Geometria Brompton
1 Prólogo
Notas iniciais
Dia 13 de julho: Um vento seco e poeirento soprava nos Montes Wuliang, no sul da China. Dois homens tentavam proteger os olhos da poeira enquanto observavam as atividades de uma pedreira na região. Após vários minutos de observação, um deles, alto, loiro de olhos azuis, virou-se para seu colega, um sujeito moreno, também de olhos azuis e comentou:
— Johnny, eu acho que são crianças que estão trabalhando lá. Olha a proporção do corpo deles para com o carrinho de mão.
— Brian, calma. Da distância que estamos é mais difícil ver detalhes. Vamos nos aproximar.— ponderou Jonathan Christopher Sullivan, chamado pelos amigos de Johnny.
— Ah, beleza. Boa ideia.— concordou Brian, cujo nome completo era Brian James Sanders.
Ambos estudavam um jeito de descer pelas rochas quando ouviram passos pela montanha. Pararam e olharam na direção do som. Viram um casal, um rapaz moreno e alto e uma mulher loira que também subiam o morro.
— Oi.— cumprimentou Jonathan, reservado.
— Ah, olá, tudo bem?— era o rapaz do casal. Estava com a respiração pesada pelo esforço da subida.
— Em tese...— respondeu Brian ainda mais reservado que Jonathan e desconfiado das intenções do casal.
— O que vocês fazem aqui?— agora era a mulher recém-chegada quem indagava os rapazes.
— Só estamos olhando aquela pedreira ali embaixo. Nada demais.— respondeu Jonathan, reservado, querendo encerrar a conversa. Não se imaginava falando mais nada sobre seu objetivo lá para quem quer que fosse.
— Legal. O que tem ela?— o companheiro da loira era quem perguntava.
— Por que vocês querem saber?— perguntou Brian pouco ligando para seu tom de voz grosseiro.
— Era só curiosidade, mas acho que estamos fazendo a mesma coisa.— respondeu ela, sem-graça.— Investigando.
— Impressão sua.— desconversou Brian.
A moça, então olhou para seu colega e ambos decidiram, finalmente se apresentar:
— Sou Gillian Mary Finnes, agente da CIA.— revelou a mulher, mostrando a insígnia.
— Matthew Owen Baker, também sou da CIA.— apresentou-se o homem também, mostrando sua insígnia.
— Brian James Sanders. Agente do setor de exploração e tráfico humano da Interpol. Também sou americano.— relaxou o sempre desconfiado Brian mostrando seu distintivo. “Nós quatro estamos no mesmo barco”, pensou.
— Jonathan Christopher Sullivan. Mesmo setor da Interpol. Mas sou irlandês.— apresentou-se Johnny com sua insígnia em mãos.— Ah, podem me chamar de Johnny.
Desconfiança inicial superada, os agentes passaram a conversar sobre o caso.
— Bom, quais são suas suspeitas?— perguntou Matthew.
— Trabalho infantil. Muito provavelmente escravo.— respondeu Brian, chateado. Não havia coisa pior para ele que uma criança vivendo em condições sub-humanas.
— Aqui, nessa região do planeta, eu não me espantaria.— disse Gillian.
— Infelizmente você está certa.— devolveu Brian, seco.
Passados alguns minutos, Jonathan lembrou o colega:
— Ô Brian, a gente não ia descer até lá na área da pedreira?
— Caramba, é mesmo.— disse Brian.— Vamos?— terminou chamando os dois agentes da CIA.
— Claro.— Matthew concordou por si e por Gillian.
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Quando, por fim, se aproximaram da pedreira o suficiente para serem notados por quem estava por lá, as suspeitas de Sanders se confirmaram. Não havia nenhum adulto na pedreira, apenas crianças, a maioria delas com menos de dez anos. Ficaram observando o trabalho das crianças quando uma mulher chinesa aproximou-se deles, nervosa, falando em um inglês primário:
— O que vocês estão fazendo aqui?— além de inglês primário, tinha um tom repressor na voz e expressão do rosto fechada.
— Ah, nós somos turistas. Nos perdemos.— era Matthew pensando rápido.
— Ah, sim. Me desculpem. Pensei que vocês fossem... Ah, esquece. Fiquem à vontade. Qualquer coisa, estou por aí. É só me procurar.— disse a mulher com um inglês bem melhor que o da primeira frase. Coisa que os agentes notaram, mas não comentaram. E também a mulher ainda não se apresentara.
— Com licença, qual é seu nome?— perguntou Gillian.
— Ah, me desculpem de novo. Me chamo Meiying.— respondeu a chinesa.— Sou meio distraída.
Nisso, Brian cutucou Jonathan e lhe pediu pra dar um jeito de enrolar a chinesa, pois iria tirar fotos das crianças trabalhando.
— Há quanto tempo você mora por aqui?— disse o irlandês iniciando a missão de distrair Meiying. Matthew e Gillian compreenderam a mensagem e ajudavam Jonathan nas perguntas, enquanto Brian andava pela pedreira tirando fotos das crianças e do local.
A situação (Matthew, Gillian e Jonathan enrolando Meiying e Brian fotografando tudo) durou mais de uma hora. A temperatura caía bruscamente com a chegada da noite quando Brian, por fim, juntou-se aos seus colegas de novo.
— Gente, achei uma trilha que vai até a vila onde estamos. Podemos voltar antes de escurecer de vez.— inventou.
— Ai, graças a Deus!— comemorou Gillian.
— Que bom. A última coisa que eu iria querer era passar uma noite ao relento.— disse Matthew.
— Demorou, cara! Acabou a bateria do GPS de novo?— disfarçou Jonathan.
Nisso, um homem chinês se aproximou do local onde todos estavam falando algo incompreensível aos agentes:
— Quem são eles?— o sujeito perguntava em chinês para Meiying.
— Eles se perderam. São turistas. Pessoal, esse é Li Zhou. Meu sócio aqui no negócio.
— Ah, oi, prazer. Seus nomes, por favor.— disse Li Zhou, em inglês.
Os agentes engoliram seco. Teriam de dizer nomes falsos, coisa que nenhum deles gostava, mas eram ordens superiores.
— Zachary.— Brian foi o primeiro a mentir.
— Todd.— Matthew foi no embalo.
— Scott.— mentiu Jonathan.
— Kelsey.— era Gillian, por sua vez.
— Ok, já está muito tarde para vocês irem para a vila, por que não ficam aqui? Temos espaço para bastante gente.
O quarteto se entreolhou. Teriam que se comunicar sem usar palavras. No fim, pediram um minuto para Li Zhou para conversarem em particular.
— Acho bom aceitarmos o convite. Vai ser bom pra colher provas. Eles estão confiando na gente.— decidiu Brian/Zachary.
— Ótimo.— era Jonathan/Scott.
— Estamos dentro.— disse Gillian/Kelsey falando também em nome de Matthew/Todd.
Voltaram ao local onde Li e Meiying os esperavam e Brian assumiu a liderança do grupo.
— Li, Meiying, vamos aceitar o convite.— disse ele.
— Ótimo. Sejam bem-vindos. Sintam-se à vontade.— disse Li.— Venham comigo. Vou mostrar-lhes seus quartos.
Os agentes caminharam pela trilha até uma construção de concreto nos “fundos”. Nesse meio tempo viram as crianças sendo conduzidas para algo que parecia um galpão. Brian sacou a câmera da mochila e tirou a última foto do dia.
Acomodados em um quarto simples, os quatro agentes sentiram-se livres para conversar amenidades:
— De que lugar dos Estados Unidos você é, Brian?— perguntou Gillian.
— Huntington Beach, Califórnia. E vocês?- respondeu Brian.
— Sou de Escatawpa, Mississippi.— respondeu Matthew.
— Chicago.— disse Gillian.— E você Johnny?
— Sou de Dublin, Irlanda.— respondeu o próprio Jonathan.
— Ah, é. Você já havia dito que era irlandês, eu me esqueci.— desconversou Gillian.
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Nos dias seguintes, o quarteto caminhava pela pedreira, vendo as crianças trabalhando naquele estado deplorável. Muitas delas paravam por muito tempo, cansadas, dizendo aos visitantes, nas mais diversas línguas que estavam cansadas, com fome, que queriam sair dali. Mas os agentes nada compreendiam.
Três dias depois de se instalarem na pedreira, Brian e Matthew enquanto caminhavam entre as crianças, esbarram em outro chinês. Magro e vestindo roupas sujas, que entrou no escritório de Li Zhou sem sequer cumprimentar a dupla.
— Tratar o Li Zhou bem sabendo que ele faz isso, me dá náuseas.— comentou Matthew com Brian.
— Em mim também.— respondeu aquele.
Enquanto isso, Jonathan, no escritório de Li Zhou, ouvia a conversa dele com o outro chinês. Porém não entendia nenhuma palavra da conversa. Mesmo assim a dupla abusava dos simbolismos na conversa, para esconder o objeto dos negócios do turista.
— Tem três pessoas na Índia que me vendem isso por dez dólares cada.— disse o visitante.
— E quantos que eles têm?— Li Zhou perguntava.
— Um tem sete, e os outros dois onze cada. É um bom negócio. E no Laos, há uma oferta de oito dólares. O sujeito tem sete desses. E lá também posso conseguir uns de graça. Sabe como é, o povo larga jogado nas ruas... Não só lá no Laos.
— Hum, boa oferta. Um minuto.— disse Li Zhou abrindo uma gaveta. Jonathan olhou-a discretamente e se assustou: A gaveta estava abarrotada de dinheiro, notas de dez e cinquenta dólares, predominantemente.— Aqui. Isso é para os indianos e isso para o cara do Laos. Diga a ele que ele pode ficar com o troco. Quanto ao que encontrar na rua, pegue todos.— finalizou Li entregando trezentos e cinquenta dólares para o visitante.— Ah, tome isso também. Para cobrir suas despesas.— disse dando mais cento e cinquenta dólares para o mesmo.
— Obrigado. Pode deixar. Em alguns dias, trago o pedido.— disse o visitante saindo da sala e logo voltando:
— Ei, Li, e aquele outro negócio?— perguntou ele.— Posso mesmo fazer?
— Que outro negócio?— perguntou Li. O visitante lançou-lhe um significativo olhar, sendo rapidamente compreendido pelo dono da pedreira.— Ah, sim. Pode. Você terá cobertura total nele. Já conversei com eles é só chegar e executar o serviço. Aqui, tome. Pra essa tarefa você vai precisar de mais gente.— terminou Li Zhou dando mais dinheiro para o visitante.
— Pode apostar.— disse o visitante saindo e tomando rumo ignorado.
— Quem é esse cara?— perguntou Jonathan.
— Iajuddin Wajedd. Um amigo meu do Mianmar, Scott.— explicou Li.
— Ah, ok.— disse Jonathan/Scott sem pedir mais detalhes. Saiu da sala e foi procurar Brian. Tinha que contar ao colega sobre a gaveta cheia de dinheiro. Entretanto, quem ele encontrou foi Gillian/Kelsey.
— Sabe dos outros? O Zacky e o Todd.— Perguntou Jonathan surpreso com a própria memória, pois várias vezes, até esquecia-se de que o nome falso dele era Scott.
— Não os vi, Scott. Mas devem estar por aí. Vamos procurá-los.
— Claro, Kelly?— arriscou Jonathan/Scott.
— Quase isso. Kelsey.
— Desculpe, sou péssimo para guardar nomes.
— Tudo bem. Ah, eles estão ali.
— Vamos lá. Tenho que contar um negócio pro Bri, digo, Zacky.
— E aí, descobriram algo?— perguntou Brian/Zachary.
— Li Zhou tem uma gaveta no escritório cheia de notas de dólares.— disse Jonathan/Scott
— Mesmo? Como viu isso, Jon, quero dizer, Scott?— perguntou Brian/Zachary.
— Ele estava conversando com um cara lá. Tem um nome estranho pra burro. Mas não entendi nem uma palavra. O papo foi todo em chinês. Mas deu a entender que Li está comprando algo do cara. Entregou um bolo de dinheiro na mão dele.
— Sorte sua, Johnny... Scott. Nós não descobrimos nada.— reclamou Brian/Zachary.
— É. Vamos vazar daqui quando?— era Matthew/Todd reclamando.
— Sei lá. O mais breve possível.— decidiu Brian/Zachary
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Quatro dias depois, o clima na pedreira continuava o mesmo. Só que os agentes neste dia foram acordados pelo barulho de um motor.
— Que será isso?— perguntou Brian, ainda grogue de sono. Olhou no relógio, eram seis e meia da manhã.
— Vou checar.— disse Jonathan levantando-se e abrindo com cuidado a janela. Viu, lá embaixo um ônibus extremamente enferrujado, Li Zhou e Meiying estavam ao lado do mesmo.— Brian, a câmera. Tem um ônibus lá em baixo. Se ele bater em algum lugar, pulveriza de tão enferrujado.
— Ônibus?— perguntou Matthew acordando.— Que está acontecendo?
— Não sei— respondeu Brian entregando a câmera para Jonathan.
— Isso não é. Ah, meu Deus! O Ônibus está cheio de crianças!— disse Jonathan olhando da janela e clicando sem parar na câmera.— Temos que ir lá embaixo.
— Certamente.— disse Brian se vestindo.— Matt, você chama a Gil?
— Lógico.— respondeu Matthew colocando uma camiseta e indo em direção a porta. Gillian estava em outro quarto.
Brian e Jonathan terminaram de se vestir e saíram do quarto, atrás do casal da CIA. Logo os viram saindo do quarto da loira, prontos para descerem e checarem a história do ônibus. Desceram as escadas do prédio onde estavam e chegaram a tempo de ver as últimas crianças descendo. A maioria tinha traços orientais e todas estavam assustadas. Jonathan tirava algumas fotos e Brian tentava contar quantas crianças havia no comboio até que uma delas chamou-lhe a atenção. Era um menino loirinho de no máximo dois anos. Estava bem mais assustado que as outras crianças, cujas idades ficavam entre cinco e treze anos. O garotinho destoava do resto.
— De onde será que elas vieram?— perguntou-se Gillian.
— Faço ideia. Podem ser que qualquer país da região. Tirando aquelas mais claras ali que devem ter vindo da Rússia.— era Brian respondendo a pergunta de Gillian, ou como já a chamavam, Gil.
— Olha só o tamanho daquele menininho ali!— disse Gillian apontando para o garotinho loiro.— Não deve ter mais de três anos.
— É. Não vai durar muito tempo aqui, não, infelizmente.
Jonathan estava tirando fotos do ônibus quando, por fim, olhou para o banco do motorista. Congelou com a visão. Era ele!
Pouco depois do desembarque, Meiying juntou as crianças e já as colocou para trabalhar.
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E assim foram mais quatro dias. Quando então, Jonathan, andando pela pedreira encontrou um sujeito extremamente esquisito entrando na pedreira carregando uma grande caixa de papelão. Sem perder tempo, Jonathan sacou seu celular do bolso e fotografou o sujeito, o seguiu e o viu entrar na sala de Li Zhou. Parou diante da porta. Ficou observando enquanto mantinha os ouvidos ligados na conversa do sujeito com Li.
— O mesmo pedido de sempre.— disse o sujeito, que se assemelhava a um cientista maluco de filmes de ficção científica com um forte sotaque russo.— É idêntico ao último que trouxe.— finalizou enquanto Li tirava o conteúdo da caixa: Diversos potes contendo um pó de coloração acinzentada.
— Ótimo, obrigado.— disse Li.— Olá Scott!
— Oi, Li.— cumprimentou Jonathan/Scott sem graça.
— Entre.— permitiu o chinês.
O irlandês entrou na sala, mas não ousou perguntar a Li nada sobre o pó nem sobre o homem. Ficou ainda atento à conversa, quieto, mas fingindo-se concentrado em um mapa da Ásia fixado na parede. Cerca de quinze minutos depois, percebeu que estava sozinho na sala. Decidiu aproveitar a chance. Olhou no corredor: vazio. Voltou até a mesa de Li e pegou um dos potes, no qual havia aproximadamente um quilo de pó e sorrateiramente levou até seu quarto e guardou-o na mochila. Saiu do quarto como se nada tivesse acontecido. Decidido a guardar segredo até de Brian sobre isso. Só falaria sobre o pote com pó quando estivessem longe de Li Zhou e Meiying.
Naquela noite, Matthew contou à colega da CIA e aos seus amigos da Interpol as últimas informações passadas pela Agência Americana de Inteligência.
— Pessoal, a CIA me passou a seguinte informação... Três dias atrás dizimaram uma cidade no interior da Rússia, um vilarejo de pouco mais de quatro mil habitantes, próximo à fronteira coma China. Não se sabe quem são os responsáveis pelo ataque, curiosamente só há adultos entre os mortos e o governo russo está fazendo vista grossa pro episódio. Até agora não tomou providências para investigar esse ataque. Não sei qual a desculpa que usarão para essa “vista grossa”, mas acredito que qualquer outro país do mundo investigaria uma história dessas a fundo. Isso poderia até mesmo acabar em uma guerra. E os russos fingindo que não houve nada.
— Verdade, Matt. Isso está muito estranho. Qualquer outro país, como você já disse, viraria essa história pelo avesso para se apurar o que aconteceu. Tem algo estranho nisso.— intuiu Brian.
Os agentes ficaram quietos se olhando, pensando no que Matthew lhes havia dito. Por que o governo Russo estava ignorando o ataque? Ideias começaram a surgir entre os agentes, mas eles as consideraram absurdas. Preocupados com a novidade, foram dormir.
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Mais três dias se passaram e os agentes continuavam hospedados na pedreira. Por volta das dez da manhã do dia de vinte e três de julho, Brian e Gillian viram duas mulheres coordenadas por Meiying carregando duas enormes panelas.
— Uau! Até que enfim vão dar comida para essas crianças.— disse Brian notando que nos dez dias em que estavam lá, as crianças operárias não haviam se alimentado. E fotografando o acontecido.
— É... Estou com dó delas. Aquele pequenininho então, coitadinho. Não consegue carregar nada. Acho que você tem razão, Bri... Zacky. Ele não vai aguentar muito tempo. E, meu Deus, ele é tão bonitinho.— disse Gillian olhando com compaixão para o garotinho. Loirinho, bochechudo e de grandes olhos azuis. Poderia facilmente passar-se por um filho dela com Brian. E o menino tinha um ar triste e perdido, não tinha ideia do que lhe acontecia.
— Bonitinho mesmo.— disse Brian sorrindo olhando também para o menino.
Nisso, Meiying reuniu as crianças e deu a cada uma delas uma tigela com arroz e um pouco do pó levado pelo esquisitão de quem apenas Jonathan sabia da existência.
— O que é aquela coisa cinza que estão pondo na comida das crianças?— perguntou Brian.
— Não tenho ideia.— disse Gillian.
As crianças comiam tudo ávidas e pediam mais a Meiying. Que, tranquila, servia mais comida a elas. Todas, exceto pelo garotinho de provável procedência russa que encantara Gillian. Ele deu apenas algumas colheradas pequenas e jogou a tigela no chão. Meiying apenas pegou a tigela e afagou mecanicamente a cabeça do menino. Logo Meiying encerrou o almoço recolhendo as tigelas e mandando as crianças voltarem a trabalhar. Saiu de perto da cena com as duas ajudantes e tomou rumo ignorado.
Duas horas haviam se passado desde o “almoço” e as crianças trabalhavam, sem qualquer supervisão. Eram pequenas e ingênuas demais para pensarem em fugir da pedreira. Até que, diante dos olhos de Brian, que estava tirando fotos delas e de Gillian que estava andando pelo local, as crianças começaram a passar mal e vomitar. Isso assustou o casal que logo passou a tentar socorrer as crianças. Nisso elas começaram a ter convulsões manchas esverdeadas e arroxeadas começaram a aparecer na pele e logo depois, foram perdendo a consciência, ainda convulsionando e depois, subitamente, pararam. Brian conferiu os sinais vitais de uma delas e disse a Gillian, aflito:
— Ela... Ela... Ela está morta, Gil.
— O quê?— retrucou Gillian incrédula.
— Ela morreu.— disse Brian com a voz triste, ainda agachado com o corpo de uma garota indiana de aparentemente oito anos jazendo a seus pés. Acariciou o rosto da menina e foi conferir com Gillian os sinais vitais de outras crianças. Todas mortas. Gillian ficou extremamente desolada, pois gostava daquelas crianças, rejeitadas por meio mundo – inclusive pelos pais.
— Não posso acreditar nisso.— disse ela chorando. Brian levantou-se e abraçou-a. também chorava. “Como puderam fazer isso?” pensava Brian “Onde Matt e Johnny estão?” perguntou-se. Tentava imaginar um local no qual a dupla poderia estar quando ouviram um choro. “Ainda havia uma criança viva!” Pensaram esperançosos. Seguiram o som e viram que quem chorava era o garotinho de Gillian. Ele estava sentado no chão. Não vomitara nem tivera convulsões, mas tinha o corpo coberto de manchas. Gillian, num impulso meio maternal, pegou-o no colo e beijou-o. Ficou afagando o menino até ele parar de chorar. Então, disse a Brian:
— Temos que levá-lo a um hospital. Se as outras crianças morreram...
— Tem razão, mas cadê o Matt e o Johnny?
— Não sei.— disse ela ainda afagando o menino, que estava assustado com o que ocorrera.— Mas vamos procurá-los.
Nisso Gillian passou a mão pela barriga do garoto e sentiu algo estranho.
— Brian, um minuto, me ajude aqui. Parece que tem alguma coisa estranha na barriga dele.— terminou levantando a camiseta do menino e lá encontrando um papel preso ao corpo do menino. Delicadamente, Brian retirou-o e leu. Escrito em inglês, era um bilhete em linguagem bem infantil.
— Que coisa, está escrito em inglês!— comentou contando a Gillian o que estava escrito. Era o nome do menininho (Alexander), sua data de nascimento (18/10) de dois anos atrás. Ou seja, o garoto estava com um ano e nove meses. E também, lá estava a informação de que seus pais biológicos eram desconhecidos.
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Enquanto Brian e Gillian testemunhavam a morte das crianças, Matthew e Jonathan estavam explorando as montanhas atrás da pedreira. Após caminharem quase dois quilômetros, começaram a sentir um cheiro fétido, insuportavelmente ruim.
— Eu ainda vou vomitar com esse cheiro.— disse Jonathan abanando as mãos na frente do rosto.
— Eu também, Johnny.— disse Matthew.
— Mas, Matt, antes de desmaiarmos com isso, temos que descobrir de onde ele vem.
— Se aguentarmos...
Subiram um morro e a cada passo, o cheiro ficava mais forte. No topo, se detiveram, perplexos: lá estava uma vala cheia de corpos de crianças em variados estados de decomposição.
— Minha nossa senhora!— exclamou Jonathan.
— Caramba!— foi a vez de Matthew se espantar.
Os dois se entreolharam, sacaram seus celulares e passaram a tirar fotos da vala. Logo depois, decidiam descer de volta à pedreira. Lá embaixo encontraram Brian agitado:
— Até que enfim achei vocês dois. Empacotem suas coisas que vamos sair daqui AGORA.— disse Brian, nervoso para a dupla.
— Mas, Brian a gente viu...— começou Matthew.
— Aqui, cara, no caminho vocês contam. Peguem suas coisas.— interrompeu Brian.
— Ah, beleza.— era Jonathan.— Brian, cadê a Gil?
— Atrás de você.
Jonathan virou-se e entendeu imediatamente a pressa de Brian. Correu para o prédio e arrumou sua mochila, cuidando para não se esquecer do pote com o pó cinza.
Logo, os quatro e o garoto estavam num carro de propriedade de Li Zhou, rumo à cidade de Kunming, a mais próxima da pedreira. Lá, dirigiram-se a um hospital. Já na instituição, o garotinho que estava quietinho no colo de Gillian voltou a chorar e, o que era temido por Gillian e Brian aconteceu, desmaiou. Uma enfermeira pegou o menino e os quatro agentes mostraram suas insígnias. A enfermeira pediu aos quatro que a acompanhassem e Brian contou ao médico que os atendera a história do arroz e do pó. Jonathan ficou quieto. Só mostraria o pote a Brian quando ambos já estivessem dentro do avião que os levaria de volta a Lyon, o que ele esperava que fosse o mais breve possível.
Inconsciente, o pequeno Alexander foi internado no hospital e os agentes rumaram para o aeroporto local. Eram duas horas da tarde. Lá, compraram passagens para Hong Kong, num voo que só sairia às sete da noite. Tempo esses que os agentes aproveitaram para contar o que viram para os outros. O que uma dupla contou deixou a outra boquiaberta. Várias horas depois estavam no avião que os levaria a Hong Kong. No aeroporto local, Matthew e Gillian compraram passagens para Washington às treze horas do dia seguinte. Brian e Jonathan conseguiram lugares no voo para Lyon das quinze horas também do dia seguinte.
Feito isso, foram até um hotel nas proximidades do aeroporto. Dormiram agitados. No dia seguinte, enquanto esperavam o horário do voo, Brian e Jonathan arrumaram as inúmeras fotos que tiraram num cartão de memória que Brian tratou de guardar em um bolso interno de sua mochila. Desligaram o notebook e rumaram para o aeroporto. Chegaram a tempo de se despedirem de Matthew e Gillian que estavam entrando na sala de embarque. Foi uma despedida rápida e logo a dupla da CIA sumiu atrás dos pesados portões.
Com Matthew e Gillian já na sala de embarque, Brian e Jonathan vão resolver a própria viagem e enquanto esperavam serem chamados para embarcar pensavam no que o chefe deles na Interpol faria ao ver as fotos. Finalmente, a dupla embarca. Lyon estava mais próxima. Entraram nervosos no avião. Jonathan checou pela enésima vez o conteúdo de sua mochila. O que intrigou Brian.
— Ô Johnny, que raios você tanto olha na sua mochila?
— Você sabe que eu sou distraído, Brian. Olhei pra ver se não me esqueci de nada.— disse Jonathan. Havia mudado de ideia e só mostraria o pote do pó DENTRO do prédio da Interpol.
Finalmente, às quinze horas, o voo decolou.
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