Por Herval:

Quando voltei para a sala, Dorothy já não estava mais lá, tinha ido ajudar o Quim a tomar banho e Megan mexia no celular. Como eu sabia que a Pamela tudo contava à filha, tentei arrancar alguma informação a mais do que as que eu já tinha, da bad girl.

— Existe mais alguma coisa sobre a sua mãe que eu deva saber, Megan? – Perguntei sentando-me ao seu lado no sofá. Ela largou o celular e me olhou um pouco desanimada.

— Eu cheguei ontem, não sei de muita coisa, mas ontem à noite, quando o Quim já estava dormindo, mom me chamou para contar o que não podia contar na frente dele...

— E o que seria?

— A gravidez dela é de alto risco, Herval. – Ela respirou fundo e continuou: – Mom está muito debilitada, a saúde dela está frágil.

— Mas ela disse que estava bem...!

— Aparentemente ela tem razão, mas é porque ela está seguindo as recomendações do médico, qualquer deslize, qualquer erro, não sabemos o que pode acontecer.

— Que tipo de deslize?

— Acredito que o maior veneno para ela agora seria uma emoção muito forte, ou muito ruim. Uma briga, uma decepção... ou ficar trancada em casa de certa forma depressiva. Ela precisa de paz, Herval... precisa espairecer, ter dias tranquilos e alegres.

— E onde você tá querendo chegar?

— Todo mundo sabe que vocês se separaram por pura loucura. Você ainda ama a minha mãe e eu sinto que ela também te ama!

— Acorda, Megan, ela vai ter um filho de outro cara.

— Isso não foi planejado, e de qualquer maneira, o namoro deles acabou. Mom me disse o quão idiota ele foi, na verdade, um completo babaca! E se não deu certo é porque não era verdadeiro, não como o que vocês sentem um pelo outro.

— Eu continuo sem entender onde você quer chegar com isso... – Ela revirou os olhos e bufou.

— Eu tô tentando dizer que você precisa ficar perto dela, lesado!

— Olha o respeito, mocinha! Eu já fui seu padrasto!

— E pode voltar a ser! Eu sei que pode. Se mom precisa estar ao lado de quem a faça bem, por que não ser você? Lute pelo seu amor. Esteja ao lado dela, ajude para que a gestação dela seja tranquila. Esteja presente, seja o melhor amigo dela como sempre foi! E aos poucos, reconquiste-a!

— Megan, isso é loucura, eu não...

— Concordo com ela. – Fui interrompido pela Kate, que acabava de chegar.

— Concorda? – Não cri.

— A Pamela merece. E pelo pouco que eu já ouvi falar de você... você também. – Eu suspirei e levantei do sofá meio desconcertado. Me reaproximar da Pamela era tudo o que eu queria, mas temia que não desse certo.

— E-e-eu tenho que ir... – Caminhei apressado até a porta.

— Herval! – Megan me implorava com os olhos para que eu fizesse o que ela queria.

— Eu vou pensar, Megan, depois a gente conversa.

(...)

— Inacreditável! V-você tem certeza disso, Herval? – Contei tudo o que havia descoberto nos últimos momentos a Rita e ela ficou sem chão.

— Ela disse! Está gravida de um cara que foi incapaz de ser homem o suficiente para lidar com ela.

— Não tem a menor chance de ser seu?

— Não! Já disse... ela ainda nem fez dois meses! E a última vez que... nós estivemos juntos foi há pouco mais de três meses. A menos que seja possível engravidar por telepatia, não tem chance desse filho ser meu...

— Mas isso é... isso é bizarro demais! Essa história de vocês está mais difícil de entender do que a tua letra!

— O que tem de errado com a minha letra?

— É um garrancho, né, Herval! – Tentou brincar, mas eu não estava com humor para isso. Apenas suspirei e voltei ao assunto:

— Não tem nada difícil de entender, é simples: eu destruí meu casamento com minha desconfiança, Pamela resolveu tentar ser feliz sem mim, namorou um babaca que a engravidou e deu no pé. Agora ela está comendo o pão que o diabo amassou para ter uma gestação minimamente saudável e eu fui tentado a me tornar uma espécie de amigo/babá da Pamela.

— E vai?

— Eu não sei... é difícil estar perto dela e não poder fazer nada. É difícil aceitar que ela tá carregando um filho que não é meu...

— Ah! Já sei... você tá magoado por causa disso, né?

— Não exatamente... eu sei que ela não fez de propósito, mas é duro!

— Eu sei... então você não vai ser amigo/babá dela? – Eu respirei fundo e com um sorriso de desespero respondi:

— Eu faço qualquer coisa por ela, Rita. Pamela sempre quis ter um filho, agora ela pode. Tudo que eu puder fazer para a Pam ficar bem e essa criança nascer saudável, eu vou fazer! Pode até doer ficar do lado dela sem poder... dizer o quanto eu ainda a amo, mas eu aguento! Tudo o que eu quero que ela seja feliz...

(...)

— Qualquer coisa eu tô aqui, tá? – Ela disse me abraçando ao se despedir de mim quando deixei a sua casa.

Eu já nem sabia que horas eram quando saí de lá. A lua estava alta e a rua deserta quando eu entrei em casa. Margarida, que não me abandonara depois que acabou a temporada do Quim na minha casa, já tinha ido embora há algumas horas e eu estava finalmente apenas em companhia de mim mesmo. Eu joguei minhas chaves sobre a mesinha de centro e me joguei no sofá suspirando profundamente como se tivesse finalmente liberto de um fardo.

Meu olhar apenas perdeu-se naquela sala. Várias cenas passavam na minha cabeça e eu tentava organizá-las. Tentava enxergar um futuro para mim, um futuro sem a Pamela, mas não conseguia. Minha vida se resumia à ela. Faltava sempre um pedaço.

A gravidez dela não parou de martelar na minha cabeça. Nós sempre quisemos um filho e ela sempre se martirizou por não poder me dar um. Machucava profundamente saber que ela daria a um cara que não merecia... é claro que eu sabia que ela não tinha culpa, com certeza não havia planejado, mas machucava... machucava saber que ela se entregou a outro enquanto eu a esperava inutilmente na esperança de que nós pudéssemos reatar.

Seria muito doloroso estar ao lado dela. Eu a amava, mas tinha uma gotinha de orgulho, só que eu escolhi enfrentar. Quando se ama, não se pode ter orgulho, você tem que fazer o que o seu coração mandar, era isso que eu estava fazendo. Gotículas de lágrimas se formavam nos meus olhos e eu tentava manter a respiração no seu devido compasso, inutilmente. Eu queria morrer, queria sumir, queria simplesmente parar o tempo e só dar play de novo, quando estivesse curado, quando meu coração tivesse sarado de todas as pancadas que levara. E foi ali, no meio daquele desespero descomunal que eu descobri que não poderia viver sem ela, mas também não podia viver com ela. Eu não tinha muita escolha, não é? O que eu tinha a perder?

Eu seria o melhor que eu conseguisse para aquela mulher, e lutaria por ela! A reconquistaria... eu já não era o mesmo de tempos atrás e tinha certeza de que ela também não. Aquilo poderia ser a nossa chance de recomeçar.

Por Pamela:

No dia seguinte eu acordei cedo para dar uma passada nas empresas que eu tinha que comandar. A noite foi muito longa para mim, liguei para Murphy e para Moreira marcarem uma reunião na Marra e na Parker respectivamente e depois disso meu papo com Herval ficou pairando na minha cabeça por um longo tempo... era esquisito estar em sua companhia, mas um esquisito bom! Herval sempre me fez bem, não era agora que isso ia mudar.

Nosso casamento acabou, mas por um erro do qual ambos estávamos arrependidos. E além do mais, era passado, eu queria focar no futuro, era ele que importava... e eu não conseguia enxergar meu futuro sem que Herval fizesse parte dele de alguma maneira.

— Aonde você pensa que vai, mocinha? – Dorothy me perguntou quando passei por ela na sala.

— Eu sou presidente da Marra e da Parker TV, madrinha, remember?

— Acontece que você não pode fazer esforço algum, lembra?

Don’t worry, Doctor Benson! Eu não vou trabalhar... estou indo escolher alguém para me substituir enquanto eu não puder trabalhar. Não posso deixar duas multinacionais sem um chefe!

— Mas... cada acionista não cuida de uma filial?

Yeah! But eu sou a acionista majoritária, comando a Marra e a Parker Brasil, e as matrizes das duas in Califórnia à distância. Preciso de alguém de minha confiança para me substituir temporariamente nesse papel.

— E você já tem alguém em mente?

Yeah! E não se preocupe comigo, eu não vou dirigir, estou indo com o motorista. – Ela respirou mais aliviada. Acenei um “tchau” para ela e fui embora.

(...)

— Preparou o que eu pedi? – Questionei o indiano que me acompanhava até a sala de reuniões da Marra.

— Sim, Mrs. Parker, já enviamos para o Mr. Fernando Caeiro. Eu só não entendo o porquê da reunião se já está resolvido...

— Para informar ao demais acionistas! Eu comando a matriz, Murphy, todos precisam saber quando ocorre alguma mudança. – Ele concordou. – Todos responderam à chamada? – Ele acenou que sim. – Good. — Entrei na sala e em vez de pessoas sentadas nas cadeiras ao redor da mesa, haviam várias telas com os acionistas da Marra em todo o mundo numa chamada online. – Hello gentlemen! Thank you so much por atenderem a essa chamada de emergência, mas serei breve: eu precisarei me ausentar dos negócios por um tempo, questões de saúde... e como presidente da Marra International, indico o mais apto a assumir temporariamente a minha posição, Mr. Caeiro. A filial da qual ele cuida em Portugal, tem tido o melhor desempenho industrial e comercial mesmo quando a empresa estava em crise. Logo, acredito que ele é minha melhor opção. – Não só por isso, ele também era o mais honesto dos acionistas e eu não queria me arriscar. – Há alguma objeção quanto a isso?

(...)

— Você vai nos deixar, princesa? Não pode isso... – Moreira lamentou assim que me viu entrar na Parker.

— Eu preciso, my friend, por um tempo...

— O que houve? Você está doente?

I’m pregnant, Moreira, e não é uma gravidez fácil, eu preciso me ausentar do trabalho... como já está na hora do almoço e eu tenho que manter uma alimentação controlada por Dorothy, peço que você, como novo presidente temporário da Parker TV, realize essa reunião.

— O-o-o que? Você tá brincando, né?

Of course not! Eu sei que você pode fazer isso... eu conheço a sua formação, o seu currículo, suas habilidades não estão sendo aproveitadas a 100% e eu quero te dar essa chance porque confio em você. – Ele sorriu emocionado e me abraçou.

— Obrigado, muito obrigado Pamela, eu não vou te decepcionar.

— Eu sei que não.

— E tenha... uma feliz gestação. Dê a luz a mais uma estrela! – Eu sorri e agradeci.

— Moreira, eu peço que você não deixe essa notícia vasar na imprensa ainda...

— Pode deixar, estão todos loucos para terem notícias de Pamela Parker, mas eu vou guardar esse segredo até quando você quiser.

(...)

—... Tá, eu aceito, eu vou fazer o que cê quer. Vai ser difícil, mas eu acho que consigo... ficamos entendidos assim.

— Você não vai se arrepender, Herval! – Mal entrei em casa e já me deparei com Megan e Herval conversando na sala.

— Herval não vai se arrepender de que? – Dei-lhes um susto e eles pareceram temporariamente sem jeito, perturbados.

— E-e-eu estava pedindo ajuda ao Herval e-em nome de Davi. E-e-ele está meio enrolado nos negócios lá em São Paulo. – A bad girl gaguejou e Herval apenas concordou com ela.

Okay... — Aquilo me cheirava a mentira. – Good luck for you! Excuse-me. — Passei por eles, mas antes eu pudesse deixar a sala, senti uma fraqueza nos membros e me apoiei numa parede para não desabar.

You’re okay, mom? — Os dois se aproximaram preocupados.

Yeah, foi só uma fraqueza... deve ser porque eu não almocei ainda. Please, sweet, você pode buscar meu almoço e levar no quarto? Tenho certeza que Kate já deixou preparado.

Sure! — Ela correu para a cozinha enquanto eu tentava andar quase desabando novamente. Foi então que senti uma mão na minha cintura e uma outra segurar minha mão, erguendo-a até a altura da costela. Olhei para o lado e Herval tinha um pequeno sorriso no canto da boca.

— Eu te ajudo. – Ainda que um pouco deslocada, sorri em agradecimento e partimos em direção ao quarto. Chegando lá ele me sentou com cuidado na cama e pela segunda vez ficamos com os rostos bem juntinhos, fazendo meu coração acelerar. – Prontinho... – Sussurrou, revezando o olhar entre meus olhos e meus lábios.

Thank you...

— Não por isso. – Sorriu e ia sair do quarto quando eu lhe chamei num impulso:

— Herval! – Ele se virou para mim. – Não vá ainda. E-eu gostaria de conversar um pouco com você... – No instante seguinte, Megan apareceu com uma bandeja repleta de comida. – Thank you sweetheart... — Ela colocou e cima do criado mudo e disse que tinha que ligar para o Davi. Pretexto para voltar a nos deixar a sós.

— Sobre o que você quer conversar? – Ele sentou-se ao meu lado.

— Você acha que podemos ser amigos? – Fui direto ao ponto.

— Como? – Isso foi mais um “repete que eu acho que entendi errado.”

Friends! You and me! Eu não acho que devemos cortar relações só porque nos separamos. Nós ainda temos um filho em comum, e pelo bem emocional dele, eu acho que nós deveríamos ter uma convivência minimamente agradável.

— Ah, pelo Quim...

Yeah, e por nós também. – Pousei a mão sobre a sua. – You’re so great, Herval! Seria uma pena te perder completamente... – Não me pergunte o que foi aquilo! Instinto suicida talvez. Mas eu só falei a verdade, seria muito ruim se perdêssemos totalmente a nossa intimidade. – O que me diz?

— Tudo bem! Fico feliz por você ainda me querer por perto... fico realmente feliz. – Ele pousou sua mão em cima da minha, que já estava em cima da sua outra mão, e sorriu docemente. Num instinto, continuo achando que, o suicida, lhe dei um abraço. Um abraço que selava aquele nosso novo momento. O passado ficava no passado.