Gigantes Vermelhos- O Sangue do Caos
1 Pesadelos
Notas iniciais
(Narrador)
Estava correndo no escuro, em um lugar frio.
Sophia estava ficando assustada. Não o susto visceral e rápido de ver um vulto em aparência humana – e isso já acontecera na noite anterior. Era como uma névoa. O frio. Como ver o derreter do gelo. Era aquele mesmo sonho há dias. Sempre a mesma imagem; corria o mais que podia, sentindo o frio penetrar em seus pulmões como aquelas agulhas: afiadas e gélidas. As mesmas agulhas de medo. Tentava alcançar algo, com tanto esforço, mas o ponto brilhante na escuridão fugia para longe.
Sentiu que caía para frente, de repente.
Sophia gritou no ar sufocado que existia abaixo das cobertas. Segurou o próprio pescoço, que sufocara depressa em dois segundos de pânico. Ar. Precisava de ar. Passou o volume do lençol por cima de sua cabeça para tirá-lo, e chutou-o para os pés. Embora o frio não fosse sua melhor lembrança, era bem-vindo. Agarrou os joelhos e abraçou-os. No quarto ao lado, seu irmão não deveria ter acordado. Do outro lado do corredor, seu pai e sua madrasta não deveriam ter acordado. Sophia pedira isso, pedira que não se importassem quando isso acontecesse. No começo, se sentira melhor assim, sozinha.
Olhou pela janela que ficava a alguns passos de sua cama. As grossas cortinas de chuva caíam no escuro, cortadas vez ou outra por descargas brancas de eletricidade.
Agora, não tinha tanta certeza se o escuro de seu quarto era tão acolhedor.
—Foi só um sonho — sussurrou para si mesma. Fora ela, não havia ninguém ali mesmo – Foi só uma droga de sonho.
Sentou-se na cama, abraçando-se, e calçou os velhos sapatos. Vestiu o roupão e segurou-se à porta do quarto. À parede do corredor. Ao corrimão da escada. Acendeu a luz da cozinha.
—Oi.
Sophia reprimiu outro grito. Cobriu a boca, com os olhos arregalados. Em seguida seu rosto se retorceu em uma careta. Da mesa, Glenn, seu irmão, riu.
—As pessoas deveriam evitar ter o segundo filho — bufou Sophia— se for para ele sair assim.
Glenn lhe ofereceu uma xícara com um líquido marrom escuro, que soltava vapor no ar gelado.
—Na verdade — fala Glenn — Sou o primeiro filho. Você também, o que me faz merecer seu respeito.
Sophia sentou-se pegou a xícara pelo lado oposto à asa. Uma sensação quente subiu pelos seus dedos e desceu pela sua garganta. Seu corpo parecia estar bem disposto outra vez, embora sua cabeça ainda latejasse, negando com todas as forças uma dose de cafeína.
—Ah — Glenn respirou fundo — Como eu adoro café.
—Você detesta café, qualquer coisa que lembre café ou cheire a café, e isso inclui nossa avó – lembrou-lhe Sophia, o canto da boca se curvando em ironia — O que não faz sentido, afinal, ETs adoram café.
—Sophia — Glenn respirou fundo outra vez, mais efusivamente e com os olhos brilhantes — seu senso de humor deprime.
—O que aconteceu? Bateu com o carro do nosso pai?
Glenn balançou a cabeça negativamente.
—Foi atacado pelo cachorro dos Jackson?
—Não.
—Atacou o cachorro dos Jackson? — Sophia inclinou-se para o irmão, com a testa franzida.
Glenn encarou-a com os olhos bem abertos, a íris escuras quase se perdendo no branco.
—Isso é meio cruel de pensar.
Sophia tomou mais um pequeno gole de café, ruminando. O que realmente fazia um adolescente de quinze anos chegar em casa no meio da madrugada, e silenciosamente beber o que mais detestava?
—Você terminou com a sua namorada. Motivo?
—Não. Ela terminou comigo... Ela prefere Melissa Jackson. Minha namorada me trocou por uma garota. Pior: a minha vizinha!
Sophia não pode deixar de rir ao ver a expressão do irmão. Desde sempre perdia brigas para o cachorro, a caçula e a mais velha dos Jackson; agora, perdera a namorada também. Glenn encarou a xícara ainda cheia de café quente, com a fumaça quente colidindo com a névoa que saía de sua boca, criada, em parte, por um aquecedor quebrado.
—Vamos arrumar sua mala. — falou Glenn — Você ainda não fez isso. Conheço você.
Sophia soprou vapor de sua xícara.
—Passei a tarde ligando para minhas tias. Uma delas disse que eu poderia passar o verão lá, sabe, há alguns quilômetros daqui. Você podia me ajudar a convencer sua mãe...
—Você vai com a gente. Não vou deixar você passar o verão limpando a sujeira dos gatos, embora isso valesse ouro em um vídeo — Glenn riu maldosamente — Mas não. Me dê um bom motivo para eu sofrer sozinho nessa viagem.
—Tenho asma — falou Sophia.
—Quando você tinha nove anos, não fomos à praia por causa da sua asma idiota, que tinha sumido dois anos antes. Você era uma boa mentirosa.
—Tenho medo de altura.
—Não tem não.
—Estou grávida.
Os dois permaneceram em silencio, encarando-se e sentindo o vapor do café. Começaram a rir alto, fazendo um barulho na garganta que, para eles, era aceitável apenas “entre irmãos”.
—Essa foi horrível, cara — Glenn tentava puxar o ar. Sophia ria enquanto segurava a xícara de café quente.
Uma pontada forte de dor acertou sua têmpora, como se quisesse perfurar seu crânio. Sophia gritou, agarrando a cabeça. A xícara rolou da mesa para o chão, despejando todo o seu conteúdo sobre o tampo escuro. Glenn quase saltou pelo lado da mesa antes que Sophia desabasse sobre ele.
—Ei — chamou-a, enquanto afagava sua cabeça — Ei! Tente se concentrar em mim, ok?
Sophia empurrou-o, enterrando a cabeça entre os braços, com os cotovelos encharcados de café repentinamente frio. Glenn ajoelhou-se ao seu lado.
—Já passou certo? Quer... Falar o que foi desta vez?
Sophia negou, soluçando.
—Melhor ir dormir — fungou — Eu limpo isso, ok?
Glenn baixou a cabeça. Levantou-se e beijou a mão direita da irmã, afundada nos cabelos. Sophia tremia, e Glenn tinha certeza que não se tratava de um aquecedor quebrado, ou qualquer coisa que pudesse ser concertada com marteladas, o que, se tratando dos Edan, era realmente uma pena.
—Boa noite — falou ao alcançar a escada.
(Sophia)
Arrumei a mala por simples obrigação de meu pai e de Anne. Não havia nada mais esclarecedor que uma simples bronca paterna. Lá fora todos já me esperavam no carro, embora eu ainda tivesse a esperança de que tudo não se tratasse de uma piada.
Bufei.
—Droga — sussurrei. então sorri, afetada, matando o riso ainda na garganta — Mas que droga, Anne.
Iam ser 45 minutos de estrada até o aeroporto. Olhei pelo vidro do carro até perder nossa casa de vista. Eram férias de julho, e Anne preparara uma viagem a um lugar estranho. Ela podia ser legal em muitas coisas, mas eu dispensaria sua ajuda para escolher um roteiro de férias, que não fosse a algum lugar cheio de neve, vento ou completamente deserto. Anne não gostava de lugares bonitos, históricos e calmos. Ela tinha de estourar em alguma coisa.
Stenfoll era o nome do lugar. População, 2.368 pessoas, no leste do Alasca, supostamente menos congelante no verão, ao menos era o que dizia alguns meteorologistas de botequim. O que eu sinceramente acho que é apenas mais uma desculpa do meu pai pra me fazer ir.
As horas no avião foram torturantes. Odeio voar, odeio altitude, frio, lugares estranhos, e às vezes eu não tinha outra escolha que não fosse apelar para o complexo de EDEOM: “é dormindo que se esquecem os medos menores”. Adormeci aos poucos, quando ia lendo um livro que comprei numa lojinha de aeroporto. Interessei-me por ele por dois motivos: ele era o único com aquele título na prateleira, portanto, ele era um excluído, como eu. Segundo: se ninguém o quis, ele era um estranho. As coisas estranhas são sempre melhores por serem inesperadas. Assim como as coisas sem sentido só as mais perigosas por serem imprevisíveis. Lembro-me dessa última frase em especial, afinal, meu pai sempre disse que era uma das frases preferidas da minha mãe.
Sophia, meu nome, foi escolha dela, antes do que... Aconteceu, cerca de dois minutos depois que eu nascesse. Eu conheço o rosto dela por fotos, mas a maioria é borrada e tirada em segredo, pois minha mãe detestava fotos. A minha favorita é a que a mostra na praia, rindo e segurando uma concha junto ao ouvido. Os peixes estão todos mortos, querido, não ouço porcaria nenhuma!
Rio com essa memória, que nem mesmo é minha. Queira ter seu rosto ou sua personalidade. Mas ela me deixou suas fotos borradas e seus olhos cinzentos.
Eu... Se eu dissesse qualquer coisa concreta sobre mim, eu estaria mentindo, afinal, eu mudo o tempo todo. E acho que todas as pessoas normais são assim. Mas no fundo eu sou mais estranha que a maioria dessas pessoas, e estou dizendo a verdade, afinal, isso nunca mudou.
E eu não me sentirei melhor quando isso mudar.
Chegamos a um aeroporto e desembarcamos. Muita chuva, mesmo. O estranho é que o livro que eu estava lendo sumiu, assim, quando eu acordei. Mas como eu era perita em perder coisas, ele reapareceria por pena em algumas horas. Deixei minha bolsa bem fechada e não o procurei.
Como vista, eu tinha pinheiros e placas velhas avisando sobre quilômetros. Fechei os olhos e encostei a cabeça no carro, com minha música favorita fazendo eco no centro da minha cabeça, viva lá dentro.
Chegamos aos limites da cidade recebidos por caseiros locais. Era difícil acreditar que houvesse pessoas dispostas a passar as férias de verão em um lugar assim. Pessoas que eu conheço como família. A casa que meu pai alugou ficava mais afastada do centro da micro-cidade. Ah, sim, a casa. Não há hotéis ou pousadas em Stenfoll, por isso, eles alugam casas velhas e desabitadas, pois os moradores tinham um êxodo constante para a metrópole mais próxima. Glenn e eu fomos ver os quartos, no andar de cima. Entrei em um que tinha meu nome talhado em uma placa de madeira que pendia da maçaneta da porta. Coloquei as malas em um canto, e tentei ligar a TV. Não funcionava. Dei um soco em sua parte de cima, mas tudo o que consegui foi uma imagem fantasma.
Sentei na cama, de colcha azul, olhando para fora da janela. A chuva continuava.
O dia parecia estar só esperando para ficar mais entediante, para me desafiar. Ponto para ele.
Mais tarde, quando a chuva passou, meu irmão e eu fomos dar uma volta pela cidade. Era minúsculo. Algumas casas, bancas, lojinhas com lembrancinhas de “eu estive em Stenfoll”, com a carinha feliz de um lenhador gorducho enchido com serragem, uma escola, nada de internet, uma igreja, um restaurante, e um cartório, pelo que andamos. E andamos muito. As pessoas nos olhavam como se fossemos forasteiros, e éramos naquela cidade. Logo percebi que, assim como eu, elas estavam apegadas a rotina, e pessoa novas em seu próprio ambiente, era uma coisa no mínimo, estranha. Como alguma coisa legal dentro de um kinder ovo. Impossível.
Entrei em um lugar que tinha “livraria” escrita em letras grandes e azuis. Glenn disse que ia ver melhor a cidade e voltaria logo. Ótimo, ele me deixou sozinho, beleza de irmão. Assim que eu entrei, a sinetinha que ficava pendurada na porta tilintou. Lugar calmo, tranquilo, pacato. Fui até uma estante que indicava ter livros sobre ficção e mitologia. Aquele livro que eu li no avião era bom, mas eu não conseguia encontrá-lo em lugar nenhum. Fui até o balcão, olhei para alguns folhetos pendurados. O atendente me perguntou:
—O que deseja?
“Você”.
—Eu... —fiquei meio magnetizada pelos olhos azuis, coroados pelo seu sorriso comum a estranhos, embora eu não estivesse me importando, mas voltei à realidade — Vocês tem o livro... Arcádia?
—Vou conferir. — ele falava, enquanto conferia no arquivo do lugar. — Você é nova aqui não é?
—Sou. Sophia. — estendi a mão e nos cumprimentamos civilizadamente- Minha família veio pra cá para passar as férias de... Verão. —disse, dando um meio sorriso torto— pra passar três semanas, no máximo, no máximo.
—Está gostando?
—É meu primeiro dia, mas... É bem legal— menti— tranquila, calma, e essas coisas ótimas.
Ele riu, ainda olhando na direção da tela do computador
—Seus pais escolheram o lugar, certo?
—Talvez — ri sozinha, sem motivo. Olhei no crachá de serviço: Taylor Reymond. — Taylor.
—Você mora onde?
—São Francisco. Você mora aqui faz muito tempo?
—Bom, eu, era da Virgínia do Sul, vim pra cá pra estudar e me apaixonei pelo lugar. Meus pais queriam que eu voltasse... Mas eu não quis deixar Stenfoll.
—Você mora sozinho?
—Moro. Ou quase... Acho que seu livro não está disponível. Sabe. Arcádia é uma edição bem limitada. Mas se quiser que eu procure no...
—Não, tudo bem. — tento evitar a frustração que me abate de repente, mas ela é estranha até mesmo para mim. É só um livro — Esquece... Então, te vejo qualquer hora?
—Meu expediente termina às cinco. – ele arriscou, com o canto da boca em dúvida, assim como seus olhos — Seus pais sempre a avisaram para não falar com estranhos, nem aceitar suas caronas ou seus doces, certo?
—Mas se não me oferecer doces, está tudo bem — secretei, sussurrando. Um sorriso travesso e torto foi dividido por nós dois.
— Ótimo. Sou um cavalheiro à moda antiga, senhorita. E sou um ótimo anti-guia turístico também.
—Então — falei, sem a mínima confiança naquilo, mas com vergonha de desfazer — pode ser.
—As seis?
Assenti com a cabeça e saí, olhando pelo vidro da loja, os olhos dele. Minha pose acabou quando eu tropecei numa planta e quase caí de joelhos. Olhei de volta pelo vidro. Nós dois rimos daquilo, fazendo eu quase esquecer de que estava vermelha, mas até que quando o sol queimava minha pele, algo em um tom moreno oliva. A única coisa que eu gostava em mim. Não encontrei meu irmão, por isso fui pra casa logo.
A uns cem metros da casa, vi uma coisa entre as folhas mortas no chão, uma espécie de chave, pequena para ser de um carro ou uma casa, e grande para ser de um diário, e com inscrições talhadas na lateral, letras rebuscadas.
Senti que precisava saber o que era isso. A sensação que temos, fugitiva de dentro de nós, que anuncia uma de três coisas imutáveis: um segredo, uma aventura ou um grande erro.
A dor de cabeça voltou forte.
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