Gato Vira-lata
4 Capítulo 4
E a semana de provas foi passando. Nesse tempo eu não tinha me socializado com praticamente ninguém, almoçava na biblioteca para ter mais tempo para estudar. Não andei conversando muito com Emi porque ela estava ocupada com o conselho estudantil, e também não ando falando muito com Nekojima, já que eu não ia ao terraço desde Segunda. Mas finalmente Sexta chegou, finalmente acabou. Minhas últimas provas foram de geometria e álgebra, o que significa que eu passei a madrugada em claro decorando fórmulas. Tá, minha semana não foi tão parada assim. O negócio é que vi Nekojima e Kimura conversando num corredor meio escondido,perto da sala do 3ª ano A, na quarta-feira. Não sabia se era uma discussão ou uma conversa. Não, eu não sou de espiar as conversas alheias, eu apenas estava passando por ali...
E ninguém me viu e morreu por causa disso, então...
Não deu para ouvir bem o que eles estavam falando, se eu chegasse mais perto me notariam, então fiquei encostado na parede ouvindo o que eu podia, até que escutei certa frase vinda de Nekojima.
– Onde você deixou a faca?
Estremeci ao ouvir a última palavra. Vamos, há toneladas de facas no mundo, certo? Não podia ser AQUELA faca... mas se for, o que é que o Neko tem haver com ela?
Eu precisava saber mais...
...PÉÉÉÉÉ...
Mas me peguei encarando uma placa de desligar os celulares na hora da aula no meio do corredor, com muito entusiasmo.
Mas nem precisei disfarçar tanto, a multidão de alunos saindo das salas conseguiu me camuflar bem. Depois não tive mais notícias dos dois. Pelo menos não antes de sexta-feira.
Nesse dia saí da escola tossindo. Passei a semana desse jeito, não era nada grave, mas por conta do stress que eu estava tendo por causa das provas e noites em claro estudando... Digamos que isso não ajudou muito minha saúde.
Mas estava bem o suficiente para pegar o metrô e ir para casa... Até eu descobrir que o metrô que levava para perto de minha rua estava quebrado, não tendo hora prevista para voltar a funcionar. Eu até sabia como voltar para casa a pé, mas o caminho era bem cansativo. Às vezes a minha sorte me impressionava muito.
Caminhei por um longo tempo, que nem deve ter sido tão longo assim, é que eu estava tão cansado e abatido que qualquer passo que eu dava parecia demorar uma eternidade. Eu não pensava em nada, só queria ir para casa. E casa eu não quis dizer aquela alugada...
Afastei os meus cabelos do rosto enquanto ouvia algo sendo chutado e que teria atingido minha perna se eu não tivesse desviado. Uma lata de refrigerante. Olhei para a direção que a lata havia sido disparada e avistei a pessoa que mais me amava nesse universo, junto com seu grupo inseparável.
Aquele típico sorriso formou-se em seus lábios.
– Olha quem deu as caras por aqui, galera.
Tentei ignorar e continuar meu caminho, mas eles bloquearam minha passagem.
Kimura chegou mais perto de mim e segurou a minha cabeça, me encarando mais de perto.
– Então é você que gosta de interferir nos assuntos alheios?
Gelei, a primeira coisa que eu pensei era que se ele havia notado que eu estava ouvindo a conversa dele com o Neko sobre a faca, até ele continuar a falar.
– Bem, eu lhe devo uma, me ajudou a beça indo ao terraço naquele dia.
– Do que é que você tá falando? – Eu realmente estava confuso.
Ele me encarou bem mais de perto.
– Você não precisa saber, mas te darei uma recompensa pela a ajuda, que eu já te recompensaria sem nem ter feito nada.
Ele conseguiu me escoltar para um beco apenas segurando a minha cabeça, depois colocou-me contra a parede e com a mão esquerda começou a tirar meu cinto enquanto eu ouvia a turma dele rindo ao redor de mim.
Mas pararam quando dei um soco bem no meio da cara de Kimura.
Foi forte o suficiente para ele cambalear para trás, com a mão ensanguentada cobrindo o nariz. Ele me encarou com um olhar feroz.
– Esmaguem essa puta!!
Ele não precisou dizer duas vezes. Cinco caras foram para cima de mim, um tentou me dar um soco na cara, segurei seu punho e chutei o meio de suas pernas, este se dobrando no chão. O outro me deu um soco nas minhas costas que quase me fez cair para frente. Dei um chute cego dando uma volta, acertando o lado da cabeça de um que se esbarrou no outro que levou os dois ao chão. Mas os outros dois que sobraram foram rápidos em segurar meus pulsos. Me debati contra eles, mas um entortou meu pulso e o outro me deu joelhadas nas costelas, o que me fez urrar de dor. Ninguém parecia ter escutado, tentei virar minha cabeça de lado, mas não havia ninguém a vista fora do beco. Tentei gritar por ajuda, mas eu começava a tossir e não conseguia mais falar direito.
Kimura foi se aproximando de mim sem a mão tampando o nariz, dava para notar que eu havia feito um estrago a ponto de ele estar com dificuldades de respirar com o nariz.
Seu típico sorriso e olhar voltaram a sua face, como se eu não tivesse esmurrado sua cara nunca na vida.
– Você é bem levado para um calouro. Se não quer passar pela iniciação pelo modo mais fácil, terá de ser pelo mais difícil.
Ele começou a estalar os punhos, pronto para me espancar da cabeça aos pés. Eu estava exausto, meu pulso doía, minha cabeça parecia que iria explodir e eu arfava muito. E os outros caras pareciam estar se recuperando do trabalho que dei, já se reunindo ao redor da briga. Eu não tinha mais chance nenhuma. Até que ouvi uma voz suave vinda do meu lado.
– Que cena mais desagradável essa.
Kimura também virou a cara para ver a nova figura, e sua expressão irônica passou para raiva.
– Que é que você está fazendo aqui?
Neko pareceu surpreso.
– Eu sempre costumo pegar esse caminho de volta para casa, mas hoje resolvi vir mais cedo, mas parece que fiz bem em ter vindo. Agora solte o garoto.
Eu pensei que os outros caras o agarrariam, que Kimura bateria nele também. Mas surpreendentemente, eles continuaram o diálogo.
– Isso não é assunto seu Mikio! Cai fora!
– O assunto começa a ser meu quando você começa a ferir o que me pertence. Agora o solte.
Aquilo me deixou tão surpreso quanto Kimura, me deixou mais ainda quando Kimura fez um sinal com a mão para seus colegas me soltarem. Foi um pouco difícil me manter em pé, estava tonto.
– Você é um estraga prazeres. – Grunhiu Kimura.
– Você não devia bater no cara que salvou o emprego de seu pai, Ichiro.
Se tinha como eu ficar mais confuso do que eu já estava, Neko fazia isso ser possível. E foi a primeira fez que eu havia escutado o primeiro nome de Kimura. Ele ficou pálido, murmurou com amargura para seus colegas para eles irem embora, e saíram sem nem olhar para trás.
Escorei-me na parede do beco e fui escorregando até o chão, respirando com dificuldade.
– Você está horrível. – comentou Neko se aproximando de mim.
– Obrigada por afirmar o óbvio, mais alguma coisa?
– Um obrigado por ter salvo a sua pele seria uma boa agora.
– Eu podia ter cuidado deles sozinh... ah, esquece. Obrigado.
Ele riu.
– Você é bem sincero. Gosto disso. Mas até que você não foi tão mal, pela aparência acho que você conseguiu quebrar o nariz do Ichiro, fez um sair mancando e outro sangrava pela orelha...
– Bem merecido.
Ele ofereceu a mão para ajudar-me a levantar, peguei minha pasta escolar no chão e aceitei sua ajuda, com um pouco de dificuldade e comecei a andar para a saída do beco, Neko foi me seguindo.
– Onde você mora? – perguntou ele.
Então eu disse a rua onde ficava a casa e ele assoviou.
– Isso é bem longe, você pretende ir a pé?
– Não tenho dinheiro para táxi ou ônibus, então fazer o que.
Notei que ele havia parado de andar enquanto eu continuava, até que senti a mão dele segurando meu braço e me levando para frente.
– A-aonde você tá me levando?
– Para minha casa, é um quarteirão daqui.
– Isso é um sequestro.
– Nem é.
– Se é contra a minha vontade, é.
– Talvez.
Puxei o meu braço para ele soltá-lo.
– Agradeço pela gentileza, eu acho. Mas eu sei me cuidar.
– Mas não está em boas condições.
– Eu estou ótimo.
Ele levantou uma das sobrancelhas.
Depois ele foi se aproximando de mim e me deu uma espécie de abraço, que não era bem um abraço porque ele apertou meu pulso com uma das mãos e a outra, usando o polegar, empurrou minhas costelas. O que me fez praguejar de dor e minhas pernas fraquejaram, mas Neko me segurou a tempo.
– Mas que merda! Qual o seu problema?
– Pulso torcido, uma das costelas deslocadas, ou até quebradas. Eu posso cuidar disso.
– Não vou confiar meu corpo a um aluno de ensino médio!
Ele deu um meio sorriso travesso para mim.
– Não se preocupe, não faço coisas amais em serviços.
Corei. Eu realmente não tinha muitas escolhas a não ser ir com ele, além do que ele falou, me sentia bem tonto também. Ele colocou meu braço ao redor de seu pescoço me ajudando a andar, e fomos até a casa dele.
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