Girls like you

1 Uma carta aberta para garotas como você


Querida amiga,

Quando estou deitada na cama, de olhos fechados, prestes a pegar no sono, é sua imagem que me vem à cabeça, sem aviso, como fogos de artifício fora de época. Você está sorrindo o maior sorriso que já vi (como é típico de você), pequenas rugas repousando preguiçosamente no canto dos seus olhos apertados. Se me perguntassem que cara a felicidade tem, eu mostraria a sua. Minha memória fez um bom trabalho ao guardar essa imagem em meu cérebro, é o que acalma a tempestade no meu peito nos dias mais sombrios e é o que me inflama. Não é a única lembrança feliz que tenho de você, mas grudou na minha mente feito cola, porque definitivamente é a última. Você era impetuosa e, para os de estômago mais fraco, uma pessoa difícil de engolir. Você lutava por si mesma e por todos a sua volta, não importava a que custo. Era firme e defendia seus ideais com unhas e dentes, com ossos e carnes. Você era barulhenta e inoportuna, determinada e irredutível. Não tinha vergonha de ser exatamente quem era, abraçava tanto o lado bom quanto o ruim, pois, no final das contas, eram essas duas medidas, bem e mal, que te equilibravam. Nada te fazia hesitar ou voltar atrás, você se afirmava e você se bastava. Você não ficou calada, nem se submeteu, como queriam que você fizesse. Você era precursora, era revolução, o tipo de garota que abriga uma chama vulcânica dentro do espírito e clareia a imensidão das trevas, o tipo de garota que começa. Você quis mudar o mundo e não está mais aqui justamente porque tentou. Mudanças não são bem-vindas.

São garotas como você, com um sorriso capaz de iluminar um quarteirão inteiro e, em contraste, uma ira de dar inveja em qualquer deus vingativo da mitologia grega, que tem o poder de transformar metal em ouro. Você era alquimia. E magia. E sobrenatural. E alienígena. Você não era ciência, não era fato incontestável. Era um daqueles fenômenos inexplicáveis, os que tiram o fôlego e desobedecem às leis do universo.

E todos nós sabemos o que o mundo faz com aquelas que ousam desafiá-lo. Ele cobiça sua carne com saliva escorrendo dos cantos da boca primitiva, devora sua alma com a ferocidade aterradora de uma besta lovecraftiana. É um titã cruel, que te mastiga viva e acaba com você. A História está aí pra provar que fim tem garotas como você.

Você é Joana D’arc.

Você é Hipácia.

Você é Pagu.

Você é cada bruxa morta na fogueira, cada fera indomesticável.

O mundo teme forças irreprimíveis como você, capazes de sacudir as bases que o sustentam. Quando não consegue te domar, te destrói e mergulha na tarefa implacável de negar sua existência. Ele pensa que o que os olhos não veem, o coração não sente, mas não é bem assim, não é mesmo? Porque garotas como você são como estrelas colossais que explodem na imensidão do universo, mas continuam iluminando o céu.

Essa mensagem é para garotas como você, que iluminam o caminho de garotas como eu, que também sonham em ser estrelas.

Você chegou ao fim do livro. Parabéns!