Por mais que se esforçasse, Rachel não conseguia não se estressar diante daquela situação. Estaria mentindo se dissesse que não sentia mais nada pelo Finn, pois ainda gostava dele um pouco, mas com o “encantamento” se esvaindo aos poucos, conseguia enxergar algumas coisas com maior clareza. Como, por exemplo, o fato de que, ao contrário dos demais, ele não parecia estar progredindo tanto quanto o esperado nos ensaios. Ao menos, não o suficiente para alguém que tinha o papel de voz masculina principal da performance. Quando cantava, se saía bem. Apesar de sua voz não se encaixar perfeitamente na canção, ele conseguia acompanha-la – o que não era fácil – e até possuía certa presença de palco. O verdadeiro problema aparecia sempre que ele tentava dançar.

— Eu não ‘tô entendendo isso direito. – disse ele, interrompendo o ensaio pela enésima vez. – O que é pra fazer com os pés mesmo?

A Berry rolou os olhos e abriu a boca para respondê-lo, mas nem teve tal oportunidade. Quinn Fabray, que parecia bastante incomodada com a incompetência do namorado, falou duramente:

— Se esforce um pouco mais, Finn. Não é uma coreografia difícil.

— Como não? Tem todos esses passos e movimentos... – ele olhou para os próprios pés, parecendo perdido. Rachel quase se sentiu mal por tê-lo criticado tão duramente em seus pensamentos. Quase. – E eu estou tentando. Já melhorei um pouco, ‘né?

A resposta que o quarterback esperava não veio e, no lugar dela, um silêncio constrangedor. Até que Santana decidiu se pronunciar:

— Posso ser sincera? Você é péssimo. Até o garoto da cadeira de rodas deve saber fazer melhor do que isso e ele nem em pé consegue ficar.

Finn suspirou longamente e, ao invés de respondê-la, simplesmente desceu do palco e saiu do auditório, resmungando alguma coisa que ninguém conseguiu entender direito.

— Precisava mesmo disso? – Kurt reclamou. – Agora estamos sem nosso segundo melhor cantor.

— Ele que é muito sensível. – a latina deu de ombros. – E quanto a isso, você diz que ele é o segundo cantor perdendo para o Artie, certo? Porque você está mais para cantora que qualquer outra coisa, lady Hummel.

— Menos, Santana. – pediu Quinn, parecendo sem paciência para os comentários ásperos da amiga naquele dia. Teria acontecido algo? Será que as duas haviam brigado? Rachel seria uma pessoa ruim se ficasse minimamente feliz com a possibilidade? – Vamos voltar ao ensaio logo.

— Como vamos ensaiar sem o Finn? – Mercedes questionou. – Graças à Berry, a maior parte da apresentação gira em torno dela mesma, dele e de vocês três.

— O plano é esse. – disse Rachel. – Finn e as meninas são populares e nós precisamos chamar a atenção das pessoas, se quisermos ter doze membros até as Seccionais.

— E como justifica a sua “participação especial” nisso tudo? – Mercedes insistiu.

— Com todo respeito, Mercedes, mas eu acho justo. – Quinn se intrometeu. – Foi ela quem teve a ideia de cantarmos algo diferente, em vez de nos humilharmos apresentando “Le Freak” como o Sr. Schue espera que façamos.

Rachel sorriu. Era isso mesmo? Quinn Fabray, a mesma que vinha sendo relativamente simpática com ela nos últimos dias, também a tinha acabado de defender?

Santana bufou.

— Não fica se achando, Berry. A Q. apenas concordou com você, não significa que agora são melhores amigas para sempre.

— Eu não... – Rachel tentou, mas não conseguiu se enganar, menos ainda à latina. Estava óbvio, pelo menos para as três, que algo a motivava a querer se aproximar da HBIC. A única incerteza ali era o que a levava a ter essa vontade.

— Apenas ignore. – a Fabray aconselhou e Santana a olhou, indignada. – Ela acordou de mau humor hoje.

Rachel assentiu, voltando a sorrir e, dessa vez, Quinn sorriu de volta. Uma sensação estranha, porém boa, tomou conta da estrela do coral. Pela primeira vez, sentia como se realmente tivesse alguma chance de realizar seu desejo de poder algum dia chamá-la de amiga. Ou, quem sabe, algo mais... Sim, ela finalmente havia percebido que sua “curiosidade” pela relação esquisita que as duas Cheerios mantinham originava-se, na verdade, em um até então desconhecido e inconscientemente reprimido desejo de estar no lugar de Santana.

A conversa no auditório foi o que a fez perceber, mas seus sentimentos ambíguos pela loira já estavam ali, escondidos, há bastante tempo. Já em seu primeiro dia no McKinley, pôs Quinn em um pedestal. Não somente por ela ser tudo o que Rachel sonhava em ser, mas também porque a morena compreendia todos os rapazes da escola que se sentiam atraídos pela belíssima líder de torcida, em algum nível. E, para ela, sexualidade não era um problema. Até então, apenas havia se interessado por meninos, mas sendo filha de dois pais, a possibilidade de ser bi não a preocupava. O grande problema seria fazê-la a querer também... Afinal, Rachel Berry não gostava de alguém para não ser correspondida. Quinn se interessaria por ela, daria um jeito de fazer acontecer... Seu único empecilho seria Santana Lopez. De que forma conseguiria isso, se sua “adversária” não somente era extremamente atraente, como também tinha a vantagem de ser a melhor amiga da Fabray?

— Não é melhor irmos atrás do Finn? – demandou Artie, ajeitando os óculos. – Sem ele não podemos voltar a ensaiar.

— É só alguém substitui-lo hoje, ou sei lá. – disse Mercedes, dando de ombros. – O que importa é não perdermos mais tempo.

E, nesse instante, uma luz se ascendeu na mente de Rachel, dando a ela a ideia perfeita:

— Podemos pôr a Quinn no lugar dele.

Todos, incluindo a Fabray, olharam para ela confusos e, de certo modo, até chocados.

— Ficou louca?! – Kurt elevou um pouco o tom de voz, não em irritação, mas em surpresa. – Sem ofensas, Quinn, é só que...

— Não, eu entendo. – a loira o interrompeu. – Também não entendi de onde veio isso.

— Pensem comigo: o Finn não consegue aprender a coreografia e, junto dele, a pessoa que tem a melhor reputação entre nós é a Quinn. – Rachel se explicou, como se não tivesse nada a ganhar com isso. – E ela tem uma bela voz. Às vezes desafina, mas isso é porque não tem os meus anos de prática.

Assim que terminou de falar, viu Quinn curvar levemente os lábios em um pequeno sorriso. O segundo do dia. Pelo visto, até que ela não estava assim em tanta desvantagem...

— Ainda não sei se é uma boa ideia. – Kurt a respondeu, ainda um tanto incerto.

— Será perfeito. – a morena assegurou. – E então...? – voltou o olhar para Quinn, mais uma vez, que apenas murmurou um “tudo bem”, mas que foi o suficiente para fazê-la se empolgar. – Fantástico! Só precisaremos de uns ensaios extras.

— “Ensaios extras”? – Santana repetiu, com desgosto. – Já não fomos torturados o bastante?

Rachel não pensou duas vezes antes de responder o que lhe veio à mente:

— Ah, não se preocupe, eu falo somente de mim e da Quinn.

Assim que o olhar assassino da outra garota recaiu sobre ela, Rachel soube: Santana antes já a odiava, porém, seria a partir daquele momento que a verdadeira “guerra” começaria.

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Quinn estava certa de que era a quinta vez que revirava os olhos desde o final do ensaio. Santana, que parecia extremamente incomodada com a possibilidade de Rachel Berry ter uma queda por ela, não parava de importuná-la para que desistisse de sua maior participação na apresentação do coral para a assembleia. Embora os argumentos usados envolvessem frases como “será péssimo para a sua reputação” e “não venha dizer que eu não te avisei quando estiver sendo atormentada pelo arrependimento”, a loira sabia que a razão de tudo era ciúmes. Admitindo ou não, a latina odiava dividir e, ao que tudo indicava, Rachel queria Quinn para si. Teoria que, curiosamente, soava cada dia mais agradável aos ouvidos da capitã das Cheerios.

— Quer prestar atenção, Gaybray? – a Lopez reclamou irritadíssima. Vinham discutindo a respeito da estranha gentileza de Quinn com Rachel nos últimos dias. – Nós temos um problema sério aqui, que pode significar o fim do seu reinado no McKinley!

— Claro, porque esse é o problema. – Quinn riu, em deboche. – Apenas admita S., será bem mais fácil desse jeito.

— Eu não tenho nada pra admitir. – revirou os olhos. – Só estou tentando te alertar...

— Sant, eu não sou burra. Nós sempre competimos pela liderança da equipe, não é como se porque nós ficamos você fosse deixar de almejar o posto de capitã. Se eu perco minha popularidade, você se torna a nova abelha rainha. Não que eu precise mesmo me preocupar, afinal, tudo depende da treinadora e, até onde ela sabe, nós entramos para o clube com um objetivo simples: destruí-lo. – argumentou. – Agora vai, admite logo que está com ciúmes.

Santana bufou.

— Queria muito saber de onde sai tanta ilusão imbecil. Eu não tenho com o que me preocupar, aquela coisa é horrível. Você seria burra se me trocasse por ela.

Quinn deu de ombros.

— Diga o que quiser, nós duas sabemos que essa é a verdadeira razão do seu mal humor.

Com isso, seguiu até o armário de Rachel Berry, que pegava os materiais necessários para a próxima aula. Ao fechar a porta, a judia se assustou ao vê-la, já que até então, parecia não ter notado sua presença. Sua reação fez a Fabray rir levemente.

— Tudo bem? – perguntou, com divertimento em sua voz.

— Sim, é claro. Eu apenas não vi você se aproximando. – se explicou. – Hm... Soaria desagradável se eu perguntasse por que está falando comigo? Porque, sabe, não é como no auditório... Aqui todo mundo pode nos ver.

— Somos um time agora, Rachel. – fez questão de ser gentil, na intenção de ver como ela reagiria. E valeu a pena. De imediato, um lindo sorriso iluminou o rosto da mais baixa. – Não fará mal se começarmos a mantermos uma relação amigável.

A verdade era que Quinn queria muito saber se Rachel de fato poderia ter algum interesse nela. E se fosse o caso, quem sabe, até mesmo explorar essa nova possibilidade. Não mentiria: por trás de todas as piadas de mau gosto e apelidos desagradáveis, havia certo interesse de sua parte pela estrela do coral. Mesmo que a escolha de estilo da garota fosse um tanto questionável, era impossível ignorar o fato de que ela era sim muito bonita. Parte da implicância tivera início justamente por esse motivo. A cantora chamava sua atenção e Quinn não queria, de maneira alguma, cogitar a hipótese de ser lésbica, bissexual, ou coisa parecida. A “disputa” pelo coração de Finn era, na verdade, o menor dos problemas... Agora que Santana a tinha aberto para esse “novo mundo” e, após algumas conversas, acabara por se dar conta de que Rachel não era insuportável como julgava, não existia mais objeções quanto a tentar tê-la para si. Até porque, se a Lopez podia, tranquilamente, ter uma amizade colorida tanto com ela quanto com Brittany e, ainda, continuar com sua bizarra relação sexual de vai-e-vem – que servia apenas como uma forma de frequentemente reforçar sua falsa heterossexualidade – com o Puckerman, não estaria infringindo nenhuma regra do acordo delas. Ainda que, inevitavelmente, fosse despertar a fúria da latina.

— Tem certeza? – Berry quis confirmar. – Sei que não sou querida no McKinley e não quero ser um...

Quinn, não gostando nada do rumo que o provável monólogo estava tomando, a interrompeu:

— O que eu disse sobre ficar se menosprezando?

— Não é o que estou fazendo. – Rachel asseverou. – Simplesmente constatei um fato. Aos olhos da maioria aqui, inclusive os seus próprios, sou uma perdedora. Não significa que eu esteja me colocando pra baixo.

— Espero que não mesmo. – disse firme. – Porque, se estivesse, nossa conversa teria sido em vão.

— Não foi! – notou certa necessidade na forma como a judia ratificou. – Me ajudou muito, de verdade. Além de me fazer enxergar algo... Muito, muito interessante.

— Fico feliz. – sorriu. – Posso saber do que se trata?

O rubor que se espalhou pela face da menor só serviu para corroborar ainda mais com o que a Fabray havia entendido de sua fala.

— N-Não é nada. – ela riu, constrangida.

— Pensei que fosse algo “muito, muito interessante”... – Quinn redarguiu, soando propositalmente maliciosa. Vendo que Rachel não tinha intenção de respondê-la, continuou: – Mas tudo bem, não precisa contar. Bem... Acabei enrolando e não indo direto ao ponto... Posso ir à sua casa hoje à noite? Sabe... Para começarmos os ensaios extras que mencionou.

— Oh... – murmurou, consigo mesma. A Cheerio adoraria ser capaz de ler a mente dela naquele momento. – Pode sim, claro. Só preciso conversar com os meus pais antes.

— Perfeito.