Girls On Fire
63 Capítulo 63
Notas iniciais
– Enfim, em casa! – Jessie suspirou assim que Santana destrancou a porta e entraram juntas. Bella e Tracy vinham atrás e trocavam alguns olhares.
Quando tinham vindo um pouco mais cedo para buscar a roupa de Jessie, Maribel tinha mais uma vez, interrogado a loira quanto a sua ideia de levar a filha consigo.
A loira então contou que Santana já sabia da história e tinha concordado. A mulher não pode acreditar e imediatamente ligou para a filha que lhe atendeu já com voz chorosa.
– Você sabia mãe? Você viu o que querem fazer com a gente? – a menina já desembestou a falar sem sequer confirmar se era sua mãe do outro lado da linha. Queria desabafar com alguém.
– Sí mi amor... ló sé... Se acalma... Vou tentar conversar com essa loira burra! Ela precisa entender que não é assim que se resolvem as coisas.
– A Jessie está aqui mãe... do meu lado... dormindo como um anjo...Ela é meu anjo! Meu raio de sol! – ela falava ao mesmo tempo com um sorriso no rosto, tendo alguns soluços do choro.
– Hija... Entregue ao destino... Aproveite os momentos que tem com ela! – falava de forma doce com a filha, enquanto olhava com olhar mortal para Bellatrix a sua frente, que ouvia a conversa com olhar aflito.
– Sí... me ajuda... Conversa com ela! Vou desliga agora, quero ficar com minha namorada! – ela nem esperou resposta e desligou.
Depois desse telefonema, as duas mães saíram numa discussão forte, que Tracy resolveu deixar acontecer e assistir de camarote, sentada no sofá enquanto Maribel expunha sua opinião sobre essa “ideia de jerico “ que a freira tinha tido.
Brigaram, a latina mostrou sua opinião, Tracy não sabia que lado escolher e ficava calada. Nada pode mudar o que já estava decidido. Maribel foi para o banheiro e se trancou lá até que as outras duas tivessem ido embora novamente. Estava se controlando para não dar uns tabefes na religiosa. Tinha medo de receber um castigo por cometer esse pecado.
Ambas agora se encaravam lembrando da cena a pouco mais de uma hora antes e faziam cara feia. Jessica começava a estranhar todo aquele clima. Santana ligou para Quinn e Rachel que logo apareceram por lá para dar um abraço na paciente. A loira contou animada que tinha vencido a causa e todas bateram palmas, enquanto Jessie reclamou que o gesso não a deixava fazer o mesmo. Quando falou isso, todas repararam nele e perceberam a pintura que tinha aparecido ali. A ruiva contou divertida que Santana a tinha surpreendido quando ela acabara de acordar.
– Meninas, a conversa está ótima, mas minha paciente está exausta e quer tomar um banho! – Santana olhou para a namorada que concordou imediatamente.
Foram em direção ao quarto para se prepararem enquanto Quinn olhava pra latina e balançava a cabeça com um sorriso salafrário, pelo que conhecia a amiga, elas fariam mais do que tomar banho.
– Quinn... Posso dar uma palavrinha com você e com Rachel? – Bellatrix se aproximara das meninas com um sorriso hesitante e deixou ambas preocupadas.
– Claro... – disseram ao mesmo tempo.
– San, quero logo tirar meus pontos do rosto... – a ruiva falava olhando para o espelho do banheiro.
– E eu quero logo que você sare, não só dessa cicatriz... – ela passou a mão pelos pontos do rosto da namorada – mas dessa também – tocou seu peito, indicando o coração.
– Será que ainda sou boa?
– Em que? – a morena perguntou curiosa. Prendia os cabelos da ruiva num coque alto e desabotoava seu sutiã.
– Você sabe... – a ruiva virou calmamente de frente para namorada, exibindo seus seios, e mordia os lábios querendo provocar.
– Não faz isso... – Santana já começava a suar frio. Não imaginava que a ruiva pudesse estar desejando o mesmo que ela.
– Porque não? Perdeu a vontade de me tocar? – Jessica fez um olhar triste, realmente acreditando nisso por um momento – Só porque estou toda roxa e machucada?
– Não diz uma coisa dessas... – a latina deslizava as pontas dos dedos pelos ombros da ruiva e ia distribuindo beijos desde o rosto, até seu colo. Beijava os hematomas que ainda apareciam na pele clara e a garota apenas suspirava alto, sentindo os carinhos.
– Eu estava com saudades do seu toque... – Jessie olhava séria para a latina que tentava sorrir e se entregar ao momento, mas lembrava a cada segundo que seu raio de sol seria tirado dela no dia seguinte.
– E eu do seu sorriso, seus beijos... – ela beijou devagar cada pedacinho do rosto da ruiva, querendo memorizá-lo com os lábios. Chegou a boca e emendaram um beijo apaixonado, urgente, cheio de vontade e saudade. Podiam ficar a vontade, estavam em casa, lá fora as visitas conversavam, mas elas não davam importância pra isso.
– Vem... entra no banho comigo! – a ruiva falou com voz sedutora enquanto tentava tirar a blusa da latina.
Santana começou a rir vendo que a ruiva tinha esquecido que um braço seu estava engessado e que ela não conseguiria desabotoar sua calça nem tirar sua blusa.
– Boba... se aproveitando porque tá em vantagem... – ela fez biquinho se fingindo de ofendida. A latina lhe beijou mais uma vez e lhe olhou apaixonada, desejando do fundo do coração que o tempo parasse naquele instante. – E aí, vem para o banho comigo?
– Claro, vou te ajudar! – a morena deu um sorriso e se encaminhou para ligar o chuveiro. Jessie ficou parada a observando confusa.
– Você entendeu o que eu quis dizer não é? – ela falou enquanto tirava a própria calcinha com um braço só, fazendo um certo esforço.
– Entendi... – deu um sorriso triste – Eu quero muito fazer isso, mas não consigo ter vontade... – ela suspirou fundo fechando os olhos tentando focar no momento, afastar o sentimento de saudade e sofrimento que sequer tinham chegado.
– Como assim? – a ruiva ficou logo na defensiva – Não tem vontade? – Santana desviava o olhar dela, não conseguia observar a dor que novamente aparecia naqueles olhos – Eu achei que se fizéssemos amor as coisas seriam como antes, mas pelo visto nada será como antes... – as lágrimas começavam a surgir – tá fugindo de mim! – falou alto, se descontrolando.
– Não! – a morena virou-se para encará-la. Nua, chorando, abraçando a si mesma sentada na tampa da privada. Foi até ela – Como assim, você acha que eu só quero transar com você? Que isso iria me fazer “sossegar”? Eu quero estar perto de você, não sou uma tarada! Quero você bem! É o que importa agora!
– Ninguém quer uma pessoa moribunda andando pela casa com o olhar perdido, uma garota problemática que não abandona os malditos fantasmas do passado... – ela falava com raiva – Eu também não iria me querer! Eu te entendo... – deu de ombros.
– Eu não consigo entender... – Santana balançava a cabeça tentando pensar do que a ruiva tinha acabado de dizer. Desde que ela tinha acordado no hospital, toda aquela alegria era fingimento? – Você não estava falando a verdade quando disse que ia deixar o passado para trás?
– Você acha que é fácil assim? Que eu tenho o poder dessa escolha? – ela falava alto e observava a namorada a olhando como se não a conhecesse — Eu sou uma bomba relógio... cheia de mágoas que pode explodir a qualquer momento! Não quero que ninguém seja atingido por elas...
– Tarde demais... – Santana deu um sorriso triste – Já fui atingida por elas! E dói bastante! Dói saber que você acha que fingindo que está novamente disposta a viver, fingir que está afim de fazer amor comigo, fará as coisas ficarem melhores. Você quer maquiar toda a feiura que está dentro de você!
– Feiura? – a ruiva começava a ver que aquilo estava indo longe demais, sua tentativa de deixar as coisas melhores havia saído do controle – Sim, sou feia por dentro, sou horrível! Quem sabe todo esse tempo que passamos juntas, esse conto de fadas que tivemos não tenha sido apenas uma maquiagem? Mais uma peça que o destino pregou sobre a minha vida já desgraçada!
– Parece que você faz isso de propósito! – a morena agora também quase chorava, tinha a voz alterada pela emoção – Você gosta de sofrer, de estar nessa situação! Estamos tentando te dar todo o apoio e em troca você tenta me enganar? Tampar o sol com a peneira?
– Eu quero apenas que as coisas voltem a ser como antes – a ruiva falou cabisbaixa.
– Talvez sua mãe tenha razão... — Santana não sabia o que pensar, por um momento tinha perdido a paciência – O melhor é ela te levar ao Brasil, nos afastarmos será bom pra você!
– O quê? – Jessica fez a expressão de quem tinha levado um soco na boca do estomago, tudo parecia doer dentro dela, seu coração estava prestes a explodir – Me levar com ela? – ela começou a soluçar olhando para a latina que assim que proferiu aquelas palavras, viu a expressão de tristeza no rosto da namorada e se arrependeu amargamente.
– Vocês vão pra lá amanhã. Ela vai te levar para se tratar. Junto com ela, longe dessa cidade “que te faz mal” – ela fez sinal de aspas no ar, continuava falando, a bagunça estava feita, o machucado tinha sido aberto. — Acho que ela ia te contar isso depois, mas dane-se, não vou te enganar! – ela deu de ombros.
– E pra você tá tudo bem? Um favor que ela faz não é? – a garota a olhava despedaçada – Levar a louca pra longe!
– Não é assim... Porque você acha que não consegui tocar em você hoje? Não consegui fazer o que estou morrendo de vontade que é te abraçar apertado, unir nosso corpo num só! – ela falava tentando consertar um pouco, mas a ruiva apenas fazia sinal de negação com a cabeça, sentia seu coração destroçado.
– Vou com ela... já que pelo visto decidiram isso por mim – ela dava um sorriso de escárnio, os olhos vermelhos de chorar – Não quero ser um peso na sua vida Santana... eu te amo muito, muito mesmo.... – ela não conseguiu terminar de falar e entrou num choro convulsivo, sentia-se envergonhada por atrapalhar a vida de quem amava.
Santana se ajoelhou a sua frente com a intenção de lhe acalmar, lhe dar um abraço mas a ruiva simplesmente fez sinal pra que ela não se aproximasse. Iriam se separar, não importava mais nada mesmo.
– Pode chamar minha mãe, por favor? – ela falou sem olhar para os olhos decepcionados que a latina tinha – Quero que ela me ajude. É com ela que vou ficar agora não é?
A latina não tinha palavras para responder, viu que estender a conversa iria só causar feridas de ambos os lados. Sentia seu corpo doer. Tudo virava de ponta cabeça de repente e ela nem tinha tempo de acompanhar a velocidade. Sentia-se nauseada quando foi para a cozinha e chamou Bellatrix. Evitava olhar em seus olhos. Ninguém no recinto entendeu a mudança dos ventos. Haviam ido tão felizes para o banheiro e agora a latina voltava como se tivesse perdido uma guerra.
– Jessica quer que você a ajude no banho – ela falou tentando não chorar. A mulher assentiu – Ela já sabe que vai embora! – falou isso com raiva e viu a loira correr para o banheiro.
Santana se jogou exausta no sofá e sem se importar com sua mãe, Quinn e Rachel que a observavam de queixo caído, sentadas na mesa da cozinha, começou a chorar. Chorava alto, como se só ela no mundo sofresse, como só sua dor fosse importante. Porque naquele momento era isso que ela sentia. Não queria pensar em ninguém. A dor de amor é egoísta, faz parecer que você nunca vai conseguir superá-la. Que ninguém sofre tanto quanto você. Faz você perceber que deve ter alma, pois até ela dói enquanto você chora. Depois de chorar até sentir não ter mais lágrimas, a latina sentiu uma paz dentro dela ao mesmo tempo em que tentava ficar entorpecida para não pensar no que tinha acontecido e no que aconteceria dali a diante.
Levantou a cabeça e percebeu as três na cozinha a observando com olhos aflitos. Respirou fundo, queria seguir seu coração, mas ele parecia muito destroçado no momento para dar algum conselho sábio.
– Rachel, posso voltar para a sua casa? – ela falou tentando parecer decidida.
– Cla... claro Santana, quando você precisar... – a morena se levantou, acompanhada por Quinn e Maribel que agora sentiam-se autorizadas para se aproximar dela.
– O que aconteceu minha filha? – Maribel ajoelhou-se a sua frente – Pelo amor de Deus, ouvimos tantos gritos e você sai de lá assim, destruída!
– Tá doendo muito mãe... – ela se desmontou nos braços da mulher enquanto voltava a chorar, parecia uma criança – Faz isso parar, por favor, faz essa dor aqui dentro parar... – soluçava sem o mínimo pudor de mostrar o quanto fragilizada estava.
– San, você pode contar com a gente... – Quinn acariciava suas costas, sentindo-se triste pela amiga. Toda a alegria que tinha passado durante a tarde tinha se anulado. Não conseguia mais ficar feliz diante do sofrimento da amiga. Trocou um olhar com Rachel que assentiu. A comemoração com direito a champanhe ficaria para outro dia.
– Eu quero ir agora pra lá... – a latina se separou do abraço, tentando se recompor – Não quero estar aqui quando ela sair do banheiro – ela se levantou mas parecia desnorteada. Olhava para os lados, perdida com o que faria a seguir.
– Tem certeza mi amor? – sua mãe via a aflição naqueles olhos.
– Sim... ela não quer minha presença e talvez seja melhor assim... me acostumo a ficar longe dela.
– Tudo bem... – Rachel olhou para Maribel e Quinn que acenaram para que ela continuasse – Sua mãe e Quinn ficam aqui para pegar suas coisas e nós duas vamos pra casa agora...
– Santana... Jessica vai embora amanhã cedo... Tem certeza que não quer se despedir? – a loira tentava minimizar o sofrimento que via naqueles olhos.
– Já falamos tudo o que precisava ser dito... – ela deu de ombros e foi indo em direção a porta . Tinha pressa, sabia que se a porta do banheiro abrisse e ela olhasse para aqueles olhos verdes novamente, outra onda de choro ia começar e ela não queria mais se humilhar.
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