porque depois que ele parou de me encher o saco por ter subido na droga da árvore, ele começou...
– Você subiu em uma árvore? Que árvore? — Será que ela está achando isso engraçado?
Suspiro.
– Aquela árvore! — E aponto para a bendita. — Agora dá para parar de me interromper?
– Desculpe. — Faz cara do gato de botas.
Retomo.
– Pois é. Miguel disse que tinha que conversar comigo, me fazer uma pergunta na verdade.
– Que pergunta? — Dessa vez é Megan que lança seu olhar mortífero. Uma coisa da qual ela é ótima. Amber se encolhe.
– Ele queria saber o que significa pra mim.
– Sondando o terreno. Ele disse assim na lata? — Megan é toda detetive. Amber continua quietinha com cara do gato de botas.
Confirmo com a cabeça.
– Eu não entendi o porquê da pergunta no início, mas ele estava irredutível.
– O que você disse a ele? — Megan está séria. Isso parece o ponto chave para ela.
Não quero repetir o que disse a Miguel. Parece algo pessoal demais. Algo meu e dele.
– Disse que gostava dele e que ele era muito importante para mim. — me esquivo.
– Só isso? — ela arqueia uma sobrancelha. Megan é terrível. Trocentas vezes mais inteligente que eu.
– O.k. Eu disse a ele que não conseguia ver minha vida sem ele. — Sinto o Modo Tomate tomar conta.
– Own! — Amber ganha vida abraçando Chuck. Tenho que achar um novo esconderijo para ele. Em baixo da cama já está manjado. — Isso é tão romântico.
– Depois disso foi o beijo?
– Não. Primeiro ele disse que gostava de mim, gostava mais que como amigo. — explico. — E depois me beijou.
As duas sorriram minimamente.
– Ele se declarou e depois se beijaram. — Amber suspirou. Meu ursinho parecia ter graves problemas para respirar. — Isso é tão lindo!
– O que fizeram depois do beijo?
O que ela está pensando?
– Nada. Eu fugi.
– Fugiu? — Amber parece ultrajada.
Assinto.
– Qual foi a reação dele quando você mencionou ir embora?
– Acho que ele ficou chateado. Pediu para que eu pensasse.
– E o que você pensou?
– Um monte de coisas, mas nada de proveitoso até agora. Preciso de um luz.
Megan levantou-se da cama e começou a caminhar pelo quarto.
– Ele beija bem? — Por que diabos Megan quer saber disso?
Não respondo. Só de imaginar em seus lábios nos meus, os arrepios retornam.
– Claro que sim. — Ela mesma responde. — Você está mais vermelha que o cabelo dela. — E aponta para Amber.
– Nossa menininha está crescendo, Megan!
– Já chega dessa bobagem toda. Não tenho ideia do que fazer. — Acho que estou mais perdida do que Miguel na patinação no gelo. E aí está ele novamente invadindo meus pensamentos. Idiota, garoto estúpido!
– Você gosta dele? — Megan pergunta como se aí estivesse o xis da questão.
Paro para pensar. Gosto ou não gosto?
– Não sei. Quer dizer, gosto, mas não sei se é o tipo de gostar certo, entende?
– Como assim? Você sente atração por ele, né? — Megan pressiona.
Sinto? Que pergunta mais anta, garota! É claro que sente. É só lembrar da forma como você vive secando o garoto ultimamente.
Balanço a cabeça em confirmação.
– Se sente atração é porque não o ver apenas como amigo. — Amber palpita.
– E se for só isso? Digo, só atração. — Passo os dedos pelos cabelos. — E se eu resolver ficar com ele e depois descobrir que devíamos ser só amigos?
Megan para para pensar. Com os jeans rasgados, all stars surrados e regata preta não parece a mais sensata do grupo, não mesmo.
– Você só vai descobrir a resposta se tentar. De qualquer forma acho que as coisas entre vocês não vão mais ser as mesmas.
É claro que não, não faço ideia de como vou conseguir encará-lo de novo. Merda de vida complicada.
– Não quero estragar as coisas. Eu nunca tinha beijado ninguém e de repente meu melhor amigo praticamente me diz que está apaixonado por mim, me rouba um beijo, tudo em menos de uma hora! É coisa demais para assimilar.
– Acho que você deve parar de ser complicada e curtir. — Amber solta Chuck e também se levanta. — Miguel é lindo, inteligente, atencioso, fofo e muito lindo mesmo.
Megan sorri.
– Odeio quando esta coisa está certa, mas tenho que admitir quando acontece. Você e Miguel parecem ter saído de uma dessa estórias de amor cheias de complicações bobas que adolescentes melosas adoram ler de tão fofos juntos.
– Coisa? — Amber arqueia uma sobrancelha.
– Que outra definição eu teria para você, amiga? Alienígena?
Amber bufa e pega o capacete no chão.
– Só não vou socar essa sua cara de Barbie porque preciso de um carona.
Megan pega o outro capacete e me dá um beijinho na bochecha.
– Só se joga! — Megan aconselha com uma piscadela.
– É, dá uns pegas naquele gato! — Amber dá um gritinho e deixa o quarto.
Acabo dormindo cedo. O dia acabou foi desgastante demais para o meu gosto. Sonho com relógios verde e amarelo, ursinhos de pelúcia na UTI e beijos com gostinho de quero mais. Affs!
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