Genéticos
1 Capítulo 1
Notas iniciais
CAPÍTULO UM
É muito difícil dizer como esta loucura toda começou. Chega a ser estranho me imaginar novamente como uma estudante deslocada e viciada em bioquímica, biotecnologia e biologia. Na verdade, é estranho me imaginar gostando de qualquer tipo de "bioloucura" que não seja meu próprio cotidiano.
Lembro-me vagamente da minha vida antes de eu me tornar oficialmente uma fugitiva do governo, procurada por uma instituição governamental que apenas os que são como eu têm conhecimento. Era tudo tão monótono, repetitivo e cansativo que eu nunca havia visto necessidade de me prender aos detalhes do que ocorria a minha volta.
E agora, cá estou eu, finalmente percebendo o quão boa era a minha vida.
Eu morava com minha mãe, Helen, pois meu pai havia nos abandonado quando eu tinha mais ou menos uns cinco anos. Trabalhava como decoradora de interiores bem sucedida. Ela já tinha trabalhado como arquiteta, mas desistiu do emprego depois que se casou com Jasper Erin.
Jasper tinha uma empresa grande e conhecida, a qual eu nunca tive o interesse de conhecer, visitar ou saber o que fazia. Ele nunca foi uma flor que se cheire, adorava arrumar alguma coisa para me criticar, mas nós tentávamos ao máximo manter uma relação de respeito entre nós.
Tinha ainda o Charles, meu meio-irmão mais novo de onze anos. Nossa relação baseava-se nos laços fraternais clássicos. Basicamente nós brigávamos, riamos, nos divertíamos e voltávamos a discutir antes do final do dia. No geral, nos entendíamos bem apesar de nossas diferenças físicas e psicológicas.
Mas, voltando ao que diz respeito ao interesse de vocês, minha pequena aventura começou quando numa sexta-feira, pouco antes do fim das aulas. O último tempo do dia era biologia, minha matéria favorita a pelo menos quatro anos.
Minha cadeira se localizava, como sempre, entre meus dois melhores amigos. A minha direita, encontrava-se Scott Jones, capitão do time de futebol da escola, campeão regional de tiro ao alvo e, acredito eu, alguém que só não tinha a metade feminina da escola caindo aos seus pés por andar com pessoas deslocadas quanto eu. A minha esquerda, havia Evangeline Smith, uma fanática por rock e filmes de terror que nunca era vista sem seu headphone. No momento, os dois estavam travando uma pequena guerra de bolas de papel e eu, por estar entre os dois, acabava sendo usada como barricada.
– Então, alguém poderia explicar o porquê de o Equilíbrio de Hardy-Weinberg não passar de uma teoria impossível? *– o professor andava de um lado para o outro, lendo as anotações dos alunos. Sua enorme pança balançava mais a cada passo que ele dava.
– Eu! — minha mão se ergueu no ar. Inconscientemente, eu impedi a trajetória de uma das bolinhas de Scott, que bufou irritado ao meu lado — Todas as condições impostas por Hardy e Weinberg devem ser cumpridas em sincronia para que a frequência gênica se mantenha constante. Isso é impossível, uma vez que a deriva genética é aleatória.
– Nerd. — ouvi Helena Adams "sussurrando" as minha costas. Provavelmente ela e seu grupo de patricinhas sem cérebro estavam conversando sobre esmaltes para unhas e resolveram fazer uma pausa rápida para tirar sarro de mim. Normal.
– Sua resposta, Srta. Harrison, apesar de correta, é vaga e pouco detalhada. Você poderia nos dar um exemplo?
– É, Thara, não quer nos dar um exemplo? — perguntou Helena usando um tom de deboche e falso interesse — Tenho certeza absoluta de que essa informação nos será útil.
Virei para encarar as três vacas que riam as minhas costas. Helen fazia alguns gestos obscenos por debaixo da carteira enquanto Mirana Adams e Vanilla West riam como duas hienas com cólera. Fechei os olhos e respirei fundo antes de prosseguir com minha explicação.
– É importante que haja panmixia, ou seja, as reproduções devem ocorrer ao acaso. Também não pode haver ocorrência de mutação pois, por menor que seja, esta resulta na criação de novos genes e genótipos, causando alteração na frequência alélica.
– Correto! — ele exclamou anotando alguma coisa na prancheta — Garante mais meio ponto na média, Srta. Harrison. Classe liberada. Tenham um bom fim de semana e até terça-feira.
Ignorando os risos irritantes do Trio Infernal, reuni rapidamente todo meu material e fiquei apressando meus dois amigos lerdos. Você ainda estão para descobri que eu sofro de TPA, ou seja, Tensão Pré Almoço. É tenso.
– Rápido, rápido, rápido! — puxei Scott pelo colarinho da blusa e comecei a sacudi-lo — Estou. Com. Fome! Preciso. De. Comida!
– Shi, ela está realmente apressada. — observou Evy (esse apelido é de autoria minha e só eu e Scott temos o direito de chamá-la assim) usando seu tom mais descontraído — Está até falando pausadamente para dar ênfase a si mesma.
– Ah, cale a boca! — soltei meu amigo e foi a vez dela de ser sacudida — Fome! Eu. Querer! Comida! Eu. Precisar. Comida!
– Scott, socorro! — ela pediu fazendo uma voz aguda.
– Fica calma, Evy, ela já te solta. E você, pequena indiazinha faminta, merece uma lição. — Scott passou por trás de mim e bagunçou meus cabelos. Depois, é claro saiu correndo.
"Ele. Não. Fez. Isso!" pensei entrando na brincadeira.
Saí em disparada atrás dele, gritando palavras sem nexo (algo como "Você fede a molho!") e obviamente arrancando risadas dos poucos estudantes que nos assistiam. Já estava acostumada com as brincadeiras dos outros alunos, então não importava se eles iriam falar desta cena ridícula por alguns dias. Eu estava me divertindo muito.
Pouco mais atrás, Evy vinha caminhando com os olhos fechados em seu ritmo lento, balançando os braços como se estivesse tocando bateria e remexendo a cabeça no ritmo de algum rock que estava ouvindo. Ela parecia meio maluca andando daquele jeito mas, assim como eu, ela ignorava qualquer tipo de zoação.
Voltei a procurar Scott no meio da multidão e vi quando ele fez a curva entrando no laboratório. Como uma boa perseguidora, entrei atrás dele. Mas, para minha surpresa, a sala estava vazia.
Levei alguns segundos para me recuperar do choque. Era simplesmente impossível eu estar sozinha, Scott tinha acabado de entrar. Dei uma olhada debaixo das mesas e procurei até dentro do armário. Ele tinha que estar lá! Só tinha uma porta de entrada e saída! Eu teria visto se ele tivesse saído!
Mas não havia ninguém. Eu estava sozinha.
Ou quase.
– Olha quem está aqui. — ouvi a voz de Helen atrás de mim — Achei que você era só a garota da biologia, mas pelo visto você pode ser mais irritante que isso.
– Olha quem está aqui. — imitei seu tom de voz nojento — Achei que você não soubesse da existência deste cômodo, mas me enganei.
– Não lhe dei o direito de falar assim comigo!
– E eu por acaso pedi permissão? — a encarei desconfiada — Afinal, o que está fazendo aqui?
– Ora, como se você não soubesse. — ela abriu um sorriso sarcástico — Vim apenas lhe fazer companhia. Devia estar feliz por estar tendo o privilégio de estar respirando o mesmo ar que a garota mais popular da escola.
– Uhum, sei. Agora, se me der licença, quero sair daqui. Seu ego inflado está me sufocando.
– Oh, — ela bloqueou minha passagem — é só garantir uns pontinhos com aquela baleia assassina que chamamos de professor que você já começa a se achar a rainha do mundo.
– Adams, me deixa passar.
– Não. Se quer saber, eu poderia muito bem ter respondido àquela pergunta. Todas as perguntas de biologia tem a mesma solução: mutação. Use esta maldita palavra na resposta e garanta um ponto positivo na matéria.
– Nossa, meus parabéns. Já que você sabe, da próxima vez deixo você responder. Agora, se me der...
– Não vou dar licença coisa nenhuma!
– Adams... Sai. Da. Minha. Frente! — falei tentando passar por ela aos esbarrões.
– NÃO! — disse ela me puxando pelo braço e cravando suas unhas afiadas em meu braço — Eu disse que você não vai sair. Então você NÃO VAI!
– Adams, SAI!
Crack!
O estampido foi alto e claro, seguido pelo som dos potes de vidro caindo no chão. Senti meu corpo ser arremessado para trás e o barulho que ele produziu ao chocar-se com a parede foi tão alto quanto o primeiro. Levantei com cautela, temendo ter quebrado algum osso com o impacto. Mas, surpreendentemente, eu estava em ótimas condições. O mesmo não podia se dizer de Helen.
Sua perna esquerda estava dobrada num ângulo estranho, seu rosto estava coberto de cortes surperficiais causados pelo vidro que tinha caído das prateleiras e seu braço... Bem, parecia que alguém tinha rasgado sua pele ao meio. Seu peito subia e descia lentamente e isso era bom. Ao menos ela estava viva.
Não preciso dizer que, em pouco tempo, as autoridades estavam na escola, assim como médicos e repórteres. Policiais cismavam em me perguntar o que havia ocorrido mas, quanto mais eu insistia que nós duas tínhamos sido arremessadas contra a parede por alguma força invisível, mais eles pareciam me achar maluca. Teve até um cara de terno que pediu para fazer alguns exames meus. Alegou que era só uma medida de segurança padrão e eu resolvi não discutir. Era só um exame de sangue bobo.
O caminho para casa foi silencioso. Alguns seguranças queriam me escoltar e eu neguei diplomaticamente. A única coisa de que eu precisava era a companhia de Scott e Evangeline.
– Espera, repete só mais uma vez o que aconteceu. — pediu Evy pela milionésima vez. Milagrosamente ela não estava ouvindo música.
– Já disse. Não deu pra ver direito porque eu fui arremessada contra a parede oposta a dela.
– Então ela te empurrou?
– Ela não encostou em mim. Nem ela, nem ninguém. — bufei frustrada.
– Então você está sugerindo que aquilo tudo foi consequência da ação de alguma força sobrenatural? — ela arqueou as sobrancelhas — Isso é impossível! Scott, o que você acha? Acredita nela?
– Não acredito nem deixo de acreditar. — Scott deu de ombros — Sinceramente acho que poderia ter tido o dedo de alguma força não humana. Não me olhe com essa cara, Evy. Só porque não temos conhecimento sobre algo não quer dizer que isto não exista.
– Bom, definitivamente eu sei que vampiros purpurinados não existem. — ela desafiou.
– Para toda regra a uma exceção.
Eu ri. Era uma sensação boa se levarmos em conta que eu acabara de presenciar a cena mais bizarra e assustadora da minha vida.
Aquela seria só a primeira de muitas outras.

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