Give Me Love
13 Preparativos
Notas iniciais
Pov's Samira
Sinto o dia em ritmo acelerado. Até meus batimentos parecem mais rápidos que o habitual. Preciso contar minha ideia para festa a Miguel.
Decido tomar café fora e quase em questão de segundos me vejo pronta ao pé da escada. Miguel provavelmente ficaria grato se eu me comportasse assim durante a semana. Nem eu mesma acredito no que estou fazendo. Hoje é domingo.
— Aonde você vai mocinha? — minha mãe pergunta ainda batendo a massa para as panquecas.
— A casa do Miguel — respondo.
Ela olha para o relógio na parede da cozinha. Fui uma tonta de pensar que ela não me notaria saindo.
—Não está muito cedo?
— Não acho.
— Por que não espera o café da manhã?
— Mãe?! Estou indo a casa do Miguel. É do lado!
Mamãe olha para mim atentamente, e então suspira.
— Você vai passar o dia todo lá?
— Hãn?
— Você tem passado tanto tempo com ele.
— Eu sempre passei muito tempo com ele.
— É diferente agora.
— Diferente como?
— Não sei dizer. — Ela coloca a tigela com a massa em cima da mesa — Vocês parecem querer ficar ainda mais tempo juntos.
Finjo indiferença, embora saiba que ela está coberta de razão. Mesmo agora não consigo parar de imaginar o momento em que ela vai me despachar dessa conversa e me deixar correr para ele.
— Sam, você está apaixonada?
A pergunta me pega completamente de surpresa. Sinto meus olhos praticamente sacarem das órbitas.
— Você sabe que pode me contar qualquer coisa, né? — ela continua — Somos amigas.
— Eu sei.
Ela me olha ansiosa.
— E então?
— E então o quê?
— Você está ou não gostando do Miguel?
Continuo com a estrategia da desentendida.
— De onde você tirou essa ideia?
Susanna revira os olhos.
— O jeito como vocês se olham, a forma como você parece mais agitada quando ele está perto e os sorrisos e suspiros que você anda dando pela casa sem nenhum motivo aparente, o que me faz pensar que ou você está apaixonada ou está possuída por um espirito zombeteiro.
Por que você precisa ser sempre tão observadora?
Suspiro derrotada.
— Não sei, mãe. De verdade.
— Como asssim? — quer saber.
Apenas balanço a cabeça.
— É complicado.
Ela morde a bochecha, pensativa.
— Você ou ele?
— Eu – confesso.
Ela assente.
— Por quê?
Porque sim ora bolas!
Reviro os olhos.
— Porque sou complicada.
Mamãe balança a cabeça mais uma vez.
— Posso ir? — pergunto sem paciência.
Ela volta a mecher a massa das panquecas.
— Pode. Mas quero que me prometa que vai me contar quando resolver isso, o.k?
—Prometo – digo e mando um beijo estalado em sua direção.
Adoro ser vizinha de Miguel. Quer dizer, exite coisa mais prática do que morar do lado da casa do seu quase namorado?
Namorado. A palavra parece criar raízes cheias de espinhos na boca de meu estômago.
Como seria se eu permitisse que ele fosse meu namorado?
Ter Miguel ao meu lado sempre foi ótimo, ele é o tipo de amigo que qualquer pessoa desejaria ter. Prestativo, sábio, divertido e preocupado. Mas como ele seria como namorado? E o pior como eu seria se ele fosse meu namorado?
Sem sombras de dúvidas as coisas já estão maravilhosas do jeito que estão. Só de lembrar de todos os momentos que compartilhamos, sinto meu coração se acelerar e minha respiração se tornar descompassada.
Puxo o ar com força para dentro dos pulmões e obrigo meu cérebro a focar em outra coisa. Estou aqui para falar de minha ideia para a festa.
Toco a campanhia e logo sou atendida pela empregada. Tia Célia está sentada no sofá folheando uma revista. Ela abre um sorriso enorme e cheio de significados quando me ver.
— Bom dia, Sam! — ela diz depositando a revista na mesa de centro. Veio me acompanhar durante o café da manhã ou ver Miguel?
Seus olhos possuem um brilho divertido e me pergunto imediatamente do que ela sabe.
— Na verdade os dois – respondo, — se não houver problema, é claro.
— Fico feliz, mas vamos ter que esperar o dorminhoco do seu amigo. — Por algum estranho motivo ruborizo. Talvez porque agora esteja na cara que ela sabe pelo tom de sua voz na última palavra.
Tento me focar em outra questão.
— Ele ainda está dormindo?
Tia Célia assente.
Ele chegou bem tarde ontém.
Aquilo era novidade.
— Ele saiu?
Ela apenas concorda com a cabeça.
— Posso subir?
— Você vai acordá-lo?
— Preciso falar algo com ele.
— Tudo bem. A casa é sua.
— Obrigada. — E me ponho a subir as escadas.
Tia Célia sabe, ou então no mínimo suspeita, o que quer dizer que minha mãe ou Miguel andaram falando demais. Xingo baixinho.
Entro no quarto. Minha intenção de íncio é gritar com ele por ser tão fofoqueiro, mas é claro que meu coração idiota se derrete em caramelo e chocolate quando o vejo dormindo.
Miguel ainda está vestindo jeans, jaqueta de couro e seus pés ainda estão calçados, sinal de que ele realmente saiu. A noite deve ter sido boa para ter o deixado tão exausto a ponto dele ter capotado na volta.
Fecho a porta devagar e me aproximo sem fazer barulho.
Miguel parece tão indefeso. Um anjo.
Meus dedos escorregam por seus cabelos, bochechas e pescoço. É tão injusto o fato dele mexer dessa foma comigo. Mal percebo quando meus lábios encostam em sua orelha e descem por sua nuca. O cheiro amadeirado e cítrico de sua pele enche meus pulmões e inspiro com força. Não lembro quando foi que deitei na cama junto com ele.
— Estou sendo abusado? — Miguel pergunta sonolento. Meus lábios ainda traçam o caminho de sua nuca já arrepiada.
— Quer que eu pare? — sussurro em seu ouvido.
Ele se vira rápido e em instantes seu corpo pressiona o meu. Eu preferiria que ele estivesse com menos roupas.
Penso que ele vá me beijar e mal consigo conter a decepção quando ele se levanta ainda mais repentinamente e se afasta.
— O que está fazendo? — pergunto confusa.
Ele dá de ombros.
— Preciso de um banho.
Miguel desapareceu dentro do banheiro e eu fiquei tentando controlar minha impaciência. Será que se pode desenvolver hiperatividade?
Levanto da cama e começo a caminhar pelo quarto mexendo em coisas aleatórias. Termino em sua estante de livros. Eram poucos os autores que eu conhecia ali. O que me fez pensar em seu presente de aniversário. Eu ainda não sabia o que lhe dá e estava aberta a susgestões. Agora examinando seus livros penso em lhe dá algo diferente. Talvez um livro do meu autor favorito, Jhon Green.
— Nem ouse tirar nada do lugar!
Me viro sobressaltada. Eu mal tinha estendido a mão para a estante.
— Eu não ia bagunçar – me defendo.
Ele levanta uma sobrancelha.
— Arrumar é que você não ia.
Reviro os olhos e me afasto daquela velharia do século XVIII.
Miguel sorri satisfeito enquanto enxuga os cabelos. Tem apenas uma toalha branca enrolada na cintura, o que me permite admirar seu abdome musculoso e o formato perfeito de seus biceps. É extremamente injusto que seu corpo seja tão bonito quanto seu rosto.
— Por que veio tão cedo? — Miguel me desperta de meu transe. — Só para me atacar?
Bufo e me sento na cama de novo.
— Você está começando a se achar demais pro meu gosto – resmungo.
Ele me lança um sorriso torto e entra dentro de seu closed. Sai após cinco minutos vestindo uma bermuda cáqui e um sueter cinza.
— Você não me respondeu.
Suspiro.
— Tive uma ideia para a festa.
— Você me acordou às 6h30m no domingo por causa da festa?!
— Não sei porquê a surpresa – dou de ombros.
— Você é mesmo um rato de festa. — Ele soa indignado.
Bufo.
— Olha só quem fala!
— Do que está falando? — ele pergunta ao se sentar ao meu lado.
— Da farra de ontém – digo sorrindo. Não é natural para mim pensar em Miguel saindo pra night. — Soube que você pirou muito.
Miguel se vira para mim bruscamente. Seu rosto está pálido e suas sobrancelhas franzidas.
—Como você soube? — Ele está sobressaltado? Estranho!
— Sua mãe me disse que você chegou tarde – sou sincera.
— Só isso? — Seus olhos estão sérios como quando ele está me sondando. Por quê?
— Só isso.
Fica óbvio pela sua expressão que ele está aliviado. Mais estranho ainda!
— Você foi aonde, Miguel? — pergunto, finalmente.
— A um show com Jake.
— Show de quem?
— Da Stones.
— Você foi a um show de uma banda de pop rock? — pergunto sem conseguir acreditar.
— Você sabe quem é a Stones?
— Claro. É a nova banda preferida de Megan depois do Coldplay, Link Park e do Bon Jovi.
—Não me pareceu grande coisa.
— Ah, ela dá pro gasto!
Miguel sorri.
— O vocalista tem uma tatuagem do Bob Esponja na testa!
— O que você tem que admitir que é bem original.
— E os doze pincings?
— Você contou!? — É claro que ele contou!
— Eu não tinha nada para fazer!
Reviro os olhos e então algo me ocorre.
— Espera aí! — Levanto as mãos com as palmas viradas em sua direção. — Megan se lamentou a noite toda porque o show era só para maiores de idade. Como você conseguiu entrar?
Miguel olha para os lados sem aparente rumo.
— Você notou que ainda não temos cerejas? Elas estão demorando para aparecer não acha? — pergunta com os olhos focados na cerejeira entre nossas casas.
— Miguel? — insisto.
Ele suspira e abaixa a cabeça.
— Lembra do Tedd, primo do Jake?
— O que curte oferecer cocaína para crianças de treze anos?
— Ele tava chapadão!
— Você entrou num bar com uma identidade falsa! — Me exaspero.
— Shiiii! — Ele olha para os lados assustado. — Quer que a vizinhança toda saiba?
Bufo e me levanto da cama.
— Jake não é uma boa influência para você.
— Foi só um show! — ele diz fazendo pouco caso.
Entrecerro os olhos.
— Quem é você e o que fez com meu namo... amigo?
Miguel sorri de canto.
— Você iria dizer a palavra namorado, srta. Parker?
Engulo em seco. Modo Tomate acionado.
— N-Não.
Miguel abre um sorriso ainda maior.
— Sim, você ia. — Seu sorriso é tão grande que chego a ter medo que ele parta sua cara.
Ele se levanta da cama e se aproxima de mim. Resisto ao impulso de dá um passo para trás. É como se eu me sentisse encurralada embora eu saiba que ele jamais me faria algum mal, então é totalmente absurdo eu está com medo. Só que não consigo simplesmente não me sentir apavorada.
— Por que não para com essa bobagem toda de esperar? Não é óbvio que estou completamente apaixonado por você? — ele diz ao segurar minha mão.
Sinto minhas bochechas ruborizarem ainda mais.
— E-eu só preciso de mais... tempo. — gaguejo me sentindo ainda mais estúpida.
— Por que? Você não tem certeza do que sente? — O misto de tristeza e mágoa é claro em sua voz. Ele acha de fato que posso não me sentir da mesma forma.
Levanto o rosto e encaro seus olhos. É claro que a dor está lá também. Transparente como água para quem quiser ver. É por isso que preciso de mais tempo. Preciso ter certeza que realmente sou capaz de lidar com isso sem estragar tudo.
Respiro fundo e o beijo. Faço isso porque é a única forma de apagar toda a dúvida que paira sobre a minha cabeça, porque embora eu seja uma tola medrosa ele gosta de mim mesmo assim e isso é uma dádiva, e principalmente porque só me sinto realmente feliz quando o tenho em minha vida. Ele não demora a retibuir com a mesma intensidade e em questão de segundo o beijo toma proporções apocalipticas. Não quero que reste qualquer dúvida do que sinto por ele.
Só nos separamos quando não temos mais a menor possibilidade de ficar sequer um segundo a mais sem ar.
— Isso foi incrivel! — Miguel arfou ao encostar sua testa na minha.
Sorrio.
— Vamos descer?
Miguel afasta sua testa da minha e me olha como se eu tivesse dito uma grande asneira.
— Descer? Vamos ficar mais um pouquinho. — E me puxa pela cintura, colando nossos corpos novamente.
— Temos que descer. Estou com fome. — A esse momento ele já estava atacando meu pescoço com beijos deliciosamente tentadores.
— Posso pedir para trazerem algo aqui mesmo.
— Nem, pensar! Sua mãe está muito estranha hoje.
Isso chamou sua atençao, ele se afasta de meu pescoço e me olha com as sobrancelhas franzidas.
— O que ela disse a você?
— Nada demais. Ela só está animadinha demais.
E pela segunda vez no dia ele parece aliviado.
—Ela sabe não é?
Ele não precisa me perguntar sobre o que estou falando.
— Sabe. Ela olhou você me beijando ontém antes de sair.
— Droga!
Miguel entrelaça seus dedos nos meus e beija minha bochecha.
— Não é nada demais – me conforta.
Apenas assinto e o beijo novamente . Dessa vez nos separamos mais rapidamente. Uma sensação quente e aconchegante enche meu peito e se espalha pelo resto do corpo.
Descemos as escadas ainda de mãos dadas e quando tento desvencihar meus dedos dos seus, sinto seu aperto se tornar mais forte. Inspiro com força e o sigo até a sala de jantar.
Tia Célia está sentada na ponta da mesa mordiscando uma maçã. Seu sorriso se torna evidente assim que nos vê. Está linda em um conjunto com estampa de flores e os cabelos ruivos repousando sob os ombros.
— Já estava prestes a pedir para alguém chamá-los — anuncia deixando a maçã no prato. — Espero que não se importem por eu já ter começado.
Miguel dá de ombros e se senta. Eu o acompanho sem deixar de notar o brilho no olhar da mãe dele ao perceber nossas mãos ainda entrelaçadas. Tento impedir o Modo Tomate de entrar em vigor.
A mesa está cheia de delicias e tento me focar nisso. Comer. Meus movimentos são aleatórios até o momento em que coloco o primeiro pedaço da torta de framboesa na boca. Tia Célia tem a melhor cozinheira da cidade. Não posso conter os suspiros.
Tia Célia sorri e me acompanha na torta. Logo somos nós duas a suspirar.
— Espero que ainda tenha espaço para o pudim de leite que pedi para fazerem pra você — ela diz quando pego mais um padaço.
— Pudim de leite com coco queimado em cima? — pergunto com a boca cheia.
Ela assente e como se para comprovar, Emília entra na sala com uma bandeja de aço que abriga o pudim mais delicioso e cremoso do universo. Termino meu pedaço de torta e me passo para o pudim.
— Um dia eu ainda descubro para onde vai toda essa comida — Miguel diz me olhando com uma expressão esquisita de frustração.
Ignoro ele e continuo comendo.
— Vai ter muito disso na festa — digo atacando minha segunda fatia de pudim.
— É uma ideia muito boa — tia Célia concorda.
— Bem, por falar na festa, — começo deixando o garfo de lado. — é por isso que estou aqui tão cedo.
— Hãn? — Miguel me olha com uma expressão que parece um misto de surpresa e tristeza. — Pensei que fosse porque estava com saudades de mim.
Engulo em seco. Ele não está dizendo isso na frente da mãe dele. Tudo menos isso, Deus.
— Eu... bom, também queria ver você – digo sussurrando sem conseguir levantar os olhos.
Miguel volta a segurar minha mão, fazendo circulos na pele com o polegar.
— Você fica ainda mais bonita com essa cara vermelha de beterraba. — ele sussurra próximo ao meu ouvido para que somente eu possa ouvir.
Levanto o rosto e ignoro minha pulsação frenética.
— Eu e as meninas meio que tivemos uma ideia ontem para a festa — digo tentando recuperar minha animação de mais cedo.
Miguel inspira profundamente.
— Aposto que não vou gostar.
— Aposto que eu vou. No que está pensando, Sami?
Faço um pouco de suspense antes de responder.
— Em uma festa à fantasia.
Miguel como prometeu não pareceu nem um pouco mais animado com a ideia, o que tia Célia compensou com seu entusiasmo. Mas quem é que se importa com a opinião do aniversáriante? Eu certamente que não.
Meu trabalho simplesmente triplicou na última semana. Claro que eu tinha minha mãe, tia Célia e as meninas para ajudar, mas mesmo assim, ainda era meio desgastante. Tínhamos convidado o colégio praticamente todo e esse provavelmente seria o evento do ano. A expectativa era imensa e eu simplesmente não podia decepcioná-los.
— Sami? Samira?
— Hãn? Sim, eu concordo.
— Com o que você concorda?
— Com o que você disse.
— Sami?
— Oi?
— Dá pra olhar para mim?
Suspiro e tiro os olhos do celular. Miguel me olha sério. O que fiz dessa vez?
— Qual é o problema? — ele pergunta.
— Estou tentando enviar um email para aquele restaurante que você gosta do cais que contratei para fazer o buffet da festa. Estou com um mega problema com os rolinhos de bacalhau.
— Rolinhos de bacalhau?
— É, eu sei. Mas relaxe vou resolver o mais rápido possivel. Não teremos nenhum imprevisto nessa festa, pelo menos nada que eu não possa resolver. — E volto a pegar o celular.
Ouço-o suspirar e em seguida retirar com delicadeza o celular dos meus dedos.
— Ei! — reclamo tentando pegar o celular novamente.
— Sami, olha para onde estamos.
Eu continuo a tentar recuperar meu telefone.
— Por favor, Miguel. Isso é muito importante.
— Sami, olha aonde estamos — ele repete.
— Sei onde estamos.
— Não parece. — Ele guarda o aparelho no bolso e segura minhas mãos — Parece até que você esqueceu porque estamos aqui.
Estamos no lago para relaxar. Para que ele relaxe pra falar a verdade. Eu estou aqui porque não sei dizer não a cara de cachorrinho que caiu da mudança dele. Eu deveria está finalizando os ultimos detalhes para a festa.
Respiro fundo e tento pensar em qualquer coisa que não seja o email que preciso enviar confirmando pela terceira vez – tenho que garantir né? — a presença do DJ que escolhi.
— Desculpe – digo e tento um sorriso carinhoso. — Não estou sendo uma boa quase namorada nessa semana né?
— Não. Não está. Espera você disse quase namorada?
— Por que você não vai dá um mergulho enquanto eu envio esse email rapidinho? — sugiro. — Prometo que acompanho você depois que terminar e então deixarei para acertar os ultimos detalhes quando chegarmos em casa.
Miguel fixou os olhos em mim por alguns segundos e então deu um longo suspiro. Retirou o celular do bolso e me entregou e então rapidamente se despiu da camisa, já saltando em seguida na água.
Suspiro de alívio e começo a digitar o mais rápido que consigo todas as mensagens que preciso desesperadamente enviar. Começo pelas mais simples como o DJ e as luminárias em neon, depois passando para as mais dificies como os rolinhos de bacalhau. Só de pensar nessa confusão minha cabeça começa a girar. Dá para acreditar que eles só tem estoque de bacalhau o suficiente para 3.000 rolinhos envés de 3.200?
Termino de escrever o email e envio-o, quer dizer, tento enviá-lo porque a merda do meu sinal caiu no momento mais crucial da minha tarde. O que significa que eu devo ter feito algo muito errado a Dionisio na Grécia Antiga.
Praguejo algumas vezes e começo a andar em círculos em busca de algum sinal mas o maldito parece está curtindo uma com a minha cara.
Subo na maior pedra que encontro, mas é inútil. Talvez se eu dê uma volta pelos arredores na entrada do lago consiga encontrar área para o celular. Me arrasto pelo pequeno túnel de pedra e saio caminhando de um lado a outro em frente ao lago. Suspiro. Nada de sinal. Ando mais alguns metros. Nada. Continuo andando, adentrando um pouco mais na floresta. Começo a escalar uma árvore qualquer. Não funciona. Desço e procuro uma mais alta.
Se salgueiros fossem um pouco mais fáceis de escalar eu já teria resolvido o problema. Por fim escolho uma árvore que eu não fazia ideia da existência a alguns segundos atrás, mas que parece ter galhos fortes o suficiente para suportar meu peso.
Escalo com facilidade e rápidez e veja só, parece que finalmente Dionisio resolveu colaborar. Envio meu email e quando estou prestes a descer ouço meu nome repercurtir por toda a floresta. Começo a descer mais rapidamente.
Quando meus pés tocam o chão ouço meu nome ainda mais alto. Presto mais atenção.
— SAMIRA!
É a voz de Miguel.
— AQUI! — grito também.
Tento encontrar a origem do som. Por que sua voz parece tão alarmada?
— MEU DEUS! VOCÊ ESTÁ BEM? — Miguel surge do meio das árvores. Sua expressão é de alguém apavorado.
— O quê? — Fico confusa.
Ele se aproxima de mim, cautelosamente. Depois me abraça, apertado e urgente.
— Você está bem? Se machucou?
— Como assim? Eu estou bem. O que é tudo isso? Por que está tão assustado?
Miguel me solta, sua expressão ainda não voltou ao normal.
— Por que você saiu do lago sozinha? Eu não sabia onde você estava.
— Desculpe. Não pensei que fosse deixar você preocupado.
— Eu pensei que algo sério tinha acontecido. Pensei que você pudesse ter se machucado? Que pudesse ter se perdido?
— Desculpe – repito. — Eu fiquei sem internet. Precisava mandar um email.
Miguel me encara com os olhos semicerrados.
— Você arriscou sua vida por conta de uma porra de email?!
Engulo em seco. A raiva ameaçando começar a fervilhar dentro de mim.
— Você não entende? Eu me esforcei mais que tudo para que isso desse certo. Essa festa é mais importante que qualquer coisa!
Miguel me encara por mais alguns segundos. Seu rosto sustenta uma expressão pasma.
— Você não tem noção da idiotice que acabou de falar, não é? — ele pergunta com uma voz forçadamente controlada.
— QUEM VOCÊ ESTÁ CHAMANDO DE IDIOTA?
— Vamos embora. — E sai andando como se nada tivesse acontecido.
É absurdo como ele me faz sentir culpada mesmo quando estou no auge da minha fúria. Eu simplesmente o sigo. Não voltamos a nos falar durante todo o percurso. Miguel não me dirige sequer um único olhar. É como se eu não fosse digna nem mesmo da honra de uma discurssão com ele. O príncipe perfeito.
É claro que isso não vai dá certo. Nunca vai dá. Aonde eu estava com a minha cabeça? Somos diferentes demais. Como água e vinho. Nunca vai dá certo. Nunca, nunca, nunca. Eu não devia nem ter deixado isso começar. Sou mesmo uma idiota.
Estou tão presa em meus pensamentos que só percebo que chegamos quando ele estaciona em frente a casa dele. Respiro fundo. Miguel continua no mesmo lugar, nem mesmo se mexe para desafivelar o cinto. Provavelmente chegou a mesma conclusão que eu e agora está tentando encontrar um jeito de me dispensar educadamente como um Lord faria. Meu coração imbecil fica apertado, parecendo não concordar com a ideia.
Pare de agir como um bebê chorão, coração! O cérebro te avisou que isso poderia acontecer.
Engulo em seco. Talvez eu deva facilitar as coisas para ele.
— É, eu... Bem... E-eu sei o que você está pensando e... — Droga! Por que é tão dificil dá um fora em mim mesma?
— O que eu estou pensando, Samira? — Ele se volta em minha direção. Seus olhos são sérios.
— Você está pensando que... Que é melhor n-nós... — Minha voz sai trêmula. O que está acontecendo comigo?
Miguel desafivela seu cinto rapidamente.
— Amanhã conversamos. Agora não é uma boa hora.
Estou prestes a protestar. Afinal que sentido faz ficar esperando até o dia seguinte para levar um fora?
Abro minha boca para despejar que ele tem que terminar comigo logo antes que dê mais merda, mas não consigo porque um caminhão chama minha atenção ao estacionar perto do carro. Reconheço o logotipo marcado na lateral do automovel e desafivelo meu cinto também. Desço do BMW e me aproximo do caminhão. Os lustres de néon deveriam chegar mesmo hoje? Como eu consegui me esquecer disso?
Vejo pelo rabo de olho que Miguel também desce do carro e analisa o caminhão.
Um homem de uniforme cinza e barriga protuberante desce do caminhão e caminha até a porta quase correndo com uma prancheta nas mãos. Eu o sigo e antes que possa impedí-lo, ele toca a campainha. A porta se abre e a cabeleira ruiva que o atende não é a esperada.
Fico parada três passos atrás do homem ainda sem conseguir reagir enquanto a garota assina alguma coisa na prancheta. O cara de uniforme volta para o caminhão com a mesma rapidez e começa a descarregar os lustres. Melinda apenas escancara ainda mais a porta e é aí que ela parece me notar.
— Sami?! — ela tenta estourar meus tímpanos. — Você voltou!
Quem é que mora aqui mesmo?
Melinda dá pulinhos e me abraça como se fossémos velhas amigas. O que não podia ser mais estranho.
Oh, céus! Como se meu dia já não estivesse ruim o suficiente.
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