Give In To Me
10 First Date, anyway.
Notas iniciais
– Negócio fechado. – Respondeu a rainha, sem mais olhá-lo diretamente, enquanto checava suas vestes e postura, e sumia pelas cortinas de veludo.
Ainda ruborizada, Elsa foi ao encontro da irmã caçula que acenava freneticamente.
– Oh Elsa, aí está você! – Animou-se a jovem princesa, em seguida pigarreando em uma atitude de auto repressão, a face assumindo uma carranca. – Quero dizer, por que diabos não me acordou?
A loira platinada balançou a cabeça, divertindo-se com a costumeira birra de Anna. Era melhor assim, preservar a inocência que seus poderes, mesmo depois de tudo, ainda não conseguiram extrair da mais nova, era uma das mais importantes pretensões de Elsa.
– Anna, você estava em um sono tão profundo que não quis interromper. – Emitiu a mais velha, carinhosamente, enquanto tomava as mãos da princesa, certa de que a essa altura já havia destruídos os planos da mesma de ficar aborrecida. – Além do mais, não queria você participando disso, digamos que a maioria de nossos visitantes estava insatisfeita com tudo.
Dito isso, a mulher massageou discretamente as têmporas, até sentir Anna amarrá-la com os próprios braços e balbuciar quaisquer ofensas, dirigindo-se a todos que conversavam e comiam nas mesas, provavelmente encarando-os com seu típico olhar semicerrado. Anna tinha seu modo particular de protegê-la das pessoas, pensou. Mas com Elsa não era diferente, suas peculiaridades relacionadas à proteção eram um tanto intensas: isolamento e um repentino envolvimento com um príncipe traidor, por exemplo, sem mencionar a criação de Marshmellow. Após uma risadinha, a mulher arqueou-se para se libertar da prisão da ruiva.
– Certo, Anna, tudo bem, tudo bem, acalme-se. – Pediu a rainha, agitando as mãos repetidamente enquanto a outra a soltava abafando um riso. – Suponho que a senhorita mal parou para comer. – Piscou Elsa severamente enquanto a irmã se encolhia e olhava para as próprias mãos, já tomada pela consciência, distraída enquanto a moça à sua frente estalava os dedos chamando um dos servos. – Com licença senhor, poderia guiar esta mocinha para um desjejum reforçado?
Anna arregalou os olhos, já mudando de humor pela indefinida vez desde que acordou, desta vez tomada de profunda agitação novamente, assim como maior percepção à sua fome enquanto o cheiro de calda de chocolate e panquecas a inebriava.
– Bom, acho que vou indo então. – A princesa encolheu os ombros e se retirou acenando para sua protetora, que apenas balançava a cabeça com um sorriso contido.
– Ela é uma criançona, não? – A familiar voz masculina atrás da moça invadiu novamente seus sentidos, Hans passava por ela cochichando até parar a uma distância segura, olhando distraidamente a multidão de hóspedes enquanto a esperava responder.
– Às vezes, quando estou por perto ela pode ser minha criança. Porém, normalmente ela só é agitada, e nunca deve ser subestimada. Você sabe disso muito bem. – Divagou Elsa, não deixando de sorrir ao ouvi-lo tossir em desconforto com a lembrança indireta de seu passado negro.
– Não há como ignorar isso, com todos me olhando torto de vez em quando. – O príncipe revirou os olhos, provavelmente entediado com a frequência de tal fato. – Pois bem, eu estava pensando a respeito do processo. Acho que tornaria tudo mais confortável para a senhorita se seguirmos o conselho do Troll e conversarmos um pouco. – Sugeriu em um tom alusivo.
– Conversar. Sim, por que não? – Cortou-o a mulher, enfatizando a primeira palavra a fim de indicar que seu único contato seria verbal, já que ela não estaria precisando ser aquecida. Os lábios de Hans curvaram-se em um sorriso ao perceber a rigidez dela. – Também acho viável. Conversar. – Disse pausadamente, arrancando uma risada de deguste no homem.
– Minha rainha, o que eu disse antes? Não farei nada que vá além do que queira. – Emitiu Hans perigosamente em um sussurro, levando Elsa a arregalar os olhos sem que ele percebesse. Era isso que ela temia: querer.
– Hoje à noite após o jantar, na biblioteca. Sem atrasos.
Assim, a jovem partiu pomposamente para o outro lado do salão, e Hans seguiu para o caminho oposto. Ainda não eram amigos, seus encontros mais intensos se deram em emergências e mal tiveram a chance de conversar. Jamais seriam amigos, aliás, amigos não se provocam ou beijam nos lábios com tanta voracidade. Já haviam pulado esse patamar, eram amantes secretos, embora Elsa jamais admitisse classifica-los assim. Porém, por mais confusa e indefinida que fosse a recente relação do príncipe e da rainha, amantes secretos era o que soava mais próximo do que estavam sendo.
O resto da reunião com os dignitários ocorreu surpreendentemente bem melhor do que Elsa havia esperado. Por mais que fosse um ser dotado de magia, sua descrença não lhe permitia confiar em muitas coisas mais críveis. Inicialmente, assimilar a ideia de que um homem, e toda a fusão de lábios, mãos, dentes, pele, calor e generais, iriam realmente ampará-la, soara ridículo. Mas seu corpo além da dor e do cansaço havia sido tomado por uma sensação familiar, um sentimento que a assombrou inclusive quando ela esteve mais imersa possível na própria solidão: Necessidade. Porém, desta vez não era por curiosidade sobre seus ormaos, aliás, também se tratava disso, mas agora se tratava de algo além, uma vez que a jovem já havia sentido o primeiro crepitar da chama interior que achava não possuir. Elsa, simples e seguindo as leis da natureza, queria mais do que Hans tinha a oferecer. Seus princípios lhe negavam que ela prosseguisse indo com tanta sede ao pote, a voz de sua consciência lhe gritava não. No entanto, cada região de sua anatomia tocada e massageada por ele, respondiam pacata e sensualmente, sim.
A monarca se via tomada por um verdadeiro conflito interno, o que a deixava aborrecida, afinal, era uma mulher, uma rainha, deveria ser mais firme com seus próprios pensamentos. Ora se sentia a pior irmã do mundo, cada vez que ouvia Anna sorrir ou lhe abraçar durante a reunião, se sentia pior do que já fora durante todos os 13 anos em que expulsou sua caçula de sua vida. Ora sua mente parecia revirar, cada vez que ela se escorava na coluna de mármore, cansada, e Hans já se encontrava do outro lado da estrutura, sussurrando disfarçadamente um “Estou de olho em você, minha rainha.”, fazendo-a lembrar de que enquanto ele estivesse ali, ela sentiria calor, e isso beneficiaria a todos, inclusive a ela, de uma forma bem particular. Diante da polaridade de suas próprias opiniões sobre seu comportamento, a moça mal notou que o almoço já havia sido anunciado, e que fora ela mesma quem o permitiu, inconsciente. Seu dilema se estendeu durante todo o tempo da refeição, enquanto brincava com o purê de batatas entre as pernas de seu garfo dourado.
– Psst. Elsa? – Anna inclinou-se para perto, estalando os dedos próximos ao ouvido da mais velha, não deixando de se divertir quando a mesma se assustou. – O que há? Você mal tocou na comida, e não come desde as oito.
– Oh, acho que estou meio distraída, e... – Elsa fez uma pausa, procurando um argumento mais forte – E atordoada, com tanta gente.
– Hm, tem certeza? Porque, você sabe, já fizemos tantos bailes, com número maior de pessoas... – Anna franziu o cenho, pensativa, vasculhando em suas memórias qualquer lembrança da rainha se sentindo desconfortável daquela forma em outros eventos.
– Sim, tenho certeza. – Suspirou a mulher, levando um punhado do purê à boca como forma de tranquilizar a ruiva. – Não se preocupe Anna, vai passar. Eu só me assustei um pouco com tantos representantes dos reinos vizinhos dependendo do descongelamento do fiorde.
– Uh, tudo bem. Eu sei que você vai conseguir descongelá-lo logo. Afinal, eu amo você, Kai também ama, e Gerda, e Olaf, e Sven, e Kristoff... – Anna começou a citar, balançando para os lados à menção de cada nome, em seguida revirando os olhos, rindo. – Bem, e todos os cidadão de Arendelle, eu passaria muito tempo citando. Você não tem que ligar para esses mal humorados, você tem a nós. E se ainda não for o suficiente para que seu gelo seja domado novamente, eu posso amá-la mais ainda. – Exasperou a irmã mais nova, perdendo-se na própria empolgação.
Elsa sorriu, e acariciou a pequena mão da falante ao seu lado, em sinal de gratidão.
– Eu sei Anna, não precisa se preocupar. Eu irei resolver isso, porque amo muito você, e amo meu reino, e faria tudo para vê-los bem. Você entende? Eu faria... Qualquer coisa. – A voz da mulher falhou imperceptivelmente, enquanto declarava de forma camuflada que precisava da compreensão de Anna para o que estava fazendo por trás de seu conhecimento.
– Jamais duvide da minha certeza quanto a isso, Elsie. – Sorriu a princesa ingenuamente, a fim de reconfortar a irmã. Um reconforto que não a alcançaria, porque a verdade sobre os fatos não estava presente entre ambas, antes de tudo.
Segundo piso, após o jantar, sem atrasos.
Estava chegando a hora. Elsa repousou as mãos levemente sobre o corrimão de madeira da escadaria, em um disfarce completo de alguém que estava apenas olhando o movimento lá em baixo, onde ela havia permitido que seus convidados se reunissem. Seria melhor mantê-los ocupados com bebidas, tabaco e música, pensou. Ao perceber que seus hóspedes não faziam qualquer menção de subir os degraus e que as risadas rudes de piadas machistas ecoavam dos jardins e de outros cômodos do castelo, Elsa se permitiu dissipar sua camuflagem, adquirindo a feição do que realmente estava sentindo: adrenalina. Seu caminho para a biblioteca estava livre. Como uma bandida de primeira mão, apoiou-se ainda no mainel, enquanto retirava seus sapatos apressadamente para garantir que seu andar, ou correr, não a denunciaria. Anna estava com Kristoff em uma visita ao Vale das Rochas Vivas, mas a consciência da mulher não a deixaria seguir sem que ela olhasse pela janela no fim daquele corredor, certificando-se de que sua irmã não estaria voltando, e que aqueles que estavam do lado de fora, não entrariam. A rainha inspirou longamente, aliviada, até seu ar trancar-se nos pulmões a um vibrar de certo timbre.
– Majestade? – Hans se encontrava ao topo da escada, o olhar notando divertidamente as visíveis medidas de precaução que ela havia tomado. Elsa limpou a garganta, segurando os sapatos escondidos atrás de si.
– Pontual. – A platinada elogiou no intuito de quebrar o desconforto. Ela não entendia porque cada vez que o olhava, a lembrança de suas narinas próximas à face masculina, inalando a essência de musk, pimenta preta e madeira que ele exalava, vinham à mente. E o cabelo vermelho, macio, que ela havia esticado entre seus dedos naquela fatídica noite, o qual a jovem não teve a oportunidade de apreciar o aroma. Qual seria o cheiro dos fios ruivos do príncipe Hans? Oh! Elsa levou a mão à boca, os olhos arregalados femininos encarando os masculinos, que deviam estar interrogando-a sobre o porquê de ela estar agindo estranhamente. Tampando sua visão com o escuro de sua luva, a fim de esconder o próprio rubor por algo que ele jamais saberia que ela esteve pensando, Elsa por fim inclinou sua cabeça para frente, ordenando. – Hm. Vá primeiro.
Hans a obedeceu, pensativo. Cautelosamente percorreu o longo caminho contando as portas até chegar à biblioteca, e antes de adentrá-la, olhou brevemente por cima do ombro, procurando responder à sua curiosidade de como ela estaria agora. Foi algo realmente apreciador, que ele achava que ainda demoraria a admirar novamente, a breve visão das pernas da rainha à mostra quando ela, distraída em sua preocupação, levantava a barra de seu vestido para que seguisse o mais rápido possível para seu destino. Atreveu-se a sussurrar um assobio quando os dedos femíneos pressionavam os joelhos enquanto ela enrolava o tecido pesado. A pele branca cintilava à luz da lua que invadia o local pela janela, a ausência de meias lhe permitiam visualizar as panturrilhas torneadas na medida certa. Aquelas pernas pareciam ter sido encomendadas pelos céus. Pensou o homem. Quando ele teve o prazer de olhá-la mais exposta no evento de sua escalada ao quarto real, foi igualmente maravilhoso. Mas desta vez, mergulhado na ilusão da própria Elsa estar erguendo seu vestido para ele, não que seja de fato para ele, mas indiretamente por causa dele, o imergiu em um poço de satisfação que lhe causou um formigamento familiar em meio à adrenalina que também o consumia. O príncipe entrou, ao momento em que a mulher ergueu seu olhar para onde ele estava instantes atrás.
Elsa mordiscou o lábio inferior, seu peito ardia enquanto ela encarava o portal da biblioteca. Ele a estava esperando, eles iriam se encontrar às escondidas, iriam apenas conversar, mas ainda sim, este seria seu primeiro encontro com um rapaz. Ela andou cada vez mais rápida, chegando a correr na ponta dos pés, quando enfim parou, e encarou a grande porta. Quanta culpa sentia, o quanto estava pensando em Anna, e o quanto que se martirizava mais a fundo cada vez que procurava arrependimento, e no lugar apenas encontrava uma curiosidade e uma selvagem sensação de estar fazendo algo... Saboroso. A jovem girou a maçaneta, soltou o emaranhado de vestido de sua mão e entrou.
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