Geisha
4 Capítulo 4 - Aqui Estamos
Notas iniciais
Sentei no chão, e meus homens estavam ansiosos pelas meninas. Eles haviam se interessado bastante por elas, mas eu não. Só me interessava uma garota apenas. A loira, se eu não me engano se chamava Aniya, atravessou a sala com duas lamparinas, uma em cada mão e o fogo brilhando dentro delas. Ela deixou uma em cada extremo do palco e seguiu para cerrar um pouco as janelas. Parece que a primeira apresentação seria da recatada Shizuka. Ela sentou ao centro do palco com um enorme instrumento no colo, era um Guzheng. Instrumento típico chinês e que tinha um belíssimo som. Ao lado de sua perna, estavam um Erhu, um Shamisen e uma Pipa. Eu comecei a me entusiasmar, gostava de boa música e sentia que aquilo seria interessante.
A moça dos olhos verdes, com um singelo sorriso, começou a besliscar o instrumento. Com muita delicadeza, técnica e, devo admitir, charme. Cada nota tocada por ela parecia ter poder curativo, além de ser incrivelmente agradável. Ao acabar sua música, nós a aplaudimos, e ela agradeceu com o mesmo sorriso carismático. Ela se afastou mais para o fundo do palco e posicionou o grande instrumento, de modo que pudesse tocar a Pipa também.
Marine entrou com uma pose sedutora, mantinha a yukata aberta, mostrando as pernas. Shizuka começou tocando o Guzheng, e então Marine pôs-se a cantar. Uma voz limpa e reconfortante, palavras bem pronunciadas, com calma e leveza. Nos intervalos entre as partes cantadas, Shizuka demonstrava suas habilidades mais uma vez, com um belíssimo instrumental de Pipa.
Chegou a vez de Aniya, para fechar com chave de ouro. Tivemos boa música, agora uma dança. A menina dos olhos quase transparentes se posicionou a nossa frente, com dois leques fechados, um em cada mão. Sua curta yukata mostrava suas pernas, o que dava um toque mais sensual àquele doce rosto de menina. Quando Shizuka começou a tocar o Shamisen, Aniya abriu os leques, batendo-os contra sua perna e começou o show. Movimentos leves e precisos, segurança no olhar. Um olhar de ressaca, como a onda no mar. Só que não era a onda que arrastava e afogava os homens desavisados, era o reflexo prateado da lua. Reflexo no qual um de meus homens se prendeu. Perdido em seu olhar e hipnotizado por seus movimentos. Quando a dança terminou, ele continuou em transe. Precisei sacudi-lo para se lembrar de aplaudir.
Todas as moças agradeceram sutilmente e permitiram a passagem da dona da Okiya, Mameha.
- Gostaria de vê-la agora, meu jovem?
- Ora, por favor. – sorri para a mulher.
Ela me conduziu mais para o fundo da Okiya. O caminho até o quarto da jovem geisha era tão misterioso e sombrio quanto à imagem que era passada a seu respeito.
- Creio que para ver alguém tão especial eu deva dispor de uma quantia maior, não?
- Não será necessário. Cortesia da casa. – ela suprimiu uma risadinha.
Enfim, chegamos à porta do quarto.
- Aqui estamos.
- Agradeço pela sua hospitalidade e de suas meninas.
- Ora, meu jovem. É o nosso trabalho: fazer o possível para agradar ao cliente. Sem falar que os senhores foram extremamente gentis e respeitadores.
- Eu e meus homens agradecemos o elogio.
- Agora, por favor, divirta-se.
“Diversão” não era exatamente a palavra em que eu estava pensando. Ela se retirou e seguiu de volta pelo corredor. Não muito distante, ela ainda sussurrou:
- Afinal... Faz tempo que vocês não se falam...
Surpreendi-me com a fala da mulher e me virei para perguntar o que sabia. Ela não estava mais lá, desaparecera. Coloquei a mão sobre a porta e engoli seco, logo a abri, entrei e fechei a porta.
Meus olhos imediatamente reagiram à imagem daqueles longos fios de cabelo vermelho. Uma bela moça estava de costas para a porta, só podia ver seus cabelos, e logo ouvi sua voz.
- Deve ser o novo cliente. – ela permanecia virada, como se não fizesse questão de saber quem teria conseguido alcançar seu santuário isolado. Não consegui dizer uma palavra – Permita-me explicar uma coisa. Não é porque pagou para estar aqui que irei obedecer a ti. Aceitou o preço mesmo sabendo que não teria garantias. – Ela pegou uma garrafa de sakê e serviu um copo – Posso servi-lo com sakê? – ela parecia já ter servido, pois não fez menção de beber o conteúdo. Achei a hora propícia e criei coragem. Abri a boca e a respondi.
- Não cheguei até aqui em busca de sakê.
Ela soltou o copo de sua mão e todo o conteúdo se esparramou pelo chão. Ela estava congelada, atônita. Será que havia reconhecido minha voz? Depois de tanto tempo, ainda era capaz de perceber? Ela estremecia e a respiração estava agitada. Decidi acalmá-la a minha maneira. Poderia dar tudo errado, ou tudo certo.
Aproximei-me dela e peguei uma das mechas de seu cabelo, ela tremeu. Enquanto sentia seu doce perfume, continuei a me aproximar. Peguei em sua mão esquerda como quem tira uma dama para dançar. Ela parecia se acostumar com meu toque aos poucos. Ainda com a mão esquerda, girei-a em torno de seu próprio eixo, colocando-a de frente para mim. Sentia que estava no paraíso. Aqueles olhos que almejava há anos. Sua cândida voz, a maciez de seus cabelos e o perfume enlouquecedor de sua pele. Em frente a mim, naquele instante.
- Rika.
- Irie... você... – antes que ela pudesse completar sua frase, eu a abracei. Toda vontade que carrego desde os 13 anos foi se acumulando e explodiu ali. Não queria soltá-la, eu não iria soltá-la. Estava comigo, finalmente...
Ao unir seu corpo ao meu, senti-me sendo tomado por suas chamas. Um corpo quente, atraente e acolhedor. Ela pareceu se dar conta, finalmente, do que estava acontecendo e pousou as mãos em minhas costas. Além disso, escondeu o rosto sorridente contra meu peito.
- Não pode imaginar quanto falta você me fez... – eu disse.
- Não pode imaginar o quanto eu, secretamente, esperei por este momento. – sua voz soava aliviada. Afastei seu rosto para que pudesse analisar cada traço seu.
- Você mudou tanto. – afaguei seu rosto.
- O cabelo e outras coisas cresceram um pouco. – ela dizia bem humorada. Eu ri com ela.
- Isso eu notei... – sorri – Mas não me refiro exatamente a isso.
Ela desviou o olhar por um segundo.
- Seus olhos... Estão mais precisos, confiantes. A chama dentro deles está ainda mais intensa. Você está completamente diferente daquela garota de cinco anos atrás.
-Você também mudou muito. Sua voz, seu jeito, seu olhar...
- Mas tenho certeza de que uma coisa em você não mudou.
- O quê? – ela perguntou curiosa.
Peguei seu rosto com um das mãos e o puxei de encontro ao meu. Dei o beijo que desejo há cinco anos. Ardente e duradouro. Apossei-me de sua boca. Ao cessarmos o beijo, ofegantes, eu disse a ela:
- Sua boca. Continua a mesma. – ela sorriu – Esse sorriso também não mudou. Continua lindo.
Ela deixava esbanjar sua felicidade. Dessa vez, foi ela quem se apossou de mim.
Fale com o autor