'Isso é um péssima idéia.' Eu escuto a voz áspera e autoritária de Angela sussurrando perto de mim. Eu troco um olhar com meu irmão. Até parece que nós não gostamos de perigo.

'É só um quarteirão. Nós conseguimos chegar e voltar sem problemas.' Se não congelarmos antes, eu quero dizer mas me calo antes de estragar meu próprio argumento. Eu sei como a neve está caindo rapidamente, junto com a temperatura. Eu mal posso imaginar, entretanto, quão gelado deve estar lá fora. O suspiro da enfermeira me tira dos pensamentos.

'Olha, francamente, eu não acho que isso...' Mas então o olhar dela pousa na mulher ferida e no marido, e ela suspira de novo. Ela sabe que não temos muita escolha. 'E se algo der errado? Por que não ir na luz do dia?'

'Ela aguenta até lá?' A pergunta de Frankie é justa. Sim, é horrível encarar um vento frio e senti-lo nos ossos, mas uma vez de volta a casa nós estaremos quentes de novo. Mas e ela? Ela conseguiria suportar a dor pela noite inteira?

Angela aperta os lábios numa linha fina. 'Vocês, crianças! É melhor que vocês tomem cuidado. Eu vou escrever o nome de alguns remédios, mas vocês podem trazer o que encontrarem por lá. Nunca é demais!'

E foi assim que acabamos com dois casacos a mais, emprestados gentilmente por algumas pessoas, uma lista com nomes de remédio que parecem xingamentos e um tremor incontrolável pelo corpo. É difícil andar na neve, ela está alta e o chão escorregadio. A falta de luz — tá bom, a pouca luz — dificulta a visão... assim como os flocos de neve caindo fervorosamente do céu. Eu temo escorregar, cair no chão e me enterrar nessa imensidão branca. E nunca mais ser encontrada.

'Jane, por aqui, vamos!' Meu irmão está há alguns passos a frente de mim. O vento uiva forte, bravo, como se estivessem nos dando uma bronca por abandonar nosso abrigo. Sim, nós somos os idiotas que querem salvar o mundo. Eu estou quase arrependida de ter deixado a casa, de estar sentindo meus ossos gelados, doloridos, de não estar vendo nada — na maior parte porque o vento é tão frio que machucada meus olhos. Parece que já andei metade do planeta, mas me nego a descobrir os olhos, não quero saber que mal percorri metade do caminho — porque é isso 'tudo' que acho que andei.

'Jane, é por aqui!' Frankie grita de novo e dessa eu tenho que olhar. Sigo o som da voz dele e vejo que estou a uns passos além, me afastando... da entrada do hospital.

'Oh!' Eu digo, quase feliz. Me apresso e chego ao lado dele, e sem muita força empurramos a porta do prédio.

Está tudo silencioso. As luzes dos corredores estão acesas, mas as dos quartos estão todas apagadas. Eu me arrepio e não é de frio. É sinistro. Macabro. Parece um filme de terror. É como se alguma coisa estivesse esperando no canto do corredor. Eu odeio hospitais, para começo de conversa. Presenciar uma cena assim e algo que me gela o sangue — tá, talvez não o melhor dos trocadilhos. Mas seu sei que estou hesitando porque Frankie está adiante de mim, me olhando como se estivesse me analisando. Eu engulo seco.

'Vamos seguir em frente.' Eu mantenho a voz firme, porque sério, não quero parecer uma menininha assustada. Depois dos primeiros passos minha mão pousa em cima de lugar onde minha arma deveria estar — sim, isso é o quão assustador esse lugar aparece. Nossos passos ecoam pelo corredor imenso e quieto, e eu rezo para que ninguém saia de uma dessas portas de repente, porque eu vou morrer de vergonha por não conseguir evitar um grito de terror.

Paro em frente de uma porta que me parece suspeita. Quer dizer, acho que deve ter algo de importante ali dentro. Quando eu abro descubro que nada mais é do que uma despensa, cheia de vassouras, rodos e panos de chão. Eu fecho a porta e balanço a cabeça para Frankie. Nós dobramos o corredor e...

Meu coração congela. Eu seguro no braço do meu irmão e sei que ele está tanto em choque quanto eu. O vento bate forte, abrindo uma porta no final daquele corredor. Está tão frio aqui quanto lá fora. O que me incomoda não é o vento gélido, entretanto. É aquele corpo jogado no meio do corredor.

Eu olho para Frankie e a pergunta que quero fazer está escrita no rosto dele.

Ela está morta?