Gato De Cheshire: As Sombras De Ícaris
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Beijos amores.
Os olhos bem fechados atravessam o espelho, e tão logo passaram, tão logo se abriram e contemplaram toda uma nova dimensão, pessoas com roupas de diversas cores caminhavam apressadamente sobre avenidas de cristal e pedra, algumas em pernas de pau, outras com sapatos sociais, todas na mais plena tranquilidade.
- Onde... Estamos?
- Ícaris. – Cheshire informa, movendo suas orelhas involuntariamente. — Não falem com ninguém.
As pupilas de Mary se dilatam em descarada animação, ela já está pronta pra se desgarrar do grupo e explorar até o fim dos tempos.
- Nem pense nisso. – Will diz, pegando um dos braços d Mary.
- Ah, nada disso mocinha. – Antonie se encarrega do outro.
Mary que preparava-se para protestar, recebe um olhar cortante de Cheshire, algo que dizia: “Cause-me problemas e arrancarei suas mãos com os dentes”.
Cheshire oculta suas orelhas felinas e cauda, caminhando com sua blusa listrada pelas calçadas, Charlotte em seu encalço.
- Cheshire, por que não podemos falar com os nativos?
- Até que estejamos perfeitamente ambientados, é bom que não sejamos notados. – sua voz era grave e séria.
- Certo... – Charlotte acredita que Cheshire não revelou suas verdadeiras intenções, mas os olhos negros reprimiram a pergunta que pairava em sua garganta.
Uma sirene soou alta e profunda no ar daquela manhã.
- Toque de recolher... – Cheshire disse, mordendo o lábio, claramente preocupado. – Rápido, todos me sigam.
E disparou pela rua com uma agilidade felina e precisa, descendo a grande rua estreita entre dois prédios e metendo-se numa pequena casa no alto de uma colina.
- Toque de recolher, mas é dia claro. – Antonie disse, olhando pela pequena fresta da cortina.
- Podíamos estar usando essa casa? – William segue quase que imediatamente após Antonie terminar sua sentença.
- Essa casa está abandonada a muito tempo. – Cheshire diz, mexendo nas gavetas de forma inquieta. – Os habitantes não podem caminhar após o sinal do sétimo solstício da lua, poderiam ser atacados por Cádins.
- Cá...Dins? – Charlotte perguntou.
Cheshire deteve as mãos um momento, voltou-se a eles ele ainda com uma expressão cheia de preocupações e disse.
- São como enormes chicletes escuros como carvão, que atuam de forma semelhante a sombras, após o sinal do sétimo solstício da lua, os cadins saem às ruas e levam os habitantes para as sombras assim como eles, roubam suas almas, seus corações e comem, então os transformam em seres como eles, sem uma forma fixa.
- O que é um solstício da lua? – Mary pergunta.
- Um solstício de lua... É uma medida de tempo, algo que tem significado semelhante a uma hora humana. Usado após a metade do dia, antes se usa o solstício de estrela.
- Calma, isso significa que já são sete horas? – Will diz, encarando o sol no céu.
- Daqui a pouco o sol criará um brilho violeta e então estaremos perdidos a menos que eu encontre as velas de cera branca... Achei! Charlotte me ajude com isso, vocês fiquem aqui dentro.
Charlotte segue Cheshire porta a fora, ajudando-o a levar os dois pacotes cheios de velas brancas.
- Coloque uma vela em cada estaca e acenda com isso. – ele joga a ela um isqueiro.
As mãos débeis de Charlotte brincam com o objeto prateado no ar por alguns segundos antes de conseguir segurá-lo e acender a primeira vela, depois outra, depois outra.
As velas são todas acesas, o fogo se torna esverdeado, e uma leve película perolada se forma a partir dela, formando uma cúpula cintilante sobre a casa e ao redor de parte do quintal.
Alguns minutos se passam e o sol adquire uma cor levemente violeta, com um brilho que se assemelhava a luz negra, as sombras dos objetos se desprendem deles erguendo-se em formas ameboides que se esgueiram vagarosamente em direção a casa, sendo parados pela película, que mantem o mesmo brilho claro que havia antes, como uma bolha de luminosidade límpida e matinal em meio à luz distorcida de uma lâmpada estroboscópica coberta de uma película negra, dissipando raios arroxeados de brilho fosco.
- O que são... Essas coisas? – Charlotte se pergunta, olhando enojada as poças de gosma móveis, que se esgueiram no chão e então voltavam a cair, como se não tivessem força de sustentar seu próprio peso, como lesmas de piche se arrastam junto ao chão e tentam levantar seu peso úmido e pegajoso mas como não possuem força, logo retornam a rastejar.
- Cadins. – Cheshire diz simplesmente.
Cheshire enfia as mãos nos bolsos, estendendo uma pequena corrente na direção de Charlotte.
- Fique com isso, se estiver longe na hora do toque de recolher, ajudará a manter os Cádins longe por algum tempo e me ajudará a encontra-la. Vocês não poderão mais ir as ruas todos ao mesmo tempo.
Silêncio, Charlotte observa atentamente a cor esverdeada dos olhos de Cheshire.
- Bem, eu vou... Lá dentro estregar as outras dessa ai para o resto e explicar as regras.
- Certo... Eu já vou... – Charlotte diz.
Cheshire se vira pra entrar, parando pouco depois e tomando fôlego pra dizer algo, detendo-se por segundos e depois prosseguindo.
- Não olhe nos olhos dos cádins Charlie, eles hipnotizam você.
- Ah, tudo bem...
Um amarrado no fundo da garganta de Cheshire, amargo e indigesto dizia que ele estava escondendo alguma coisa de si mesmo, ou pelo menos tentando, por a verdade ele já sabia, e sabia há muito tempo.
- William, Mary, Antonie. – Cheshire chama.
- Sim? – apenas Will e Antonie respondem.
Mary olhava entusiasmada para as manchas disformes de massa negra e pegajosa.
- Mary, você também. – Cheshire demanda atenção de todas.
Mary olha vagamente a Cheshire, evidenciando que sua mente permanecia em outro lugar.
- Sigam o toque de recolher a risca, ou os cádins devoraram suas almas e seu coração, então vocês se tornarão lesmas pretas como eles. Querem virar lesmas pretas?
- Não, definitivamente não. – os três dizem.
- Então sejam íllis bonzinhos e sigam as regras que vou passar.
Do lado de fora da casa, Charlotte observava as velas brilhando suas pequenas luzes esverdeadas e os cádins eventualmente se pressionando contra a cobertura inexpugnável, em busca de qualquer brecha o menor dos trincados.
Ela simplesmente os observava em sua falta de forma, rastejando e erguendo-se como se estivessem cobertos de lama negra, observando-a com interesse.
- Charlie...
Charlotte estreita os olhos para apurar o sentido do som, focando sobre um das figuras negras que vagava a esmo do lado de fora.
- Você... Falou comigo?
- Foi assim que ele te chamou... Não foi? – a criatura amorfa respondeu, pendendo o peso sobre a cúpula como se tentasse escalá-la de algum modo.
- Essas coisas... Falam?
Ela involuntariamente se dirigia até o lugar onde e criatura estava, parando em frente a fina película de luz que a separava dele.
- Você é nova aqui... De onde veio?
- Não vou ficar aqui falando com você.
- Veio procurar alguém... Não veio?
- O que? Agora além de feio você é vidente também? Vou te chamar de Madame-Coisa-Gosmenta, a vidente.
- Mas por que tanta frieza...? Nunca lhe fiz nada...
- Não fez por que não conseguiu. Vocês, coisinhas pretas, querem mais é comer o meu pobre coraçãozinho e a minha alma, eu só tenho uma, ok?
- Sim, mas...
- “Mas” nada! Eu tenho que garantir a minha vida e você a sua. Se vira.
Charlotte caminha de volta pra dentro, onde Cheshire explicava o restante das regras aos outros, ela passa e vai a procura dos quartos, de novo teria de se habituar a esses fuso-horários malucos.
Cheshire bate na porta.
- Charlie...?
- Hm? – ela diz, trocando os lençóis da cama por aqueles que trouxe de Âmbar, pensando que uma vez teria de comprar mais roupas, pois as que havia trazido não seriam suficientes.
- Logo não serão mais sete solstícios de lua, e poderemos sair.
- Ah, sim, entendo.
- Então começará a hora do dia dos equinócios de noite, chamados simplesmente de equinócios.
- Aham.
Cheshire morde o lábio, sentindo-se levemente deslocado, como se estivesse sendo um incomodo, um fardo.
- Estou... Atrapalhando?
- O que? – ela termina de arrumar a cama, voltando seus olhos na direção dele.
- Estou atrapalhando?
- Não. Por que estaria? – ela parece confusa.
- Nada. – ele diz prontamente. – Estou dormindo pouco e pensando de mais... Só isso.
- Precupado com Eliza?
- É... Isso mesmo... — ele corre os dedos pelos cabelos negros, parecendo deliberar na própria resposta, os olhos numa mistura de castanho com verde. – É por isso...
- Não se preocupe Cheshire, vamos encontrá-la, tenho certeza. Aliás, como tem tanta certeza de que ela veio pra cá. — uma vez mais os olhos de Charlotte se perdem no aposento, batendo e movendo ao móveis empoeirados de modo a manter tudo numa mínima ordem.
A perda dos olhos de Charlotte deixaram Cheshire levemente incomodado, ele não queria que ela tirasse seus olhos dele com tanta casualidade, movendo-se junto ao batente num desconforto mudo.
- Me foi concedida essa capacidade, ela atentou contra a vida da minha rainha, logo eu posso sentir onde ela está.
- Ah, entendo. Não deve ser muito confortável.
- Não... É como... uma roupa muito justa, não permite que você se mova livremente, mas também é muito difícil de tirar.
- Entendo. – ela termina a arrumação básica, sentando-se numa poltrona que antes estava coberta por um plástico branco e grosso.
Ele se interrompe em seus pensamentos, voltando-se a ela.
- Só mais uma coisa Charlie.
- Sim?
- Amanhã sairemos para a cidade, precisamos de comprar algumas coisas, pode me ajudar?
- Claro.
- Obrigado.
- De nada.
- Então... Boa noite.
- Boa noite Cheshire.
Cheshire ruma ao corredor, de onde iria ao seu próprio quarto, com uma sensação fria e pesada de algo estava fora do lugar... Devia ser Eliza... Devia ser... Certo?
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