Gentle Lie
1 único
Notas iniciais
Essa noite eu estava dando uma festa no meu apartamento. Sem motivo algum, eu só queria reunir alguns amigos próximos. Eu queria que Aoi estivesse lá. Eu amava Ruki, claro. Mas eu não tinha certeza de que eu o amava como um amigo ou se eu estava cometendo um erro em namorá-lo.
Aos poucos eles foram chegando, eu sentia o olhar de Reita queimar em cima de Ruki. Sim, eu sabia que ele era apaixonado pelo meu namorado, mas eu havia pedido primeiro, ele que esperasse. Estavam todos lá, menos ele. Menos quem eu queria que estivesse por perto. A campainha tocou, pulei do sofá e fui atender. Era ele. Sorri involuntariamente, o moreno que fazia meu coração disparar estava lindamente vestido num blazer preto e calças jeans bem escuras.
-entre, entre! – eu ordenei, puxando-o pelo braço até a varanda – vem comigo, eu quero te mostrar uma coisa
Eu ainda não havia bebido, estava me esforçando pra isso, juro, mas eu não tinha bebido nada, queria estar sóbrio nesse momento.
-tcharan – eu disse, apontando pra uma pequena flor que crescia num vaso na minha varanda, na verdade, duas cresciam, uma ao lado da outra – reconhece? – ele fez que não com a cabeça e sorriu – é uma malva-rosa – eu disse, rindo – a flor que tem o mesmo kanji que o seu nome, lembra?
-sim, eu me lembro desse dia – ele sorriu pra mim, arrancando uma flor e segurando-a entre as mãos – nós dois fomos a um parque, você já sabia qual nome você queria, e eu não tinha nem idéia. Então nós fomos a esse lugar, perto da sua antiga casa, e tinha uma malva-rosa desabrochando na frente de um lago. Você foi quem sugeriu o nome Aoi.
-você ainda lembra...
Sorri, sentia meu coração pular dentro do peito, ele segurava a flor em suas mãos como se ela fosse seu coração.
-Uruha, eu deixei minha palheta azul com você, não foi? – era uma pergunta estranha pra esse momento, pro meu momento especial com ele, mas eu fiz que sim com a cabeça.
-está no meu quarto, na primeira gaveta do criado mudo.
-ok, eu vou lá pegar, ok? – ele não me deu tempo de falar nada, logo se foi, me deixando sozinho na varanda.
Respirei fundo e voltei pra festa. Ruki estava com um copo sentado no sofá, fui até ele e me sentei ao seu lado. O abracei e o beijei delicadamente. Ele era todo delicado, isso às vezes me incomodava, mas só às vezes.
A noite passou entre risadas e drinques, eu já tinha bebido além da conta quando Ruki me arrastou pro meu quarto. Ele se sentou no futton e sorriu, como um pequeno diabinho. Joguei-me em cima dele. Os outros caras da banda ainda estavam na sala, e eu podia diferenciar perfeitamente a voz de Aoi, se destacando das outras, enquanto Ruki me beijava.
A cama estava fria, e eu já não sentia mais as carícias de meu namorado. Não sentia mais nada, eu estava preso na letra de uma das nossas músicas. Gentle Lie. Mentira gentil. Quão irônico era que quem havia escrito aquela letra era exatamente o motivo de eu estar deitado, sendo tocado por alguém, sobre lençóis de seda, desesperadamente ansiando por mãos que não me tocariam, tentando disfarçar minha frieza com abraços e beijos sem emoção.
Abri meus olhos e tentei analisar a cena. Ruki estava ao meu lado, me abraçando, me beijando, se despindo e me despindo e... E eu olhei para meu parceiro, mas eu vi o rosto de Aoi. Vi seus lábios grossos e os beijei ardentemente. Mas aquilo que minha boca tocou não era o rosto dele, não, não era. Era Ruki, não era Aoi. Mas meus olhos me diziam que era o meu amor ali, a minha frente, ao meu lado, deitado comigo, prestes a consumar nossa paixão. Balancei a cabeça convulsivamente, abri os olhos enquanto o fazia, e a avistei.
A malva-rosa estava em cima do criado-mudo. A que ele havia arrancado do ramo, segurado tão carinhosamente. Ele não havia entrado no meu quarto pra pegar a palheta, mas para deixar a flor que carregava seu nome ao meu lado quando eu fosse dormir.
Não, por favor, não agora, não agora. Eu já não agüentava mais. Uma lágrima rompeu por meu olhar. Não faça isso comigo...
-Uruha? Você está bem? – Ruki me olhava preocupado. Agora eu podia ver nitidamente seu rosto quase infantil, com seus brilhantes olhos amedrontados.
-eu... Eu tenho que te confessar uma coisa – a verdade estava dentro de mim, eu tinha que botá-la pra fora, senão explodiria. Peguei a mão de Ruki aonde o anel que eu o havia dado fazia papel de elo entre nós. Peguei o anel e tirei de seu dedo, colocando-o na palma de sua mão. – eu sinto muito, muito mesmo, Ruki. Eu não te mereço. Eu... Eu me apaixonei por alguém. Mas você é quem ilumina meus dias, meu raio de sol, meu pequeno. Eu simplesmente fui egoísta o suficiente pra querer você aqui, perto de mim, mas – respirei fundo – mas nos meus sonhos não é o seu rosto que eu vejo. Eu sinto muito, eu sinto muito.
-Calma, Uruha, calma – ele respondeu, me abraçando – eu já sabia. Mas eu não queria admitir. Eu também queria que você ficasse perto de mim – ele se afastou – podemos continuar amigos, não é? – seus olhinhos eram suplicantes.
-pra sempre. E dessa vez eu estou falando sério – eu respondi, abraçando-o – você pode me fazer um último favor? – ele assentiu – chame-o aqui, por favor.
Ruki sorriu e beijou minha testa. Saiu do quarto com um sorriso triste e foi em direção de Aoi. Ao ouvir o que o pequeno falava, ele olhou para a minha direção e corou.
O outro guitarrista entrou no quarto timidamente, com um fraco sorriso em seu rosto.
Fui até ele e tranquei a porta. Depois, sem dizer nada, fui até a janela e abri as cortinas. A lua cheia brilhava esplendorosamente no céu.
-Aoi, eu cheguei a uma conclusão.
-e qual seria? – ele falou, me imprensando contra a parede
-o sol ilumina nossos dias, faz deles felizes. Mas é a lua quem realmente importa. Sem ela, as noites seriam tenebrosas, escuras e frias. Sem a lua e o seu brilho, as pessoas estariam perdidas.
-aonde você quer chegar, Uruha? – ele perguntou, ficando apenas a alguns centímetros do meu rosto.
-você é a minha lua, Aoi. Meu guia, minha fonte de descanso. Sem você, eu estaria perdido.
Ele sorriu.
-por que diabos você demorou tanto pra perceber isso? Seu tonto, eu não posso dizer com palavras o quanto eu sofri quando você começou a namorar o Ruki. Eu sonhava com você, eu – ele tocou meu rosto com a ponta dos dedos, me fazendo arrepiar – eu não quero que você esqueça o que está acontecendo agora...
-então faça essa noite ser inesquecível. – eu disse, puxando-o pra mais perto de mim.
O beijo foi intenso, nossos corpos pediam por mais e éramos simples escravos do desejo incontrolável, do amor insaciável. Ele respondia perfeitamente a minhas necessidades, com cada toque delicado. Eu o despia peça por peça, para fazer durar mais, aquele momento que era só nosso.
Os lençóis foram aquecidos com o calor de nossos corpos, e eu mal vi o tempo passar. Quando dei por mim, o sol nascia entre as nuvens.
Meu celular tocou, era Ruki
-EI, VOCÊS DOIS, acordem logo e venham pro ensaio do show de amanhã!
Sorri. É, meu raio de sol continuaria brilhando eternamente, e a noite, a minha lua particular me faria companhia. Eternamente enquanto durasse.
Fale com o autor