Georgia On My Mind
1 Amantes
Notas iniciais
"Oh oh oh oh, Georgia, Georgia
Não encontro a paz, a paz
Apenas uma velha e doce canção
Mantém Georgia na minha mente
Eu disse, apenas uma velha e doce canção
Mantém Georgia na minha mente"
Duas batidas na porta. Ela já sabia que era ele. Não havia outro paciente marcado para aquela tarde.
Nem se deu o trabalho de olhar pelo olho mágico, girou a chave duas vezes e pulou nos braços do homem de chapéu.
- Estava ficando desesperada. Achei que não voltasse mais.
- Sempre darei um jeito de voltar. Você sabe disso. — Ele disse pegando-a no colo.
Encaminhou-se para o quarto, deitou-a na cama e começou a despí-la sem o menor pudor. A mulher ficava arrepiada cada vez que seus dedos roçavam em suas costas.
Não disseram nenhuma palavra de negócios, não falaram sobre as angústias, nem as carências maternais. Aquilo não passava de fachada. Eles dois curariam todos os seus problemas apenas com gestos. Palavras de amor, juras. Ah, aquelas belíssimas juras sem fundamento que naquele momento pareciam as verdades incontestáveis do universo.
Não havia nenhum cientista que contradissesse o poder de cura utilizando a paixão como remédio. Possuíram-se corajosamente aquela tarde, como se não fossem se ver nunca mais.
A carne ficaria satisfeita, mas a mente não. A mente não cessaria o desejo um pelo outro com apenas uma tarde, que não as noites que lhes sobravam em vida.
Mas nem a Igreja, nem a sociedade e nem Deus havia de permitir. Que ficassem então ilegais e tivessem como companheira a sorte, e nada mais.
- Kath? — Ele chamou abraçado a ela.
- Sim?
- Eu não quero voltar.
Ela esticou o pulso e viu os ponteiros se movendo rapidamente.
- Durma, John. Ainda temos tempo. — Respondeu acariciando seus cabelos.
A despedida era sempre a mesma: cheia de remorso. Ele beijava as costas de sua mão carinhosamente aproveitando-se do olhar perdido. Oh! Quão graciosas as mulheres ficam quando perdidas!
Demoram séculos para ceder e segundos após a redenção procuram um lugar pra se esconder como pecadoras assíduas.
- Até logo, senhorita. — Ele disse segurando a aba do chapéu.
- Ora vamos! Deixe de cena e vá logo embora. Sua esposa...
- Karma.
- Que seja. Ela deve estar te esperando para jantar.
Ele tentou não pensar no reencontro com a esposa quando chegasse em casa, pelo menos enquanto descia as escadas do prédio.
Logo na calçada, poucos metros a frente, avistou um bar que o seduzia a cada consulta.
Rendeu-se ao seu charme e sentou-se numa mesinha.
Apertou o chapéu contra a cabeça e abotoou o casaco. Mirou a janela da mocinha e esperou por um milagre. Talvez, por sorte, ou obra do destino, ela apareceria ali para brindá-lo com mais um sorriso.
E foi só pensar nela que prontamente debruçou-se no parapeito para fechar as cortinas, mas não notou o leve bater de mãos do homem de meia idade na mesa do bar.
Sua bebida chegou, para reparar, aliviar ou mesmo parabenizá-lo por seu crime. Baixou os olhos para a bela taça de vinho e descobriu no reflexo, uma mocinha, linda, espiando-o pela brecha das cortinas.
Ficaram por minutos nessa posição, como os amantes devem ser, temerosos e insaciáveis.
- Por Deus! Sinto desejo de matá-la por maltratar-me dessa maneira! — Cochichou.
Não antes ou depois, despediram-se simultaneamente, ela sumindo do beiral e ele pagando a conta.
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