Geisha
14 Capítulo 14 - As Generais da Guarda Real
Notas iniciais
[Narrado por Shizuka]
Entramos em meu quarto e pedi que Aniya se sentasse sobre a cama. Seus olhos acinzentados tinham as pupilas em um formato estranho, estavam em forma de losango, com os cantos bem definidos. Sem falar que sua personalidade estava completamente mudada.
- Precisa controla-lo.
- Renka está cansado de dormir.
- Você manda nele... E não o contrário.
- Ele briga sempre comigo. Decidi fazer a vontade dele, só por hoje.
- Quando ele passar dos limites, você irá se arrepender.
- Eu sei... Vou tomar cuidado.
- É melhor mesmo.
Procurei por uma agulha de acupuntura e ajoelhei sobre a cama, atrás de Aniya.
- Mostre-me onde é.
- Aqui... – ela marcou, com o indicador, um ponto nas costas, do lado esquerdo e próximo do pescoço.
Posicionei a agulha no ponto indicado e dei uma batidinha, ela penetrou a pele e Aniya deu um leve salto. Logo fechou os olhos e, ao abri-los novamente, eles tinham voltado ao normal.
- Pronto.
- Obrigada.
- Não quero ter que fazer isso sempre.
- Eu sei disso.
- Então seja uma boa menina e controle seu “gatinho”. Agora vamos, quero conversar com o Imperador.
=§=
[Narrado por Rika]
- Eu estou bem, Irie. É sério.
- Ok, ok. Vá pelo menos limpar esse sangue todo de seu corpo.
- Certo.
Que diabo era aquela preocupação toda? Não aconteceu nada comigo. E outra... Ele me olhava de forma de diferente. Ou melhor... Nem me olhava. Desviava o olhar sempre que podia. Tudo isso por causa do que aconteceu há pouco. Eu teria que esclarecer tudo depois...
Enquanto eu caminhava pelo corredor e vagava nos meus pensamentos, passei em frente a um quarto cheio de quadros pendurados. Decidi entrar, mas me arrependi segundos depois. Minha cabeça parecia ter levado um golpe e meu estômago estava completamente revirado. Aquele era o quarto preferido de Kimura. Era onde ele fazia seus desenhos... E o local onde recebi minha marca de sangue. Eu não queria ficar mais nem um minuto naquele quarto, mas quando me virei, meu rosto bateu contra o peito do desgraçado.
- Ora, você por aqui. – o que ele está imaginando? Entrando deste jeito e fechando a porta.
- Foi engano. Já estou de saída. – tentei desviar dele.
- Aqui é tão mais tranquilo que lá fora. – ele pegou meu pulso e me puxou para perto de um dos quadros.
- Por que está aqui?
- Decidi dar uma olhada nas minhas obras de arte. E, por coincidência, a obra que faltava chegou. – ele olhou cinicamente para mim – Permita-me ver.
- Claro que não.
- Deixe de drama.
- Com sua licença, eu já estava de saída.
- Disse bem. “Estava”. – ele me prendeu pelos ombros e aproximou seu rosto do meu.
- Sente prazer me perseguindo desse jeito?
- Sinto.
- E por quê?
- Porque você sempre foge... Como se fosse um cãozinho indefeso. O prazer da caça não é obter a presa, mas sim correr atrás dela.
- Se eu te enfrentasse, seria diferente?
- Seria... Eu ficaria com mais vontade, neste caso, de obter a presa.
- Isso é doença. – me desvencilhei um pouco e ele apertou mais as mãos – Onde está Marine?!
- Passeando pelo palácio, talvez.
- Por que não corre atrás da sua futura esposa e me deixa em paz?
- Porque ela será minha esposa. Está na minha mão. Já você... Fica rondando meus sonhos.
- E você, os meus pesadelos. — ele avançou com o rosto, prestes a me beijar, mas a porta se abriu e ele me soltou de imediato.
Era Marine.
- Desculpe... Atrapalho alguma coisa? – ela disse recostada ao portal.
- Que bom que está aqui. Seu marido falava de você. – fui saindo.
- É muito bom ouvir isso. – ela sorriu para Kimura.
Passei ao lado dela e sussurrei:
- Precisa se esforçar mais. Ele ainda não caiu.
- É. Eu ouvi. – ela mantinha o sorriso.
Então ela estava ouvindo tudo... Que bom.
- Marine, meu amor! Como você está se sentindo? – foi a última coisa que ouvi quando voltei ao corredor.
=§=
[Narrado por Shizuka]
Chegamos ao salão principal. Eu e Aniya nos curvamos ao Imperador e iniciei meu discurso:
- Senhor Imperador. Tenho um pedido a lhe fazer.
- Diga. O que deseja?
Neste momento, Marine chegava com Kimura e Rika se posicionava ao lado do marido, que já estava lá. Ótimo.
- Senhor. Quero autorização e apoio para aumentar a Guarda Real.
- Como é? – Kimura ficou indignado – Eu sou o responsável pela Guarda. Eu tomo as decisões.
- Nós vimos, hoje, o belo trabalho que tem feito com seus homens. – levantei uma sobrancelha e Kimura colocou a mão trêmula, de raiva, sobre a sua espada.
- Qual é a sua ideia? – após ver nossa atuação, o Imperador parecia estar mais aberto a ideias.
- Quero convocar os camponeses que trabalham conosco. Além disso, buscarei homens fora daqui.
- Qual a dimensão exata...?
- Quatro regimentos. – todos se surpreenderam, com exceção de Marine e Rika.
- Tem noção de quanto tempo levará para recrutar tudo isso? – Irie abriu a boca.
- Preciso de quatro dias. – surpresa de novo.
- Isso é loucura! – Kimura estava me irritando.
- Explique melhor seu plano, geisha. – pediu o Imperador.
- Serão quatro regimentos, onde cada uma de nós ficará responsável por um.
- Geishas generais? – Kimura riu.
- Não somos simples geishas. – suspirei — Imperador. Iremos treinar cada regimento de forma diferenciada. Todos saberão o básico, mas se especializarão em uma função. – olhei para as duas no altar.
Elas seguiram até mim e se viraram para o Imperador.
- Meu regimento ficará responsável pelas tocaias e armadilhas elaboradas. Rika irá se especializar em defesa. Marine, em ataque. Aniya ficará com o trabalho menos perigoso, porém o mais difícil. Em missões onde haja reféns, Aniya e seu regimento irão se infiltrar e se livrar dos inimigos de forma que ninguém saia ferido.
- Marine, você não vai. – Kimura disse tranquilamente.
- Rika... – Irie olhou feio.
As duas reviraram os olhos e seguiram com eles para seus quartos, onde pudessem conversar.
=§=
[Narrado por Rika]
Irie entrou por último e fechou a porta.
- O que você tem na cabeça?
- Eu...
- Irão morrer em combate.
- Não acho que...
- Não vou permitir algo assim.
- Mas você...
- Ficará quieta em seu quarto enquanto a Guarda luta, sem a sua ajuda.
- Você não tem que permitir nada!! – ele se assustou – Foi uma decisão que tomei com minhas irmãs, ou seja, você não está incluído.
- Mas sou seu marido!
- E eu estou zelando pelo patrimônio do meu marido! – ele franziu a testa – Irie, se nos roubarem terras, se tomarem o Império... Você não será dono de nada. Você não será nada. Mas você é alguém, alguém muito importante... – aproximei e tomei seu rosto entre as mãos – Importante pra mim. E vou fazer qualquer coisa para que continue assim.
Livrei seu rosto e fui em direção à porta do quarto.
- Você não é a mesma Rika que casou comigo.
Eu me senti petrificada. Pude sentir que uma lágrima queria saltar de meu olho direito, mas isso não aconteceu. Apenas abri a porta e saí calada, em direção ao salão principal.
=§=
[Narrado por Marine]
- Kimura! Olha aqui...
- Olhe aqui você! – ele apertou meu queixo e me forçou a olhá-lo – Enquanto você for minha esposa, fará o que eu mandar. – me livrei dele.
- Eu ainda não sou sua esposa.
- Justamente. Ainda não é. E se quiser ser, terá que se comportar. É para o seu próprio bem.
- Bom... Se for esse o problema, eu desisto de ser sua esposa. – ele arregalou os olhos.
- Marine, meu amor. – ele mudou da água para o vinho – Só estou preocupado com você.
- O que prova que é você quem precisa de mim, e não o contrário.
- Eu? Precisar de você? – ele começou a rir.
- Está bem. Então já que você concorda em ser independente, eu estou indo. – fui em direção à porta.
- Volte aqui, Marine.
- Você não manda em mim. Não precisa de mim, nem eu de você. Então vou fazer o que eu sei. Você pode correr atrás da Rika, mas duvido que ela cairá na sua lábia. – abri a porta e saí em direção ao salão principal.
=§=
[Narrado por Rika]
Fui ao encontro de minhas irmãs, todas já estavam lá.
- Então, quais os planos? – perguntei à Shizuka.
- Defender o palácio é uma tarefa difícil. Então você e Marine ficam. Eu e Aniya iremos recrutar os soldados.
- Ah, sério? – Marine reclamou.
- Aproveitem para começar o treinamento com a Guarda.
- Eles vão rir de vocês. – Kimura se intrometeu.
- Quem rir por último rir melhor. – Marine respondeu e deu as costas a ele.
- Estão querendo instituir o Império da Seda e Espada aqui, é? – todas ficaram surpresas e animadas com o nome. Shizuka se aproximou e tocou o ombro de Kimura.
- Pode ser um inútil general, como temos visto até agora. Mas é ótimo para criar nomes. – ela disse.
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