Ghosts Just Wanna Have Fun
1 Capítulo 1
Notas iniciais
E o tempo já havia piorado. A chuva caía em rajadas, congelante e sem dó de nada nem ninguém embaixo dela. O céu cinzento e nublado deixava cair pequenas farpas de gelo, que insistiam em pinicar o rosto dos que estavam expostos. Já os protegidos pelos grandes guarda-chuvas escuros sentiam dificuldade de ouvir as palavras de conforto, que aquele membro da família pronunciava em homenagem ao rapaz vítima de um terrível acidente. Cenário perfeito para um enterro em Kanagawa.
Takashima Kouyou, ou Uruha para alguns amigos, era apenas um corpo presente. Sua mente, nem ele nem ninguém sabia para onde vagava no momento em questão. Sua atenção estava toda e completa, na grama quase coberta pela neve. Tudo era mais interessante do que aquele clima, aquele mar de gente se afogando em lágrimas, aquele arranjo esplendoroso de flores depositado em cima do caixão fechado do seu grande amigo.
- Maldita hora em que eu resolvi te dar ouvidos, Shiroyama. – disse em um tom baixo de para si mesmo, praguejando seu amigo homenageado da tarde. Duvidou que alguém mais pudesse ouvir. – ‘Não existe nada de perigoso nisso Kou, é apenas uma viagem de barco como as outras. Eu sei o que eu estou fazendo.’ Idiota. – imitou com voz de deboche as palavras que o outro rapaz as havia deferido a ele, antes de sair para velejar naquela mesma semana. Talvez ele soubesse mesmo, se ao menos tivesse a decência de prever aquela tempestade horrível, que já durava dias a fio. Yuu era sim, experiente com barcos, mas definitivamente não era á prova de tempestades daquela magnitude. Definitivamente.
- Minha ficha está difícil de cair. – alguém com uma voz familiar se aproximou de Kouyou, tocando seus ombros em um gesto de reconforto. – Juro que hoje eu acordei, esperando o meu celular tocar, e ouvir o Aoi me xingar em cinco idiomas antes de me dar bom dia e perguntar onde ele havia deixado o carro dele na noite anterior.
E pela primeira vez o rapaz sorrira. Não fora bem um sorriso, mas se parecia muito com um.
- Ele tinha mesmo um dom de esquecer esses tipos de detalhes. – lembrou ao amigo, também de longa data, a quem tinha um enorme carinho.
Shiroyama Yuu, que preferia ser conhecido por Aoi, era adorado por todos. Tinha um jeito único, e uma mente brilhante que encantava e fascinava gente de todo o canto do mundo. Era rico, viajado e acima de tudo era humilde e de um coração nobre. Divertido, extrovertido em praticamente em todos os momentos, e era o único que sabia mesmo como cuidar de Kouyou. Agora, ele estava sozinho.
- Ele não faz idéia da falta que vai fazer a todos. – Ruki disse por fim, se afastando do amigo na direção de seu carro. Kouyou sabia que ele choraria lá, por alguns minutos e voltaria quando ninguém mais estivesse presente, para conversar à sós com o amigo, como sempre fez enquanto Aoi era vivo.
Uruha já não tinha esse estômago. Não pisaria em um cemitério por muito tempo, mesmo que alguém resolvesse ter a infeliz idéia de morrer amanhã cedo.
E quando a cerimônia já estava no fim e muitos já se dirigiam para suas respectivas casas, o rapaz também decidira seguir o seu caminho para casa. Kouyou fora o primeiro a chegar, mas não seria o último a sair graças ao cansaço já tomava conta de todos os seus ossos. Pensou que nada melhor do que uma cama quente naquele momento. Talvez uma garrafa de whisky cairia bem mais tarde, quando alguns pensamentos ruins voltassem a atolar a sua mente. Tratou logo de despedir-se da família do morto, dizendo algumas poucas palavras que ensaiara segundos antes, e seguiu para seu apartamento, a pé.
Quinze minutos de caminhada e a fachada de seu prédio já despontava à frente. Suspirou, atropelando alguns pedestres que ousavam atrapalhar a sua rota. Pensou ter escutado alguém pronunciar um ‘Boa Tarde’ enquanto adentrava no elevador, mas fingiu ser apenas fruto da sua imaginação. Ninguém em sã consciência teria a audácia de qualificar como boa àquela que ele pensava ser a pior e mais trágica tarde de todas. A maldita tarde em que vira seu melhor amigo em todo o mundo ser deixado a sete palmos do chão.
Nono andar. Apartamento 325. Colocou a chave na fechadura, sem ao menos olhar para o que fazia, e abriu a porta já retirando o pesado casaco encharcado e o atirando no chão. Foi direto para o quarto, com as luzes ainda apagadas. E que se danasse a maldita pneumonia que pegaria, mas entraria embaixo das cobertas daquele jeito mesmo.
Tocou no interruptor, e a luz forte do quarto o incomodou por alguns instantes. Porém, algo chamou mais ainda a sua atenção.
A mesma calça jeans surrada, que um dia já fora preta. A mesma blusa de lã escura e gola alta. O mesmo gesto de impaciência com os braços cruzados próximo ao peito. A exata mesma mania de morder no lábio quando esperava certas explicações. O mesmo olhar, o mesmo cabelo. Estava tudo ali bem na sua frente, com uma cara de poucos amigos.
Seu melhor amigo. O que ele acabara de deixar no cemitério, dentro de uma cova, sem possibilidade alguma de ter saído de lá apenas espanando a terra da sua roupa, e o arrastando todos para algum bar de esquina comemorar a sua volta.
Era o Yuu. Aoi. O morto.
- Eu disse a você... – demorou alguns segundos até sentar-se na cama, e começar a tamborilar os dedos no travesseiro fofo de plumas. – Eu disse que queria ser cremado, Kou. – coçou a nuca, tentando buscar algo em sua mente. — Que parte do “Espalhe a droga das minhas cinzas no mar, Uruha.” você não entendeu?
Os olhares voltaram a se encontrar, e de repente, tudo começou a ficar escuro e confuso para Uruha. A suposta aparição riu, balançando a cabeça em negação e logo tratou de iniciar uma contagem regressiva mentalmente. Obviamente, ele ia desmaiar.
‘Só pode ser piada.’ Foi exatamente a única coisa em que conseguiu pensar antes de cair duro como uma pedra no chão frio do apartamento.
Continua!
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