Gateway - Camping Green hil
29 Sem palavras!
Notas iniciais
A batalha será amanhã............ à noite!
Mais ataques
Mais estratégias
Menos Elizabeth
Mais sozinho
O GRANDE DIA!!!
Acordei com tanto barulho ao meu redor que demorei a perceber onde estava. Francisco segurava um bolo com dezoito velas e cantava parabéns a você com meus amigos que conheci no alojamento. Metaformos, Tralhos e Anões.....
“-Onde você conseguiu um bolo?” Eu disse rindo já me sentando.
“-Tenho que ficar te lembrando toda hora?........ Magia!”
“-rá rá rá.” Assoprei as velinhas.
O bolo era de chocolate, meu favorito e estava muito bom, todos experimentaram e depois me deram parabéns, não perdemos muito tempo, logo partimos para a preparação da batalha.
Repassamos com o líder de cada reino as posições e quais ataques deveriam ser usados.
Eu estava concentrado. Demétrius e Francisco ficaram quase que o dia inteiro comigo. Passando-me orientações e quais as estratégias para cada ataque.
Ao final da tarde não havia barraca alguma, somente os guerreiros e armas. Estávamos em posição formando um circulo ao redor de cada lago, conforme planejado.
Ao por do sol, o silêncio dominava a colina verde. O céu estava escuro, não havia lua, não havia estrelas. Parece que a Terra sabia que seria atacada e tudo que era vivo, desaparecera.
Meu corpo estava alerta, tanto quanto minha mente que estava desperta e protegida. Tivemos muitas magias de preparação. Proteção da mente, uma que diminui a fadiga. Aumento dos sentidos, os meus ficaram mais aguçados ainda. E magias de isolamento, que minimizava que as trevas passassem pelo campo de força.
Num determinado momento, começou.
O primeiro ataque veio para os metaformos. Na linha de frente, todos estavam em forma de animais. A maioria pesado e de quatro patas, os menores e rápidos estavam na fileira de trás. Havia tralhos também, como teria em todos os reinos. Uma explosão de sombra subiu num jato, como um gêiser no meio do lago. Havia sombras se transformando sob as águas. Era impressionante a quantidade, mas a medida que outras saiam, as primeiras já tomavam formas e uma chuva de flechas saíram de trás dos metaformos. Havia uma equipe de arqueiros que iniciaram o ataque abatendo as trevas. Muitos corpos negros caiam ao chão sem nem ter como identificar no que estavam se transformando.
E assim, como eles não tinham tempo suficiente para se transformar em nada, no segundo lago mudaram a estratégia. Estavam se transformando em seres menores. Agora era a vez dos ursos. Não sabíamos se atacariam de uma vez ou ordenados como estavam fazendo, mas enquanto eu acabava meu pensamento, outros gêiseres explodiram ao mesmo tempo e todos estavam expelindo sombras. A noite que já estava escura se transformou numa névoa negra e densa.
Eu estava na linha de frente com Demétrius ao meu lado e Jake do outro. Nossas espadas estavam em punho. Enquanto a chuva de flechas caia em direção ao gêiser de sombras, consegui perceber qual era o padrão que seguiam. Elas estavam se materializando no ser que estava aguardando seu ataque, só que maiores. Os elfos e o povo de Napta receberam sombras em formato de homens do tamanho de tralhos. Os anões, em homens do tamanho de humano. Os ursos, em ursos maiores. As fadas, em homens que voavam. Os coelhos, em cópias horríveis de coelhos gigantes, este dava até medo de ver. Pareciam meio moles. E para minha surpresa, para os metaformos eram lobos.
Neste momento eu entendi o real motivo de terem capturados, um povo de cada reino. Estudavam não só para saber como reagiríamos, mas também para copiar a estrutura física. O único ser deformado e que era aniquilado com facilidade eram os coelhos sombras, pois nenhum coelho foi capturado. Assim como fadas e elfos. Mas eles tiveram Ramon e Paula, então serviço quase que completo. Eles precisam verificar o ser de perto por algum tempo para se transformar nele. Isto era interessante.
Poucos segundos se passaram enquanto eu tirava minha própria teoria e já havia soldados negros em toda a parte. Devia ter umas dez sombras / soldados para cada guerreiro. Meu corpo foi tomado pelo típico descontrole e saí para luta sem pensar em mais nada. Enquanto atacava um, já desviava de outro e chutava um terceiro. E assim lutei por alguns minutos ao lado de Demétrius e Jake que lutavam bravamente contra vários soldados e monstros sombras. Os gêiseres não paravam de expelir sombras e as fadas já estavam com o pó do extermínio. Limpando os corpos do inimigo que jaziam no chão. Olhei de relance e percebi do outro lado do rio, Leonor e Elizabeth lutando lado a lado. Meu lado era o mais crítico e elas lutavam contra um número menor de soldados.
Ainda não havia avistado o Ares, nem Sabrina, mas sabia que viriam a qualquer momento. Pude ver poucos do nosso lado abatidos e depois de um tempo os gêiseres cessaram. As fadas arrastavam os feridos para um local protegido por magia, perto da batalha. Havia um tipo de enfermaria lá, isto foi idéia minha, chamamos alguns que não lutariam de volta para ajudar com os feridos. Os guerreiros que tinham condições de voltar à batalha o faziam, os que não tinham já eram encaminhados ao seu mundo de origem pelo portal que ficava bem próximo.
Ainda não havia acabado, mas parecia que agora havia menos sombras / soldados do que guerreiros. Pelos que estavam ao meu lado, podia dizer que estávamos em números iguais para cada lado.
Os soldados negros e sombras transformadas estavam acabando, já havia guerreiro sem lutar e eu estava quase contando a vitória quando o chão começou a vibrar.
Alguma coisa estava errada. Quando estávamos no alojamento e o chão vibrava, eram as sombras batendo no escudo de proteção, mas a vibração que sentia agora era mais forte e não havia mais campo de proteção algum, há não ser o que restringia o campo de batalha que era suficiente para cobrir a colina inteira. Nossa luta ocupava menos da metade da área de proteção, o restante era o meio da mata, então tínhamos espaço suficiente. Não tinha a menor idéia do que estava fazendo aquele barulho.
Os soldados ao nosso redor acabaram. Eu só concentrava o foco nos sentidos tentando identificar e percebi que era alguma coisa grande andando em nossa direção. Pelo barulho que a terra fazia, era algum tipo de gigante e estavam em número grande, apurei os sentidos e escutei dez gigantes. Ajustei o foco na visão e vi mais soldados negros se aproximando, centenas deles.
Já tínhamos perdido muitos guerreiros feridos ou até mesmo abatidos. Era uma luta pra valer. Enquanto me preparava para lutar, percebi a sombra densa se dissipar e vi Leonor com Elizabeth próxima a ela. Leonor estava dissipando a neblina para lutarmos melhor. Podia ver seus lábios se movendo em silencio conjurando a magia.
Demétrius estava ao meu lado sincronizado com Leonor e à medida que os passos iam se aproximando a concentração dos dois aumentavam. E logo, os gigantes caíram sem vida antes de se aproximar de nós. Eram dez corpos inanimados ao chão com flechas cravadas no corpo. Não havia flechas suficientes para abatê-los, provavelmente a magia ajudou em grande parte. Mas ainda sobraram as centenas de soldados para abatermos, que não me deu tempo de pensar em como fizeram aquilo, agora vinham da floresta aleatoriamente, não mais dos gêiseres. Lutei mais do que contra os soldados dos gêiseres. Estes eram melhores, mais bem treinados.
Escutei um barulho de espada se chocando atrás de mim e vira que Jake havia acabado de me salvar de um ataque pelas costas. Sorri em agradecimento sem ter parado de lutar. Os olhos dos soldados negros flamejavam em todas as direções e lutei ao lado de Jake até que um soldado veio pelas suas costas enquanto eu lutava com mais dois soldados e outra espada que não foi a minha o salvou. Vi Kevin se juntando a nós. Ele sorriu para ambos e continuamos a lutar até não haver mais soldado algum a nossa volta. A neblina densa havia retornado prejudicando a visão.
O silencio dominou a colina novamente, não havia mais o barulho das espadas, nem nada que indicasse que alguém ainda estava lutando. Será que finalmente havia acabado? Olhei de Jake para Kevin que me encararam apreensivos, esperando.
A neblina densa foi se dissipando levemente pela segunda vez e procurei até Leonor, seus cabelos caiam em ondas sobre as costas formando uma cortina negra. Ela não olhava em minha direção, estava de costas para mim. Estava relativamente longe. Na verdade, minha mãe estava dentro do lago. As águas se abriam sem tocá-la em uma fenda. Estava conjurando uma magia que comandava a água direcionando-a para cima. O que ela estava fazendo?
Estava levantando a água e os tralhos entravam com ela na fenda para selar os gêiseres pelo qual as sombras subiram. Não via mais sombras em lugar algum e voltei a observar Leonor. Os tralhos eram rápidos, mal se via como selavam os buracos, mas eu sabia que aconteceria e é claro, era mais magia. Magia de tralho era diferente da nossa. Era rápida e direta. Provavelmente com uma palavra o gêiser estaria tapado.
De repente a sensação de dejavu me tomou. Leonor estava totalmente alerta, como se tivesse esperando um ataque. Sabia que Ares apareceria ao lado oposto do lago como em meus sonhos com mais alguns soldados. Eu precisava ajudá-la de alguma maneira. Mas onde exatamente? Procurei até que os achei na margem oposta ao lago em que eu estava havia um vulto que não consegui identificá-lo, pois usava um manto escuro com o capuz escondendo o rosto. Alguns tralhos já lutavam com os soldados que estava atrás dele.
A princípio, me senti paralisado, mas ao contrário do sonho que tive várias vezes, eu conseguia me mexer. Parti em disparada na direção ao vulto que provavelmente seria Ares. A maioria dos guerreiros inclusive Leonor fez o mesmo, mas quando o vulto abaixou o capuz e deixou cair o manto no chão. Demétrius e Leonor paralisaram ao mesmo tempo. Como se hipnotizados. O que estavam fazendo? Olhei-os incrédulos, precisavam lutar ou seriam destruídos, estavam muito próximos do líder das trevas, o que Ares fazia com eles?
“- Lutem!!” eu gritei, mas com o barulho da luta recomeçando, foi inútil, eles não escutavam ou me ignoravam, não sei exatamente.
Leonor e Demétrius andavam devagar na direção do Líder que os encarava com um olhar de vitória. O que estava havendo?
Eu estava me aproximando depois de derrubar alguns soldados no caminho e conjurei uma magia para isolar Demétrius e Leonor. Mas só consegui alcançar Leonor que estava mais próxima desta vez, ainda na fenda do lago e quando me preparava para tentar novamente para isolar Demétrius, Ares conjurou uma magia e a fumaça negra abateu jogando o corpo dos dois pra trás. Como Leonor estava protegida, seu corpo saiu da fenda libertando a água e foi parar ao lado de Demétrius que caiu ao chão antes dela. Por que eles não se defenderam? Alguma coisa estava muito errada.
Embora uma parte de minha mente se perguntasse por que eles não reagiram a outra parte queria exterminar o mal. A maldade vinda de Ares era forte, como nunca sentira antes. Corri em disparada em direção a meu inimigo. Ele ainda sorria sarcasticamente quando o alcancei e começamos uma luta mortal.
Coincidência ou não, ele era uma versão de mim das trevas. A camisa embaixo da couraça, as calças, botas. E Empunhava duas katanas, exatamente iguais as minhas. Provavelmente tinha feito uma cópia de mim como fora feito de todos os outros guerreiros.
A única diferença era seu rosto, embora fossemos parecidos, ele tinha uma feição própria, imagino que seria de quando ainda era um ser normal. Aparentava uns trinta anos. Eu atacava, ele defendia, ele atacava, eu defendia. E assim, continuamos uma luta de iguais por um bom tempo.
Ele conseguiu fazer um corte em meu braço que me fez cambalear pra trás. Fiquei com raiva por ter vacilado e parti pra cima dele com toda a força que tinha. Depois deste instante, eu não conseguia pensar em mais nada. Somente eu atacava e ele defendia. Até que não conseguiu mais se defender e cravei a primeira espada em seu peito que o forçou a ajoelhar, o sorriso sarcástico ressurgiu. Ergui a outra espada e Leonor que parecia pedir para eu parar a luta há um bom tempo, intensificou seu grito:
“- Meu filho! Não! Por favor!”
Por que ela estava preocupada? Eu estava com vantagem.
“-Não o mate.”
Hesitei em passar a segunda espada cortando a cabeça de meu oponente. Por quem ela pedia? Por ele? O inimigo tinha tirado várias vidas. Quase tirou a dela. Só não o fez porque a protegi. Demétrius ainda não reagia ao ataque e enquanto eu me questionava olhando em direção a Leonor, puxei a espada do Líder deixando seu corpo cair ao chão. Não cortei sua cabeça.
Um segundo depois, eu ainda olhava em direção a Leonor quando uma grande ave negra se aproximou e levou o corpo de Ares que estava aos meus pés numa velocidade fora do comum. Ao longe, pude ver Sabrina nas sombras das árvores esperando-o. E assim que o colocou aos seus pés, praticamente evaporaram na frente de meus olhos.
Virei na direção oposta, e tive uma sensação estranha, como se meus sentidos estivessem embaçados, mas devia ser o cansaço da batalha, ignorei e fui checar como estava Demétrius, já que Leonor estava bem embora não falasse coisa com coisa. Demétrius continuava imóvel, o segurei em meus braços e num último suspiro ele disse com a voz entrecortada:
“-Desculpe meu filho. Tudo que fiz foi pensando no melhor pra você.”
Abri a boca para dizer algo, mas as palavras ficaram presas, não conseguia dizer nada, estava entorpecido. Além de tudo, era tarde demais, seus olhos estavam vidrados, não havia mais vida naquele corpo. Fechei os olhos tentando me recuperar e constatei que também não me sentia muito bem, além da diminuição dos sentidos, me sentia confuso. Minha cabeça latejava. Não me lembrava de sentir dor de cabeça antes ou será que sentia?
Respirei fundo ainda com os olhos fechados me concentrando em manter o ruído externo fora da minha cabeça. Algumas pessoas se aproximavam e até falavam comigo, mas consegui neutralizá-las quase por completo. Não somente eu estava entorpecido, mas os meus sentidos também, isto ajudou ignorá-las. Após alguns minutos sem me mexer a dor de cabeça foi aliviando. Alguém tinha me tocado e sem abrir os olhos e ainda com o corpo sem vida em meus braços eu apenas ergui uma das mãos fazendo o gesto universal de erguer a mão para fazê-la esperar, seja quem fosse eu precisava de um pouco de tempo, não sei pra que, mas sabia que tinha que me recuperar antes de interagir com outra pessoa.
A dor de cabeça havia passado quase que totalmente, mas eu ainda me sentia confuso. Tinha uma mulher ao meu lado deitada, eu sabia que a conhecia, mas tive que buscar no fundo de minha mente para reconhecer Leonor. O que estava acontecendo comigo?
Como não conseguiria contar a ninguém o que estava acontecendo, eu resolvi fingir que estava tudo bem e me comunicar com os que estavam a minha volta. As conversas eram sobre meu bem estar e agradecimentos pela luta, que eu lembrava sem muitos detalhes, haviam lacunas em branco em minhas memória. Como eu tinha aquele homem morto em meus braços, provavelmente estava sofrendo por sua morte, o que sabia que era verdade alguns momentos atrás, mas agora era só um corpo estranho e sentia necessidade de me afastar dele.
Agi como um membro daquele grupo de diferentes raças e conforme fazíamos magia, algumas eu sabia outras não, refizemos o campo de proteção menor, pois explicaram que não tínhamos feito a varredura mágica verificando se tudo estava livre enquanto abrigávamos os feridos e abatidos.
Tivemos quase trezentos feridos e oitenta mortes, inclusive a de Demétrius, o homem morto em meus braços que pude perceber era o Líder daquele povo. Na manha seguinte tivemos um ritual para aplicação do pó de extermínio. E durante todo aquele tempo meus pensamentos iam e voltavam sem muita coerência, horas se passaram como se fossem minutos.
O ritual era bem próximo a um enterro na terra, o corpo no centro, sob uma pedra grande, vestido com uma túnica dourada, com fios que brilhavam feito ouro. E provavelmente eram de ouro. Muitas flores o envolviam, mas sem tocar seu corpo. Fizeram algumas orações e três fadas jogavam o pó de extermínio dando a volta na pedra sobrevoando-a. O corpo de Demétrius começou a ficar transparente até que deixou de existir. A névoa era clara, branca, ao contrário do que eu estava esperando, pois por mais que tivesse sentido sua morte, ele havia me traído e esperava ver a mesma nevoa negra que envolveu Ramon.
Leonor estava triste, distante. Não respondia o que houve de errado, só que era uma fatalidade. Mas percebi que tinha alguma coisa estranha com ela também. Com ela havia uma garota que não sabia quem era, mas que tinha uma influência grande em mim, eu tinha sentimentos por ela. Depois de alguns minutos, me lembrei de seu nome e o que havíamos passado, era Elizabeth que continuava a não me olhar, será que me culpara pela morte de Demétrius também? Era bem provável. Se Demétrius não fosse um traidor, eu também estaria me culpando. A magia que conjurei deveria proteger a ambos. Embora ele não merecesse, eu estava sentindo muito sua morte.
Estava me lembrando de tudo novamente! O que estava errado comigo? Precisava falar com alguém sobre isto. Mas estava no funeral de Demétrius, não era hora nem lugar. Naquele momento, pude sentir a perda e a dor da traição que ele me proporcionou.
Depois do ritual, seguimos para floresta em busca de resquícios do mal que não pertenciam aquele mundo. Mas teríamos que deixar uma pequena quantidade para manter o equilíbrio. Como era de se esperar, nada encontramos, o que nos incentivou a liberar antes de partimos todos os campos de forças.
A Colina verde era um lugar vivo novamente. Cheio de insetos, flores, vida, animais e seus moradores que voltaram a habitá-la. O Mal não estava a dominando e não havia mais a presença do medo.
Não foi necessário usar o plano B e a Terra estava segura novamente, nenhum habitante soube das dimensões, outros mundos e batalhas entre o bem e o mal.
Na verdade, eu havia conseguido. Embora com baixas, me dei conta de que tínhamos passado a grande batalha e que somente depois de mil anos escutaríamos falar de outra. Fiquei aliviado, feliz.
Sentia orgulhoso de mim mesmo.
Agora só precisava me entender com Elizabeth e me apressei em direção ao local do alojamento para procurá-la. Precisamos ficar juntos, além do meu amor, tínhamos mais motivos. Juntos, poderíamos ser mais poderosos, como vi Demétrius e Leonor derrubarem os gigantes.
Embora algo tenha dado errado no combate contra Ares, que na verdade não existiu. Meus pais nem combateram.
Assim que cheguei, procurei por Elizabeth e não a encontrei. O momento “perda de memória” tinha passado, mas meus sentidos ainda estavam meio apagados, como se enxergasse através de um véu, ouvisse em segundo plano, o olfato estava como quando estamos resfriados com nariz congestionado e o tato, embora fosse o que estivesse menos afetado, minhas mãos estavam levemente dormentes. Quanto ao paladar não havia testado, pelo menos não lembrava nas ultimas horas, mas o gosto na boca era terrível, sabe a expressão “estou com gosto de cabo de guarda chuva na boca”, então, se encaixava perfeitamente em mim. Mas tinha que esperar e decidi falar com Leonor quando a encontrasse sei lá onde.
Soube que todas as mulheres tinham partido para seu mundo de origem. E agora? Fiquei andando no alojamento que quase não existia mais sem saber para onde ir.
Kevin se aproximou.
“-Como você está?”
Agora não estávamos lutando do mesmo lado, mas éramos inimigos novamente. Não tinha esquecido que havia me traído.
Eu ignorei, não respondi.
“-Conversei com Francisco sobre nossa última discussão em relação à chantagem e ele me explicou que houve um equivoco.”
Não me segurei:
“-Equivoco? Depois de você confirmar que Demétrius estava chantageando Elizabeth para não ficar comigo, que me mataria e que você concorda com esta loucura. Você ainda diz que é um equivoco?”
“-É obvio. Era um equivoco e me deixei envolver não conseguindo explicar as razões claramente.”
“-Kevin, não tem explicação. Você e Demétrius me traíram.”
“-Não traímos” Eu já ia sair na direção oposta quando Kevin segurou meu braço.
Eu já estava com a outra mão levantada para alcançar a espada, mas Kevin interrompeu com a voz calma e controlada que eu conhecia.
“-Eu nunca o trairia. Você é meu amigo. Deixe-me explicar, por favor!”
Não tinha explicação, mas eu enfim o encarei.
“- Demétrius conseguia ver a aura das pessoas. O quanto estavam carregadas de energia positiva e negativa. Ele começou a perceber que Ramon estava se infectando de energia negativa demais. E quanto mais você ficava com Elizabeth na frente de todos, mas Ramon se ocupava em focar energia negativa em você. Então, ele decidiu afastar vocês do público para Ramon achar que estava ganhando e parar de focar energia negativa em você. Quanto mais ele focava, mas você desequilibrava.”
“- Mas tinha tantas maneiras de me ajudar e ele foi escolher a mais difícil pra mim? Magoando Elizabeth?”
“Eu sei, mas consigo entender o que ele pensou. Ele não era muito emotivo, então achou que vocês sofreriam muito pouco para um bem muito maior. Ninguém questionaria. Ele não precisaria contar sobre seu poder a ninguém. Estaria resolvido. O ministro só resolveu as coisas do jeito dele. Do jeito mais fácil em sua visão, pois sabia que vocês dariam um jeito de se ver e que Ramon não saberia.”
Lembro que Elizabeth ficou transtornada. Mal me olhava e sofria. Era tão mais fácil ter nos contado. Não precisava nem falar sobre seu poder se o quisesse esconder. Pensar em Elizabeth me fez lembrar que ela pediria ajuda a rainha e fiquei curioso.
“- Por que Elizabeth dizia que somente a rainha a ajudaria?”
“- Ela dizia isto, pois acreditava estar sendo chantageada de verdade e que se contasse a verdade a Leonor, ela falaria com o marido e acabaria a chantagem seja por qual motivo fosse. E foi o que aconteceu. Quando a rainha ficou sabendo, tentou outra estratégia e falou a verdade a Elizabeth. Que deveria te evitar ao máximo perto de outras pessoas o que acabou funcionando do mesmo jeito.”
“-Por que será que Elizabeth nunca me disse?”
“-Isto eu já não sei, você terá que perguntar pra ela.”
Eu dei um passo em direção a Kevin e me senti muito culpado, arrependido. Meu pai morreu comigo o odiando e ele sabia disso. Tinha falado comigo durante o sonho que descobri que ele era o chantageador.
Ergui os braços e puxei o coelho num abraço forte e rápido de amigos, ele não esperava. No mundo de Kevin não havia contatos físicos deste jeito. Mas ele não me afastou e colocou a mão levemente sobre minhas costas, quase sem tocar. Eu tinha sido um estúpido. Tinha um pai querendo me proteger e um amigo querendo me ajudar e perdia tempo em culpá-los por minha idiotice.
Kevin lendo minha expressão concluiu:
“-Não fique mal. Depois da nossa discussão me senti confuso e além de falar com Francisco, falei com o Ministro que me disse que entendia você e que se fosse ele no seu lugar faria a mesma coisa. Ele disse que estava arrependido por ter seguido por este caminho e que depois se entenderia com você, mas antes da batalha não haveria tempo para sentimentalismo.”
Não consegui dizer mais nada, eu chorava mais uma vez nestes trinta dias de alojamento.
Embora Kevin tentasse me convencer a não sentir culpa, eu a sentia, mas nada ajudaria agora, acho que só o tempo me faria me sentir melhor.
Francisco me disse mais algumas palavras de incentivo e que Demétrius entenderia perfeitamente o que pensei, pois eu não sabia os motivos reais. Isto fez me sentir melhor, já que Francisco também é meu pai e não era porque Demétrius tinha morrido que tinha virado um herói pra mim. Se Francisco era frio, Demétrius era dez vezes pior.
Sai sem rumo pensando em tudo isto, todas as pessoas que conheci e o que faria daqui pra frente. Tinha vencido a primeira de várias batalhas que viriam pela frente.
Descobri que Elizabeth foi uma das primeiras a deixa a Terra para fugir de mim, ri de mim mesmo e de como minhas esperanças eram tolas, eu já esperava isto.
Ergui a cabeça e perdi o tempo de quanto fiquei olhando o céu. O que haveria lá em cima? O céu, azul, brilhante, as estrelas, o sol, a lua, o que mais haveria? Comecei a me sentir estranho, um vazio percorria meu corpo sem saber o que sentir. Baixei o olhar e vi poucas pessoas ao redor. A floresta parecia distante, meus sentidos estavam opacos. Neste momento havia uma ruína a minha frente, mas eu esqueci inclusive quem eu era. Ou onde estava ou para onde estava indo.
Uma garota se aproximou de mim, ela vestia uma túnica branca, uma saia azul, o cabelo encaracolado no meio das costas loiro feito fios de ovos, os olhos claros, pareciam ser de cores diferentes, mas ambos de um tom de azul hipnótico. Tinha a aparência de um anjo. Devia ter a minha idade ou pouca coisa a mais, o rosto se parecia muito com alguém que eu conhecia, mas não sabia quem.
“- Tudo bem, Davi?”
“-Sim, está.” Eu respondi no modo automático, pois não saberia dizer o que estava errado comigo.
“-Venha, precisamos sair daqui”
Ela disse puxando minha mão em direção as ruínas. Eu ainda não sabia quem eu era, o que fazia ali e quem era esta garota. Naquele momento, pareceu muito errado deixar ela me levar. Mas eu não tinha outra opção, ou seguia com ela ou ficava fazendo sei lá o que. Não sabia, tinha perdido a identidade, a realidade.
E assim, eu atravessei mais uma vez o portal para um mundo totalmente diferente.
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