Geração dos Milagres

8 Apenas um evento comum


O céu estava escurecendo, mas não pelo horário, possivelmente choveria durante toda a tarde. Enquanto seguia, começou a chover forte (rápido demais), portanto acabei correndo em direção à escola. Era consideravelmente perto, mas os poucos segundos foram suficientes para ficar encharcado. Próximo à entrada da escola, do lado de dentro, haviam alguns guarda-chuvas para esse tipo de situação, já que a maior parte da Geração dos Milagres era um espaço aberto. Não achei que seria útil, e acabou sendo inútil de todo jeito, afinal já não teria tanta eficiência. Entrei em uma sala onde haviam toalhas á disposição dos alunos.... sinceramente, o que falta nessa escola? Tentei enxugar minhas roupas o máximo possível, e até que resolveu bem (isso era o que eu acreditava.... claro). Prosseguindo até a sala de informática, percebi que alguém estava conversando com o diretor. Pensando bem, era a segunda vez que o via, um homem alto que aparentava ser amigável, talvez até demais. Poderia ser o Lucas jundo á ele, a julgar pela jaqueta branca que geralmente usa, não que tivesse importância, entrei na sala tentando evitar que me percebessem.

— Perceberam a chuva? Sorte que consegui preservar o almoço de vocês com essa jaqueta. — disse enquanto me sentava na mesa em que estavam.

— Parece que conseguiu evitá-la — Guilherme dizia ironicamente avaliando meu estado.

— Já terminaram?

— Sim, não está vendo que estou aqui perdendo meu tempo? — Daniel disse talvez sugerindo que aquele mangá nunca teria um final de todo jeito (One Piece).

— Vamos? Começa em 10 minutos.

Se levantaram e seguimos até encontrarmos um espaço imenso ao ar livre. Aquilo realmente era agradável, estávamos abaixo de uma plataforma que abrangia um espaço considerável. Mas o impressionante eram as condições ao redor. Havia uma espécie de parede retangular feita de algo notavelmente elástico que cobria toda a quadra. Provavelmente com o objetivo de não machucar os alunos, era muito semelhante à borracha. O que seriam as arquibancadas, eram constituídas do mesmo elemento, em formas projetadas para se sentar ou até mesmo deitar-se sobre elas. Eram separadas por classes, mas não em questão financeira (não foi dessa vez, capitalismo), e sim em relação as turmas da escola. Sendo assim, era como os próprios bairros ao redor da escola, mas agora são os alunos em torno da quadra. Me pergunto por que o diretor prossegue com um método escolar normal em relação as aulas, e utiliza ao máximo a tecnologia atual para eventos aleatórios. Deve ser um cara conservador. Sinceramente, não percebi o quão longe a humanidade avançou, algo irreal ainda existe? De certa forma, me lembrava daquela estrutura, mas não conseguia lembrar onde a vi, ou mesmo quando foi. Aquilo normalmente não era preciso, mas devido à chuva, um campo transparente cobria todo o espaço. E por ter essa característica, conseguíamos ver as gotas perfeitamente, era como se a barreira absorvesse a água, permitindo uma vista inacreditavelmente linda. Ao menos desta vez, havia lido as regras da competição. Uma das características dela, fugia totalmente da realidade, ignorando as leis da física. Ao ler aquilo, imaginei que fosse algum tipo de brincadeira, ou talvez uma referência às habilidades dos alunos. Mas não, uma das condições em campo, era o controle parcial da gravidade. Cada jogador em quadra poderia saltar cerca de três metros no ar, a velocidade com que se chega a tal altura, bem como a que é necessária para chegar ao chão, é relativamente rápida. Para que ninguém se machuque com a queda, o próprio piso da plataforma também se consistia com tal elemento semelhante à borracha. Outra regra, se baseava na ideia de que no chão as mãos podem ser atingidas sem o jogador ser eliminado, e no ar isso se aplica também aos pés. Isso permite que os jogadores possam atacar o adversário com chutes enquanto usarem a manipulação da gravidade. Fora isso, o mais incomum seria o fato de poderem queimar mais de uma pessoa por jogada, ou seja, se a bola for lançada e atingir mais de um jogador antes de chegar ao chão, todos que foram atingidos são eliminados. Bem como se um jogador é atingido e outro do mesmo time consegue segurá-la, o amigo em perigo de eliminação é salvo.

Seguimos às escadas que levavam a nossa arquibancada. Enquanto sentávamos procurando nos isolar do restante da classe (os que vieram no caso), a classe de Mayu se dirigia ao centro da quadra. Como era absurdamente grande, ambos os times possuíam jogadores reservas. Cada classe contém 40 alunos, metade deles seriam os titulares, e os outros seus substitutos caso necessário. Nesse campeonato, a camisa número 15 seria o Ás do time (melhor jogador). Me surpreendi ao ver um garoto em seu time com tal número, se existe alguém que a supere, como pode seus adversários terem alguma chance? Mayu estava com um olhar confiante ao acenar para mim.

— Se esforce aí. — disse inconscientemente em voz baixa. Por todas as preparações feitas, parecia que aquele campeonato se tornaria um evento interessante afinal.

Não havia como escutar, mas acredito ter entendido a intenção. A classe adversária se posiciona a frente deles, e todos acabam se curvando em respeito ao outro time, que devolve a educação. O Ás do 6º B (sexto ano B, time oposto ao de Mayu) era alguém para se ter medo. Não por parecer ter grande força, afinal era uma criança acima de tudo, mas pelo seu olhar... se pareciam com uma pessoa que poderia assassinar alguém (exagero), o que gerou uma leve preocupação. Mayu estava à direita de Gabriel (Ás de seu time) na formação, vestiam camisas vermelhas, enquanto os adversários usavam os coletes azuis. Ela estava usando um shorts vermelho, não de seu time, mas acredito ter escolhido para combinar com seu colete, e seu cabelo estava preso da melhor forma possível, o que a fez se tornar mais fofa do que já era. Um homem de óculos escuros (em dia de chuva?) inicia o jogo após decidirem o lado do campo e quem começa jogando. O time adversário começaria com a bola, enquanto a equipe de Mayu escolhera o lado direito.

Ao ser iniciado o jogo, um dos quatro líderes posicionados a frente lança a bola em direção á Mayu. Era impressionante a velocidade em que o garoto concentrou seu ataque de forma a não perder impulso com relação à sua distância até ela. Mayu esquiva-se da bola, mas ao deixá-la passar, um garoto de sua turma acaba sendo atingido na cabeça, mandando-o para o cemitério do jogo (atrás do campo adversário). Mayu parecia ter dito algo desafiador ao Ás do outro time, enquanto o garoto eliminado lança a bola, buscando atravessar o campo até chegar as mãos de seu time. Porém, o passe é impedido por um garoto que utiliza o Super Jump (decidiram usar o Inglês), e o mesmo lança-a novamente à Mayu ainda no ar. Aparentemente eles haviam focado na garota mais habilidosa, de certo modo uma escolha inteligente, mas jamais a derrotariam com apenas isso. Mayu para a bola com apenas uma de suas mãos, e sem perder o fluxo do ataque, direciona a força ao garoto quase alcançando o chão. Isso acaba o deixando sem movimento, o que o levou a eliminação instantânea. Sua expressão facial demonstrava total confiança, o que parecia não surtir efeito no Ás do time que sofrera a perda. Em outra tentativa, Gustavo (time azul) arremessa a bola com a intenção de queimar uma das garotas que estavam ao fundo do campo. O Ás do time vermelho usa uma manchete, fazendo com que a bola seja lançada para cima exatamente onde estava Mayu, já pronta para rebatê-la. Em pleno ar, realiza uma bicicleta com a perna direita com uma força exageradamente grande, devolvendo o ataque dos inimigos. Não havia como se esquivar, o ataque atingiria um dos três líderes restante. Em meio a tal ameaça, o Ás do time azul utiliza o Super Jump em forma horizontal, girando em direção a bola até chutá-la com grande força. Tamanha força, que foi capaz de passar pelo campo ofensivo do time vermelho e queimar duas garotas ao fundo.

— Acham que vai ser fácil assim? — dizia Allan de modo a provocar Mayu.

Os olhos dela não demonstravam medo, mas sim emoção, parece realmente com protagonistas de animes famosos, quanto maior o desafio, mais empolgado se torna o personagem. Mas realmente havia se formado um clima tenso, por que só eu estava impressionado com as habilidades inacreditáveis daquelas crianças? Os demais alunos olhavam como se aquilo fosse normal, não que não estivessem empolgados e se animando com a partida, mas suas expressões não passavam a imagem de surpresa. Não há um limite para um prodígio? Á que nível alcançará este campeonato afinal... parece que jogos rápidos e fáceis estão realmente fora de cogitação, em meio a talentos incomparáveis em todas as classes da Geração dos Milagres.