Garras e Presas

1 Capítulo 1


Notas iniciais
O primeiro capítulo é mais uma introdução. Certas respostas e a apresentação do problema virão nos próximos. Boa leitura 0/

Em um piscar de olhos, antes que os habitantes do Reino das Fadas pudessem perceber, o Outono havia chegado, trazendo uma suave brisa enregelante, um agradável tom de dourado à flora e os resultados da colheita, cultivada por longos seis meses. As notícias eram animadoras: haveria fartura naquele ano, o suficiente para supri-los até a tradicional emigração de inverno. E como era de praxe, a boa safra de suprimentos seria comemorada com o tão esperado Festival da Colheita.

Sendo uma festividade tão prezada, era um dos poucos festivais abertos a absolutamente toda a população dos Campos de Luz, desde as fadas de famílias nobres até os pequenos elfos pertencentes ao populacho. Uma festa que costumava durar dias seguidos, regada a muita comida, bebida, música e dança. Uma festa aguardada com imensa ansiedade por duas fadas em específico, embora tivesse razões diferentes para tal.

Assistindo aos preparativos para a abertura do festival, que se iniciaria ao cair da noite, Dawn simplesmente não cabia em si de contentamento. Mal terminara de se enfeitar e voara em disparada para o vilarejo dos elfos, ansiosa para ajudar Sunny e os outros pequeninos no que pudesse. Aquele seria o primeiro Festival da Colheita em que teria um acompanhante fixo, mais especificamente o adorável elfo que agora posava orgulhoso como seu eleito. Se tivessem lhe dito há sete meses que logo estaria cortejando seu melhor amigo e companheiro de todas as horas, ela provavelmente teria rido e parabenizado o engraçadinho pela piada. Ainda não conseguia acreditar que demorara tanto tempo para perceber que o amor pelo qual sempre procurara estava logo ali, bem debaixo de seu nariz, na forma do pequeno rapaz sorridente, afável e que era capaz de animá-la mesmo nos dias mais tenebrosos, mas estava decidida a não perder mais nem um minuto sequer ao lado do amado. Amado este que estava quase subindo pelas paredes com a preparação final para a grande noite.

— Tomem cuidado com o equipamento, pessoal! Pareh, pelo amor dos deuses, não arraste os holofotes assim! – Sunny implorou para o elfo grandalhão, que puxava o dito equipamento pelos caules distraidamente até o palanque – E não, Lizzie, nem pense nisso! Pode ir tirando esses arranjos da boca! – Gritou para o enorme lagarto, que soltou um sibilar amuado antes de cuspir os arranjos florais, agora inutilizados. Grunhindo, ele enterrou o rosto nas mãos – Não sei onde eu estava com a cabeça quando aceitei ser o organizador do festival deste ano. Não importa para onde eu olhe, sempre tem um arranjo mal feito, uma iluminação defeituosa ou alguém fazendo alguma besteira.

— Não fale assim, Sunny. Você está fazendo um ótimo trabalho.

— Não estou, não. Esse é o primeiro evento sob meu comando, o primeiro em que os goblins vão dar as caras e parece que tudo está conspirando para dar errado! – Sunny gemeu em exaustão – Desculpe, Dawn, mas eu definitivamente não nasci para essas coisas...

— Pode parar! Eu o proíbo de ser tão injusto com o meu namorado! – A princesa mais jovem o repreendeu, segurando o rosto do elfo entre suas delicadas mãos e o encarando-o com censura nos grandes olhos azuis – Se não fosse por seu planejamento, as preparações não estariam nem na metade. Você organizou bem a distribuição de tarefas e coordenou tudo como só o melhor organizador de eventos poderia fazer. Não pode achar que tudo foi em vão por uns imprevistos de última hora. Você tem que ter mais confiança em si mesmo, Sunny. – Ela então colocou as mãos na cintura e sorriu calorosamente – E pode ter certeza de que os goblins vão reconhecer seu esforço, especialmente na parte da decoração.

Sunny deu um sorrisinho encabulado, pela primeira vez sentindo algum alívio no que dizia respeito ao tema escolhido. Como uma homenagem a mais nova relação harmoniosa que surgia entre o Reino das Fadas e a Floresta Sombria, ele se ocupara em preparar uma decoração mais sóbria, verdejante e positivamente selvagem. Pesquisara exaustivamente sobre as tradições do povo predominante do reino vizinho, chegando a se aventurar pela mata para ter inspiração e pedir permissão para se apropriar de algumas flores, ervas e frutos típicos daquele habitat. Tudo para agradar ao gosto incomum de seus visitantes. Seus conterrâneos julgaram-no maluco por aquela aposta arriscada, e com os nervos à flor da pele, não havia nada melhor para tranqulizá-lo do que a companhia e os elogios de sua Dawn.

— Você acha mesmo que eles irão gostar? Quer dizer, até onde eu sei os goblins não são muito chegados a uma festa, especialmente o rei deles.

— Fique tranquilo. Os goblins não gostam de eventos pomposos e você garantiu para que tudo ficasse o menos formal possível. Vai ser uma farra que eles nunca vão esquecer! – Ela deu uma risadinha – Aposto que até o Bog vai ficar de queixo caído.

— Isso se ele se dignar a prestar alguma atenção aos arredores, considerando que ele se esquece do mundo quando está com a Marianne. – Ele então segurou as duas mãos da fada, sorrindo amorosamente para ela – Exatamente como eu quando estou com você.

— Você é um doce. – Dawn ronronou, curvando-se para plantar um beijo nos lábios dele – Vai dar tudo certo, amor. Este festival será um sucesso, e quando papai reconhecer o excelente organizador que você é, vai nomeá-lo como nosso ministro de eventos oficial.

— Desde que eu possa passar ainda mais tempo com você, aceito qualquer cargo.

Beijaram-se novamente, sussurrando canduras um para o outro e arrancando grunhidos exasperados dos elfos, brownies e pixies que se ocupavam com a organização. Era uma sorte que Marianne não estivesse por perto para ver a exibição melosa de afeto, ou já estaria fingindo ânsias de vômito e tecendo comentários sarcásticos a respeito do casalzinho e sua total falta de decoro.

A dita princesa não se encontrava tão animada quanto sua irmã caçula. De braços firmemente cruzados e andando de um lado para outro, ela olhava fixamente para a raiz em arco que servia como divisa entre o Reino das Fadas e a Floresta Sombria. Também fazia possível para ignorar seu pai, que conversava em voz alta com a guarda real num tom que não lhe agradava.

— ... já deveríamos ter imaginado que algo assim aconteceria. A espécie deles não é do tipo que se digna a cumprir horários ou outras formalidades.

— Mas eles vão mesmo aparecer? Pode ser que tenham desistido, mudado de ideia no último momento. Não são criaturas muito sociáveis.

— Talvez seja melhor assim. A presença deles não agradaria a maior parte dos convidados...

— Se este é o caso, é uma enorme falta de consideração da parte do Rei do Pântano não nos avisar de antemão. – O Rei Dagda afirmou, empertigando-se em sua liteira com uma expressão desgostosa – Marianne, querida, você tem certeza de que ele afirmou que compareceria?

— Certeza absoluta, pai. – A herdeira do trono repetiu pela enésima vez naquela tarde, revirando os olhos com impaciência – E se ele tivesse mudado de ideia, já teria mandado uma mensagem há muito tempo. O senhor pode pensar o que quiser do Bog, mas ele nunca falta com a palavra dele.

Dagda abriu a boca para retrucar, mas limitou-se a balançar a cabeça em exasperação. Quando se tratava do inescrupuloso Rei do Pântano, sua filha mais velha se tornava tão cega quanto um morcego sob a luz do sol.

Alheia a expressão taciturna do pai, Marianne voltou a fazer seu percurso próximo à fronteira, mordendo o lábio inferior e apertando em suas mãos a carta que recebera naquela manhã bem cedo. Nela, estava a mensagem que a deixara num estado de ansiedade que não sentia desde a noite em que desbravara pela primeira vez a escuridão elusiva da Floresta Sombria.

“Aceito o convite com todo o prazer, Durona, mas não tenho certeza se poderei chegar no horário combinado. Coisas estranhas têm acontecido nos confins da Floresta Sombria, coisas que me mantiveram atarefado por essas longas duas semanas e que me impediram de desfrutar de sua companhia. É um assunto que inclusive pretendo tratar com você e seu pai quando chegar ao Reino das Fadas. Mas não se preocupe, minha prioridade será aproveitar o festival e matar as saudades de você.”

Marianne soltou um longo suspiro, procurando amenizar a apreensão que sentia. Foram duas longas semanas longe do reino governado por seu amante, duas longas semanas sem sua companhia. Duas longas semanas sem notícias dele. A saudade a consumia com uma intensidade constrangedora, e a alegria que sentira ao finalmente receber a resposta ao seu convite durara pouco. Coisas estranhas, ele dissera. O que poderia ser mais estranho que o próprio reino que ele governava em si? Algo assustador e perigoso mesmo para os padrões dos goblins? Algo que poderia estar colocando seus súditos em risco? Algo que poderia estar colocando a ele em risco?

A princesa balançou a cabeça, exasperada consigo mesma. Era tolice temer pela segurança de Bog. Ele era monstruosamente poderoso, uma força da natureza que mantinha o controle absoluto sob seu povo e seu habitat selvagem, um punho de ferro maciço e impiedoso que em instantes esmagaria aquilo ou aquele que ousasse desafiá-lo. Pelo menos foram essas as palavras que ele usara ao exibir toda a sua autoridade para Marianne, que se limitara a rir e zombar de sua dramaticidade.

— Estou falando sério! – Ele rosnara em indignação, embora não conseguisse conter o sorriso ao ver sua companheira se divertir com suas peripécias – Fadinha insolente... – Resmungara, puxando-a para seus braços e enterrando o enorme nariz nos cabelos castanhos – Só digo isso para tranquilizá-la, meu amor. – E o sorriso dele se ampliara, tornando-se decididamente diabólico – Eu sou a coisa mais perigosa desta floresta.

A lembrança lhe provocou arrepios prazerosos que imediatamente tentou conter. Mesmo ante a afirmação, ela ainda se preocupava com aquela demora anormal. A comitiva dos goblins deveria ter chegado há mais de trinta minutos, e até o momento não havia nem sinal de vida se aproximando do outro lado da fronteira. O conteúdo da carta em suas mãos a deixava ainda mais alarmada, e o burburinho desagradável da Guarda Real tampouco ajudava.

— Com todo o respeito, Majestade, mas não lhe parece inútil esperá-los na fronteira? – O capitão da guarda se manifestou – Não seria mais simples que um de nós enviasse uma mensagem questionando-os sobre a demora? Soube que as mensagens são enviadas para o Castelo Sombrio por meio de uma linha de cogumelos conscientes. Basta que um de nós entre lá e-

— Eu não entro naquela floresta nem morto!

— Nem eu!

— Muito menos eu!

— Silêncio. – O Rei Dagda pediu, esfregando suas têmporas doloridas – Ninguém vai entrar lá. São eles que estão faltando com o respeito, se atrasando desta maneira sem dar nenhuma explicação. Se não aparecerem em cinco minutos, iremos direto para o festival.

— Isso é ainda mais desrespeitoso, pai! – Marianne se indignou, os punhos se cerrando – Com certeza deve haver uma razão para este atraso, e não é justo que você nem sequer dê a eles a chance de se explicarem.

— Oh, os deuses sabem como mereço uma explicação. Esperei durante uma hora inteira para recebê-los e guiá-los até as festividades como um anfitrião de respeito, mas se não podem nem ao menos se dignar a mandar um mensageiro, devo começar a questionar o seu pedido para convidá-los.

— Eu não vejo o Bog há mais de duas semanas, pai! É demais querer a companhia de meu... – Ela hesitou por alguns instantes, procurando por uma definição adequada -... de meu companheiro durante as festividades?

— Você terá a mim e sua irmã. Terá seus súditos. Isso já não basta para aplacar sua solidão?

A resposta malcriada que Marianne daria foi interrompida por um som crescente e trepidante, vindo da floresta. As atenções de todos se voltaram para a folhagem que balançava com a brisa do crepúsculo. Os guardas trocaram olhares nervosos e agarram os cabos de suas respectivas espadas, formando um cerco protetor em torno do rei e da princesa. Dagda engoliu em seco, porém a expressão de Marianne se iluminou com alívio e felicidade. Ah, ela reconheceria aquele som em qualquer lugar...

No instante seguinte, a folhagem que circundava a fronteira fustigou violentamente com a passagem da comitiva de enormes libélulas, conduzidas pelos goblins da Floresta Sombria. Eles rosnavam e gargalhavam com o prazer do vôo, acenando animadamente para a princesa que retribuía risonha. As libélulas então desceram num profundo mergulho, voltando a se endireitar segundos antes de atingirem o solo e circulando velozmente entre as fadas que gritaram com o susto. Dagda quase caiu de sua liteira, o que fez Marianne rir ainda mais.

— Ordem! Voltem à formação, seus imprestáveis!

E lá estava ele, a pessoa que ela mais ansiara ver por todas aquelas semanas. O sorriso que se formou em seu rosto ao ver Bog se aproximando quase fez com suas bochechas ardessem. Bebeu com os olhos toda a glória da aparência positivamente bizarra de seu amante: o grande corpo longo, esbelto e coberto de escamas marrom-acinzentadas, as quatro poderosas asas de vespa que produziam um zumbido ainda mais intenso que as das libélulas, o rosto longo, magro e de maçãs salientes, o nariz em formato de gancho e a boca que se arreganhou num enorme sorriso ao notá-la, exibindo fileiras de dentes afiados e tortos.

“Deuses, como senti saudades dele!”

A fada corou violentamente com aquele pensamento. Desde quando ela se deixava tomar por aquele sentimentalismo barato? Balançando a cabeça para clarear as ideias, ela abriu suas asas e plainou na direção da comitiva, que estava naquele momento se encolhendo ante a fúria de seu rei.

— Como se atrevem a tomar a frente e fazerem uma entrada sem meu expresso comando?! Não admito este tipo de insubordinação!

— Perdão, senhor!

— Se fizerem isso novamente, vão passar o fim de semana limpando o limo das paredes do castelo com as línguas! Fui claro?!

— Sim, senhor!

— Não seja tão maldoso com eles, seu velho ranzinza. – Marianne se manifestou, aproximando-se com as mãos na cintura, um sorrisinho zombeteiro brincando em seus lábios — Não é culpa deles se você já não é mais capaz de voar por quinhentos metros sem reclamar de uma dor nas costas.

— Foi só uma vez, e por culpa sua! – Ele voltou-se para ela, rosnando enquanto a pele pálida de seu rosto ruborizava – Voando pela floresta como uma mariposa desgovernada e me obrigando a me extenuar...

— Eu não havia imaginado que a idade havia chegando tão cedo para o todo poderoso Rei do Pântano. – Ela revirou os olhos – Foi por isso que se atrasaram? Precisou parar por alguns minutinhos para recuperar o fôlego?

— Há! Isso é hilário, vindo da bailarina que brinca com espadas até não poder mais continuar por causa das cãibras. Seus bracinhos estão melhores ou precisou deixá-los de molho para que se recuperassem da surra que eu lhe dei?

— As cãibras foram causadas por meu esforço em me conter. Uma necessidade, considerando como sua defesa estava ridícula naquele dia.

— Fadinha insolente.

— Barata nojenta e escamosa.

Ambos se encararam desafiadoramente por um instante. E no segundo seguinte, Marianne e Bog desataram a rir. Riram com todo o gosto, ele jogando a cabeça para trás e ela apoiando as mãos nos joelhos, ambos ignorando completamente os olhares exasperados dos goblins e os escandalizados da comitiva de fadas mais atrás. Só sabiam que tinham sentido uma falta gigantesca daquelas provocações bem-humoradas, de seus duelos amistosos, do simples prazer de estarem juntos. As mãos enormes e ossudas então se estenderam para ela, segurando-a gentilmente pelos braços e puxando-a para mais perto. Marianne suspirou em contentamento ao sentir o nariz dele roçar delicadamente o seu, suas testas se tocando, os olhos azuis fitando-a com algo que beirava a adoração.

— Senti sua falta. – Ela sussurrou, arrancando um sorriso encabulado dele.

— Também senti sua falta, Durona.

— Sério, por que demoraram tanto? Já estava ficando preocupada.

— Quanta consideração. – Ele brincou, acariciando a junção entre as asas dela com as garras afiadas, sorrindo ainda mais ao vê-la estremecer com a sensação – É uma história complicada, na verdade...

Caham!

O pigarreio impaciente foi como uma agulha estourando a bolha de pura satisfação que os envolvia. Olhando para trás, Marianne viu a expressão de puro desgosto que seu pai ostentava, observando a troca de afetos entre sua filha e o rei dos goblins como uma verdadeira afronta. A coroa estava torta em sua cabeça, seu rosto afogueado. E os membros da Guarda Real não estavam em melhor situação, ainda um tanto quanto atordoados; o resultado do susto com a entrada estapafúrdia dos visitantes. Percebendo que estariam abusando da boa vontade de seu genitor caso prosseguissem com o flerte descarado, Marianne tomou uma distância respeitosa e indicou com um aceno de cabeça a situação adiante. Bog entendeu rapidamente e imediatamente assumiu uma posição mais séria e régia, erguendo o queixo e estufando o peito. Bateu com seu cetro no chão, o que seus asseclas entenderam como um sinal para se posicionarem mais dignamente.

— Bog. – A saudação do rei do Reino das Fadas foi curta, dura e indiferente.

— Dagda. – O goblin respondeu no mesmo tom.

— Seja bem-vindo ao meu reino. Esperávamos ansiosos por sua chegada, embora devo admitir que seu atraso foi uma nota um tanto quanto preocupante.

— Garanto-lhe que houve uma razão para tal. Mas antes de entrarmos nesse assunto... – Ele virou-se para seus asseclas, fazendo um rápido aceno com a cabeça. Stuff e Thang imediatamente correram para duas das libélulas, e só então Marianne reparou que ambas transportavam o que parecia ser um pacote feito de musgo. Era grande, tanto que ela o confundira como um dos goblins maiores durante o vôo apressado. – Um presente. Da Floresta Sombria para o Reino das Fadas, com quem esperamos manter um relacionamento amistoso e duradouro e blá, blá, blá... – Gesticulou com as mãos, totalmente entediado. Marianne precisou morder o lábio inferior para não rir.

— Ora, isto é... Muito gentil de sua parte. – Dagda parecia sinceramente surpreso – E do que se trata? – Perguntou desconfiado.

— Algo para o seu Festival da Colheita. Uma iguaria muito apreciada pelo meu povo. Considerando que esta é a primeira festividade a qual comparecemos, talvez sua gente não esteja familiarizada com nossos hábitos, então pensei que- BRUTUS, EU ESTOU VENDO VOCÊ! NEM SE ATREVA! – Bog rugiu de repente, ao que todos pularam de susto. Brutus, que estivera naquele momento tentando introduzir sua língua em uma das frestas do pacote, grunhiu desapontado e deu um passo para trás. Enterrando o rosto na mão livre, o rei goblin arrancou o pacote dos braços de Stuff e Thang e o arrastou consigo até parar ao lado de Marianne – É melhor que partamos para o tal festival de uma vez, antes que esses cretinos decidam começar a farra na divisa.

— De fato. – Dagda assentiu, batendo as mãos uma na outra duas vezes. Quatro dos guardas ergueram a liteira sobre seus ombros, e o rei das fadas assumiu um ar de presunção ao ver-se num plano acima do outro monarca – Gostaria de lhe pedir, todavia, que ordene à sua comitiva para que se controle. Os pobres elfos do vilarejo ainda não se esqueceram do... Incidente de sete meses atrás.

Marianne olhou feio para o pai, percebendo sua intenção descarada em constranger Bog e seus súditos ao lembrar-lhes do pequeno baile que invadiram no início da primavera, à caça da Poção do Amor roubada. Bog, porém, sequer titubeou. Arqueando uma sobrancelha escamosa, ele assentiu solenemente.

— Quanto a isso, não há com o que se preocupar. Dou-lhe minha palavra.

A princesa se surpreendeu com aquela tranqüilidade atípica. Paciência não era uma das virtudes do Rei do Pântano, e ele era conhecido e temido dentro e fora da Floresta Sombria por seu gênio explosivo. Ele a olhou de soslaio, sorrindo timidamente como se esperasse aprovação, e ela percebeu que ele estava procurando se controlar para não dificultar ainda mais as coisas entre ele e o pai de sua companheira. Mantendo a calma por seus súditos, pela relação ainda frágil entre os dois reinos e por ela. Seu peito se encheu de ternura e orgulho, e ela o beijaria ali mesmo se o ato não provocasse reações tão pouco agradáveis das outras fadas presentes.

— Ah... Ótimo. É... Bom saber disso. – Dagda balbuciou, claramente não esperando uma resposta tão condescendente. Pigarreando e empertigando-se, ele se voltou para sua filha mais velha – Marianne, querida, suba na liteira.

— Obrigada, pai, mas eu quero caminhar ao lado do Bog e do pessoal. Pra botar a conversa em dia, sabe. – Ela deu uma cotovelada de brincadeira no flanco maciço do goblin, que retribuiu ao bagunçar ainda mais suas madeixas castanhas com a mão livre – Vamos, Dawn está morrendo de vontade de abraçar você.

— Desde que ela não cante...

Sem saber o que fazer ou dizer, Dagda limitou-se a suspirar e gesticular para que a guarda se pusesse em marcha. Desviou o olhar da filha e de seu acompanhante, não sem antes ver a enorme mão de garras letais segurar a dela, tão pequena e inofensiva em comparação.

Ele sabia que já não tinha mais tanta autoridade sobre Marianne. Ela era uma fada adulta, e logo mais já teria idade o suficiente para assumir o trono. Mas se ele ainda a tivesse, se ele pudesse escolher, escolheria manter sua filha o mais afastado possível daquela criatura selvagem que ela elegera como amante. Será que ela era tão ingênua a ponto de não perceber os riscos aos quais estava se expondo? Tão cega ao ponto de não enxergar aquela fisionomia predatória, as garras assassinas que poderiam lhe rasgar as asas, as presas que poderiam dilacerar sua carne?

Balançando a cabeça em resignação, ele procurou não deixar o mau-humor dominá-lo completamente. De nada adiantaria, de qualquer jeito, e talvez só servisse para afastar Marianne de suas vistas. Tudo o que podia fazer agora era assumir sua posição como regente, manter tudo sob a mais absoluta ordem e torcer, rezar para que o desastre daquela primavera não se repetisse.

Só esperava que o Rei do Pântano tivesse a dignidade de fazer o mesmo.

Notas finais
Por enquanto é isso. Farei uma viagem para um lugar onde não há internet, então o segundo capítulo só deve sair dentro de duas semanas. Desde já agradeço a quem ler. Comentários são sempre muito bem vindos. Até a próxima 0/