Garras e Presas

7 Capítulo 7


Notas iniciais
Desculpem pela demora. Bloqueio criativo é osso =/ Espero que me entendam e que tenham uma boa leitura 0/

Aqueles que conheciam Bog há algum tempo já estavam cientes de seu humor inconsistente. O estado de espírito do Rei do Pântano poderia variar consideravelmente dependendo das circunstâncias e de como elas o afetavam. E sendo a mãe dele, Griselda sabia disso melhor do que ninguém, melhor até do que Marianne.

Desde o fatídico dia que ocasionou o banimento do amor na Floresta Sombria, era possível prever com impressionante precisão quando rei goblin estaria em seus piores dias, o que acontecia com bastante frequência. Mas desde que certa princesa impetuosa cruzara seu caminho, os piores dias se tornaram mais raros e espaçados, permitindo que alguma luz solar atravessasse a barreira da verdadeira cumulus nimbus que rodeava Bog como um manto e desprendesse um pouco de calor, tanto para ele quanto para aqueles que o cercavam. O fato inclusive se tornara uma espécie de piada entre os residentes do Castelo Sombrio, chegando ao ponto de uma nova unidade de medida ser criada, baseando-se nas novas circunstâncias que definiam a que pé estaria os espíritos do rei: a “Escala Marianne”.

Até a criatura mais inepta poderia usar a escala para averiguar a situação e evitar uma torrente de impropérios ou mesmo certa dose de violência. Era bem simples: Marianne fazia visitas frequentes e permanecia até o cair da noite, partindo com a promessa de voltar no dia seguinte? Teríamos então um Bog relaxado, bem humorado e mais disposto e escutar e acatar. Marianne era impedida de aparecer por algum tempo, pelo motivo que fosse? Teríamos então um Bog rabugento, irritável e mais propenso à agressividade, e testar sua paciência durante esse período não era mais brilhante das idéias. Mas e quando Marianne simplesmente desaparecia de sua vida, não respondendo às cartas que lhe eram mandadas e sem dar quaisquer sinais de que voltaria a dar as caras por ali? Bem, então você terá um Bog subindo pelas paredes com a fúria e a exaustão, rugindo desaforos para os subordinados e para a própria mãe, destruindo qualquer objeto inanimado que ouse cruzar seu caminho e parecendo a todo o momento a uma palavra errada de distância de cometer uma chacina. Era exatamente nesse ponto que a Escala Marianne se encontrava naquele dia, e Griselda temia de todo o coração que houvesse alguns cadáveres para serem desovados ao fim da reunião com os patriarcas e matriarcas.

— Esta situação já passou dos limites! – Bane, o patriarca do vilarejo próximo aos lodaçais esmurrou o tampo da mesa com o enorme punho cerrado – Já faz mais de uma semana que meus caçadores não consegue capturar nada maior que um maldito musaranho!

— E você acha que está com problemas?! Meu pessoal está praticamente sitiado, mal conseguindo descer para procurar água por culpa das serpentes que estão infestando o mato! – Beladona, a matriarca do clã que vivia em comunidades nas árvores, apontou um dedo acusador para ele – Até onde eu sei, é a obrigação dos seus caçadores manterem os pontos de caça livres dessas pragas!

— Nunca tivemos que lidar com uma infestação tão grande! Elas também estão desesperadas atrás de comida!

— Claro que estão. E enquanto não encontram coisa melhor, a quem estão recorrendo para encher a pança? Nós!

— Se está tão incomodada, cuide da infestação você mesma, sua bruaca raquítica!

— Já chega! Essa discussão não nos está levando a lugar algum, irmãos! – Poppy, a matriarca mais jovem à mesa, interveio antes que Beladona pudesse retrucar – O momento não é adequado para que briguemos entre nós, mas sim para que nos unamos e procuramos soluções para a escassez e os ataques. Foi para isso que nos reuníamos aqui, sob a tutela do Rei do Pântano.

— De fato. Estamos inclusive à espera que tome parte na discussão, Majestade. – Agamenon, o mais velho dos goblins ali, encarou Bog com um ar de censura – O que sugere que deva ser feito?

— Não é óbvio? – Sabir rosnou antes que o monarca pudesse responder, exibindo suas presas amareladas e gastas – Já deveríamos estar a caminho do Reino das Fadas com todo o nosso contingente preparado para o ataque!

— A cera nos ouvidos está dificultando sua audição, velho? – O punho maciço de Bog se fechou com mais força no cabo de seu cetro, suas escamas eriçadas com a raiva mal contida – Nós. Não. Vamos. Invadir. O. Reino. Das. Fadas! – Ele pontuou cada palavra com uma pancada violenta do cetro no chão empoeirado. O gesto não intimidou os demais goblins.

— E o que sugere que façamos então? Que lidemos com os ataques e a escassez até que toda a população da Floresta Sombria morra de fome ou seja devorada? Ou que todos morram envenenados pela contaminação da água?

— Há outros meios cabíveis de se resolver a situação, de preferência algum que não envolva invadir e arrasar o reino de minha futura nora! – Griselda se manifestou, também arreganhando os dentes ameaçadoramente para Sabir. Mesmo que ela mesma já não fosse uma monarca, a goblin idosa ainda era capaz de impor algum respeito e autoridade sobre aqueles que não haviam se esquecido das décadas em que ela governara ao lado do pai de Bog. Agora mais do que nunca ela precisava usar dessa influência, pelo bem da sanidade de seu filho e da segurança da amada dele.

— Ora, Griselda, seja razoável! A situação pede por medidas extremas e, neste momento, não temos mais ao que recorrer. Até onde sabemos o Reino das Fadas continua gozando de uma fartura de alimentos, considerando que é época de colheita. Eles certamente têm suprimentos saindo pelo ladrão!

— Neste caso, deveríamos tentar uma aproximação um pouco mais diplomática, não? – Poppy sugeriu – Pedir que nos cedam algum alimento e nos ajudem no combate aos predadores-

Ela foi interrompida por uma saraivada de rosnados e guinchos irados.

— De jeito nenhum! Não podemos nos rebaixar a tal ponto, muito menos diante daqueles insetos multicoloridos!

— Onde está o seu orgulho goblin, garota?

— A sugestão de Poppy é perfeitamente cabível! – Griselda precisou gritar para ser ouvida – Eu me recuso a acreditar que vocês sejam arrogantes o bastante para colocar o orgulho acima do bem estar de seus clãs. Sejam sensatos, irmãos. Não teremos um pedido de ajuda recusado, não se esqueçam de que a futura rainha do Reino das Fadas é companheira de seu rei.

— Oh, é claro. – Arnica bufou com desdém – Não nos esquecemos de quem mais precisa de um lembrete sobre orgulho goblin.

Griselda ofegou, temendo a reação do filho ante a óbvia provocação. Os dentes de Bog se arreganharam ameaçadoramente enquanto ele se erguia de seu cadeirão na extremidade norte da mesa, o lugar de honra do rei. Seus olhos azuis eram duas pedras de gelo ao pousarem sobre a matriarca que proferira o atrevimento.

— Se esse “orgulho goblin” vem acompanhado de uma dose de senilidade, o que parece ser o caso, eu o dispenso. – Ele rosnou com altivez – Depois de décadas de silêncio entre os dois reinos e com alguma conexão finalmente sendo estabelecida, eu seria louco se pusesse tudo a perder só porque um bando de parvos fazendo hora extra no mundo quer iniciar uma guerra.

— E não ocorreu ao senhor que não temos tempo e nem recursos para pensar em outra saída, Vossa Majestade? – Arnica retorquiu com desprezo – O povo não pode esperar mais. Estão todos famintos e exaustos, os ataques de animais estão ficando a cada dia mais frequentes e como se isso tudo não bastasse, a nossa água começou a se tornar imprópria para consumo.

— Se serve de consolo, pelo menos agora temos uma ideia do que pode estar causando as mortes de nossas caças... – Paris murmurou, coçando a região entre seus chifres num gesto cansado. Bane revirou os olhos para ele.

— Já não discutimos isso a exaustão? O envenenamento da água, as mortes dos animais, os ataques, tudo isso são as consequências dessas tentativas ridículas de fazer conexão com o Reino das Fadas.

— O castigo dos espíritos da Floresta Sombria.

— Ora, mas que inferno! – Bog rugiu antes que Griselda pudesse dizer algo – De novo com essa mesma ladainha?! Não vou tolerar que inventem histórias imbecis sobre castigos divinos e tomem o tempo que poderia estar sendo usado para descobrir a causa real desta crise!

— Já estamos cansados de ceder nossos melhores rastreadores para essas expedições que não dão nenhum resultado! – Beladona apontou um dedo acusador para o rei – Seguimos seus comandos até agora, Rei do Pântano, mas nossa paciência está por um fio! Mais um pouco e agiremos por nossa própria conta!

— Não se valorizarem suas vidas, por mais patéticas que sejam! Vocês podem ser os alfas em seus respectivos territórios, mas não se esqueçam de que eu sou o rei e, portanto, a última palavra é sempre minha!

— E você não se esqueça de que sem o veredicto dos alfas aqui presentes, seu poder de decisão no que diz respeito a toda a Floresta Sombria é nulo. – Agamenon rosnou em tom ameaçador – Eu faço parte da corte dos alfas desde o reinado de sua avó e, em épocas de crise, decisões sempre foram tomadas apenas quando todos entram em um consenso. Não mudaremos isso agora só porque você, que nem sequer completou duas décadas de reinado, quer abusar de sua autoridade.

Griselda estremeceu. Oh, deuses, e lá se iam mais alguns pontos na Escala Marianne...

— Agora escute aqui, seu fóssil ambulante! – Bog sacudiu um dedo ossudo na cara do Goblin mais velho, bufando furioso – Se for para impedir que vocês cometam uma barbaridade, eu vou abusar de minha autoridade ao ponto de poderem me considerar um ditador! Eu não quero saber se vocês acham que os deuses ou o diabo estão nos punindo pelo simples fato de eu estar com uma mulher que não é de seu agrado, eu não vou permitir que descontem nossos problemas no povo do reino vizinho como se fossem eles os culpados!

— Qual é o seu problema, Rei do Pântano? Nós não o estamos reconhecendo. Você amoleceu. – Sabir balançou a cabeça, incrédulo – Há alguns anos, você não teria hesitado em liderar um exército para pilhar e matar o quanto fosse necessário, se fosse pelo bem de nossa floresta.

Bog hesitou por um instante, sua expressão de breve tormento sendo interpretada erroneamente pelos patriarcas e matriarcas.

— É tudo culpa daquela fada. A tal princesinha. – Paris ponderou tristemente.

— Sim. Ela transformou nosso rei em um moleirão.

— A quem pensa que está chamando de moleirão, sua toupeira decrépita?! Se eu ainda sou o rei destas terras, é por uma boa razão! Posso limpar o chão desta sala com sua carcaça em dois tempos!

— Então prove! Mostre para nós que ainda é digno de nos governar! – Sabir socou o próprio peito – Diga que precisa de nossos melhores guerreiros para massacrar aquelas fadinhas e os daremos de bom grado a você. Diga que vai trazer tudo o que eles têm de bom para nós, para seu povo. Mostre que não se transformou num borra-botas manhoso por causa de um caso sem importância com uma femeazinha inferior.

— Fale assim de Marianne mais uma vez e eu faço você engolir seus dentes! – Bog urrou e, em absoluta ira, esmurrou o tampo da mesa de reuniões com toda a força. Todos gritaram de choque quando o móvel se partiu ao meio, desabando no chão em uma confusão de lascas de madeira, poeira e pergaminhos envelhecidos voando para todos os lados. Griselda tapou a boca com as mãos, seus olhinhos de contas se enchendo de lágrimas ao ver a expressão no rosto de seu menino: um misto de fúria, exaustão e agonia que só a distância forçada com sua amada poderia lhe trazer. Seu pobre bebê, carregando todo um reino em crise nas costas e não tendo sua companheira ao seu lado para ajudar a aliviar o fardo... Era de se esperar que em algum momento ele acabasse por estourar diante da pressão...

— Pelos deuses, isso foi completamente desnecessário. – Paris resmungou com desaprovação enquanto todos os outros alfas bufavam e silvavam indignados.

— Desnecessário é apelido! Um gesto tão descontrolado não é o que se espera de um monarca decente!

— Se sua ideia de monarca decente não se aplica a mim, por que não tentam me destronar? – O rei goblin estufou o peito largo e olhou com desdém para os patriarcas e matriarcas que o rodeavam – Se acham que não sirvo para governar, façam algo a respeito. Matem-me e tomem o cetro de meu cadáver. Está em seu direito e dentro das leis da Floresta Sombria, não é mesmo? Podem me atacar todos de uma vez, se quiserem. Só não posso garantir que sairão com vida.

Os alfas ficaram mudos ante o desafio debochado. Ninguém esperara que as coisas fossem chegar àquele ponto, e Griselda se perguntou se seu filho havia enfim sucumbido a alguma espécie de loucura causada pela fome e pelo excesso de noites mal dormidas.

Não que houvesse algo extremamente absurdo no desafio proposto por Bog; desafiar o atual Rei ou Rainha do Pântano para um duelo pela posse do trono estava de fato dentro das leis vigentes na Floresta Sombria, ainda mais considerando que os goblins ali presentes possuíam predileção para tal. Não havia famílias nobres entre os goblins, mas sim diversos clãs liderados por um macho ou uma fêmea alfa que possuíam grande poder e influência. Cada clã era capaz de se manter e se governar por conta própria sem dificuldades, o que fazia com que cada vilarejo na Floresta pudesse ser considerado um pequeno reino auto-suficiente, mas não completamente independente; ao fim do dia, todos deveriam responder diretamente ao poder absoluto do Rei ou Rainha do Pântano. Ainda assim, nas épocas de grande crise, não se podia ignorar o poder de decisão dos alfas. Os caçadores, batedores e coletores sob seu comando poderiam ser de grande ajuda, mas só seriam oferecidos ao serviço do monarca depois que todos chegassem a um consenso sobre o melhor curso de ação. Muitos dos goblins ali faziam parte do conselho dos alfas desde que o pai de Bog estivera de posse do trono; Agamenon inclusive estava ali desde que a avó dele ostentara o título de governante. Para a maioria deles, Bog não passava de um pivete mimado que brincava de ser rei. A insubordinação e as afrontas eram constantes, e Bog estava sempre em estado de alerta para quando um deles enfim resolvesse que ele não era digno do cetro em suas mãos.

O Rei ou Rainha do Pântano era sempre o goblin mais forte e o líder mais capaz. Os outros não lhe respeitariam e temeriam se não fosse assim. Havia a família real onde o cetro que representava seu poder régio era passado de pai para filho, mas essa poderia mudar caso os outros decidissem que não estavam satisfeitos com o atual governo, e nesse caso, o goblin com pretensão de assumir essa posição desafiaria o atual monarca e os dois lutariam até que um dos lados desistisse ou morresse. Bog já fora desafiado inúmeras vezes e, como era de se esperar, permanecia invicto. Num geral, Griselda não temia nem pela vida e nem pela posição do filho, sabendo que ele era perfeitamente capaz de mantê-las intactas. Mas agora era diferente. Ele mal pregava os olhos há dias, as bolsas sob eles pendendo enormes e escuras. Estava exausto e com as juntas doloridas de todas as horas que passara com o traseiro pregado no trono ou zanzando pela Floresta tarde da noite entre uma patrulha e outra. E já fazia mais de duas semanas que ele não colocava um mísero naco de carne na boca, tendo que sobreviver com os poucos frutos e legumes que conseguiram coletar. Sem contar toda a infelicidade de ser ver longe de Marianne. Bog estava em péssima forma para um combate e, caso fosse desafiado, Griselda duvidava que ele fosse capaz de sair ileso. Recusar um desafio era um atestado de covardia e podia gerar um verdadeiro repúdio entre os súditos. Ou uma revolta geral estouraria ou Bog poderia ser seriamente ferido ao entrar em um duelo estando tão enfraquecido. E esse era o melhor dos casos; Griselda não queria nem pensar na possibilidade de morte.

Ele estava fazendo aquilo para assertar sua posição como rei e como o alfa entre os alfas, ela concluiu. Apesar dos queixumes e do comportamento desrespeitoso, nenhum dos goblins ali presentes era idiota o bastante para desafiá-lo para um combate, e ele sabia disso. Ainda assim, considerando a situação atual, a provocação poderia trazer consequências desastrosas. Eles precisavam do apoio dos patriarcas e matriarcas, não seriam capazes de resolver a crise sem a ajuda deles, e se eles interpretassem o desafio como uma afronta à sua honra, aí seria o adeus definitivo para qualquer auxílio que pudessem vir a oferecer. Isso se não resolvessem formar uma aliança para destronar Bog de vez. “Sei que está exausto e deprimido, filho, mas, por favor, não deixe que a raiva leve a melhor sobre seu senso de responsabilidade...”

— Então? Ninguém se candidata? – Bog abriu os braços num convite – Vamos lá, não sejam tímidos. Não? Ninguém? – Ele bufou zombeteiro quando ninguém se manifestou – Acho que isso diz mais sobre este conselho do que tudo o que eu vi e ouvi hoje. Bom saber que não estão caducos o bastante para não saberem qual é o seu lugar. Se for assim, deixemos então algo bem claro: se eu ouvir mais uma palavra sobre invasões, guerras ou castigos divinos, darei ao responsável o privilégio de servir como isca em nossa próxima caçada. É uma verdadeira honra, eu particularmente ficaria lisonjeado. Vocês não? – Tudo o que se ouviu foi uma onda de resmungos, o que pareceu satisfazer Bog no momento – Mande Stuff e Thang limparem essa bagunça, mãe, fazendo o favor.

Griselda assentiu e marchou em direção à porta da sala, aliviada de que a situação não tivesse piorado. Ainda assim teria que conversar seriamente com o filho e repreender sua insensatez. Não era porque ele era o rei que poderia falar e agir como bem entendesse diante daqueles velhos nadando em poder e prestígio, ele precisava ter mais noção de suas responsabilidades...

—... esse moleque mimado, arrogante, achando que vai nos ameaçar e ficar por isso mesmo...

— Não é metade do rei que o pai dele foi, e nem um décimo da avó...

Griselda trincou os dentes e rosnou baixinho ao ouvir os alfas grunhindo entre si. Deixe que falem, ela pensou. Falem e se lamentem. Ele ainda é o rei, mais sábio, justo e um goblin muito melhor que todos você juntos...

— Isso é tudo culpa daquela maldita fada. Praticamente o transformou num deles.

— O que diabos ele viu nela, afinal?

— Nenhuma fêmea o quis, teve que se virar com uma inferior. Ainda assim é se rebaixar demais, até para ele.

“Dobrem a língua para falar de Marianne, seus sacos de titica!” Griselda praguejou em pensamentos ao mesmo tempo em que rezava para que Bog não estivesse escutando.

— Uma vergonha pensar que o nosso rei escolheu uma desses insetos como parceira. Será que eles sequer podem ter filhotes? Pergunto-me se até já... Vocês sabem...

— Talvez seja por isso que ele continua com ela. Minúscula daquele jeito, ela deve ser bem apertadinha-

E foi naquele momento que o medidor da Escala Marianne explodiu.

A gritaria foi ensurdecedora quando o punho maciço de Bog se fechou sobre a garganta de Bane. O patriarca foi erguido do chão e prensado contra a parede com tanta violência que a estrutura do aposento chegou a estremecer, um bocado de poeira desabando do teto. Ele guinchou, um som gorgolejante e patético, os olhos saltando das órbitas enquanto tentava lutar contra o punho que o estrangulava.

— BOG, NÃO!!! – Griselda gritou e correu para o filho, saltando e agarrando seu braço, ficando comicamente pendurada. Os outros também gritavam e imploravam, mas Bog parecia completamente surdo aos apelos. Encarava o goblin mais velho com um olhar desvairado, o corpo inteiro tremendo, as asas zumbindo loucamente e um rosnado demoníaco retumbando na garganta. A pele de Bane já estava ficando azulada, seus olhos se revirando até só se poder ver o branco das córneas.

— Repita isso! REPITA ISSO!!! – O Rei do Pântano berrou, sacudindo o patriarca, acertando-o repetidamente contra a parede. Se continuasse daquele jeito, Bog iria matá-lo e não haveria mais volta a partir dali, Griselda pensou em pânico.

— Bog, filho, não faça isso! Solte-o, por favor, solte-

— SENHOR! GATO DO MATO! AQUI NA FLORESTA!

Stuff e Thang praticamente derrubaram a porta da sala de reuniões, seus guinchos de furar os tímpanos ecoando no aposento cavernoso.

— Os batedores o rastrearam próximo ao rio! É imenso e está vindo nesta direção! O que é que a gente faz, senhor, o que é que a gente-

Os dois pararam de gritar no instante em que se deram conta do que estava acontecendo ali. Engoliram em seco ao se depararem com a cena que poderia ser uma tentativa de assassinato. Griselda teria os enxotado, temendo que acabassem por enfurecer Bog ainda mais, mas aparentemente a chegada intempestiva dos dois palhaços devolvera algum juízo ao Rei do Pântano. Ainda muito trêmulo, ele engoliu em seco e afrouxou o aperto férreo de seu punho. Bane escorregou pela parede e caiu feito um fruto podre no chão, engasgando enquanto buscava desesperadamente por ar, o corpo roliço se contorcendo em espasmos que lembravam convulsões. Griselda e os alfas correram para ele, avaliando sua condição enquanto um Bog ainda meio aturdido se voltava para Stuff e Thang.

— O... O que estavam dizendo? Sobre um gato do mato?

— Ah sim! – Stuff foi a primeira a se recompor – Os batedores encontraram os rastros circundando a margem do rio, na região próxima às cavernas. Ele deve ter entrado na Floresta pelo norte, na região onde não há guarda. Aparentemente já está seguindo o rastro de alguma coisa.

— O quê?

— Não sabemos, senhor. Seja lá o que for, tem apagado seus sinais à medida que tem passado, então é uma criatura com algum grau de inteligência. Ainda assim atraiu o gato do mato para a região e ele já está perigosamente próximo ao vilarejo próximo aos rochedos.

— Que espécie de gato do mato é?

— Um mourisco.

— Que droga! – Ele praguejou, enterrando o rosto na enorme mão direita – Avisem aos caçadores imediatamente e digam para que se preparem! Temos que dar cabo desse gato do mato antes de escurecer!

Assentindo, Stuff e Thang deram meia-volta e desapareceram pela porta. Tudo o que se ouviu por alguns segundos foi a respiração rascante de Bane, a garganta danificada demais para que conseguisse puxar o ar normalmente. Nenhum dos patriarcas e matriarcas sequer ousou questionar Bog sobre sua atitude violenta, abalados com a notícia da aparição de um gato do mato ou temendo sofrer o mesmo destino de seu colega ainda estendido no chão. Mas Griselda viu os olhares enfurecidos que dirigiam a ele por suas costas. Ela sentia vontade de arrancar os próprios cabelos: Bog conseguira a façanha de cavar a própria cova em menos de uma hora na companhia do conselho!

— A reunião terá de ser adiada. – Ele anunciou sem encará-los, os ombros caídos – Os convocarei quando a pauta puder ser retomada. Minha mãe os guiará até a saída.

Apesar de sua natureza inconveniente, Griselda sabia reconhecer uma dispensa quando lhe ofereciam uma. Bog não queria papo no momento e, ao menos por hora, ela o respeitaria. Ajudou Bane a ser erguer com alguma dificuldade e indicou com a cabeça a porta entreaberta, ao que todos entenderam como a deixa para sair dali antes que algo ainda pior acontecesse.

O descontrole de Bog estava ficando a cada dia mais intolerável. Ela entendia como ele se sentia, sério; poucas coisas eram mais dolorosas que um coração partido, e ela vira em primeira mão durante anos como problemas amorosos eram capazes de dificultar o discernimento de seu menino. Mas isso não justificava aqueles ataques de fúria impensados! Ele era um rei, pelo amor dos deuses, não podia deixar que seus problemas pessoais interferissem em suas obrigações!

O problema era Marianne, claro. Se ele estava com tantas saudades dela, se só conseguia entrar nos eixos quando estava em bons termos com ela, por que não a procurava? Depois de muita insistência de sua parte, ele acabara confessando o que havia feito durante o tal Festival da Colheita no Reino das Fadas. Fora realmente sério e era mais uma razão para que ele a procurasse e esclarecesse tudo, e ainda assim ele protelava. Mandava cartas, resmungava e se lamentava quando não recebia respostas e, ainda assim, não tomava nenhuma atitude. Bog não era do tipo que esperava sentado enquanto torcia para que alguma solução caísse do céu. Se havia um problema, ele ia até a fonte e o resolvia, com ou sem violência envolvida. Puxara ao pai, que os deuses o tenham. Então o que é que ele estava esperando? Por que não partia ao encontro de sua amada para fazer as pazes?

Bem, naquele momento não seria possível. Bog tinha uma séria crise em suas mãos, uma caçada a um monstrengo para promover e, como se tudo isso não bastasse, o ódio absoluto dos patriarcas e matriarcas pesando sobre ele. O apoio deles era até então imprescindível, e agora parecia totalmente fora de cogitação. Quase não havia água e comida, os predadores haviam se transformado em presas, o medo se alastrava absoluto por toda a Floresta Sombria e Bog já não estava mais dando conta de tantos problemas em suas costas, abatido como estava pela situação com Marianne. O que seria deles?

Griselda deixou escapar um suspiro trêmulo. Tempos desesperadores pediam por medidas desesperadas. Ela ainda não sabia o que faria, mas já sabia a quem iria recorrer.

Notas finais
Aí está. Farei o que puder para não demorar demais com o próximo capítulo. Até lá 0/