Gatos Guerreiros - Clãs da Caatinga
2 Capítulo 1
Notas iniciais
O sol alvorava no céu na planície arenosa, o calor começava a aquecer o ar e rachar a terra, mas mesmo assim, os gatos do Clã da Pedra formavam a sua patrulha. Além de reforçar suas marcas de cheiro e caçar o que podiam pelo caminho havia a busca por açudes frescos que ainda não foram tragados pela seca ou pelas manadas que pastavam em seu território.
No acampamento, a maioria dos felinos mantinham-se em suas tocas à espera das notícias da patrulha, enquanto outros gatos se deitavam à sombra rala da árvore no centro do acampamento. A copa da árvore se fora há muitas luas, e o pouco que sobrara já não era o suficiente para todos os membros do clã, mas uma pequena parcela deles ainda despojava da sombra da árvore para trocar lambidas com seus companheiros.
Entre os gatos entocados estava uma jovem gata tartarugada. Ela abanava a cauda impacientemente observando a entrada, com um miado de desapontamento, alongou as patas e saiu da sombra da sua toca com muita indignação indo em direção à árvore central. Ela observou o grupo de gatos deitados na base da árvore.
Em um dos galhos mais altos um gato branco relaxando no topo da arvore. Este era o novo macho líder do Clã da Pedra, Rocha Brilhante. Ele mantinha uma vigília cuidadosa do topo da árvore à espera da patrulha de caça que se fora na manhã. Nada escapava dos olhos azuis treinados do líder, e isso sempre intrigava a gata em pensar como aquele gato tinha mudado desde sua nomeação.
Discretamente a gata se deitou a sombra da direcionando seu focinho para a entrada onde espera ver a patrulha a qualquer momento. Percebendo o comportamento da gata, um guerreiro de pelo preto pintado de branco se aproximou amigavelmente e perguntou:
— Brasa, o que te acontece, gatinha? — O guerreiro mia divertido para a jovem.
— Manto Estrelado, você por acaso viu o Madeira? — Ela tenta disfarçar o rosnado indignado — Ele não estava na toca quando acordei, você viu se ele saiu para patrulhar com Cara Pintada e Presa de Leoa?
Manto Estrelado balançou as orelhas fazendo um esforço para lembrar — Eu não lembro bem, gatinha, estava muito avoado de manhã, ontem fui mandado para a patrulha de caça do anoitecer — ele finge um bocejo e se deitou ao lado da gata — Nunca corri tanto atrais de uma preá, tinha que ver, esses bichos me deram uma canseira.
O guerreiro pintado rolou de barriga para cima em uma posição preguiçosa. Brasa bufou, não estava com vontade de aturar as gracinhas de Manto Estrelado naquela hora. Ela virou o rosto esperando não chamar mais atenção.
— Gatinha? Vamos, me diz o que é esse focinho emburrado — o gatão miou, gentil.
— Se ele saiu com a patrulha, por que não me acordou também?! — Sua resposta foi ríspida — Presa de Leoa não me queria na patrulha?
— Você se pergunta de mais — Manto Estrelado respondeu enquanto se alongava de barriga para cima — Se eu fosse você daria graças às Estrelas por não ter que sair nesse sol quente.
Brasa desviou o olhar, pensando em Presa de Leoa, sua mentora. A gata cor de areia era uma guerreira formidável, e uma mentora exigente, ela sempre tentava tirar o melhor da jovem aprendiz, mas da maneira grossa e arrogante. “O que eu fiz errado dessa vez?” Ela pensou com as orelhas abaixadas.
O guerreiro pintado percebeu que a gata esta muito cabisbaixa com cauda contraída. Isso fez a postura folgada dele desaparecer.
— Não fique pensando nisso, gatinha. Presa de Leoa é nossa melhor guerreira e você vai ser tão boa quanto ela — Manto Estrelado encostou o corpo no de Brasa que começou a ronronar, mais confortável agora — Tenho certeza que quando acabar seu treinamento você vai ser de lutar até com um mourisco ou uma jaguatirica, Estrelas, até mesmo uma onça!
A jovem achou graça do comentário do guerreiro — Que absurdo, Manto Estrelado! A gente nem sequer viu uma onça na vida — Brasa deu uma lambida do ombro de guerreiro preto.
— É claro! Elas morrem de medo de nós guerreiros — Ambos os gatos soltaram ronronados felizes.
A aprendiz se lembrou por uns instantes de quando era um filhote e brincava com o guerreiro quando ainda era só ‘Estrelado’. Ela havia se deixado endurecer um pouco pelo treinamento, quase se esquecendo do amigo “Manto Estrelado, ah, Manto Estrelado, às vezes queria que você fosse meu mentor” ela pensou docemente.
— Eu quero te pedir um favor especial, gatinha — ele balançou os bigodes, orgulhoso — Meus filhotes abriram os olhos há algum tempo. Acho que se eu pedir com jeitinho a mãe deles vai deixá-los sair da toca hoje — Ele imediatamente percebeu a excitação crescer nos olhos da gata — E eu queria que você mostrasse o acampamento para eles.
Com um salto, Brasa uivou de alegria.
— Eu sabia! Eu sabia! Você e Pernas Longas estão juntos. Eu vi que aqueles filhotes eram o seu focinho — A gatinha deu um toque no nariz do amigo — Vamos agora, e melhor fazer isso antes do sol alto para eles não cansarem.
— Calma, calma, eles ainda têm só duas luas, vá com calma
Mas Manto Estrelado foi ignorado. A gata já ia para a toca das rainhas. “Queria ter esse ânimo quando apresentei o acampamento para ela” ele pensou com um pouco de nostalgia ele seguiu a gata tartarugada até o berçário. Haviam apenas duas rainhas deitadas nas camas de penas, Pelo de Malva, a mais velha, ainda esperava a hora de sua última ninhada, enquanto a mais nova, Pernas Longas, se enrolava nos seus quatro filhotinhos.
Os olhos da aprendiz brilhavam, a ninhada de Pernas Longas fora a maior em luas! Esses filhotinhos eram o maior orgulho do Clã da Pedra. Imaginava como seria ser a mentora de um deles, mas logo afastou esses pensamentos apressados. Ia apenas mostrá-los o acampamento e trazê-los de volta o quanto antes.
— Finalmente você apareceu. Comecei a pensar que ia dar uma sumida pela pedreira de novo — Pernas Longas reclamou com as orelhas levantadas para o guerreiro pintado.
— Só se você fosse junto — Ele tocou o focinho preto da companheira com seu focinho branco — tenho uma boa notícia, essa gatinha aqui concordou em mostrar o acampamento para os filhotes.
A gata endureceu colocando a cauda protetoramente sobre os filhotes.
— Você não acha que é muito cedo? Eles ainda estão mamando.
— Eles vão só ver o acampamento e voltar — Manto Estrelado lambeu as orelhas da companheira – Eles não ficarão nessa toca para sempre, nem você.
Brasa abaixou-se para ver os filhotes de perto — Olá pequeninos, meu nome é... – A gata foi interrompida pelo filhote menor pulando em seu focinho.
— Pica-Pau! Mais respeito! — Sua mãe chamou atenção.
A aprendiz não se importou com a brincadeira. Ela se deitou com o filhote escalando seu pescoço, logo outro filhote começou a perseguir sua cauda.
— Que fofo, eles já são amigos — A velha rainha Pelo de Malva ronronou divertida.
— Ok filhotes, se acalmem um pouquinho — Manto Estrelado separou os dois filhotes de cima da aprendiz e juntou com os outros dois filhotes tímidos — Essa gatinha aqui a é Brasa. Ela é uma aprendiz, como vocês vão ser logo, e Brasa, esses são Pica-Pau e Rolinha que você acabou de conhecer.
— Oi, Tia Brasa — Os filhotes cinzas miaram em uníssono, fazendo o coraçãozinho da gata derreter.
— Esses dois são Asa-Branca e Abutre — o guerreiro apontou para os outros dois filhotes.
— Oi... – Apenas o filhote preto respondeu.
Os dois filhotes ficaram encaramujados um no outro. Pareciam um pouco assustados com a gata nova tão diferente das duas rainhas. Mas Brasa teve paciência. Sentada ela esperou os filhotes chegarem perto dela. O gatinho preto foi primeiro e sua irmã branca o seguiu. A aprendiz deu um ronronado de aprovação e lambeu entre as orelhas dos dois filhotes.
— Uau, Brasa! — Exclamou Manto Estrelado — Eles nunca confiaram em outro gato assim.
— Você poderá ser uma ótima mãe — Completou Pelo de Malva.
Brasa nunca tinha pensado em ser mãe, e a ideia não a complacia muito, mas ela tinha que admitir que adorava filhotes.
— Vamos pequeninos. Vou mostrar para você nosso lar.
Os filhotes seguiram Brasa com ânimo, os mais animados — Pica-Pau e Rolinha, — tentavam se agarrar no rabo felpudo da guia, enquanto Abutre seguia Asa-Branca, que mexia curiosamente em tudo de novo que encontrava. A guia fez sua primeira pausa, a árvore no centro do acampamento.
— Aqui é a árvore central — ela apontou para os filhotes — aqui é onde vocês podem deitar e descansar quando forem aprendizes. Também é o lugar que os nossos líderes decidem as ações do clã — Brasa olhou para cima encontrando o gato branco ainda empoleirado — Esse é Rocha Brilhante, o nosso macho líder – os gatinhos não pareciam dar muita atenção, com exceção de Abutre e Asa-Branca, que olhavam fixamente para o gato — Ele toma as decisões do clã junto com Cristal de Chuva, nossa fêmea líder, eles são bem legais, mas estão ocupados agora, à noite talvez vocês possam ver os dois dando os recados.
— Ahh... Brasa eu tenho uma pergunta — Abutre miou baixinho — E se os líderes começarem a discutir? Como eles vão decidir?
A aprendiz ficou admirada com a iniciativa do gatinho preto
— Isso é muito simples — ela começou — Eles vão perguntar a um mestre o que devem decidir.
— Mestre? — Os filhotes miaram juntos.
— Essa e próximo ponto que vou os mostrar a vocês — Brasa juntou os gatinhos novamente em um só ponto, porem um filhotinho branco continuava muito interessada na árvore.
— Asa-Branca, vem cá, logo — Brasa chamou, mas a gatinha a ignorou.
Abutre correu entre os filhotes, dando uma mordida nas orelhas da irmã, chamando a atenção dela.
— Ok, agora vamos ver a anciã. Ela vai gostar da presença de uma ninhada tão grande — Os filhotes a seguiram até uma toca espaçosa o suficiente para vários gatos, mas havia apenas uma velha gata.
— Rio Seco, está acordada? Você tem visita — Brasa chamou.
Da grande pilha de penas se levantou uma cabeça velha e cansada. A anciã acinzentada virou o focinho para os visitantes encarando-os com seus olhos embranquecidos pela idade.
— Bem-vindos — ela miou gentilmente — Venham, cheguem mais perto para vê-los melhor.
Os filhotes pareciam meio assustados, nunca haviam visto um gato tão velho e com olhos assim. Percebendo isso, a aprendiz encorajou os filhotes.
— Não se preocupem. Ela foi nossa mestra por muitas luas. É a mais sábia e gentil gata que vão achar em todo nosso território.
Os filhotes timidamente se puseram na frente da mestra, que cheirou um por um, passando a ponta da cauda em todos.
— Oh, há quanto tempo não vejo uma ninhada grande assim. Cada um de vocês é uma bênção das estrelas para o nosso clã – A anciã ronronou – Você, pequenino, como chama e como aparenta ser?
— Eu? E-eu sou Pica-Pau — disse, atropelando as palavras — Eu e Rolinha somos cinzas iguais a você.
— Não é verdade! Eu tenho uma mancha — A gatinha miou para o irmão.
— Uma mancha? Deixe-me ver — A anciã se aproximou dos filhotes que paralisaram com o olhar branco e vazio da anciã — Está aqui — ela encostou o focinho na mancha escura no ombro de Rolinha.
A gata cega continuo farejando os filhotes
— Você pequenino, como se chama?
— Abutre — Ele respondeu, simples — Sou como meu nome parece.
Ela deu uma lambida longa nas orelhas do filhote, fazendo-o perder a compostura — Você tem um nome bem forte filhotinho — a gata deu outra lambida amigável — E com gênio forte também. E quanto à a você pequenininha?
A gatinha não respondeu, apenas tentou se desviar timidamente.
— O nome dela é Asa-Branca — Abutre respondeu no lugar.
Os olhos brancos da anciã se voltaram ao filhote preto.
— Como ela é? — Ela perguntou de maneira estranhamente gentil.
— Branca. Por que isso importa? — O filhote preto respondeu um pouco brusco.
Brasa deu uma patada de leve na cabeça do gatinho preto.
— Pare de ser tão grosseiro, ela é um anciã e era nossa mestra.
— Cor dos olhos? — A velha gata continua
— O quê? — A aprendiz surpreendeu-se com a pergunta repentina — São azuis.
A gata cega ficou em silêncio por uns instantes.
— É uma gatinha linda — ela deu uma lambida demorada na cabeça de Asa-Branca.
— Espero que seus pais escolham seus mentores com sabedoria. Vocês são belos e promissores — ela ronronou satisfeita.
— Se depender da Pernas Longas isso vai demorar um ciclo inteiro — Brasa brincou — Vamos, filhotes. Vamos ver a toca dos aprendizes e a dos guerreiros.
A gata e os filhotes sairam da toca da anciã quando de repente, se ouviu um de alerta uivo vindo do topo da árvore – Ataque! Gatos do Clã do Cacto estão vindo! – Rocha Brilhante saltou do topo da árvore.
Os filhotes se assustaram com os uivos repentinos e enroscaram-se em Brasa por proteção. Manto Estrelado disparou da toca das rainhas com Pernas Longas desesperada ao seu lado.
— Meus filhotes! Onde estão meus filhotes?!
A gata correu em direção a aprendiz, pegando seus filhotes de volta os levando imediatamente para a toca. Brasa ficou sem reação. O chamado de Manto Estrelado trouxe a gata para a realidade, correu para o lado do guerreiro junto de vários gatos que saíam de suas tocas e sombras pondo-se ao lado do seu líder, de prontidão.
Os gatos do Clã do Cacto entraram no acampamento, porém não atacaram. O bando encarou os guerreiros do Clã da Pedra trocando um ou outro rosnado, até que uma gata cinza tomar a dianteira. Era a fêmea líder do clã.
— Cristal Escuro, que te traz ao meu território? — Rocha Brilhante cuspiu as palavras.
— Eu te pergunto o mesmo Rocha Brilhante. O que isso fazia em meu território? — A líder apontou com cauda para seu bando. Um gato preto grande puxou pelo cangote um gato marrom, o jogando do lado da lider. Ele tentou fugir, mas outros dois guerreiros o prenderam no chão.
— Madeira! – Brasa saltou para socorrer o amigo, mas foi impedida por Manto Estrelado.
— E-eu eu já disse! Eles n-não sabiam de nada! — o gato marrom tentou responder a líder do clã rival, sendo calado por uma mordida no cangote.
— Esse aprendiz estava no caminho para o território proibido — A líder voltou seus olhos verdes do aprendiz para Rocha Brilhante — Entrar em nosso território já foi uma grande transgressão, mas entrar no território proibido é inaceitável!
— Meu clã não tem nada a ver com a atitude desse jovem — Rocha Brilhante se controlou — Você tem minha palavra de líder.
— Como eu posso confiar nas suas palavras, se não pode sequer controlar seus aprendizes? — A gata disparou imediatamente — Não tente me fazer de boba! Sentimos o cheiro do seu clã cada vez mais perto da fronteira.
A acusação trouxe um silencio na clareira.
— Sem objeções, parece de que a carniça lhe serve.
Os olhos de Rocha Brilhante queimaram de raiva, suas garras desembainharam por um instante
— Como ousa...? Meus gatos estão passando fome, e você se preocupa apenas com manter seu território!
A gata apenas observou com desdém. Fez um sinal com a cauda para seus gatos soltarem o aprendiz marrom.
— Leve seus problemas para a próxima assembleia e talvez possamos resolvê-los de forma civilizada, sem precisar jogar isso nos ombros dos poucos aprendizes que tem.
A líder e seus gatos se viraram para partir, mas deram de cara com a fêmea líder do Clã do Cacto e sua patrulha os esperando na entrada.
— Cristal de Chuva, esse assunto também diz respeito a você...
— Eu já ouvi o suficiente — a líder interrompeu — Eu já sei o que tenho que tratar, agora, saia do meu território!
Não houve chiados ou uivos de nenhum dos lados, apenas um silêncio estranhamente respeitoso que foi levando o bando embora do acampamento. A líder de pelagem fofa dirigiu seu olhar para Rocha Brilhante.
— Eu pensarei na punição adequada a este aprendiz. Enquanto isso, levem-no para a Mestra cuidar de suas feridas — a gata se foi em direção ao líder macho — Você, Rosto Pintado e Madeira vão para minha toca ao pôr do sol.
O gato branco ficou tenso por um instante antes de soltar um longo suspiro, se dirigindo para sua toca com a cabeça baixa. Brasa continuava atônita até ouvir um chiado de dor do seu companheiro. Ela correu ao seu socorro.
— Madeira, como você pôde? Poderia ter começado uma guerra — a aprendiz ajudou o amigo a levantar apoiando seu corpo no dela, até um gato pintado se pôr no seu caminho.
— Eu me encarrego dele por agora — Rosto Pintado pegou seu aprendiz bruscamente, o levando para a toca da mestra anciã.
Brasa já se virava para segui-los quando foi impedida de novo, agora por uma grande guerreira cor de areia.
— Isso não diz respeito a você agora, Brasa — Sua mentora, Presa de Leoa, a reprimiu — Vá se preparar. Te quero na patrulha de caça essa noite.
Fale com o autor