- Você tem certeza? — perguntei apreensiva olhando para a assustadora chave do Porsche já colocada na ignição.

Engoli em seco e olhei nos olhos do Tom, que apresentavam uma certa sapecagem, como se estivesse transgredindo uma velha regra dos pais e sorria maliciosamente.

- Vamos lá, Agatah! — disse Rose como se estivesse tentando convencer uma criança a tomar a vacina. — É só alguns quilômetros, o Fingers é aqui do lado!

- Ta... Ta b-bom — gaguejei olhando fixamente para a rua que perigosamente se estendia a minha frente. — Vamos lá, Tom! — disse durona para ele, como se fosse ele quem impedia de virar a maldita chave e dar a partida.

- Tudo bem pra você Agatah? — perguntou Tom meio preocupado. — Nós podemos ir amanhã, ou...

- Não, eu quero ir agora. Dá logo a partida! — falei nervosa, ainda olhando para a chave.

Sua mão foi em direção à chave e, quando ele a tocou, eu pressionei os meus olhos e só o que eu pude pensar foi "eu vou morrer!", esganiçadamente.

Não consegui evitar de abrir os olhos. Percebi constrangida que os quatro me fitavam achando graça.

- Nós não vamos morrer, Agatah! — riu-se Alice, enquanto eu escutava o aterrorizante som do motor do Porsche roncando. Suspeito que pensei alto. Em uma situação normal, não quando um garoto de catorze anos estivesse dirigindo, eu teria adorado aquele som e sorrido instantaneamente. Mas, naquele momento, eu me encolhi e gritei para todos colocarem os cintos, o que só causou mais risos.

Eu senti um frio na barriga indescritível quando o Tom acelerava a Porsche. Via as luzes da cidade passando num vulto ao meu lado. Subitamente, senti um enorme prazer ao estar dentro do carro dos meus sonhos, ao lado do garoto dos meus sonhos e com as amigas dos meus sonhos. Esqueci dos perigos (e olhe que eram muitos) da situação hilária em que estava e me desencolhi. Sorri intensamente para o Tom, que também abriu um sorriso enorme.

- Você pode abrir as janelas? — perguntou Bella num tom de puro divertimento.

Em resposta, o Tom pressionou um botão no painel que abriu todas as janelas do carro, fazendo os nossos cabelos esvoaçarem em nossos rostos. Rose colocou a cabeça para fora e gritou.

- Isso é demais!

Troquei um sorriso de pura felicidade com o Tom, que piscou para mim.

- Podemos ligar o turbo? — perguntei com um sorriso malicioso nos lábios.

- Às suas ordens, senhorita! — respondeu Tom.

Com um leve susto, senti a velocidade do carro aumentar instantaneamente. Pude sentir um imenso prazer ao escutar aquele barulho do motor ronronando da Porsche, e tive absoluta certeza de que aquele era o melhor som já escutado no planeta. Fechei delicadamente os meus olhos para apreciar a sensação, com o vento acariciando o meu rosto e levitando os meus cabelos junto dele. E, claro, não pude deixar de sorrir muito.

Apoiei os meus cotovelos na janela do carro e coloquei a minha cabeça para fora, seguindo o exemplo de Rose. Aquela era uma das melhores noites que eu já tive.

Escutamos o celular da Rose tocar repentinamente.

- Alô? — atendeu ela. Sua cara tomava uma expressão mais triste a cada palavra que a pessoa pronunciava. — Mãe!... Eu sei, eu lembro... É que eu estou com os meus amigos... Mãe, deixa eu falar! Nós vamos jantar no FINGERS!... É mãe, naquele restaurante... Ta bom, eu vou avisá-las. Tá, eu vou... Eu estou indo! Tchau.

Ela desligou o telefone com uma cara de total decepção.

- Nós esquecemos da apresentação de balé da Domi, a minha irmã, lembram?

- Não acredito! É claro... Como pudemos esquecer? — disse Alice com cara de preocupação.

- Era hoje, não era? — perguntou Bella.

- Era — confirmou Rose. — E ela está chorando e falou que "não vai apresentar se nós não formos" — Rose imitou uma vizinha irritante, provavelmente da irmã dela. Ela olhou tristemente para o Tom.

- Temos que ir.

- Nós podemos ir outro dia! — sugeri sorrindo.

- Pode ser, mas vão vocês dois hoje, prometem? — Alice pediu.

- Só nós dois? — perguntei.

- Nós prometemos — disse Tom ignorando a minha pergunta.

Elas sorriram e as deixamos em um ponto de táxi, antes de partimos para o restaurante, que era na mesma rua.

- O senhor fez a reserva? — perguntou o recepcionista do Fingers.

- Eu sou o Thomas Eagle — respondeu Tom, passando direto pela porta.

O recepcionista olhou para ele com desconfiança.

- Aonde o senhor pensa que vai? — rosnou ele. — Tentando entrar de penetra! Não vem me enrolar, garoto! Olha a sua idade...

Percebi a paciência de Tom se esgotando quando uma mulher alta com longos cabelos dourados e esvoaçantes cruzou a entrada.

- Tom! — disse a moça gentilmente para ele. Ela abriu os braços e deu um abraço apertado nele, sorrindo. — Faz tanto tempo que a gente não se vê! A minha filha gostou tanto do convite, muito obrigado lindo! Você faz tão bem para a Marcela, coitada... — Marcela? Podia jurar que já escutara aquele nome antes... — Ela gosta tanto de você! Podemos marcar um dia qualquer pra você vir em casa, quando você quiser, meu garoto! A Mah estava tão animada para a festa que até já fez as malas! Vou levá-la amanhã ainda cedo para a sua casa, pra dar tempo de vocês brincarem um pouco antes da festa... Ah, cuide bem dela, ela não está muito acostumada a dormir fora... A propósito, onde está o seu pai? Eu vi o Porsche dele pela janela e vim aqui cumprimentá-los...

Enquanto a mulher procurava pelo pai de Tom, eu pude ver ele engolindo em seco e pensando em alguma resposta para aquela mulher que não parava de falar. Ela nunca dava brechas para ele, portanto, ele no máximo assentia enquanto ela tagarelava.

- Bom, meu pai foi embora já, ele tinha algumas gravações para fazer, você sabe — respondeu Tom com um sorriso deslumbrante. Pelo jeito, era bom ator como o pai.

- Ah, entendo, entendo... Esse Jason, vou falar uma coisa viu! Sempre está correndo por aí, fazendo filmes... — Como se acabasse de me perceber, ela se surpreendeu com a minha presença. — Você tem namorada? — perguntou ela quase rosnando, mas tentando usar um tom delicado e gentil, com aparente receio.

- Ah, não, somos apenas amigos — antecipei-me, e soltei rapidamente a minha mão da dele, antes que ela pulasse no meu pescoço. Ela parecia bem capaz de fazer isso.

Percebi os seus músculos relaxarem e ela sorriu docilmente para mim.

- Então está entendido. Vocês vieram jantar aqui?

- Na verdade, íamos vir com um pessoal aí, mas acabou não dando — respondeu ele.

- Deixe-me apresentar, então. Sou a Fernanda Eagle, irmã da mãe do Tom — falou ela estendendo a mão.

- Ah, eu sou a Agatah, prazer — apresentei-me, apertando a sua mão. Trocamos um sorriso enquanto ela me lançava um olhar indecifrável através daqueles enormes cílios postiços.

Ela voltou-se para o Tom e murmurou alguma coisa em seu ouvido, o que fez ele ficar com uma expressão de total surpresa no rosto. Ela lançou-lhe um olhar significativo e depois levou-nos até uma mesa, enquanto o recepcionista nos olhava com uma cara de bunda.

Sentei ao lado do Tom em uma espécie de sofá numa mesa de quatro lugares, onde lia-se "RESERVADA PARA VIPS" em um aviso em cima dela. A tia do Tom trocou umas palavras com ele antes de sair.

- Ah, tia... Posso te pedir um favor? — perguntou Tom quando ela estava indo embora.

- Claro — respondeu ela sorrindo para ele.

- Só não conte para ninguém que estive aqui, ok? Isso fica apenas entre nós — pediu ele com um sorriso irresistível.

Ela hesitou por um instante antes de responder.

- Se sua mãe perguntar onde você esteve, eu direi a verdade. Mas pode deixar, eu não comentarei nada com ela, a não ser que ela pergunte...

- Ok, eu entendi tia. Muito obrigado!

Ela saiu rebolando do salão, o que fazia seu vestido curtíssimo e grudado atrair a atenção de vários homens para a sua bunda.

- Primeiro, quem é Marcela mesmo? — perguntei para Tom depois dela ter desaparecido de vista.

- Bem, ela é minha prima — disse ele apreensivo, como se quisesse falar mais algo. — Não a leve a mal, mas parece... Na verdade eu tenho tenho certeza de que ela quer ser mais do que só uma amiga ou prima minha.

Eu olhei para ele sem saber como reagir.

- E por que você a convidou para a festa? — Foi a única coisa que me veio a mente, tirando o ciúmes que começava a se acumular na minha garganta.

- Foi ela quem se convidou! Do nada ela apareceu em casa com a mãe dela, com uma vozinha toda melosa, falando que ela tinha sabido sobre a festa e que ela queria ir comigo! Eu queria recusar, mas a minha mãe a deixou ir. E ela ficou toda animadinha, sorrindo toda hora para mim. Não é só uma queda o que ela tem por mim, é uma obsessão! Menina irritante — Ele parecia quase sem fôlego quando acabou o desabafo. E eu vermelha de ciúmes como um pimentão.

- Você está brincando? Tá com ciúmes? — Ele começou a rir da minha cara.

- É claro que não! — eu respondi nervosa.

- Agatah, — Ele pegou delicadamente as minhas mãos. — eu nunca ficaria com ela. Muito menos agora, com você na minha vida.

Eu fitei aqueles olhos verdes procurando por algum sinal de sarcasmo, mas só o que eu pude enxergar foi pura sinceridade.

Eu não soube o que responder. Senti meu coração aumentar o ritmo de batimentos. Eu queria que ele me beijasse. Eu vi o mesmo desejo em seus olhos, e meu corpo quis se estender sobre ele, diminuindo a incomodante distância entre os nossos lábios. O silêncio entre nós parecia gritar o nosso mesmo desejo. Com um arrepio passando pela minha pele, eu pude ver ele se estendendo hesitante até mim, com os seus olhos fixos nos meus. Me aproximei delicadamente dele, e eu já podia sentir o seu hálito frio na minha boca. Pousei a minha mão em seu ombro, incentivando-o. Minha mente urrava de ansiedade, meu coração batendo mais forte a cada segundo, chegando a doer. Meus lábios latejavam esperando-o e um frio na barriga começava a surgir. Ele enfim fechou seus olhos, e eu fiz o mesmo. Quando, finalmente, seu lábios roçaram nos meus, houve uma explosão de sensações dentro de mim. Minhas fantasias sendo realizadas, minha sede sendo saciada, a certeza da minha tão jovem mas tão intensa paixão... Tudo se misturou no nosso beijo. Eu podia sentir o seu forte desejo e sua paixão desesperada. Naquele momento, eu queria ele todo para mim, e para sempre. Nada mais importava, a Erika, a Marcela... Não depois disso. Foi uma coisa tão simples mas tão perfeita, tão nossa.

Seu beijo era suave como plumas dançando no ar, delicado como a neve caindo graciosamente. Mas também tinha o seu lado safado, com a sua língua explorando todos os cantos da minha boca. Era uma coisa nunca experimentada antes. Era especial.

O ritmo do nosso beijo foi desacelerarando, e nós sorrimos no mesmo e exato segundo. Ainda de olhos fechados, eu beijei-o pela última vez antes de encarar aqueles maravilhosos — e agora meus — olhos verdes.

- Eu acho que estou apaixonado — disse ele com seus olhos brilhando como esmeraldas.

- Quem é a sortuda? — perguntei rindo, apesar de eu já ter certeza da resposta.

- Uma garota maravilhosa chamada Agatah.

Eu olhei corada para baixo, enquanto ele me envolvia em seus aconchegantes braços.

- Eu te amo — sussurrou ele em meu ouvido.

Eu olhei novamente em seus olhos. Tom sorria maliciosamente para mim, como se quisesse me falar algo. Ele hesitou por um momento antes de me perguntar uma coisa que me causou calafrios por todo o corpo.

- Agatah, você quer ser a minha namorada?

Notas finais
Agradeço reviews desde já (: