Gelo e Cinzas
14 Um Calor Escondido
A luz de uma única vela dançava fracamente no humilde quarto da cabana, projetando sombras tremulas nas paredes. E ajoelhada sobre o velho e áspero tatame, Arisa não se mexia. Seus olhos, triste e roxeado por um hematoma, não saiam de Youko, que repousava sobre um futon. Iam de seu rosto pálido e sujo contraído de dor para seu braço direito, parcialmente congelado.
A pele de seu braço tinha uma tonalidade azulada e morta, tão fria ao toque que parecia queimar, e finos cristais de gelo ainda teimavam em grudar na superfície. Para tentar reverter o processo, Arisa o havia enrolado em camadas e mais camada de tecidos.
E na penumbra do quarto, de braços cruzados, Itachi permanência encostado na parede observando as duas. Se não fosse por ela, teria demorado para encontrar Youko. Encontrou a idosa sendo atacada covardemente por membros do Conclave. Kisame e ele interceptaram o ataque contra ela. Desde o último ataque sofrido por Youko, eliminar membros do Conclave havia se tornado um objetivo para o Uchiha.
Enquanto Kisame lidava com os agressores, Itachi a interrogou rapidamente.
— Eles... eles procuram uma jovem — ela tossiu, curvada ainda mais de dor. — Uma kunoichi de cabelos escuros... eles a querem morta. Se eles estão aqui, então não a mataram... Se ela está viva... ela precisa de respostas. — Então chorou. — E a única pessoa tola o suficiente para dá-las... sou eu. Ela pode tentar me encontrar. Há uma reunião... é uma possibilidade pequena, eu sei..., mas é a única pista que alguém como ela teria.
Agora, observando as duas juntas, a ironia da situação era quase palpável. A idosa que ele resgatara o levou diretamente ao cumprimento de sua promessa. Seu palpite desesperado estava certo. Ela, sem saber que o homem impassível à sua frente era o único aliado improvável de Youko, guiou-o até ela em troca de proteção.
**
A dor foi a primeira coisa que registrou. Uma agonia latente e profunda que irradiava do ombro até a ponta dos dedos, como se seu braço direito tivesse sido esmagado.
Onde estou? Pensou. O teto baixo e escuro de madeira não era familiar. O ar cheirava a ervas secas, terra e um leve odor de sangue. Ela tentou se sentar, impulsionada pelo instinto de ninja que a mandava avaliar o terreno, mas uma onda de náusea e tontura a obrigou a recolar a cabeça no futon. Respirou fundo, lutando contra a ânsia, e então focou onde doía. Seu braço direito.
Ele não respondia. Era um peso morto grudado a seu lado. Ao virar a cabeça com um esforço agonizante, ela pôde vê-lo. Estava grotescamente enrolado em camadas e mais camadas de tecido formando um embrulho tosco e inchado.
A memória voltou em flashes doloridos: o galpão, o carrasco, a luta, o frio do seu próprio jutsu correndo descontroladamente por suas veias, o impacto brutal em seu braço... Ela tentou mover os dedos. Um tremor minúsculo, quase imperceptível, percorreu o membro, seguido por uma pontada de dor tão excruciante que prendeu sua respiração.
Foi então que ouviu um suspiro suave. Aos poucos, com sua visão se ajustando à penumbra, ela percebeu que não estava sozinha. Uma figura estava sentada ao seu lado, a silhueta curvada e cansada de uma mulher idosa, cujos olhos escuros e preocupados estavam fixos nela.
— Devagar — orientou a voz que lhe era familiar. — Você não deve se mover ainda.
Youko abriu a boca para falar, para perguntar, mas só saiu um som rouco e quebrado. Sua garganta estava seca como pó.
A idosa compreendeu de imediato. Pegou uma pequena tigela de madeira com água e ajudou Youko a erguer a cabeça o suficiente para beber alguns goles. A água foi um alívio celestial em sua garganta ressecada.
— Arisa... — Sua voz saiu cortada. A idosa sorriu emocionada ao ser reconhecida.
— Finalmente te encontrei. — Disse, acariciando seus cabelos. — Achei que tinham lhe matado.
O toque da velha sobre seu cabelo era caloroso... e estranho. Quis levantar o braço para retribuir o gesto, mas o membro não seguiu seu comando.
— O... que... —Sua voz saiu um sussurro áspero ao olhar para o braço direito.
— Seu braço está congelado. — respondeu ela, simplesmente.
— E seu rosto... ? — Disse, notando o hematoma sobre o olho esquerdo dela. Lembrou então da idosa que contara que Arisa havia sofrido uma queda. —Foram eles, não foram?
O rosto de Arisa contraiu por um momento, uma sombra passando em seus olhos antes de ser abafada por uma expressão de ternura.
— Está velha já viveu demais para se importar com algumas cicatrizes, minha criança. Mas você... você precisa descansar. Está magra e tão ferida.
Seus dedos, finos e nodosos, ajustaram o cobertor em volta de Youko com um cuidado.
— Eu fiz um pouco de missoshiru. Vou pegar pra você. Não se mexa, por favor. — Rápida, a idosa saiu do cômodo e voltou com uma tigela de madeira simples. O aroma da sopa de missô encheu o pequeno quarto. — Devagar agora. Primeiro beba um pouco de caldo. Seu estômago está muito tempo vazio.
Youko tentou fazer como fora orientada, mas ao tocar na tigela com uma das mãos, a fome falou mais alto, e o virou na boca.
— Devagar. — A voz estoica de Itachi preencheu o aposento, surpreendendo Youko, fazendo-a tossir.
Kisame, atrás dele, riu.
— Deixe a garota aproveitar! Pelo jeito, é a primeira refeição decente desde que saiu de Konoha. — Seus olhos estreitaram. — Ou será que a aprendiz de nukenin nunca teve direito a uma comida quente, mesmo como ninja da Folha?
Youko dardejou um olhar frio a Kisame. Abriria a boca para respondê-lo, mas comer era sua máxima prioridade.
— Ao invés de a perturbarem vão esquentar água! — Ralhou Arisa em seu lugar. — Precisamos tirar esse gelo e dar um banho em você.
*
Os dois trouxeram baldes de água fervente, deixaram no centro do quarto e saíram. O ar ficou pesado e úmido com o vapor. Com ajuda de Arisa, Youko livrou-se das roupas ensanguentadas e sujas. Seu braço azulado foi mergulhado lentamente em um dos baldes. Ela cerrou os dentes de dor.
Arisa observava o gelo no braço da kunoichi reagir ao calor. Minúsculas fissuras começavam a aparecer na superfície azulada.
— Só vi isso acontecer duas vezes — Arisa disse, em um tom triste. — E o braço foi amputado na primeira. Na segunda, deu certo.
Youko deu um sorriso de dor.
— Como pode ver, conheço muito pouco da minha própria kekkei genkai. Nunca me congelei. É a primeira vez.
Arisa mudou de posição, sentando-se atrás de Youko. Molhou um pano no segundo balde e deslizou-o sobre as costas da ninja, revelando um mapa de cicatrizes antigas e recentes.
— E que seja a última — sussurrou, lavando-a com uma reverência silenciosa.
Enquanto Youko sentia, aos poucos, uma sensação de alívio e peso retornar ao braço, Itachi a observava pela fresta da porta. O Uchiha reparava em tudo. Em como a luz fraca da lamparina dançava sobre a pele nua de Youko. Como os fios de cabelo úmido colavam na pele. Ele viu as cicatrizes. A mais proeminente, uma linha pálida e precisa que corria ao longo de sua coluna. Era uma visão que deveria inspirar apenas uma análise do corte ou talvez uma pitada de pena. Mas não foi a cicatriz que prendeu seu fôlego.
Foi a pele. O corpo. A suave curvatura das costas que se estreitava numa cintura capaz de ser envolvida por suas mãos, antes de se expandir novamente em quadris arredondados que o convidavam a se encaixar neles.
Arisa se inclinou para pegar mais água, e Youko, como se buscando um alívio para a dor no braço, arqueou levemente as costas. Foi um gesto inconsciente, de uma graça que fez os músculos do abdômen de Itachi contraírem num espasmo involuntário.
Uma faísca de calor percorreu seu baixo ventre. Um calor tenso que ele dominava há anos, um instinto que ele mantinha acorrentado no mais profundo de seu ser veio à tona. O sangue correu mais rápido, aquecendo veias que ele julgava permanentemente frias. Seus dedos, escondidos nas mangas, contraíram-se como se pudessem, de repente, sentir a textura daquela pele sob suas pontas. Ele imaginou como seria traçar o caminho daquela cicatriz com a língua.
E então, um movimento quase imperceptível: a inclinação mínima da cabeça de Youko, como se sentisse o peso do olhar dele. A vergonha veio. Num movimento rápido e silencioso, Itachi saiu para fora da cabana. Queria fugir da sensação que tomava seu corpo, que ao invés de manter a imagem de Youko como um aliado ou uma promessa a ser honrada, a via como mulher desejável.
**
— Satisfeita, princesa? — Kisame ironizou assim que Youko apareceu do lado de fora após o banho, com os cabelos úmidos e com roupas limpas e quentes, cedidas por Arisa. Seu olhar desceu para o braço, ainda enfaixado, mas com a pele avermelhada agora. Seu pescoço também estava enfaixado. — Finalmente não parece mais um picolé amaldiçoado.
— Sabe, por um breve momento eu pensei que tinha pisado numa carcaça de tubarão morto, pelo cheiro podre que estava sentindo — Ela cheirou seu próprio braço com exagero cômico, depois fez uma careta de nojo exagerada ao se aproximar de Kisame. — Mas veja só, era você o tempo todo!
Kisame cruzou os braços, seu sorriso genuinamente divertido.
— Isso se chama aura intimidadora, garota! Inimigos desmaiam de medo antes mesmo que eu precise sacar a Samehada. Economiza trabalho.
Itachi que até então estava de costas para os dois, se virou. Seus olhos escuros, agora calmos e indiferentes como sempre, passaram de Kisame para Youko. Ele não comentou a piada, nem o estado da kunoichi. Seu rosto era uma máscara perfeita, não traindo nenhum sinal da agitação de momentos antes.
— O gelo recuou? — Sua voz é calma, indiferente.
Youko segurou o olhar dele por um segundo a mais do que o necessário, seu próprio sorriso se apagando um pouco sob a intensidade do olhar dele. Ela assentiu com a cabeça.
— Recuou. Arisa disse que... foi por pouco.
— Hmph. — Kisame bufou, cutucando o braço enfaixado de Youko. — Então podemos ir embora desse buraco cheiroso? Já chega de banho quente e conversa fiada.
— É estranho que ainda estejam aqui. — comentou Youko. — Agradeço por terem me salvado mais uma vez.
— Não a salvamos de graça, se é o que está achando. — Kisame disse, seu sorriso ganhando um tom predatório.
Youko ergueu uma das sobrancelhas, seu olhar cético passando do sorriso largo de Kisame para a expressão impassível de Itachi.
— É mesmo? — ela respondeu, a voz carregada de uma ironia cautelosa. — E qual é o preço então? Já devo minha vida a vocês tantas vezes que perdi as contas. Devo assinar um contrato de sangue? Prometer minha primeira cria?
Foi Itachi quem respondeu:
— Vir conosco.
A resposta fora tão simples que Youko levou um tempo para processar.
— O quê? — Ela recuou um passo, a indignação sincera cruzando seu rosto. — Ir com vocês? Está brincando?
— Não. — respondeu Itachi, tão solene e impassível, sem brechas para duvidas. — O Conclave está se movendo rápido. Não conseguirá enfrentá-los sozinha nesse estado.
Kisame cruzou os braços, divertido.
— Olhe o lado bom, garota. — disse ele com um meio sorriso. — Nós somos ótima companhia. Conversamos pouco, matamos rápido, e não roncamos — Olhou de viés para o Uchiha ao lado. — bom, pelo menos eu não.
Youko desviou o olhar, respirando fundo.
— Eu não pedi a ajuda de ninguém. O Conclave é meu problema!
— E é por isso que vai morrer tentando. — Itachi rebateu, a voz calma demais.
Youko cerrou os punhos com força, a raiva instaurou-se por dentro com fúria. Tinha sobrevivido inúmeras missões sem a presença deles, sem a Akatsuki e não seria agora que faria uma missão sigilosa de Konoha com eles.
— Prefiro morrer tentando, do que me tornar uma renegada como você. — Cuspiu, carregada de todo o desprezo e dor que conseguira reunir.
Ela esperava uma reação—raiva, desdém, qualquer coisa mas Itachi não se moveu.
O Uchiha sustentou seu olhar por longos segundos, seu rosto permanecendo uma máscara impenetrável. No entanto, algo na profundidade de seus olhos escuros mudou. Não era raiva ou ofensa. Era algo mais complexo. Uma centelha de reconhecimento, talvez, ou o eco silencioso de uma dor familiar. O silêncio entre eles se tornou espesso, pesado com tudo o que não era dito. Os sacrifícios que ele fizera, com o fardo que ela ainda se recusava a carregar.
— Se eu fosse você, gatinha, ficava quieta e aceitava. Seu amiguinho da Folha também precisa de ajuda.
A menção a Yamato a fez olhar para Kisame. Por um instante, a raiva deu lugar ao medo e a preocupação.
— O que vocês sabem sobre ele? — perguntou, a voz tensa.
— Só o suficiente pra saber que não vai chegar até ele viva, se insistir em fazer tudo sozinha.
— Está mentindo. A última notícia que soube dele foi que lutou contra o Conclave e...
— Se feriu. — Concluiu Itachi, chamando a atenção dela. — Também sei disso.
A raiva desaparecerá do rosto de Youko ao se voltar para Itachi.
— Como? —A pergunta saiu com um fio de voz.
O Uchiha não respondeu de imediato. O silêncio que se instalou era quase uma resposta por si só. Seu olhar manteve-se firme no dela, e, por um instante, Youko sentiu o chão sumir sob os pés.
— Sabem onde ele está?
— Talvez — respondeu Kisame, dando de ombros com indiferença. — Sabemos que o madeireiro tá numa fria das grandes porque está te procurando. Ele deu um puta trabalho para aqueles malucos.
Afirmação casual de Kisame foi como uma faca torcida na ferida. A culpa, afiada e familiar, cravou-se mais fundo no peito de Youko. Cada ato de bravura de Yamato, cada risco que ele corria, era um reflexo direto de suas próprias ações, de sua escolha em seguir Arisa e deixá-lo para trás.
— Onde ele está? — Voltou a perguntar, séria.
— Partimos amanhã.
Foi a única resposta do Uchiha, passando por ela com Kisame em seu encalço para dentro da cabana. Youko ficou paralisada. Não havia "talvez", não havia negociação. Havia um caminho a seguir, e ele estava ditando os termos.
Ela abriu a boca para protestar, para exigir, mas as palavras morreram em sua garganta. O que ela poderia dizer?
No entanto, ainda havia questões a resolver com Arisa.
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