Gehenna

1 O dêmonio na névoa


Notas iniciais
Originalmente, a primeira parte do cápitulo 1.

Um longo período do tempo passou antes que o zarco guerreiro percebesse alguma coisa através da branca neblina condensada. Seus olhos ardiam ao olhar através da neblina adiáfana que tomava uma tonalidade cada vez mais cinzenta e, deixando de lado a cautela, seguiu hesitante em direção ao único objeto distinguível – o único ao menos cuja forma penetrava de algum modo através das paredes brancas.

Seus passos eram pesados, como se os fragmentos da argêntea armadura partida que ainda envolvia em parte o seu corpo tivessem o peso materializado de toda a angústia que antecedeu o momento de seu despertar nesse mundo desconhecido. “Não pense, “ dizia a si mesmo “caminhe.”. E foi o que fez pelo primeiro quarto de hora sem que jamais a silhueta do objeto ficasse mais nítida ou algum sinal, divino que fosse, indicasse-lhe uma nova direção. Sabia, entretanto, que se os deuses de fato existissem e fossem bons, mais certos estariam em não prestar-lhe auxílio algum.

Sentou-se por um instante e tentou fingir que apreciava aquela nuvem sobrenatural que pareceu arrancar de dentro dele a resolução para continuar. Bateu nas botas da armadura, parte menos rachada do que um dia foi seu maior orgulho. Olhou para seu corpo, com calma. Ainda parecia ser o mesmo: O corpo forte porém não definido, a altura beirando os 1,70 (altura considerável para o padrão mundial, mas ridicularizada pelo povo do lugar onde nasceu), mão esquerda muito calejada. Passou a mão por dentro da blusa e as encontrou todas lá – inúmeras cicatrizes que tomavam seu peito e abdome, único registro que deixou de sua história. Mas não, não foi o suficiente para se convencer que era o mesmo. Pois via-se olhando para um homem que devia estar ferido, no limiar da passagem para a morte, com perdas maiores que uma armadura destroçada e uma consciência irriquieta. E depois de todo o exame minucioso que, mais que tudo, mostrou que esperar também não mudaria muita coisa, resolveu prosseguir sua caminhada, mesmo que fosse contra vontade das deidades coléricas.

E sua teimosia não demorou a dar resultados. A neblina parecia se dispersar de modo a revelar um caminho cheio de curvas e meia-voltas que apontava para uma saída. Não aumentou seu passo e tampouco seu ritmo – a experiência lhe ensinara a controlar sua impaciência e expectativa. Em uma batalha, pessimismo era o que tinha livrado sua cabeça não poucas vezes de servir de adorno para o muro cranial de Minzu. Destarte, não se decepcionou ao ver que a porta levava apenas a outra sala. Curiosamente, uma sem neblina, sem sombras e...

Na verdade, caso seja possível imaginar o nada como um objeto concreto, poder-se-ia dizer que essa sala o tinha com uma abundância tremenda, beirando o inconcebível para mesmo para a mente acurada do guerreiro. Contudo, tal ausência de tudo era de alguma forma visível aos olhos: Brancura infinita se propagava para todas as direções, sem chão, sem paredes, sem sombras no chão. Não que tudo fosse invisível mas sim, de alguma forma, abstrato. Caminhar naquele lugar era como andar em um mar escuro sem saber quando seu pé iria afundar ou encontrar uma elevação. As vezes o cavaleiro sentia como se caísse vários metros com um único passo mas a falta de referencial não o permitiria precisar esse fato. Quantos dias ou meses se passaram, é um mistério que não foi resolvido nem pelo dito mais sábio homem do mundo. E foi justamente a voz deste que chegou aos ouvidos desacostumados ao som do caminhante:

-Toda a lógica do mundo me dizia que jamais te veria novamente. — Falava a voz rouca – Contudo, sempre soube que você era um homem que persiste enquanto outros persignam.

O cavaleiro olhou espantado para trás e observou o homem que mudou o destino de todo um mundo, em pé, coçando a barba tranqüilamente.

-Cabelo abaixo da cintura... — Riu-se o homem cruzando os braços – De quem é o conselho estúpido agora?

Notas finais
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Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.