Get some
1 Just touch me like that.
Notas iniciais
Depois de um final de tarde exaustivo no trabalho, Lancelot dirigia pelo trânsito moderado da cidade a caminho da escola de seu filho. Aquela sexta-feira encerraria o mês e o escritório em que trabalhava havia deixado muitas pendências, seu chefe expressou total descontentamento com o comunicado de última hora e isso deveria tê-lo afetado de alguma maneira. Entretanto, seu humor não poderia estar melhor! Afinal, era seu primeiro final de semana com Galahad em quase três meses.
Lancelot era divorciado há cinco anos e via o filho somente aos finais de semana, com exceção dos períodos de prova em que o jovem dedicava-se inteiramente aos estudos. Ele contava os dias para poder buscá-lo depois das atividades do clube e levá-lo ao seu apartamento, onde o garoto tinha seu próprio quarto e ia embora no domingo depois do almoço.
Galahad, que inicialmente havia pedido um mês de intervalo nos encontros com o pai, acabou estendendo para mais dois depois de começar um cursinho e sentir-se sobrecarregado com ocupações extracurriculares. Mesmo que aborrecido, Lancelot o compreendeu e não insistiu, aquele era o último ano dele no colegial, havia muito a ser feito.
Nos períodos sem ver o filho, Lancelot procurava sair de casa e conhecer lugares para depois acrescentá-los ao roteiro de viagem deles dois. Sua vida não ia além do trabalho e do garoto, uma vida tranquila, mas da qual ele sentia falta, porque depois de conhecer o homem que agora lhe enviava mensagens em um desses finais de semana sem Galahad, sem dúvidas, as coisas jamais foram as mesmas.
Lancelot precisou encostar o veículo antes que tivesse um colapso nervoso com o celular vibrando sem parar. Puxou o aparelho do bolso do terno apenas para confirmar o que imaginava: Gawain enchia seu LINE com mensagens desconexas e stickers para chamar sua atenção. Ocupado com o trabalho, ele visualizou sua conversa e não o respondeu durante o dia todo, era de se esperar que em algum momento o outro se irritasse.
Eles envolveram-se em um momento de fraqueza de Lancelot e então Gawain nunca mais desgrudou-se. Não sabia ao certo como chamar o que tinham, de fato sentiam algo mútuo, mas às vezes Gawain não o entendia por completo, afinal, um pai como ele tinha seus deveres e Galahad seria sempre sua prioridade.
— Gawain — chamou-o assim que ouviu a ligação ser atendida. — Estou dirigindo.
— Por que não me respondeu?
— Hoje foi corrido. — Pode ouvi-lo estalar a língua irritado do outro lado da linha.
— Vai buscar o garoto?
— Sim.
— Vão passar o final de semana juntos?
— Sim.
— Vai contar sobre nós?
— Não tem o que contar.
A ligação foi encerrada de imediato por Gawain após aquelas palavras e Lancelot arrependeu-se por tê-lo tratado tão mal, mas não havia outra opção, pediria desculpas depois e esperaria que fosse o suficiente. Não tinha tempo para discutirem aquilo outra vez, mais alguns minutos ali e estaria atrasado.
De volta ao trânsito, sua mente foi invadida por lembranças do dia em que apresentou Gawain ao filho como seu amigo. Haviam combinado de ir ao cinema assistir qualquer coisa que Galahad quisesse, começaria outra semana de provas e como não poderiam se ver, pensou em recompensá-lo com algo especial. Era de se imaginar que seu companheiro não simplesmente levasse a sério todas as advertências que escutara no caminho, porque durante a sessão inteira, aproveitando-se do escuro na sala, Gawain atormentou Lancelot com carícias inapropriadas e entre outras brincadeiras mesmo tendo plena ciência de seu filho sentado logo ao lado.
Gawain não conhecia limites. Não havia muita diferença de idade entre eles — apesar de aparentar anos mais jovem que Lancelot pela sua personalidade —, mas para ele nunca era o suficiente, não lhe importava a ocasião, estaria sempre insatisfeito e exigindo algo mais do companheiro.
Quando deu-se conta, Lancelot já fazia a curva da escola do filho. Suspirou preocupado, essas suas distrações que tinham a Gawain como protagonista tornavam-se cada vez mais recorrentes em sua rotina.
Estacionou o automóvel sem problemas logo em frente à entrada do prédio, não demorando para avistar seu garoto vindo junto de alguns amigos. Lancelot saiu e recostou-se ao carro, sorrindo ansioso e preparado para recebê-lo com um abraço.
O jovem chegou despedindo-se dos amigos que seguiram pela calçada em que estavam. Aproximou-se do pai, mas não o cumprimentou de imediato.
— Você não olhou minhas mensagens — disse convicto, sem mudar seu semblante sério.
— Você mandou algo? — Lancelot tirou o celular do bolso no mesmo instante para checar o LINE.
Logo encontrou as mensagens a que ele referia-se, haviam sido enviadas uma hora antes de deixar a empresa, avisavam-no que não deveria buscá-lo hoje. As notificações provavelmente se perderam nas de Gawain e ele sequer notou.
— É aniversário da mamãe — explicou. — Vou ficar com ela e preparar algo.
Certamente não cabia a ele zangar-se com o filho por um erro que havia cometido, mas também não pode deixar de ficar triste, afinal, aguardou tão ansioso por aquele dia e agora esperaria mais uma longa semana para passarem seu tempo juntos.
Galahad era novo demais quando os pais separaram-se, não conseguia entender o porquê e sua reação inicial foi odiar profundamente o pai que deixava a família. Sua mãe, que sofreu tanto na época, não mais o odiava, e agora, ele também podia entender seus motivos e até mesmo preferir as coisas como haviam sido. A persistência do pai acabou o reconquistando mais tarde, entretanto, seria uma grande mentira afirmar que apreciava todos os seus encontros com Lancelot.
Contudo, assistindo-o reagir a sua resposta tão compreensível, ainda que visivelmente desapontado, Galahad sentiu-se mal por ele como nunca antes. Talvez houvesse como recompensá-lo por tamanha paciência que sempre tivera ao lidar consigo.
— Posso ir amanhã — murmurou sem jeito. — Você me deu a chave da casa para isso, não? Vou assim que acordar.
Lancelot, que já preparava-se para entrar no carro e partir, devolveu um sorriso animado e concordou sem nenhuma objeção. Voltaria sozinho, mas teria a companhia de seu filho logo cedo como se não houvesse tido imprevistos e só isso lhe bastava.
[...]
Morava em um conjunto de apartamentos de dois andares mais afastado do centro da cidade. O sobrado juntava quatro casas pequenas de dois quartos, cozinha americana e um banheiro cada, os cômodos eram todos apertados, mas muito confortáveis. Lancelot não precisava de mais que isso, havia se mudado logo que se divorciou e sempre gostou do bairro. Vez ou outra, a filha delinquente da vizinha debaixo lhe irritava, sempre falando palavrões e algo sobre tomar o trono da mãe — a quem estranhamente chamava de pai —, mas nunca causou-lhe problemas diretos.
Para sua sorte, o trânsito diminuíra muito e pode chegar antes de escurecer. Estacionou rente à calçada do prédio, onde deixava toda noite por hábito, sem medo algum por confiar na vizinhança.
Lancelot subia a escada que levava ao segundo andar do sobrado, quando escutou o som inconfundível da moto de Gawain subindo a colina de onde morava. Estalou a língua em reprovação. Como era ansioso, sequer o avisou que iria até lá!
Recostado à parede e de braços cruzados, ele o assistiu manobrar da escada sem ser visto. E ainda sobre a moto, Gawain retirou o capacete e sacudiu a cabeça tentando desamassar os fios loiros, abriu o zíper da jaqueta de couro e guardou o celular no bolso interno.
Lancelot o contemplava minucioso, esqueceu-se por um minuto que ele o havia irritado mais cedo, sua beleza viril sempre o distanciava da realidade. Ele era o mais alto dos dois, mas Gawain tinha maior massa muscular, o que era facilmente notável pelos seus ombros largos e as mangas das camisas que pareciam o sufocar de tão agarradas ao braço. Vestia-se tão bem, que Lancelot quase sempre se recusava a andar junto dele na rua, as mulheres o paravam com frequência perguntando-o se era algum modelo famoso. Mas dentre todas as qualidades que podia listar do loiro, o que realmente o encantou em Gawain havia sido sua gentileza, seu sorriso sincero, era um verdadeiro cavaleiro.
Quando checou-se uma última vez no retrovisor, pode enxergar o parceiro observando-o atentamente da escada logo atrás.
— Lance!
Lancelot perdeu o fôlego ao vê-lo tão contente mesmo após aquele episódio mais cedo. O peso da culpa caiu sobre si e não pode deixar de sentir-se envergonhado por seu comportamento, estava errado e devia desculpas. Gawain caminhava em sua direção, seu cabelo refletindo os últimos raios solares do dia e o andar confiante. Seus olhares encontraram-se e o outro desviou por uma fração de segundo, apenas para voltar a encará-lo em seguida com um meio sorriso.
Ele deveria ter desconfiado do que realmente tratava-se aquela visita repentina naquele exato momento.
Gawain aproximou-se o suficiente para Lancelot pensar em se pronunciar logo com um pedido de desculpas. Entretanto, o que houve em seguida foi rápido demais para que acompanhasse. Ele apertou o passo e subiu no mesmo degrau que o namorado confuso, puxando-o pela gravata do terno e igualando suas alturas. Gawain colou seus lábios aos de Lancelot, investindo em um beijo surpresa como cumprimento. Sua mão livre envolveu seu rosto e o trouxe mais perto, ele que mal reclamou, entregou-se ao loiro correspondendo-o sem demora apesar do susto.
Eles separaram-se com certa dificuldade, mas Gawain se manteve perto demais, encarando-o com o queixo em seu peito, visivelmente irritado.
— Você não me respondeu hoje — começou. —, só nos vemos quando o Galahad não vem e ainda sou tratado pior que um cachorro de rua. Você me deixa louco, Lancelot!
— Eu não tive tempo. — Não era capaz de olhá-lo diretamente com aquela feição, sua intenção ali era claramente tirar satisfações, mas só se passava pela sua cabeça o quão lindo era. — Me desculpe, de verdade.
— Aliás, cadê ele? — Afastou-se olhando para os lados, preocupado que o garoto estivesse por perto, Lancelot tinha ido buscá-lo, afinal.
— Não veio.
Gawain o viu sorrir fraco, cabisbaixo e desanimado, o que cortou-lhe o coração. Sempre o escutava falar do filho, em suas mensagens, em seu tempo juntos, sempre. Lancelot tinha orgulho de Galahad e isso não poderia ser mais evidente, porém o divórcio os afastara muito e ele carregava o remorso disso sozinho.
Havia ido até lá com uma finalidade egoísta, mas definitivamente não assistiria seu companheiro entristecido, então Gawain uniu o útil ao agradável.
Voltou a beijá-lo na mesma intensidade anterior, sem qualquer aviso prévio. Lancelot rodeou seu pescoço com as mãos, seus dedos brincando com os fios loiros e acariciando sua nuca. Gawain o agarrava pela cintura, apertando e puxando-o para si com alento, até que uma ideia percorreu sua mente. Deixou que uma mão inocente escorregasse pelas costas do parceiro parando pouco depois do cinto que usava, o que não passou despercebido por Lancelot que fez menção de interromper o beijo e protestar, ainda estavam na escada do prédio, a qualquer instante poderia surgir alguém. Seus vizinhos conheciam aquele seu lado, entretanto não gostaria de se expor assim. Todavia, Gawain agiu rápido, sua mão encontrou o bolso direito da calça social e tirou a chave do apartamento. Lancelot sempre a retirava do porta-luvas do carro e a colocava no mesmo lado até chegar à porta, uma mania que o loiro notou depois de ser repetida algumas vezes em sua frente.
Ele cessou o beijo e grudou em Lancelot pelo pulso, arrastando-o pela escada acima, pelo corredor, e então até seu apartamento, onde parou para achar o buraco da fechadura no escuro. Haviam passado alguns minutos entretidos, não repararam na noite que finalmente caíra sobre o céu e não se lembraram de acender as luzes.
A porta mal havia sido aberta e Gawain jogou Lancelot sobre ela, empurrando-a contra a parede em um baque alto. Estavam outra vez aos beijos, batendo as costas no corredor estreito que levava à sala enquanto andavam.
Trombaram na estante e em uma poltrona, parando por fim na mureta que separava o cômodo da cozinha, Lancelot só conseguiu segurá-lo ali, afastando o companheiro animado pelos ombros.
— Gawain — disse ofegante. —, meu futon está dobrado. — Sua intenção era de alguma maneira desacelerá-lo, não conseguia o acompanhar naquele ritmo.
— Tudo bem. — Passou a língua sobre os lábios comprimidos de Lancelot, que ainda mostrava-se na defensiva.
— Não está, não! — Quanto mais o afastava, mais forte ele prendia-se a si, tornando impossível mantê-lo longe de seu corpo. — Você não vai passar a noite aqui!
— Posso ir embora de manhã. — Sua voz manhosa alcançou o ouvido alheio junto de um arrepio que percorreu-o por inteiro. — Eu só preciso... de um pouco... de você.
— Não va-vamos transar na cozinha... — Lancelot quase não conseguia mais concentrar-se em arranjar desculpas.
— Que tal na sala?
Gawain só precisava de Lancelot e não podia esperar mais.
Ele o tirou do chão e o mesmo entrelaçou-se a sua cintura. Derrubou-o no sofá e caiu sobre o namorado em seguida, suas pernas o puxavam com urgência, Lancelot não se lembrava da última vez que sentiu tamanha necessidade de ter Gawain em si. Os amassos pareciam não saciar o que sentiam, então passaram a puxar as roupas que vestiam desastrosamente. Não tinha espaço suficiente para os dois no sofá, seus cotovelos encontravam o estofado a todo momento, aquela pressa toda não os levariam a lugar nenhum.
Lancelot aproveitou que ainda o envolvia pelas pernas, e então tombou ambos para fora do sofá, caindo por cima. Escutou-o gemer com a pancada leve das costas sobre o chão e rapidamente sentou-se sobre seu quadril, afrouxando o nó da gravata com uma mão e arrancando o terno fora com a outra. Gawain puxava os botões da sua camisa com a menor delicadeza possível, não se surpreenderia em encontrar algum faltando no dia seguinte. Antes de poder tirar os braços da camisa e passar a gravata pelo pescoço, inverteram as posições outra vez. Gawain manteve as pernas dele sobre suas coxas, encaixando seu quadril ao dele, sentindo-o duro. Percorreu as mãos sobre a barriga exposta de Lancelot, encontrando seu cinto, mas precisou da ajuda dele para conseguir desatá-lo.
Antes que pudesse arriar suas calças, Lancelot puxou o loiro pelo pescoço beijando-o com a língua e ele não resistiu ao convite. Seus braços esticados que cercavam-no sobre o tapete arquejaram de leve, e logo Gawain estava colado ao peito nu do parceiro, não mais tomado por impulsos. Aquele beijo molhado estendeu-se por mais tempo do que havia planejado, Lancelot sentiu as investidas dele em sua cintura e resolveu o liberar de seu abraço, deixando-o continuar como desejasse.
A gravata e camisa amassada de Lancelot ainda em seu corpo, lembrou a Gawain que ele ainda estava vestido por completo. Ele, portanto, livrou-se sozinho da blusa de couro e sua camiseta. Quando voltou o olhar ao namorado, achou-o admirando seu peitoral definido, corado. Deixou que um sorriso lhe escapasse. Aquela reação, àquela etapa do relacionamento deles, dizia muito sobre Lancelot.
Depois de tirar a calça alheia, Gawain dobrou-se sobre os joelhos para alcançá-lo. Suas mãos circulavam suas coxas internas e ele agora beijava-o sobre o tecido fino da roupa íntima, assistindo sua respiração irregular e os longos suspiros de prazer. Não demorou para livrar-se também daquela peça, enfim o apreciando desnudo.
Lancelot estremeceu ao primeiro toque de Gawain, sentiu o envolver, lentamente aumentando a velocidade de seus movimentos. Mal se conteve ao senti-lo usar também a língua em si, seus dedos iniciaram o devido preparo para recebê-lo muito em breve. Gawain, por outro lado, contemplava as reações do companheiro sem desviar seu olhar por sequer um instante.
Havia esperado ansioso para vê-lo entregue em seus braços, como agora, ansiando por mais e chamando seu nome. A real intenção de sua visita era mostrar-lhe que havia sim o que contar a Galahad sobre eles, eram namorados independente de como Lancelot enxergava aquela relação. Seus suspiros apaixonados preenchiam a sala junto as estocadas de Gawain e aquilo não era resultado de um vínculo baseado em somente sexo. Havia se gasto tempo entre eles, o suficiente para Gawain saber coisas inúteis como o bolso em que ele guardava a chave da casa, ou como Lancelot que reconhecia o som de sua moto mesmo de tão distante.
Gawain reconhecia o direito do namorado como pai em não querer revelar esse seu lado ao filho, mas eles tinham uma história juntos, lhe irritava vê-lo negar isso.
Depois de tantas rodadas diferentes, levou-se bons minutos para que resolvessem toda a tensão que os envolvia antes. Gawain agora permanecia quase cedendo ao cansaço sobre o peito do companheiro, ouvindo sua respiração leve e afagado pela sua mão sobre a nuca. Sentiu-o lhe empurrar de leve de seu colo, levantando-se provavelmente para se limpar e arrumar o futon para eles, que apesar de terem transado sobre o tapete da sala sem sequer livrar-se de todas suas roupas pela pressa, definitivamente não passariam o resto da noite ali. Entretanto, o que veio em seguida foi um beijo demorado sobre sua testa e um pedido de desculpas baixo. Gawain não lembrou-se mais depois disso.
[...]
Os raios de luz da manhã atravessaram os feixes da cortina do quarto, despertando Gawain de seu sono profundo. O loiro revirou-se sobre o futon, tateando o lado não mais quente que antes pertencia ao namorado. Não somente a claridade do dia o acordou, o cheiro do café novo sendo preparado estimulou seus sentidos, tinha agora um motivo para deixar o cobertor e travesseiro com o perfume de Lancelot: ele mesmo.
Cambaleou pelo cômodo estreito, vestiu sua calça que havia sido cuidadosamente dobrada sobre a cômoda, mas não se deu o trabalho de vestir também a camisa. Descalço, seus passos denunciaram sua chegada à cozinha.
Lancelot vestia algo mais casual, diferente de como o encontrou na noite anterior, mas o que chamou sua atenção nele foi o avental de babados que usava.
— Bom dia! — Estava colado ao balcão preparando algo, não se virou para cumprimentá-lo. — O que quer comer?
Ele não realmente pensou antes de abusar outra vez da fraqueza do namorado em lidar com ataques surpresas, talvez fosse o sono que ainda atordoava suas noções. Abraçou-o por trás, envolvendo seus braços fortes à cintura alheia. Lancelot soltou o que segurava com o susto, sentindo o peito rígido do loiro quase como uma ameaça. Outra vez sem pensar, Gawain alcançou o pescoço exposto dele e o beijou, passou também a língua por aquela extensão e arrancou-lhe um suspiro rouco. Lancelot permitiu, de novo entregue aos toques irresistíveis do loiro.
Gawain decidiu virá-lo em seu abraço para beijá-lo a boca, mas ele então o empurrou enfiando a mão em seu rosto, o que o jogou com força até a mureta da cozinha sem explicação nenhuma. Estava prestes a questioná-lo quando viu o olhar assustado de Lancelot para a sala. Seguindo-o, encontrou Galahad sem jeito, encarando o chão com sacolas da loja de conveniência do quarteirão abaixo.
— Não é o que você está pensando! — disse a primeira coisa eu veio à mente, suas mãos pairaram sobre o ar como se lidasse com algum animal arisco. — Nós somos somente amigos.
— Melhores amigos — completou Gawain, que por mais sarcástico que parecesse, queria de alguma forma ajudá-lo.
Ele acariciava as bochechas tentando aliviar a dor do quase tapa que levou instantes atrás, ainda sem camisa e com o cabelo emaranhado, estava mais que claro que havia passado a noite ali.
— Não queria te acordar — Galahad começou. —, então não toquei a campainha e evitei fazer barulho. Peço desculpas se atrapalhei algo. — Ele fez uma pequena reverência e continuou. — Mas não é como se vocês dois fossem uma surpresa para mim, eu apenas não esperava Gawain-san aqui e não trouxe leite o suficiente para nós três. Posso ir buscar mais se vocês quiserem.
Antes que terminasse sua sentença, lidando tão calmamente com aquela situação que os dois consideravam ser o maior problema de suas vidas, o garoto deparou-se com o pai fungando a sua frente, Gawain tinha a cabeça baixa e parecia segurar as lágrimas também. O que Lancelot lutou tanto para esconder do filho, talvez fosse a melhor coisa que lhe aconteceria depois de meses sem ele e ser atacado pelo próprio namorado na noite anterior. Porque afinal, até mesmo um pai divorciado poderia ser feliz com seu filho e seu namorado.
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