Ghost Town
1 Um dia como qualquer outro
Notas iniciais
Sempre sou acostumada a acordar nove da manhã, todos os dias. Parece que tenho um relógio em minha cabeça que me impede de dormir uma hora a mais. Minha vida é sem graça e rotineira, não tem um dia que seja diferente. Depois que acordo, fico uns dez minutos sentada na cama, olhando para a parede e tentando ter coragem para levantar e viver mais um dia entediante. Vejo não haver mais saída, levanto e vou para o banheiro, escovo os dentes, lavo meu rosto e depois volto ao quarto para trocar de roupa.
Vivo em um condomínio e até que gosto de viver aqui, me sinto segura e minha vizinhança é tranquila. Moro aqui faz quase quatro anos.
Meu pai meio que administra tudo aqui, já que todos o amam e de certa forma o admiram pelas coisas que ele faz por esse condomínio. Na verdade não tem como não gostar dele, e não falo isso pelo simples fato dele ser meu pai, mas pelo fato dele ser aquele tipo de pessoa que sempre ajuda os outros, não importa o que possa acontecer com ele.
O nome dele é Jack e tem uns 38 anos, por aí. As mulheres daqui são apaixonadas por ele e sempre fazem de tudo para agradá-lo. Acho algumas coisas um exagero, mas infelizmente não posso impedir que ele ache uma namorada legal e que o faça tirar a cabeça do trabalho por um segundo que seja.
Minha mãe morreu quando eu nasci então as únicas lembranças que tenho dela são fotos e histórias que meu pai sempre conta. Eles eram apaixonados e se conheciam desde criança. Quando nasci minha mãe tinha só 19 anos, e meu pai tinha 20. Era muito nova, e às vezes fico pensando no por que ela morreu para que eu ficasse em seu lugar.
Mesmo nunca a conhecendo, sinto uma ligação muito forte com ela e a sinto sempre do meu lado – Sim, eu acredito em espíritos e acredito que ela está comigo a cada segundo da minha vida. Ela era morena e tinha os olhos da cor de esmeralda. Era baixinha e seus cabelos batiam na cintura. Meu pai fala que ela, mesmo sendo baixinha, era corajosa e sempre enfrentava seus medos. Era até mais corajosa que meu pai. Ele também diz que ela tinha um coração grande e sempre pensava nos outros antes mesmo dela – Acho que foi com minha mãe que ele aprendeu a ser assim. Ele diz que eu me pareço muito com ela, tanto a aparência quanto a personalidade.
Meu nome é Pearl, mas eu pai me chama de Pequena Jay por que esse era o nome da minha mãe. Quando ele me chama de Pearl, quer dizer que a coisa tá bem feia pro meu lado. Eu o chamo, na maior parte do tempo, de Jack.
Voltando a falar da minha rotina, meu pai nunca está em casa quando acordo. Ele sempre sai bem cedo para trabalhar e deixa um recado na geladeira para mim com alguma frase de motivação, alguma piada ou algum pedido. A única parte do meu dia que eu gosto é essa, pois todo dia é diferente – Eu nunca sei de onde ele tira tanta frase e tanta piada, mas pra mim é o que menos importa.
Depois que tomo meu café da manhã, pego um livro e vou me sentar na varanda. Acredite, é a única coisa útil que eu tenho para fazer o dia todo. Na hora do almoço, Cameron sempre vem para almoçar comigo.
Cameron é meu melhor amigo e a pessoa que eu mais gosto aqui – tirando meu pai, claro. O conheci quando a mãe dele tentou dar em cima do meu pai, mas não deu muito certo. Desde então não tem um dia que não ficamos juntos, até por que se não fosse por ele, eu seria sozinha aqui. Ele tem minha idade, 18, e parece o tipo de cara metido que se acha, mas tem um coração mole e é o oposto do que parece. Ele tem aquele típico cabelo de playboy, meio bagunçado propositalmente e loiro. Os olhos dele são verdes e ele tem um olhar meio indescritível.
Eu já fui apaixonada pelo Cameron, mas isso faz um bom tempo. O que importa na história entre nós é que ele quem faz o almoço, todos os dias, e isso me salva de não passar fome ou ter que comer algo queimado feito por mim.
Depois de almoçarmos sempre vamos para um pequeno lago que temos aqui e ficamos sentados lá, conversando sobre várias coisas e sobre coisa nenhuma ao mesmo tempo. Esse lago fica em frente à minha casa, então quando vejo meu pai chegando – lá pras 07:30 da noite – me despeço do Cameron e vou correndo para pular em cima do Jack. Incrivelmente ele sempre se assusta quando percebe um ser quase anão em cima das costas dele e então, depois de alguns segundos, ele me abraça forte e me dá um beijo no rosto.
Quando entramos em casa, ele vai tomar um demorado banho enquanto esquento a comida do almoço para o jantar – A única coisa que eu sei fazer sem queimar. Nós jantamos e ficamos conversando sobre nosso dia. Ele sempre, SEMPRE, pergunta sobre eu e Cameron com a esperança de que eu fale que o beijei — meu pai adora o Cameron como se fosse um filho, o que é meio estranho já que ele quer que fiquemos juntos – mas ele sabe que isso não vai acontecer, até por que hoje em dia vejo Cameron como um irmão (um irmão bem lindo, mas apenas um irmão).
De vez em quando meu pai leva John para jantar conosco. John é o melhor amigo do meu pai e eles dois se conhecem desde criança, então são praticamente irmãos. Ele é um cara muito legal, faz piada de tudo e nunca está triste, sempre fazendo com que eu e todo o resto do pessoal aqui do condomínio fiquemos felizes e bem. Tem uns dois metros de altura mais ou menos e sempre está com um boné de beisebol que parece ter mais idade que ele. É bem grandão e tem jeito de lutador, então quem o vê de primeira tem um pouco de medo dele. Posso dizer que se não fosse por ele aqui com meu pai, talvez Jack não fosse assim.
Esse deveria ser um dia como qualquer outro, mas então depois de dois anos, tivemos uma pequena surpresa nos portões. Todos saíram de casa assustados com o barulho no portão principal, então meu pai foi ver e tentar resolver aquilo que estava assustando todos os moradores. Cameron saiu correndo de casa para ficar do meu lado – ele é um amigo muito atencioso. John foi ajudar Jack com mais alguns carinhas.
Depois de dois anos em paz, depois de dois anos sem sermos perturbados, uma horda daquelas coisas estava vindo em nossa direção, sem motivo algum. Então consegui escutar gritos e tiros, pessoas pedindo ajuda e pedindo que abrissem os portões. O que meu pai vai decidir fazer? Não faço a menor ideia.
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