'Merda.' Eu resmungo entredentes enquanto tudo o que consigo ver é escuridão. Parece que tem alguma luz do lado de fora, mas a falta abrupta de luz aos meus olhos acostumados com a claridade me deixou cega novamente. Eu respiro fundo e fecho os olhos. Conto até dez lentamente e abro de novo. Sim, agora parece melhor. Há luz fraca lá fora, possivelmente a da própria rua. Parece que só o prédio foi afetado. Eu olho para Frankie — para a direção dele, e é claro que ele não me vê também, então faço uso da voz. 'Frankie, vamos apertar o passo.'

'A tempestade tá piorando, Jane. É melhor a gente sair daqui depressa.' Ele diz enquanto anda, e nossos passos ecoam no corredor.

Deus, está congelante aqui fora. Minhas bochechas expostas ao tempo doem, e Brenda fortalece o abraço em volta de mim, mas é mais como se ela quisesse ficar mais perto por causa do calor do meu corpo. Nós vamos morrer congelados aqui, é o que eu penso quando vejo que a neve está ne metade da minha perna. Como isso é possível? O chão está escorregadio e gelado, tão gelado que nem minhas botas próprias para o inverno conseguem segurar algum calor. Eu fecho os olhos, mas dessa vez não estou com as mãos livres para protegê-los do vento. O meu corpo parere sucumbir ao peso extra e a cada passo eu me sinto afundando cada vez mais no chão. Me pergunto como meu irmão está se saindo, carregando aquela mulher no colo. Ele é mais forte do que eu, mas mesmo assim não deve ser fácil.

O vento sopra mais forte agora e uiva em algum lugar a minha direita. Apesar de toda a dificuldade o caminho de volta parece mais... suportável do que o da ida. É aquela sensação de estar voltando para um lugar conhecido. Sim, faltam poucos metros. Frankie está a minha frente e vejo quando ele desloca a mulher em seus braços, provavelmente ajeitando-a ali. Isso significa que sua força está cedendo — deve ser complicado carregar alguém de, talvez, 55 kg. O cabelo da mulher agora está voando com o vento, e droga, por quanto mais tempo nós vamos aguentar isso?

Nós precisamos chegar rápido. Eu junto toda minha força e piso com força no chão, cada passo me motivando a continuar, sabendo que agora estamos quase alcançando o nosso ponto de chegada.

Frankie alcança os degraus primeiro que eu, e quando abrimos a porta pares de olhos nos encaram, perplexos, aliviados, surpresos. Nós conseguimos. Nós buscamos os remédios — e trouxemos algo a mais.

Quando a porta se fecha atrás de mim me sento imediatamente no chão, na frente da ladeira. Só agora percebo o quanto estou tremendo. Só agora vejo flocos de neves grudados no meu cabelo. Brenda desliza para o chão e se senta ao meu lado, e gentilmente divide sua coberta comigo. Frankie faz o mesmo que eu: ele se senta no chão com a mulher em seus braços, mas não remova a coberta dela.

'Jane! Frankie!' A voz de Angela rasga o silêncio do local. 'Oh meu Deus... Vocês conseguiram!' Ela se ajoelha na minha frente para agarrar a sacola com os medicamentos — para me examinar. Os olhos caem em cima de Brenda e de repente eles se arregalam. 'Brenda?' A mulher suspira em descrença.

Eu olho para a menina e ela pisca os olhos calmamente. 'Olá, Angela.'

'O que você... O que...?' Ela balbucia e quase apavorada olha para o embrulho entre os braços de Frankie.

'Quem... quem é essa pessoa?'

'Ok, o que está acontecendo aqui?' Eu pergunto, e é tão irônico que quase dou risada. Como se alguém pudesse responder...

'Shiu!' Angela diz parecendo brava. Ela mantem um dedo erguido em minha direção, mas ainda olha para Frankie exigindo sua resposta.

Escuto um murmurinho atrás de mim.

'Eu não sei, não.' Ele dá de ombros e afasta o cobertor do rosto da mulher. Ele está branca, os lábios azuis.

'Oh não. Oh meu Deus.' Ela diz em voz baixa, parecendo a mais honesta oração. 'Isso não... não pode ser.'

'Angela, você pode me explicar o que diabos está acontecendo aqui?' Eu digo e minha voz sai rouca e sei que é, por partes, de medo.

Ela afasta ainda mais o cobertor da loira. Checa o pulso e ela não é uma amadora como eu, ela sabe que ele existe mesmo estando fraco. Ela procura pela mão da mulher e estuda... os dedos. 'Azul.' Ela diz para si mesmo. 'Eu preciso de mais cobertas!' Ela olha para o lado e três cobertas aparecem rapidamente perto de nós. Um quarta é colocada em cima das minhas costas. Eu fico observando Angela, é tudo o que consigo fazer agora. 'Frankie, nem pense em soltá-la. Ela tá sofrendo de hipotermia, precisa do máximo de calor possível. Não se mexa muito para não mexer o corpo dela. Eu preciso que vocês me digam como encontraram ela. Como encontraram as duas.' Ela lança um olhar afiado para mim. Algo de errado aconteceu antes mesmo dessa tempestade. O pensamento me arrepia.

'Ela estava caída no meio do corredor... E Brenda estava em um quarto.' Eu falo em voz baixa. Eu me pergunto de novo se havia mais alguém naquele hospital. Eu rezo para que não.

O vento bate com força contra a porta e pescoços se viram para encará-la. A sensação é de que a morte vai entrar carregando sua foice e levar cada um de nós. Um de cada vez.

Olho para Brenda. Ela é nova demais para morrer. Nós todos somos. Os olhos caramelados estudam meu rosto, reconhecendo minha hesitação, minha fragilidade.

'Ela não foi embora.' Ela sussurra para mim e depois olha para a loira nos braços do meu irmão, como se para deixar claro de quem está falando. Eu não sei se ela quis dizer que a mulher não morreu, ou que ela não tinha deixado-a no hospital sozinha — quem sabe os dois? Então eu apenas balanço a cabeça concordando e rezo para que ela possa repetir isso amanhã cedo.

Algo asqueroso cochicha dentro de minha mente. Se ela não for a primeira a morrer, quem será?