Ghost
1 Capítulo Único
Era tarde da noite. A madrugada já havia chegado, e mais uma vez, eu não conseguia dormir. Sabia porque não conseguia, mas não tentava mudar. Tentei dormir, mas tudo o que obtive foi uma deitada relaxante, sem pregar os olhos enquanto encarei a escuridão de meu quarto. De canto a canto, só pude ver um cinzento enegrecendo as paredes e um pouco da luz lunar pela fora da janela. Eu pretendia passar mais uma noite daquela forma, pensando no nada e alcançando o nada, até dormir.
No início, o som foi quase inaudível. Quase porque mesmo penetrando meus ouvidos, eu o ignorei instintivamente. Talvez estivesse acostumada com isto, talvez o nada estivesse me distraindo. O som veio em seguida, e em seguida, até que não foi mais possível ignorá-lo. E na verdade, eu não queria ignorá-lo. O som da voz de um cachorrinho. Para mim eles tinham vozes, sentimentos, almas e corações. São vivos, e por estarem vivos, são como à mim. Talvez só o cair da noite trouxesse este tipo de pensamento à tona; mas pensar até na razão de estar pensando nisso me levou à conclusão de que eu pensava demais. Não era ruim. O tempo passava, minha vida encurtava e eu me sentia bem comigo mesma. Pensar era assim para mim.
Ignorei o som como anteriormente, simplesmente pensando demais e esquecendo-me brevemente do que eu estava ouvindo. E conforme fui pensando, a voz ofuscou os pensamentos triviais; dando uma razão àquilo: o som. Ele se tornou a razão dos pensamentos dali em diante. E com isso, veio a preocupação. Seu som era claramente um choro baixinho, ele corria pelo beco d'outro lado da minha janela e entrava no meu quarto, parando nos meus ouvidos. Meus pais dormiam no quarto ao lado, mas até daqui eu podia ouvir o barulho do ventilador altíssimo, e isso com certeza abafava o som do pobre animal. Pareceu somente um choro para mim, de início, mas que propósitos tem um choro? Um pedido de ajuda? Dor? Preocupação? Coisas totalmente compreensíveis, coisas que eu não saberia nem se fosse ele mesmo.
Poderia estar machucado, poderia ter sido vítima de algum maltrato ou simplesmente poderia estar com fome. Este e outros motivos entraram de uma vez pela minha cabeça, e sempre que eu tentava me convencer de que um deles não poderia estar acontecendo, minha mente criava mais dois. Uma verdadeira tortura. Fui ingênua e completamente imbecil por pensar que eu estava sendo torturada pela minha própria mente; que alguma vontade maior estaria me privando de um pensamento relaxante, e que eu deveria pagar com aquilo por algo que fiz. Na verdade, não era nada disso. Era uma chance, e eu estava prestes a desperdiçá-la.
A voz vinha e ia. Durante trinta e cinco minutos, ouvi-a ir e chegar, pensei que ele estivesse desistido do que é que ele pudesse estar chorando sobre, pensei que tivesse resolvido seus problemas e pensei ter sido salvo por outra pessoa que o ouviu assim como eu, mas essa tentativa de refugiar-me da responsabilidade de ter que ajudá-lo sumiu logo depois, com a chegada do novo choro. Foi quando percebi que aquilo certamente era um pedido de socorro. O tom, a finura e a facilidade com que o som atravessava todos os obstáculos e chegava até mim certamente concluíam uma coisa: ele não tinha ninguém a não ser a mim.
Peguei meu celular, chequei as horas. Três e cinquenta e uma da manhã. Tarde. Coloquei-o de volta na cama, sob o travesseiro para que não corresse o risco de derrubá-lo durante o sono, mesmo não almejando dormir. Nem se quisesse conseguiria, assenti. Virei de um lado para o outro diversas vezes. O som parou por um tempo. O intervalo agora tinha sido o maior de todos. Eu deveria ficar menos preocupada, mas isso era algo impossível. Inevitável.
Eu tinha dezenove anos nesta época, e nada na minha vida tinha feito sentido até aquele dia. Passei as mãos nos meus braços, costas e toda a pele que consegui alcançar. Eram ações sem sentido, senti minhas imperfeições e distrai-me indiretamente mais uma vez. Caminhei até a porta e girei a maçaneta. Abrindo-a levemente, para não acordar o meu irmão que dormia suavemente na cama ao lado. Saí do quarto sem muitos detalhes. A porta se abriu e depois se fechou, sem barulho, sem detalhes. Atravessei o corredor extenso de minha casa, abri a porta da sala e fui até a varanda. Tentei ouvir melhor o som para distinguir sua direção, mas o cachorro resolveu parar de me chamar. Me perguntei o porquê. Voltei e fui até as portas do fundo, ascendi as luzes e não vi nada. Sabia que o cachorro não estava ali, mas esperei vê-lo. Não o vi e nem o ouvi.
Eu deveria ir ajudá-lo. Eu sabia que um de meus vizinhos tinham um ou dois cachorros, sempre os ouvia, mesmo agora não sendo capaz de saber se a voz do cachorro pertencia ao cachorro deles. Eu deveria ao menos tentar, foi o que pensei... mas, eu era covarde demais para isso. Sair de casa, pular um muro, invadir uma residência por um cachorro que eu nem sabia se estaria mesmo ali era demais. A covardia acabou me fazendo desistir deste ato, assim como muitas outras vezes em minha vida até então. Retornei à sala, e abri a porta. A varanda era curta, então cheguei até o portão rapidamente. Olhei para fora. A rua estava deserta e com todos dormindo, as únicas luzes acesas eram as dos postes. Realmente não havia nada ali. O clima era meio sombrio, mas eu não tinha medo. Foi quando o vi.
Estava parado, meio que sentado no meio da rua. Eu era míope, e com aquela escuridão ao redor, eu não conseguia vê-lo muito bem. Na verdade, eu nem o ouvia mais, mas sabia que era ele que me chamava. Meu coração palpitava, e eu não conseguia recuar. Abri o portão, fechei-o e fui até ele, com passos calmos e leves. Era estranho. Quando o vi pela greta do portão, de cima, ele parecia estar sentado, mas de perto ele estava deitado. Seu corpo estava de lado, seu focinho para o lado contrário ao meu, então não pude ver seu rosto, somente costas. Tocá-lo para ter certeza de que estava vivo. Ele não se mexia. Continuei tocando. Movi a mão até o peito, quis ouvir seu coração. Ele não latia, não falava, mas se eu pudesse ouvir e sentir seu coração, eu saberia que estava bem, mas não o ouvi. Tudo o que ouvi em seguida foi um miado entristecido de um gato em algum dos becos próximos dali, senão o de minha própria casa, e em seguida, um estrondoso e chocante barulho de um veículo. A velocidade era imensa, e ele certamente não estava prestando atenção no caminho. Um carro? Ouvi brevemente um som, a música alta partia de dentro do veículo. Deveriam ser jovens assim como eu que retornavam de uma festa. Se tivesse tempo, poderia pensar muito sobre e aquilo e bolar teorias sobre o que estava acontecendo, quem eram eles, e o que realmente faziam, mas não tive tempo, não consegui reagir. Quando me dei conta do que estava acontecendo, a luz dos faróis já consumiam todo o meu corpo, iluminando-me por inteira, assim como meus olhos. Por instinto, deveria por as mãos a frente dos olhos por conta da força da luz, mas não o fiz. Enrolei o pobre animal com as mãos o mais rápido que pude. Elevando-o em meus braços e colo, abraçando-o como se fosse meu. O barulho ficou cada e cada vez mais alto, até que desapareceu completamente.
Perdi a noção do tempo, mas aquilo era tudo real. O cachorro começou a latir de novo. Ele olhava para mim do chão, de baixo para cima, e eu o olhava de volta. Sabia que nada daquilo seria em vão. Seu pelo era fofinho, senti ao acariciá-lo. Marrom e com os olhos claros, olhos cheios de esperança e gratidão. Pondo a língua para fora, típico de sua espécie, o animal latiu mais uma vez. Era impossível para um humano compreender exatamente o que um cão dizia, mas, o meu coração entendeu, e em meu cérebro foi processada uma única frase: "Obrigado. Eu estava me sentindo tão sozinho aqui."
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