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4 Um Iphone e a terceira guerra mundial
Notas iniciais
Bom feriado, fellas (:
Minha colega de quarto era bullwinkle.
Fiquei com a cama de cima do beliche, torcendo para que quando eu estivesse levando o anel para Mordor, lutando contra Zeus dentro de Gaia ou fazendo o genki dama eu não caísse. Lynn tinha uma coleção bem bacana de vídeo games. Talvez eu fosse gostar de ficar ali, no fim das contas.
– Com licença – Disse um garoto loiro na porta. Sieghart.
– Pode entrar – Lynn falou – Vou lá embaixo comer alguma coisa. Comportem-se crianças.
Ela deu um sorriso que só pude julgar como malicioso e saiu agitando sua grande cabeça de bullwinkle. Sieghart sorriu tímido, sentando- se na cadeira da mesa de computador.
– Lynn é tão sutil, não acha? – Falou, evitando me olhar nos olhos. Garotos tímidos são engraçados.
– É – concordei, — Mas o que te trás aqui Sieghart?
– Só Sieg. E bem, Dan te disse que eu viria falar sobre o cartão, lembra?
Foi minha vez de corar. Eu provavelmente pareci tão cheia de segundas intenções com o meu “o que te trás aqui” que eu desejei ardentemente que um buraco se abrisse e me engolisse. Meu rosto deve ter atingido uns sete tons de vermelho.
– Ahn, é claro – Cadê? Cadê o buraco para me engolir?
– Então, está com ele aí?
Dei um salto que só pode ser classificado como estranho de cima do beliche e vasculhei minha mala a procura do cartão, mas é claro que não encontrei. Ouvi Sieg pigarrear e ao olhar para sua mão, meus cartão brilhava, todo fanfarrão, como se sempre estivesse estado ali.
– Estava em cima da mesa – Sieg falou meio sem graça.
– É claro que estava. Eu sempre perco essas coisinhas.
– Certo – Ele puxou um desses aparelhos que lêem cartões e puxou um fio dele, encaixando-o na entrada USB do notebook que estava sobre a mesa – Essas são todas as informações que temos sobre você até agora. É como um currículo, meio biografia, meio histórico até aqui, misturado com probabilidades.
– Probabilidades?
– Sim, veja, fazemos isso com cada recém chegado. Com base nas suas notas, e no seu histórico temos um calculo que dá a probabilidade de você ser bem sucedida no futuro, você, por exemplo, tem uma probabilidade de 69% de ser milionária. Isso é bem divertido, não?
Assustador. Dando uma olhada nas minhas probabilidades, vi que havia assustadores 4% de chance de eu me dar realmente mal, 88% de chances de eu trabalhar em uma grande empresa de informática, 67% de eu criar meu próprio negocio e outras bizarrices do tipo. Como eles chegaram a tais dados? Mistério.
– Daniel e Peter tem as probabilidades mais altas – Sieg parecia meio frustrado – Mas as suas são ótimas também. Aproveite essa porcentagem de 67%, crie seu próprio negocio e me chame para trabalhar com você, porque aparentemente eu não terei tanta sorte assim. Só fazendo um adendo, sou um ótimo programador.
O garoto sorriu, e eu me senti meio sem graça. Queria perguntar as porcentagens dele, mas obviamente ele não estava confortável com elas.
– Vocês costumam acertar, quero dizer, com essas porcentagens?
– Na maioria das vezes. Quer dizer, quando você é aceito na Valley e manifesta interesse em entrar na Shield, nos mandando a carta, além de analisar seu Q.I. e seu histórico, todas essas probabilidades loucas começam a ser testadas, se elas não atingirem uma média final de no mínino 55% você recebe uma resposta direta dizendo que não corresponde aos padrões da Shield, não pode nem fazer esses testes que vocês fizeram hoje.
– Por isso há tão poucos?
– Também. Eles querem os melhores aqui, você sabe. Querem ter história, querem que a Shield entre para o Hall de fraternidades que formam os melhores, ou qualquer coisa do tipo.
Tentei absorver toda aquela informação, me parecia besteira demais e Sieg parecia concordar comigo, talvez nos tornássemos bons amigos por isso. Recusava-me pensar que muito provavelmente meu pai tinha parte naquilo, quero dizer, o cara é um gênio, inventa coisas incríveis, mas a Shield me parece uma forma muito bizarra de controle, um processo de eugenia cerebral muito bizarra.
– Então é isso Liv, o cartão não serve apenas para abrir portas, ele também pode abrir portas, se é que você me entende. Você tem um mega currículo aqui, que não trás apenas o que você fez, mas o que poderá fazer se explorar todo o seu potencial. Aqui no vale tem pessoas que pagariam muito, muito bem para ter como estagiário um de nós, use bem isso. Agora vou deixar você descansar, nos vemos amanhã.
Sieg deu um último sorriso e saiu, me deixando sozinha para refletir sobre tudo que eu tinha visto e ouvido. Eu tinha todo um futuro previsto e guardado em um cartão, agora era só realizar tudo aqui. Nem posso dizer o quando isso me fez sentir mal.
Na amanhã seguinte, fui acordada pelo som de gritos na rua. Era domingo, meio frio e tedioso, e alguns poucos corriam pelas ruas com caras e corpos pintados, provavelmente saindo de alguma festa. Fiquei pensando no quanto disso ainda veria, os testes das fraternidades poderiam rolar pelo próximo semestre todo, então não seria nada anormal acordar com o som de pessoas nuas pintadas correndo pelas ruas.
Desci ainda de pijama, vestindo apenas um casaco por cima, imaginando que ninguém estaria acordado àquela hora. Eu estava errada, só para variar. Todos estavam acordados, sentados na mesa do café da manhã, em frente aos seus notebooks ou smartphones, comendo biscoitos de chocolate. Xbox me olhou com um sorriso, bullwinkle e Pac man acenaram, alguns pareceram não me notar e Isaac tirou os olhos do notebook apenas por alguns segundos, antes de voltar a encará-lo, mas a primeira coisa que ouvi não foi bom dia, foi:
– Isso em sua mão é um Iphone? – E era Dell em sua voz enjoada e com sotaque estranho.
Bullwinkle olhou para Sieghart que por sua vez me olhou com uma cara de “me desculpe, esqueci de mencionar isso”.
– Bem, eu acho que é – eu mesma cheguei a conferir, só para ter certeza.
O pequeno aparelho branco em minhas mãos, adquirido recentemente, foi tomado com violência. Dell me pediu para segui-lo e eu o assim o fiz, mesmo a contragosto. Fui conduzida a uma sala com três telas de LED enormes, um sistema de som incrível e joysticks para todos os lados, sobre poltronas confortáveis.
– Não gosto disso – Ele falou, lançando o Iphone sobre uma poltrona.
Que pena, pensei, já levando à mão ao aparelho, querendo escondê-lo de Dell.
–P-Por que?
– Steve Jobs era um canalha. Wozniak também é, mas enfim...
Não, aquilo não estava acontecendo. É claro que todos sabem que Michael Dell e Steve Jobs não eram exatamente bons amigos, (Só porque a Apple passou valer mais que a Dell depois do lance dos Mac’s com a Intel, e Michael Dell tomou na cara por ter rido do Jobs, enfim), mas daí para Daniel odiá-lo – mesmo depois de morto – me parecia muita infantilidade.
– Não temos muitas regras aqui Liv, mas sabe, macbooks, Iphones, Ipads, eles, como eu posso dizer, eles não são bem vindos na Shield.
Não pude evitar o riso, aquilo era muita, muita infantilidade. Ele me olhou sério, como se não pudesse acreditar que eu estava rindo dele.
– Está me dizendo que eu não posso ficar aqui se não usar um computador Dell? O que mais? Só Linux e sua democracia digital? Android impera absoluto aqui?
Daniel não sorriu, nem expressou emoção alguma, na verdade. Parando para pensar, era verdade que até agora eu não tinha visto nenhum produto Apple na casa, só na cozinha tinha ao menos seis notebooks na mesa, provavelmente nenhum Mac.
– Você não precisa usar um computador Dell, basta não usar um Mac. Mas é claro, se você quiser, eu posso te dar um dos melhor que temos.
– Não, você é louco! – Gritei, sentindo o rosto esquentar – Louco!
Pensei em meu Mac lá em cima, contendo só a minha vida toda.
– Não, não sou louco, sou o presidente dessa fraternidade. Aqui, — Ele procurou algo nos bolsos, acabando por me estender um smartphone, virei só para ver o pequeno android gravado atrás do aparelho. Só podia ser brincadeira – Vê tudo isso? Ele fez um gesto amplo com as mãos – Essa casa, essas coisa? Quase tudo patrocinado pelas empresas Dell.
– E daí? – Falei, empurrando o smartphone de volta para ele.
– E daí que é o mínimo que pode fazer – Retrucou, pegando o aparelho da minha mão e colocando-o no bolso do meu casaco.
Pegou meu Iphone e saiu sem dizer mais nada, me deixando a ponto de virar o Hulk.
– Me digam que isso faz parte da iniciação e que ele vai me devolver depois porque outra coisa eu não vou aceitar – falei voltando a cozinha, tirando paciência não sei de onde.
– Dell, quem tem não troca – Cantarolou Isaac detrás de seu HP ridículo, rindo como se estivesse feliz pela minha raiva.
– Então, esqueci de te dizer isso ontem – Sieg parecia ainda mais tímido – Dan tem tipo uma aversão incrivelmente grande por coisas que sejam da Apple, é tipo uma doença, você não faz idéia. Nós evitamos usar essas coisas perto dele, sabe, mantemos escondido no quarto ou usamos fora da Shield.
– Mas ele tirou meu Iphone – Choraminguei como uma criança – E me deu um Android. Não que não seja bom, tem dispositivos VGA maiores, gráficos 2D, bibliotecas gráficas 3D baseadas em OpenGLES, mas é que... rola um sentimento com aquele Iphone, entende?
Tirei o aparelho do bolso, mostrando-o como se fosse um monstro, arrancando risos de todos.
– Não se preocupe Liv, vou dizer a ele que você precisa pegar algumas coisas naquele Iphone – Peter falou, querendo consolar. Ele ficava tão fofo querendo consolar.
Assenti uma vez, pegando a tigela de cereal que Lynn me oferecia. Depois de comer, subi e tomei um banco, substituindo o pijama por moletom e jeans. Escondi o Mac na mochila e saí, na esperança de encontrar por aí um bom sinal de internet. Tive que andar até estar relativamente perto do CO Tech, onde me deixei cair debaixo de uma árvore.
Tinha apenas uma pessoa com quem eu queria falar. Alguém que estava a quilômetros de distancia, provavelmente sendo muito feliz no MIT*, enquanto eu estava aqui enfrentando um menino mimado odiador de Iphones.
– Arthie! – Quase gritei para a tela quando a vídeo chamada começou.
– Ei Liv, como vai? Você deve estar adorando a Valley. Cara, o MIT é demais, você precisa conhecer!
Arthur era um grande amigo, desde sempre. Eu sabia que ia o encontrar online, pois no computador ou no celular, ele é absolutamente incapaz de sobreviver sem uma conexão à internet, além de ser um profundo conhecedor de sites de compras incríveis e de redes P2P obscuras, o exato tipo que consegue encontrar o que for necessário na rede, da quebra de protocolos de segurança a senhas secretas de órgãos governamentais. Já até foi preso uma vez, levaram aproximadamente vinte e três minutos para chegar a casa dele quando ele invadiu um site do governo. Hoje nos rimos disso, mas na época foi extremamente tenso.
- É, deve ser. Eu consegui entrar pra Shield – Falei, mas pareceu mais como se eu estivesse anunciando minha sentença de morte.
– Cara, isso é ótimo, era obvio que você ia conseguir. Seu pai deve estar orgulhoso!
– É, deve estar – Se ele tivesse ouvido o meu recado, ou se importasse o suficiente para respondê-lo.
Do outro lado da tela, o rosto magro e pálido de Arth se contorcia em uma expressão de dúvida. Ele me conhecia a tanto, é claro que ele sabia que algo não estava bem.
– Então senhorita McDowell, quando vai começar a me contar o que há de errado?
De sobrancelhas levantadas, o moreno do outro lado da tela me olhava intrigado, com a expressão seria e realmente preocupada.
– Você quer que eu pegue um avião e vá até a Califórnia? Porque se quer saber, é o que eu estou pensando fazer.
– Não, não precisa Arth, é só que é tudo tão estranho aqui.
E tem um maluco que tomou meu celular e pretende fazer o mesmo com meu notebook, mas fora isso, tudo beleza.
– É questão de se acostumar, pequena Hobbit – Arth sorriu, me fazendo sentir ainda mais saudades dele – As pessoas na fraternidade são legais? Daniel Dell é muito metido?
Sorri ao ouvi-lo falar disso, fizemos juntos as pesquisas sobre a Shield, elaborando varias teorias sobre Daniel Dell.
– Daniel Dell é maluco.
Então, fiz um pequeno resumo de tudo que havia acontecido para ele, os testes, as pessoas, as maluquices de Dell e Arth apenas ria, comparando com como eram as coisas no MIT, o dormitório, os geeks malucos de lá e tudo aquilo me pareceu muito mais interessante. Foi então que percebi que esperava mais da Valley e principalmente mais da Shield. Despedi-me de meu amigo, ao mesmo tempo que uma voz me chamava.
– Ei ruiva!
Chris Harper estava com o rosto inchado, mas ria como se não houvesse amanhã, vindo pela calçada de forma perigosamente veloz em um Skate.
– Saca só – Gritou, pronto para saltar com o Skate por sobre um banco. Pelos meus cálculos, aquilo ia dar errado. E deu, porque eu sou muito boa em cálculos.
O garoto ficou estendido no chão imóvel por alguns segundos, o que me fez pensar que ele estava morto, mas então ele começou a gemer de dor e eu não tive como não rir.
– Levante rápido antes que alguém mais te veja – Eu disse em meio a risos, andando até ele e estendendo a mão para ajudá-lo a levantar.
– Não tem ninguém aqui, ruiva, só você – Ele sorriu, recusando minha ajuda.
– A probabilidade de alguém estar te observando é proporcional a estupidez da sua ação. Vai se sentir muito mal se eu te dissesse que sabia que isso ia acontecer no momento em que você disse “saca só”?
– Ah, é?
– Tratando-se dessas coisas, é como dizem, sempre que houver 50% de chances de dar certo, na verdade há 90% de probabilidade de dar errado.
Quando ele se pôs em pé na minha frente, percebi que ele estava com um olho roxo, e havia arranhões visíveis em seu pescoço.
– A noite deve ter sido boa – Apontei para seu pescoço.
Ele sentou-se no banco, convidando-me para sentar ao seu lado.
– Acreditaria se eu dissesse que não lembro?
– Na verdade acreditaria. Você parecia meio fora de si ontem. A propósito, sou oficialmente sua vizinha agora.
Ele pareceu envergonhado, cobrindo o rosto com as mãos. Parabenizou-me por entrar na Shield, mas evitava meu olhar a todo custo, como se fosse realmente algo ruim eu tê-lo visto na noite passada.
– Então ruiva, você...
– Liv, me chame de Liv, Chris.
– Certo, desculpe ruiva. Liv quer conhecer o resto do campus? Preciso de você andando comigo para calcular as probabilidades de novos tombos.
Ele levantou, estendendo a mão em minha direção. Peguei-a meio que por reflexo, e seguimos pela calçada, atraindo olhares curiosos. Eu tinha certeza que era o meu cabelo.
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