Notas iniciais
Boa Leitura!

Depois de falar com o Oráculo, aquela força estranha me puxava para o alojamento ferozmente como da outra vez. Precisava chegar o quanto antes.

Passando o campo de força, senti-me em casa. Estava acostumado com o lugar e poucas horas pareciam dias que estivemos fora. Sentia-me exausto e já era noite, podia dormir um pouco, não podia? Acabando de fazer a pergunta, me lembrei que hoje era o décimo dia e provavelmente deveríamos ter reunião estratégica com todos. Que horas deveria ser? Não tinha a menor idéia. Contando que ficamos dois períodos fora, deveria ter passado umas dez ou onze horas. Saímos às sete horas hoje. Então calculei que deveria ter acabado de escurecer. Não me sentia com fome, portanto decidi descansar um pouco antes da reunião.

“-Deve estar quase na hora da reunião estratégica” Disse a Francisco.

“- Já é de madrugada. Ficamos fora por cinco dias aproximadamente, Davi.”

Olhei incrédulo para ele. Será que estava ficando louco? Como isto poderia acontecer? E disse confuso.

“-Como assim?”

“-Já te disse que existem diferenças entre os mundos. Inclusive de tempo. O tempo passa de maneira diferente em Estrel. Um dia lá equivalem aproximadamente cinco dias na Terra. E assim acontece com vários outros mundos”

“Que dia é hoje?”

“Faltam catorze dias para a batalha.”

Como tinha passado tão rápido? Despedi de Francisco e fui em direção a meu quarto. Refresquei-me com um banho e me joguei na cama ainda sem me vestir. Estava tão cansado que acabei adormecendo nu.

Décimo sexto

Quando abri os olhos na manha seguinte. A vi sentada a beira da minha cama, ela me olhava com um ar malicioso no rosto. Fiquei confuso. O que Elizabeth fazia aqui? Pisquei várias vezes ainda sonolento e me sentei na cama. Agora acordado, pude perceber quem estava me encarando.

Paula.

“-Privacidade?” Disse tentando não demonstrar o que sentia. Estava envergonhado por ela me observar nu e lutando para não cobrir minhas partes expostas com as mãos. Seria motivo de riso para Paula e já que ela se atreveu a entrar em meu quarto, perceber que não estava vestido e esperar que eu acordasse. Com certeza, também estava preparada para minha reação quando o fizesse.

Ela ergueu uma sobrancelha e tocou minha barba com a ponta dos dedos. No dia a dia não costumava deixar a barba por fazer, mas aqui não era o dia a dia e eu estava um pouco mais relaxado com a minha aparência. Minha barba era completa, mas estava bem curta. Ela tirou os dedos de minha barba e passou por meus cabelos que embora estivesse sem pentear, estavam ajeitados, só um pouco mais comprido que o normal. Embora minha cabeça viajasse, havia se passado poucos segundos e ela continuava a me encarar.

“-Tive que ficar longe de você por dezessete anos, não podia estragar o disfarce e a proteção. Não imagina o quanto tempo esperei para te tocar assim, é difícil querer alguém e ter que desprezá-lo”

O que era aquilo? Como assim me queria? Senti uma paixão platônica por ela boa parte de minha vida e era rejeitado visivelmente para quem quisesse ver. Rejeitava-me mesmo quando eu não tentava nada, apenas com um olhar que às vezes eu perdia em sua direção. Escutava coisas como: Se liga garoto, vai viajar nos seus carrinhos de brinquedos. Eu sempre me culpava por ter me deixado envolver, virava a cabeça envergonhado e nos próximos dias evitava inclusive lugares em que ela estava. Mas agora, não queria sentir-me diminuído ou um moleque perto dela novamente e disse demonstrando a segurança que não sentia.

“-Você sabe muito bem que também tive que me afastar de quem eu gostava por quase toda adolescência.”

Disse afirmando o que ela já sabia. Eu gostava dela e me afastava porque ela me rejeitava.

Estávamos sentados a minha cama, um de frente ao outro. De repente, ela passou de meus cabelos para meu rosto novamente, traçando uma linha entre a mandíbula e pescoço. Eu estava travado, não queria parecer desconfortável, mas eu estava. Não a amava mais, tive a confirmação disto naquele momento. Eles haviam feito um bom trabalho, eu amava Elizabeth. Paula segurou meu rosto em suas mãos e se aproximou.

“Esta sou eu.”

Ela derrubou a máscara “Elizabeth mais velha” e se tornou a verdadeira aparência de Paula. Claro que ainda se aprecia com Elizabeth, mas agora era realmente sua irmã. Os cabelos escuros e cacheados, os olhos verdes azulados, a pele mais bronzeada e parecia em torno de uns vinte anos. Uma lida mulher!

Poucos segundos se passaram enquanto minha mente analisava Paula, mas acabei percebendo sua intenção ao se aproximar tanto nossos lábios e meu corpo se retesou involuntariamente me forçando a fica de pé. A única imagem na minha cabeça era de Elizabeth. Meu amor era inteiro e incondicionalmente direcionado a ela.

“-Este tempo já passou Paula. Meu coração pertence à outra agora e você sabe muito bem disto.”

Por um instante pude ver a raiva brotar em seus olhos, mas antes de eu confirmar que vira algo ali ela suavizou o olhar e me disse com uma voz de seda.

“-Acho que posso entender. Não se preocupe.” Ela falou levantando-se da cama também. “Não vou forçar barra alguma” E saiu do meu quarto com um sorriso no rosto.

Como aquilo acontecia? Precisava pegar uma chave para trancar a porta de meu quarto, pois de todas as visitas que receberá sem ser avisado, mais da metade era indesejada e me trazia constrangimento, como esta de hoje por exemplo.

Quando será que ela voltou? Onde estava? Agora eu estava me sentindo mal? Amei-a por quase seis anos e não menti quando disse que pertencia a outra pessoa, mas a tinha desejado tanto que foi difícil dispensá-la agora. Tinha imaginado como era tocar seu corpo, sentir seus beijos, mas quando caia na real, era Elizabeth que desejava.

Na verdade, era muito difícil, pois Paula com seus trinta e dois anos, na verdade aparentava vinte. Apenas dois a mais que Elizabeth e isto tornavam as coisas muito mais difícil agora.

Mas já tinha feito a coisa certa e me sentia bem por isto agora. Se não tivesse resistido, isto acrescentaria mais um motivo para Elizabeth me odiar. Falar nela me deixou ansioso em vê-la. Embora para minha cabeça houvesse passado apenas horas, ela teve cinco dias para pensar em nossa situação.