Geração dos Milagres
5 Apenas um mal entendido
Passaram-se três semanas desde o início das aulas, e até então, fui forçado a participar das aulas de Educação Física. Não que eu fosse o único, afinal era uma escola de gênios, surpresa seria encontrar alguém que realmente queira participar. Mas não havia como escapar, toda a sala era envolvida, e mesmo que alguém se negue a realizar a atividade, naturalmente teria uma menção insuficiente. Como a maioria da classe sentia-se privilegiada por estar na Geração dos Milagres, ninguém deixava de participar, e o principal motivo era também o maior medo dos alunos, pois uma das condições que aceitamos para frequentar a escola, se baseava na expulsão de qualquer aluno que obtivesse 3 notas abaixo da média exigida, durante todo o ano. O problema era que havíamos iniciado o mês de Março, onde sempre era realizado um campeonato de Queima entre as classes do mesmo ano letivo. Descobri quando estava reunindo informações sobre a escola ao saber que iria ser transferido, só não entendia o motivo de ser Queima, normalmente seria futebol ou mesmo vôlei, não havia explicação pra escolha do esporte, só o que sabíamos era que precisávamos participar pra manter a média. No quesito agilidade para esquiva e contra-ataque, não estava entre os piores, afinal nos anos anteriores não frequentava qualquer escola, as atividades físicas sempre foram intensas. De acordo com as datas dos primeiros jogos, Mayu seria uma das primeiras a jogar, o que não me preocupa, pois possui um reflexo duas vezes mais rápido que o meu. Os organizadores afirmaram que haveria um prêmio para as três classes classificadas; em uma escola como essa, algo como uma recompensa me despertava interesse. Estávamos no intervalo próximos a uma árvore, nunca era específica, o espaço ao ar livre da escola era grande demais, então a primeira que encontrávamos sem tantas pessoas próximas, era onde aproveitávamos alguns minutos de descanso.
— Não acham estranho que seja Queima todo ano? — perguntei já imaginando o que poderiam responder.
— Não exatamente. Talvez queiram avaliar um atributo específico de cada aluno, um que seja prático de se observar por esse esporte, pode ser que nos separem por grupos ao final do campeonato. — Guilherme respondeu já tendo uma teoria em mente.
— Pode ser que esteja certo. — concordou Daniel (como sempre).
— Acham que temos chance? Em relação ao ataque, posso servir para alguma coisa, mas não se pode dizer o mesmo quanto á defesa. — disse buscando saber do que eram capazes para talvez montar uma estratégia em campo.
— Posso carregar o time sozinho. Se quiserem podem sentar e serem eliminados durante as partidas, afinal ninguém espera muito de vocês. — disse um garoto encostado na outra parte da árvore, aparentemente havia escutado a conversa. Não havia percebido que era alguém da nossa classe, mas não saberia de qualquer forma, costumo focar a atenção apenas em quem conheço.
— Acha que é o único que sabe jogar? Vamos ver quem se sai melhor. — disse Daniel após se levantar e encará-lo de frente. Sinceramente, achava improvável ocorrer discussões á esse nível em um lugar como esse, mas os seres humanos realmente são imprevisíveis.
— Ei, se tem tanta confiança assim, por que não lidera? Afinal o coletivo organizado pode se tornar algo incrível. — lhe disse de onde estava, não iria levantar apenas pra desafia-lo.
— Só não entrem no meu caminho, não atrapalhem e estaremos a frente de todos os outros.
Alguns segundos depois de sua frase, ouvimos o sinal de retorno para as classes, ainda assim Daniel não parecia nada satisfeito com as respostas, aquilo poderia ter se tornado uma briga caso o garoto não tivesse se retirado. Com isso conclui-se que Yudi era alguém impulsivo demais, o que poderia influenciar negativamente em campo, era algo a se considerar. Talvez aquele garoto estaria observando as atitudes através dos atos refletidos por suas palavras, porém isso seria uma forma exageradamente otimista de se pensar, então obviamente descartei essa possibilidade. Havia uma função de liderança sobre o time, que era decidida pela própria classe em uma votação. Estaria disposto a participar, afinal não percebi as verdadeiras intenções dele, por isso acabei observando o que cada aluno costumava fazer durante as aulas práticas, e onde poderiam se encaixar. Uma parte boa desse evento, era que quando houvesse qualquer jogo, era opcional permanecer na aula ou assistir ao mesmo, sem prejudicar as notas. A partir da análise, descobri que seu nome era Lucas, um garoto extremamente habilidoso na parte ofensiva, mas devido ao impulso, era impossível não notar varias brechas em sua defesa. A garota sentada atrás de mim, cujo sorriso é irresistível (não é hora pra isso), possuía uma postura extremamente correta, me arrisco a dizer que sua defesa seria a melhor dentre todas existentes na classe, seu nome era Alice. Parece que conhecia exatamente os pontos onde necessitam mais atenção, e as devidas reações para cada ataque, além disso, seu ataque não era ruim, fazia tudo corretamente, o fato é que seu corpo não acompanha tal habilidade, o que faz a bola perder velocidade no meio do caminho. No geral esses dois se destacaram, a classe era impressionante, até seria difícil dizer que alguma outra teria chance contra a nossa. No entanto, se iludir com a vitória antes da luta é prejudicial, o que precisava ser feito era melhorar os pontos fracos. Por esse motivo, precisa conversar com Alice, então uma semana depois, ao fim da aula, ela estava guardando seus materiais, enquanto eu nem havia começado. De algum jeito consegui criar coragem e me virei para ela, afinal meu objetivo era vencer.
— Ei percebi que você é muito boa com os esportes em geral, eu estive te observando (isso vai soar estranho) e observei que você precisa melhorar a parte ofensiva, isso pode parecer muito direto mas gostaria de treinar comigo depois da escola? — disse começando a ficar um pouco vermelho de vergonha.
— Claro. — disse e continuou guardando os materiais.
— Sério? — respondi surpreso.
— Sim, você só quer sair comigo certo? Tudo bem, não me importo. — ao final da frase colocou sua mochila em suas costas e fixou o olhar em mim.
— Onde vamos?
— Ah sim, aqui na escola existem diversos campos que podem ser usados como treinamento, pensei em usar um deles, são todos realmente grandes afinal. — tentei ser o mais convincente possível.
— Acho melhor irmos pra minha casa. — disse enquanto eu estava colocando a mochila em minhas costas. Em seguida segurou minha mão e começou a me conduzir pra fora da classe. O que aquilo havia se tornado ? Eu estava indo pra casa de uma garota e não só isso, estávamos de mãos dadas, que impressão estávamos passando afinal? Ao menos Mayu sabia que não iria acompanhá-la hoje, por isso pedi a um motorista ir buscá-la. Saindo da sala percebi um clima ameaçador, como se todos estivessem tendo conclusões precipitadas, não sei ao certo como isso vai terminar...
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