Ginger and Green
11 Ex and the Why
Notas iniciais
Eu raramente me enganava em qualquer circunstância. Sempre que eu dizia algo e achava que tinha razão, é porque tinha mesmo. Por isso de certeza que a pessoa que estava a bater à porta era aquela que eu já estava a prever.
Fui toda confiante abrir a porta, quando dou de cara com uma pessoa que realmente não constava na minha lista de pessoas presentes na minha vida. Nada mesmo.
Os meus olhos piscavam rapidamente e a minha cabeça estava num turbilhão imenso. Eu nem sabia o que pensar, o que dizer, o que sentir. Estava imóvel e completamente perplexa a olhar para aquela pessoa.
Na minha cabeça só passavam certas questões, entre elas: "Como chegaste aqui?", "O que fazes aqui?", "Porquê que estava ali?", e por aí adiante.
As memórias do passado fizeram-se presentes levando-me ao dia em que a conheci.
"Merda do táxi! Nunca mais chega!"
Eu estava no meu primeiro dia de férias. Tinha ido sair para uma "balada", como a Gabi dizia, e não tinha transporte para ir para casa.
Naquele dia estava um frio de rapar e eu com um vestido curto e de salto alto. Era muita sorte a minha. De certo.
Então farta de esperar, sentei-me no chão e esperei que algum táxi aparecesse, quando de repente senti uma mão a tocar no meu ombro. Virei-me rapidamente com o susto e deparei-me com alguém um tanto fora do normal. Era uma rapariga de estatura média, morena de olhos castanhos e um corpo de louvar. Mas o que mais me atraiu nela foi o seu sorriso. Era lindo.
Eu fiquei tão abobalhada que nem reparei no que ela falou.
— OI?! Gostas das minhas pernas ou não queres dizer?
— Ahn? Quê?! — eu estava demasiado confusa para entender aquela conversa -
— Epá, estás a dormir? — riu-se alto e continuou — Eu estava a perguntar se gostas das minhas pernas para estares tanto tempo colada a elas
— Oh não! Desculpa! Estava distraída.. É que.. és realmente bonita — o meu rosto começou a esquentar e dei graças a Deus por estar de noite
— Oh obrigada! Acho.. — o rosto dela ficou tão vermelho, que nem a noite o cobria — Hmm então.. que fazes aqui sentada no chão?
— Estou à espera de um táxi, mas ele nunca mais chega e a minha casa fica muito longe daqui..
— Anda comigo então.. Eu dou-te boleia — estendeu a mão para que eu a segurasse para me levantar — Vem..
— Não sei se vou — agarrei-lhe a mão, colocando-me de seguida de pé — como posso garantir que não és uma violadora ou um velho pedófilo disfarçado de mulher? E como sei se tu não me vais fazer mal ou violar-me? — olhei-a desconfiada, e ela começou a rir
— Ai meu deus.. Que filmes. Nunca vou fazer nada disso a ti, apesar de seres extremamente apetecível e sedutora, para não dizer que és uma gatona.. Por isso estás com Deus.
— Aff eu vou contigo então.
— Yupi — e começou a gargalhar.
Reviver aquele momento do passado, fez-me aperceber que ainda tenho um grande carinho por ela.
Ela era a minha ex. Foi a única pessoa com quem eu consegui estar mais tempo e que eu consegui realmente gostar depois da Gabriella. O nome dela é Bia e ela morava em Portugal. Conhece-mo-nos naquelas circunstâncias e a partir daí criámos uma excelente relação. Eu gostava realmente muito dela, mas a Gabriella era insubstituível para mim. Por isso a Bia acabou comigo, numa noite fria de Inverno. As únicas palavras que ela disse antes de ir embora foram as que me mais tocaram até hoje, e que têm uma beleza triste e sombria por detrás delas. Uma dor imensa invadia aquelas palavras que cortavam cada pedaço de mim.
"Eu sei que tu não me amas" e foi embora.
Foi a única coisa que ela me disse. E posso garantir que estas palavras, que até parecem poucas, custaram-me noites e noites a chorar, porque fizeram-me entender que tinha acabado de perder a pessoa que me segurava, que me apoiava, que me dava carinho e atenção, que me dava tudo e mais alguma coisa, e que mesmo eu não a amando ela fingia que sim. Isso destruiu um pedaço de mim e a partir desse dia tornei-me uma pessoa muito diferente. Tornei-me fria e sem capacidade alguma de amar.
Vê-la ali foi um choque para mim, mas ao mesmo tempo foi um grande alívio. Ela acalmava-me e acima de tudo era a minha melhor amiga.
Respirei um pouco e recompus-me, até que ouvi a voz dela.
— Olá.. Com esse silêncio todo deves estar a pensar em tudo e mais alguma coisa, especialmente como eu sei que estás aqui. Bem eu à uma semana atrás fui a tua casa em Portugal e a tua mãe disse que tinhas vindo para aqui. E então aproveitei o facto de estar de férias para te vir visitar.
Eu já me tinha lembrado de ti à imenso tempo. Talvez desde a última vez que estivemos juntas. Foi um tormento para mim saber que não te tinha por perto, mas não tinha opção, por isso deixei-te ir. Eu estou cheia de saudades tuas. Não quero começar tudo de novo, mas quero começar devagar e com tempo. Construir alguma coisa contigo, nem que seja uma amizade forte. Porque até isso ia bastar para mim.
Tudo o que ela dizia foi registado por mim, mas eu ainda continuava confusa..
— Mas como soubeste que este era o meu apartamento e como soubeste a minha porta?
— Foi a tua mãe..
— Ah tá bom..
— Hmm.. Posso te pedir uma coisa? — olhou para o chão envergonhada
— Diz.
— Posso ficar aqui durante duas semanas?
— Aqui? Em minha casa? — disse surpresa
— Sim!
— Hmm claro que sim!
Como podia não aceitar um pedaço muito importante em mim de volta à minha vida? Acho que não podia recusar.
Tê-la outra vez comigo era certamente a melhor coisa que me podia acontecer até agora. Mesmo que amasse a Gabriella, precisava de me afastar das suas confusões e indecisões e pelo menos ter alguma estabilidade na minha vida. E era isso que a Bia me dava, de certeza.
Antes de me aproximar dela, visualizei melhor o seu corpo. Estava ainda melhor do que antes. As curvas estavam mais assentes, os seios maiores.. Tinha um ar de mulher. E eu estava a adorar.
Parei de olhar e aproximei-me dela, circundei a sua cintura com os meus braços e abracei-a. Senti-me imensamente bem naquele abraço, como se estivesse protegida outra vez.. Era mágico.
A Bia era a pessoa ideal para mim, mas eu não consegui passar à frente da Gabriella. Custava-me mais ficar com a Bia e não retribuir o que ela sente, do que estar com a Gabriella numa relação muito instável.
Mas penso que a Bia vai ser um ótimo recomeço para mim. Ela dá-me tudo o que eu preciso e eu dou-lhe tudo o que ela precisa. Completá-mo-nos de uma maneira estranha, criando um grande elo entre nós. Não quero também iludir a Bia, mas quero começar algo diferente com ela. Algo que não nos traga mais problemas.
Separei-me dela e olhei bem fundo nos seus olhos. Aquela faísca que outrora existia entre nós, permanecia ainda lá bem fundo nos nossos olhares.
Foi ela que me trouxe à vida, depois de me ter perdido sem a Gabriella. De alguma forma, ela foi a minha salvadora e não há formas possíveis de agradecer tudo o que ela fez por mim. Simplesmente não há.
Ela tirou-me da escuridão e cuidou de mim como nunca ninguém havia cuidado. Antes dela só apareciam pessoa frias e sem qualquer ponta de compaixão dentro de elas. Não existia amor simplesmente. Era tudo frio e vazio, sem ponta por onde pegar. Uma merda.
Quebrou o nosso contacto e retornou a falar:
— Então isso é um sim? — fez um ar de pidão
— Sim Bia sim — mal eu falei, começou aos pulos e entrou em minha casa, começando a arrumar tudo e mais alguma coisa.
— Não comeces já com as tuas manias das limpezas, ok?
— Desculpa Ari, sabes como sou.. — gargalhou
— Sei e muito bem — sorri travessa
— Tu não prestas — disse com falsa indignação
— Então que fazes aqui?
— Tu não prestas mas serves perfeitamente para mim — veio em minha direção e mordeu-me a bochecha
— Engraxa agora — ela virou-se e eu aproveitei para lhe dar uma tapa no rabo e comecei a rir quando ela virou-se e mostrou-me o dedo do meio.
Passados aqueles incidentes todos, ajudei-a a arrumar as suas coisas e a preparar um quarto para ela, apesar de eu já saber que ela vinha sempre para a minha cama. No almoço, preparei-lhe a sua comida favorita, pizza, e que posso dizer que aquela pizza estava divinal. Depois passamos o resto do dia sentadas no sofá a contar as nossas vidas e a trocar alguns carinhos.
E passou-se assim mais uma semana. A Bia andou sempre comigo e ajudou-me sempre em tudo o que eu precisasse. Fizemos jantares, almoços, festas, muita porcaria. Naquela semana senti-me imensamente bem. Tê-la por perto era realmente muito gratificante. E eu adorava cada minuto que passava com ela.
Naquela semana, fomos sair e visitar a cidade. Era uma cidade realmente enorme, cheia de história e como ela diz "de coisas velhas". Tinha imensas coisas antigas como casas, tinha 2 castelos, igrejas, e outros monumentos que não deu para decorar o nome. Era tudo muito bonito e frágil, que se tocássemos nas paredes, caía logo um pedaço de tinta ou de pedra.
Depois fomos comer a alguns restaurantes chiques, já que a Bia trouxe a sua conta bancária toda. Como sempre. E também fomos frequentar alguns bares que por ali estavam, repletos de gente bêbeda e de mau cheiro. Horrível. Eu sempre que passava nesses bares só me apetecia fugir dali, era nojento. Mas lá no meio de tanta confusão, encontrámos um bar de jeito, onde estivemos a descontrair e a contar mais aventuras.
Uma das situações que ela me contou foi realmente cómica. Ela estava a passear pelo Alentejo que é uma zona quase deserta no Sul de Portugal, quando de repente um senhor meteu-se à frente do carro dela. Ela como vinha com o rádio praticamente a berrar dentro do carro que nem se apercebeu que o senhor estava a falar. Ele gesticulava e fazia gestos estranhos, coisa que a Bia não entendeu. Então ela desligou o rádio, e saiu do carro e perguntou:
— O senhor falou alguma coisa?
— Falei sim minha menina! Estava avisando que estão vindo as vacas e as ovelhas! — disse ansioso
— E o que eu tenho a ver com isso?
— Elas podem estragar o seu carro menina — disse apavorado
— Pronto tenha calma, eu chego para trás
Entrou de novo no carro e chegou-se mais para trás, quando de repente uma montanha de animais passou à frente dela. Ela disse que esteve quase 3h à espera que aqueles animais passassem todos. Coitada.
Essa situação arrancou imensas gargalhadas entre nós. Porque nem foi a história em si que causou piada, mas sim a forma que a Bia contou.
E passou-se assim uma semana cheia de aventuras e promessas que só nós as duas sabíamos. E mais ninguém.
Na semana seguinte tudo continuava igual. Fizemos as mesmas coisas, pesquisámos mais um bocado da cidade e partilhámos mais ideias e aventuras até que um dia, o jogo mudou.
Era uma sexta-feira. Dia propício para ficar de dia em casa e de noite ir sair. E eu e a Bia íamos fazer exatamente isso.
Fizemos tudo normal da parte da manhã, quando de tarde a campainha tocou.
Não fazia a pálida ideia de quem era, mas deduzi que fosse o George, já que não falávamos à imenso tempo. Então, fui abrir a porta quando dei de cara com a Gabriella.
Ela estava linda como sempre, com um vestido básico e um sapato igualmente básico. Ela sorriu para mim e falou:
— Oi Ari, vim aqui saber se recebeu meu buquê e se gostou.. — aproximou-se e segurou minha mão, mordendo o lábio
— Oi Gabi, recebi sim e adorei, obrigada! — acabando de dizer aquilo, ela ataca logo os meus lábios
Quebrámos o intenso beijo e ela continuou:
— Eu bem sabia, sabe ho.. — ela ia acabar de falar, mas naquele instante a Bia apareceu
— Hey amor, quem é esta rapariga linda aqui? — disse sorrindo para ela
Mal a Gabriella ouviu a palavra "amor", uma mistura de cores apoderava-se da sua cara e uma fúria intensa a invadiu
— SUA VAGABUNDA! SUA VACA! COMO É CAPAZ DE FAZER ISTO COMIGO QUANDO EU FAÇO TUDO, MAS TUDO POR VOCÊ!! E AGORA VOCÊ JÁ TEM OUTRA?! E AINDA POR CIMA CHAMANDO AMOR A VOCÊ?! DEVE ESTAR DE BRINCADEIRA SÓ PODE!! SÉRIO, SAÍA DA MINHA VIDA E AI DE VOCÊ QUE ME PROCURE!! VOCÊ NÃO PRESTA ARIANA, NÃO PRESTA!! — lágrimas escorriam ferozmente dos olhos dela e um coração partido era notável.
— GABI ESPERA!!! GABI!!... — mas já era tarde demais. Ela já tinha ido embora destroçada por eu lhe ter magoado outra vez. O meu coração simplesmente caiu e partiu-se me milhares de pedaços.
Eu não conseguia chorar. Doía tanto que nem uma lágrima escapava, porque se escapasse a dor era ainda mais insuportável e doentia.
Deixei-me ir pelo abraço que me foi dado pela Bia, sentindo assim um pouco de conforto, mesmo que esse não valesse de nada.
Tudo tinha ficado tão escuro e tão vazio. Sentia-me terrivelmente perdida no meio daquela dor. Custava-me acreditar que se calhar tinha voltado a perdê-la, mas que desta vez para sempre, e que ela seguiria a sua vida sem eu por perto. E pensar nisto tudo, pesava-me cada vez mais na alma. O meu corpo tinha perdido todas as suas forças e os meus sentimentos tinham sido abalados severamente.
Passei o resto da tarde deitada no sofá com a cabeça repousada nas pernas da Bia e a deprimir. Tudo doía, tudo estava tão frágil, tão doloroso. Eu naquele dia nem jantei. Fui direta para a cama e tentei adormecer, coisa que foi em vão.
De repente, senti um peso na cama e sabia muito bem que era o meu porto de abrigo. Agarrei-me a ela o mais forte que pude e deixei-me adormecer, enquanto ela fazia-me pequenos carinhos na cabeça e protegia-me de tudo e de todos.
E era uma pena não amar aquela rapariga. Ela era o ideal, mas eu gosto de desafios. E a Gabriella era um deles. Era o maior e o mais perigoso desafio da minha vida. E eu de alguma maneira adorava aquilo.
Mas o meu maior medo era só um: perder ambas as raparigas mais importantes para mim.
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