Camilla conta o começo...

Era uma noite como outra qualquer.

Mas eu conhecia aquelas batidas na minha porta. Era o Leo, como sempre preocupado comigo...

—Camilla, você vai sair dessa casa ou não? Está trancafiada aí desde o almoço do domingo!

Eu tinha negociado a abdicação nada oficial a coroa, em troca de uma casa confortável próxima da entrada da muralha do castelo. Tinha tudo de que eu gostava: muitos livros, um atelier, o armário cheio de roupas bonitas... Ah, quanto tempo que eu não saía para um bom banho de loja. Mas nem isso tinha graça mais.

Minhas criadas tinham se casado e seus filhos as ocupavam. Não tínhamos mais tempo para curtir. Beruka fazia a minha comida e Severa limpava a casa três vezes por semana. E elas trabalhavam só seis horas por dia.

—Ah, quem te falou disso?

—Beruka. Mas não a culpe, fui eu quem insistiu em saber. É que me preocupo com o fato de você não...

—Irmãozinho, volte para o trono, é todo seu. Não posso. – Me neguei a encara-lo.

—Mas não é isso, caramba! – Ele parecia nervoso e fechou os olhos como sempre – Todo mundo vê que você não está nada bem! Não trabalha, nem estuda, e também não sai de casa. Nem se interessa por nada; aquele doutor daqui da vila vizinha já te prescreveu até erva de são João para ver se melhora e...

— Funcionou porque fiquei melhor. – sorri sarcástica – Você também, não?

—Não, não fiquei! – ele reabriu os olhos e se sentou na cadeira de madeira bem trabalhada do conjunto de minha sala. Naquele exato instante, para dizer a verdade ele não era mais o rei de Nohr; tinha voltado a ser o meu irmãozinho.

Apenas um pouco mais velho.

—Mas meu amorzinho...

—Que meu amorzinho o que! – é. A coroa havia o deixado bem mais pavio curto. – Deixa de conversa mole agora. Andei conversando com as suas criadas. E nós fomos unânimes em reconhecer: você precisa é de um homem em sua vida!

Ih. Aproximei-me dele, sem conseguir achar graça alguma naquilo que ele falou.

É claro que as garotas já haviam me dado essa sugestão. Só que, assim, vindo do meu irmão... Bem, isso foi tão inesperado. Toquei-o na cabeça, como eu fazia quando ele era criança.

—Ei, tire a mão de minha testa. — ele cruzou os braços fechando os olhos novamente. – Eu não tenho febre alguma, não estou delirando não, deixe disso. Isto já aconteceu quando vi o meu filho usando saias pela primeira vez. -Nisso as mãos dele substituíram as minhas e os dedos pararam nas próprias têmporas. Sim, ele estava com enxaqueca outra vez. -E depois, vêm os plebeus dizerem que o rei não tem problemas.

Meu sobrinho, o príncipe Forrest, é um rapazinho muito excêntrico. Ele ama projetar roupas e sonha em ser estilista quando ficar mais velho.

Está claro que enxergo nele os dotes de um grande artista. Mas o meu irmão, nem tanto.

—Bem, poderia ser pior, como eu já te disse, Leo. Ele pelo menos arranjou uma namoradinha e...

—Ah, como se a Nina, aquela filha maluca de meu guarda costas, o convencesse! Mas ela o adora... Daquele jeito!!!! É escândalo encima de escândalo a família real de Nohr... Ah, como eu queria descobrir um feitiço para mudar isso! — se ele que era um mago formado não conseguiu descobrir...

Nossa, como era difícil para ele aceitar isso. Bem, eu tentei ajudar...

***

No outro dia contei tudo aquilo que o meu irmão me disse para uma velha colega que não via há tempos. Ela trabalhava na segurança fronteiriça entre Nohr e Roshido e me sugeriu irmos a uma lanchonete no país vizinho, que andava muito melhor das pernas do que nós. Com o fim da guerra, nós a convidamos para vir para a capital; mas ela recusou por causa do acréscimo aduaneiro no salário, um dinheiro considerável. Mesmo sobre a indenização de soldado sobrevivente. É isso mesmo: com a crise, meu irmão inverteu o valor salário da guarda real com o do fronteiriço...

Às vezes um rosto diferente poderia me dar luz. Quem sabe...

E no fim também expliquei a ela porque nunca tinha me casado, apesar de todos dizerem que eu era de parar o exército.

—Charlotte, o que ocorre é que eu não tenho vontade. O Laslow e eu, todo mundo sabe; o nosso relacionamento era um desastre. Descobri de repente que ele me traía com Deus e o mundo e...

—Ainda teve uma filha com a tresloucada da Peri. E os dois tiveram o mesmo triste fim de seu irmão mais velho, há doze anos. Que Deus tome conta das almas de todos eles! – Minha antiga conhecida fez um sinal da cruz, toda dramática como ela só. – ah, e que desperdício seu irmão... O Xander era um pão!

—Mas por que você foi me lembrar disso? Agora eu fiquei muito triste. – Suspirei recusando o café que chegava para nós.

—Mas quem começou a falar foi você, linda princesa! – ela sorriu olhando para mim com seus enormes olhos azuis. Ainda parecia uma boneca, mesmo já estando na casa dos trinta.

—Linda? Fale sério, já estou é acabada. – Olhei para o meu próprio colo – Concordo que meu busto sempre atraiu olhares. – tentei sorrir, não deu – Mas agora é só de exaltação. Seios grandes são assim, passam os anos e eles caem.

—Ah, Camila, por favor! – Charlotte se indignou – Você ainda está linda! Não teve nenhum filho para lhe estragar, não amamentou. Nada fez para o seu corpo tombar. Sempre bonitona e boazuda!

—Obrigada, minha querida. – a abracei. O médico da vila me disse que isso ajuda a prevenir uma crise depressiva. Muito. – Você também está ótima.

—Acha? – ela riu empolgada – De verdade? Mesmo?

—É claro que sim.

Mas aí aconteceu que estraguei tudo. De novo.

Abri a bolsa tirando algo que eu guardava na carteira. Olhei e me pus a chorar.

—Ah, mas o que foi agora? – Charlotte chegou mais perto para ver o que era que eu olhava. Um retrato de Xander e Elise, nossa amada irmãzinha, morta por acidente no meio da batalha. Os dois estavam em um abraço muito carinhoso, uma semana antes da tragédia.

—Os dois se foram... Os dois! E o que eu posso fazer? Nada.

—Não, não pode!

Eu nunca toco no nome dela. Seria sofrer demais.

Abracei Charlotte, cheia de dor. Ela não insistiu e esperou até eu por para fora. Mas nunca saía tudo. Nunca. Quando pareci acalmar a fúria me dominou, aquela mesma de quando estávamos em guerra. E eu fechei o punho para socar a mesinha da lanchonete com toda a força.

—Ei, não faça isso! – a minha colega segurou a minha mão no ar, com uma força que eu julgava ser impossível vindo de alguém tão feminina. – Se chamar demais a atenção irão notar que você é uma figura pública! E não pode manchar a sua reputação se quiser arranjar alguém legal.

—Eu não ligo. – respondi apática. – Isso é coisa de meu irmão e do pessoal do castelo.

—Mas eu vou fazer você ligar daqui em diante!

***

E que engraçado: a ajuda pode vir de onde menos esperamos, não? Tudo o que eu queria era desabafar com a Charlotte por não ter com quem mais falar e ela me ajudou! Depois de me fazer uma pessoa importante, perguntei para ela por que também não tinha se casado, assim como eu.

Logo ela, toda cheia de atrativos e nunca perdendo um baile.

—A guerra levou a maioria dos homens solteiros de nosso reino, você sabe disso... Mas eu cheguei a ficar com alguém ao contrário de você, Camilla. Lembra-se do Benny, meu melhor amigo, não? Bem moreninho, alto e forte... Nego-aço.

—Ah, o soldado que foi recrutado junto de você aqui na fronteira. Lembrei. – Sorri.

—Então. Ficamos um tempinho juntos! – ela deu de ombros – Mas não deu muito certo, sabe? A gente é próximo demais e não rolou aquela química. Porém, a amizade ficou. Foi assim. – e sorriu de volta para mim.

—E o que ele anda fazendo agora?

—Infelizmente se casou; aposentou e foi morar no campo! Não poderá se envolver com ele. Uma pena, ele é tão legal! – ela correu responder.

Mas eu nem pensei em nada... Deixa.

—E como eu ia dizendo, você precisa voltar a ser quem você era! Sei que deseja passar despercebida na rua por ser uma princesa. Mas assim também já está demais, não?

E marcou para mim cabeleireiro, alguns tratamentos estéticos e um banho de loja.

Sim, isso foi muito lindo da parte dela.

***

Mas foi enquanto eu estava arrumando o cabelo que a mágica começou. De frente para o cabeleireiro, lá do outro lado da rua tinha uma placa que assim dizia:

“A dor da rejeição: grupo de ajuda para excluídos”

Não sei o porquê de isso mexer comigo. Mas sei que aconteceu de uma voz me dizer que, se eu entrasse por aquela porta conheceria mais de um homem e a minha vida mudaria.

Então, depois de pagar a conta do salão, eu o fiz.

E o mais estranho foi que o me conquistou.

Um par de olhos verdes que me encararam desde o primeiro momento em que entrei. Já estava tarde, quase noite, porque o meu cabelo é comprido e deu muito trabalho... Talvez estivesse apenas admirando o trabalho do profissional que acabara de mexer em minhas madeixas, naquele momento não pude identificar o que era.

—Oi.

—Oi. – Ela me respondeu.

—Tudo bom? – fui gentil, sorri.

—Bom... E você?

—Melhor agora.

—Bem que papai me falou que você é linda! – ela me deu a mão sorrindo – Prazer, eu sou a SIlkie!

Curioso, a mão dela era felpudinha. Macia como seda... E tinha algo a mais de diferente que só agora reparei: as orelhas gigantes e pontudas se destacando para cima de seu cabelo louro confuso.

Era isso mesmo: SIlkie não era totalmente humana.

—O prazer é todo meu – somente quis ser agradável. Não a desmenti, querendo ver o que ocorria.

— E aí? Você vai ajudar a gente, não vai?

—Bom, vou ver o que será possível – Sorri novamente. E ela me disse entre os dentes...

—Obrigada. Mas por favor, pense com muito carinho! Ele não gosta de dizer. É que... Ninguém quer ajudar nós, Kitsunes. O pessoal tem medo. E quem não tem, quer nos matar para pegar as nossas peles! Papai me disse que damos excelentes tapetes... Pai!

—Boa noite, filha! – era um homem raposa que lembrava muito a menina, principalmente pelas orelhas projetadas para fora do cabelo meio ruivo. – Olhe, eu sinto dizer que a princesa Hinoka não pode vir aqui hoje, pois teve de jantar com o arqui-Duke de Izumo por razões diplomáticas e...

—Oh, então quem é ela? – e depois de Silkie me apontar, eles ficaram me olhando como se eu fosse uma assombração. Oh, digo eu. Que embaraço.

—Boa pergunta! – ele riu um pouquinho depois.

—Bem, eu...

—Mas ela disse que vai nos ajudar! – Empolgada, Silkie não me deixou terminar de falar.

—Tudo bem, meninos – continuei aproveitando o sorriso dela – O ambiente é ótimo, mas está faltando algumas coisinhas, não? Três barrinhas de ouro servem?

Isso foi impressionante. O que pode nãos ser nada para você... Para outros representa o mundo.