Garras e Presas
18 Capítulo 18
Notas iniciais
Lembrar-se das recomendações dos curandeiros de que mantivesse o temperamento sob controle para o bem de seu coração não estava sendo de muita ajuda para Dagda.
O dia até ali havia sido cheio de emoções que ameaçavam a boa saúde de suas artérias. Primeiro fora o aviso sobre a instabilidade dos barris de pólvora, culminando em explosões que causaram ferimentos aos seus soldados e atrasos nos testes com a catapulta recém-construída. Depois a súbita aparição de Marianne e Dawn, seguida da fúria tenebrosa de sua primogênita, que descobrira sobre as correspondências que o Rei do Pântano vinha enviando e que não quisera aceitar nenhuma de suas explicações. Depois a fuga de suas duas meninas, que continuavam desaparecidas e correndo enorme perigo, considerando a situação com os predadores.
E para fechar com chave de ouro, alguns de seus soldados haviam encontrado o responsável por toda a confusão com os barris e o trazido até ele. Ele tivera esperanças de finalmente obter alguma satisfação ao punir o malfeitor.
Até descobrir que o malfeitor em questão era a Fada Açucarada.
Como ele conseguira transpor aquela manhã sem sofrer um ataque cardíaco no processo era um mistério.
— Então... – Ele começou, sua voz subindo algumas oitavas enquanto encarava a bizarra criatura cintilante do alto de seu trono – Quando meus homens anunciaram que haviam-na capturado-
— Correção: entreguei-me por livre e espontânea vontade. – Ela declarou com desinteresse enquanto inspecionava as próprias unhas – Seus soldadinhos não conseguiriam encostar um dedo em mim se eu assim quisesse, Majestade.
— Como eu estava dizendo... – Dagda grunhiu enquanto fechava os olhos e contava mentalmente até dez – Quando meus homens anunciaram que haviam encontrado a culpada pelo desastre dos barris, eu pensei que fosse uma brincadeira. Desejei que fosse, até. Mas contra todas as expectativas, aqui está você. A Fada Açucarada.
— Em plasma, purpurina e glamour, querido.
— Poupe-me das anedotas. – Avisou, uma veia pulsando em sua têmpora – Eu não acreditaria se não estivesse vendo com meus próprios olhos. Sempre nutri um grande respeito por você e nunca compreendi os motivos que fizeram o Rei do Pântano trancafiá-la, mas agora posso entender perfeitamente. A senhora-
— Senhorita.
— A senhora é uma ameaça à sociedade! – Dagda finalmente perdeu a compostura, esmurrando com os punhos fechados os braços de seu suntuoso trono. Os membros da Guarda Real ao redor pularam de susto. Açucarada, porém, meramente revirou os olhos.
— Por acaso ser dramático e levar as coisas ao extremo são pré-requisitos para se governar por estas bandas?
O rosto do rei Dagda estava tão vermelho que seus soldados temeram que ele entrasse em combustão espontânea.
— Mostre algum respeito, ou ordenarei que seja trancafiada no calabouço até o fim de seus dias!
— Oh, quem dera se meus dias pudessem ter um fim. – Ela suspirou teatralmente, colocando as costas da mão direita na testa – Ser mortal seria uma bênção! Assim chegaria o dia em que eu não mais precisaria conviver com reis que acham que ameaçar e encarcerar são as melhores soluções para seus problemas. Diga-me, Majestade, o senhor é versado em feitiçaria?
— Eu... O quê?
— Conhece alguma magia, feitiço ou maldição de qualquer classe? Se não, sinto desapontá-lo, mas simples barras de metal não serão o suficiente para manter-me prisioneira. Oh, já sei, por que não pede o auxílio do Rei do Pântano? Ele possui alguns livros que podem lhe servir. – Ela girou no ar, os braços atrás da cabeça, completamente relaxada – Seria inclusive uma excelente oportunidade para que se conheçam melhor. Vocês se sentariam numa mesinha de varanda, tomariam um chá de camomila e trocariam ideias sobre os melhores feitiços para se manter uma criatura feita de pura magia permanentemente encarcerada. Um ótimo começo para relações entre sogros e genros, não acha?
— Chega! Não vou mais tolerar seu sarcasmo! – Ele vociferou – O que pretendia com essa ideia absurda? O que achou que iria ganhar com uma traição desse nível?
— Que traição? Não pertenço à jurisdição de seu reino ou de qualquer outro. Seres como eu não juram lealdade sob nenhuma bandeira.
— Isso não faz diferença! A senhora ainda cometeu um crime contra um monarca e deve responder conforme suas leis!
— O quê? Aquela besteirinha com os barris? Ninguém se machucou para valer, então pra quê esse drama todo?
— Alguém poderia ter se machucado, inclusive minhas filhas!
— Oh, sim, as suas meninas! – Ela exclamou, repentinamente entusiasmada – Como elas estão? Quero saber principalmente da Princesa Marianne. Ela ainda está por aqui? Tenho um assunto urgente para tratar com ela.
— O quê? Que assuntos você poderia ter com minha filha?
— Coisa de mulher, nada que seja para o seu bico.
— Ora, sua-
Naquele instante, as grandes portas do palácio se abriram com um estrondo. Um dos membros da Guarda Real, que Dagda reconheceu como Tristan, entrou esbaforido na sala do trono, ofegante e pálido como se tivesse visto uma aparição.
— Majestade! Notícias urgentes!
— Tristan? O que está fazendo aqui? Onde estão Adrian e os outros dois? Não ordenei que só retornassem quando tivessem encontrado Dawn?
— Nós a encontramos, Majestade. A Princesa Dawn está no vilarejo dos elfos.
Dagda assentiu com algum alívio. Menos mal.
— Mas por que não a trouxe com você? E de novo, onde estão Adrian e seus companheiros de guarda?
— É... complicado explicar, senhor...
— Como assim? O que houve? – Ele voltou a se agitar, erguendo-se do trono – Foi mais um dos ataques? Aconteceu algo com os outros três? – Ele repentinamente empalideceu, o rosto se contorcendo em pavor – Oh, deuses, aconteceu alguma coisa com uma de minhas filhas?!
— Gente, mas que coisa! – Açucarada cantarolou de repente, fazendo Tristan, que não a tinha notado até então, gritar e pular para o lado – Diga lá, meu querido, você por acaso viu a Princesa Marianne? Sabe se ela continua aqui ou se já partiu para a Floresta Sombria?
— Se já... espere um minuto! – O rei das fadas se voltou para a criatura purpurinada – Você por acaso está insinuando que esperava que minha filha escapulisse para a Floresta Sombria?
— Esperar eu até esperava, mas preciso primeiro confirmar, né?
— Isso por algum acaso tem alguma relação com seus truquezinhos com os barris?
— Olha só, o senhor é rápido no gatilho! Hnn, adoro homens que, além de charmosos, são inteligentes. A Rainha Mab tirou a sorte grande, hein.
A menção àquele nome pegou Dagda com a guarda baixa. Encarou a Fada Açucarada com o queixo caído, totalmente incapaz de articular palavras. Que hora para começar a ser assaltado por lembranças...
— Papai!
Foi tirado de suas reminiscências quando Dawn, suada e ofegante pelo voo afobado, entrou feito uma flecha na sala do trono.
— Dawn! Graças aos deuses você está aqui! – Ele exclamou, mandando a postura régia às favas enquanto corria para a filha caçula e a apertava em seus braços – Você está bem? Se machucou? Por que saiu voando daquele jeito? Quase me matou de preocupação!
— Não, papai, o senhor tem que me escutar-
— Me desculpe! Eu sinto tanto, tanto, querida, não queria deixa-la tão transtornada! Não falei aquelas coisas por mal!
— Eu sei, papai, mas agora não é hora-
— Oh, deuses, a sua irmã! Você a viu? Se sabe onde ela está, diga-me! Ela está ferida e cansada, e nervosa daquele jeito, ela pode acabar-
— Deixe-me falar! – Ela exclamou, sobressaltando-o – Eu sei para onde a Marianne foi. A essas alturas, ela já deve estar na Floresta Sombria.
Dawn fez uma careta quando as mãos de Dagda a apertaram com força nos ombros. Ele a encarava com um misto de terror e fúria que o fazia parecer ainda mais idoso.
— Para a Floresta Sombria? – Ele repetiu. Não estava surpreso, definitivamente não estava, mas isso não tornava a confirmação menos terrível. Sua Marianne, sua pobre menina, machucada, exausta e transtornada, perdida no meio daquele matagal escuro, traiçoeiro e cheio de bestas terríveis, famintas-
— Oh, então ela já está lá! – A Fada Açucarada exclamou, parecendo imensamente satisfeita – Que maravilha, quer dizer que o meu plano deu certo! Há, mal posso esperar para esfregar isso na cara daquela desconfiada... Ah, e olá, Vossa Alteza.
— Dona Açucarada? – Dawn se espantou ao reconhece-la – O que a senhora está fazendo aqui?
— O de sempre, querida. Voando de lá para cá, cuidando da minha vida, tendo que lidar com reis intratáveis, essas coisas.
— Espere aí! Que história é essa de plano?
— Ainda não sacou? Pela minha tiara! – Ela bufou impaciente – Tudo o que aconteceu não passou de um singelo favor feito a uma velha amiga. Ela muito docemente pediu que eu desse um jeito de levar a Princesa Marianne até a fronteira, já que eu conseguiria passar mais despercebida do que ela. Foi complicado, é claro, já que o palácio está sempre fortemente guardado, e se eu fosse pega, teria que dar algumas explicações e o plano poderia vir por água abaixo. Foi então que eu notei que alguns dos seus soldadinhos estavam posicionando barris de pólvora nos postos de vigília. E uau, que momento mais oportuno! Vocês estavam me dando a distração perfeita em uma bandeja de prata. Tudo o que eu precisava fazer era dar um jeito de detonar a quantidade certa de barris e gerar uma sensação de perigo iminente, assim a maior parte das tropas se concentraria no foco de ameaça mais imediato e eu ficaria com o caminho livre para ir até a Princesa Marianne.
— Você pôs as vidas de meus homens e a minha própria em perigo só para poder falar com Marianne? – Dagda exclamou incrédulo – Tudo porque você queria atraí-la para a Floresta? E quem é essa amiga que pediu por esse favor?
— Está achando que eu sou uma dedo-duro? Não, não, não! Não entregarei minha amiga. Mulheres unidas jamais serão vencidas e essas coisas.
— Chega dessa estupidez! Diga agora ou eu-
— Agora não é hora pra isso, pai! – Dawn gritou, e todas as fadas no recinto pularam com o susto – Aconteceu uma coisa inacreditável e o senhor precisa saber!
— É verdade, Majestade! – Tristan assentiu freneticamente – Nós finalmente descobrimos! Descobrimos o que é que pode estar causando os ataques, as mortes dos animais e a escassez!
Os membros da Guarda Real soltaram exclamações de espanto e imediatamente cercaram Tristan, pedindo por mais detalhes. Dagda teria ordenado que voltassem aos seus postos se ele mesmo não estivesse completamente tomado pelo assombro.
— Descobriram? Mas como? Quando?
— Já faz uma meia hora. Ainda não temos certeza absoluta de nada, por isso Sunny, Pareh, Adrian, Ricard e Edwin foram checar por si mesmos. Eles se uniram a alguns goblins da comitiva do Bog e partiram para a Floresta Sombria.
— Comitiva? Goblins? Foram checar na Floresta Sombria? – A cabeça do rei das fadas girava mais que um pião – Dawn, querida, isso não está fazendo o menor sentido. Explique essa história direito.
Dawn e Tristan tentaram, nos minutos seguintes, resumir todos os acontecimentos que se deram no vilarejo dos elfos, desde a chegada intempestiva da princesa até a partida da comitiva liderada por Sunny, guiada pelos goblins a serviço do Rei do Pântano. Deram especial atenção à revelação do Diabinho, explicando a teoria sobre o envolvimento das amoras de outono naquela crise. Ao fim do relato, Dagda sentia a soma de toda a exaustão, preocupação e estresse do último mês pesar em seus ombros com uma força descomunal.
— Deuses... as amoras de outono... como não pensamos nisso antes? – Ele balbuciou – Isso... Isso foi por causa dos barris que mandei preparar?
— Ainda não sabemos, Majestade. Por isso Sir Adrian, Ricard e Edwin partiram para a Floresta. O tal Diabinho parece saber qual é a causa do problema e se ofereceu para guia-los.
— E o Sunny também, não se esqueça dele! – Dawn lembrou entusiasticamente – A ideia de montar uma expedição foi dele. Ele não tinha obrigação nenhuma de tomar parte nisso e ainda assim se voluntariou para ajudar. Ele entrou na Floresta Sombria porque era a coisa certa a se fazer, papai. Como um verdadeiro homem faria. – Ela salientou, dando ênfase na penúltima palavra enquanto encarava o pai com os lábios trêmulos. Dagda ficou sem saber o que dizer.
— Ah... Eu...
— Ótimo! Excelente! – Açucarada bateu palmas, feliz da vida – Os goblins os levarão até o Rei do Pântano e aí os dois grupos se unirão na expedição. Isso vai deixar tudo mais fácil e seguro. E será melhor ainda se a Princesa Marianne se juntar a eles.
— Sim! – Dawn saltitou – E se Bog e ela se encontrarem, os dois poderão conversar e fazer as pazes!
— Sim, sim, esse era o nosso plano!
— Dona Açucarada, a senhora é o máximo!
— Eu sei! Sou tão genial que às vezes nem eu me aguento!
— Mas que... chega, parem com essa gritaria! – Dagda exigiu, agarrando Dawn pelos ombros para que ela parasse de dar gritinhos e pulinhos com a aquela criatura tresloucada – Não há nada para se comemorar aqui!
— Como não, papai? A crise pode finalmente ser solucionada, estamos restabelecendo conexões com a Floresta Sombria e Marianne e Bog vão finalmente poder conversar e se entender!
— É exatamente isso que não merece ser comemorado. Como pode ficar feliz sabendo que sua irmã pode continuar estando presa a um relacionamento que só tem feito mal a ela?
— Feito mal? – Dawn repetiu, encarando-o com a boca escancarada – Como o senhor pode dizer isso? Ela nunca esteve tão feliz desde o fim do noivado com o Roland!
— É nisso que ela quer acreditar! Ela está cega por essa felicidade falsa e não quer enxergar todos os riscos que ela corre ao se relacionar com esse... esse monstro!
— Monstro? Felicidade falsa? – Ela repetia as palavras como se não conseguisse acreditar que as tivesse ouvido – Como o senhor pode afirmar essas coisas se nem parar para perguntar como a Marianne realmente se sente? O senhor acha que sabe mais sobre os sentimentos dela do que ela própria? Acha que a sua definição de felicidade é a única correta?
— O quê? Não, eu não quis-
— Não, papai! Já cansei dessa sua prepotência! – Ela gritou, os olhos azuis se enchendo de lágrimas, ao que Dagda deu um passo para trás em súbita culpa – O senhor fica aí, com o queixo empinado, achando que sabe de absolutamente tudo e que suas duas filhas são burras demais para o próprio bem delas! Você acha que só o seu modo de vida é o certo, que só a sua visão de mundo é adequada, e se alguém discorda, é ou por ser idiota ou por ser uma pessoa horrível! Se serve só ao senhor, então é perfeito e não precisa ser nem analisado e muito menos mudado!
Ele engoliu em seco, encarando sua caçula sem acreditar no que ouvia. Marianne é que era a mais bocuda das duas. Quando foi que Dawn se tornará tão rebelde?
— Mas quer saber, papai? O seu julgamento não é à prova de erros! O senhor achava que o Roland era o cavaleiro perfeito, o guerreiro mais capaz e o par mais adequado para a Marianne, e olhe só o que aconteceu! Ele nos traiu! Esfaqueou-nos pelas costas! Ele nunca amou a Marianne e nunca se preocupou em fazê-la feliz! – Ela engoliu em seco, as lágrimas escorrendo pelas bochechas – Mas advinha só! O Bog a ama e a respeita como o Roland, que você tanto idolatrava, nunca foi capaz de fazer! Ele é gentil, leal e só quer o que é melhor para ela! Ele se afastou pelo bem dela! O Bog que você chama de monstro, de silvícola, de animal! Os goblins que você acha selvagens e irracionais, mas que estão dispostos a nos ajudar a resolver esta crise! Eles são mais capazes de gentileza e civilidade do que muita gente da nossa espécie, que você considera tão superior!
As palavras duras de Dawn machucavam mais que chibatadas. Ser lembrado de seus erros era demais para seu coração velho e cansado. Ser o alvo da raiva de suas filhas, as duas coisas mais importantes em sua vida, era pior que qualquer ferida física.
— E não é só com eles que o senhor faz isso, pai! O senhor faz isso com o Sunny também! Eu sei que ele errou, sei que ele tem defeitos e que poderia ter agido melhor, mas o senhor não dá uma mísera chance para ele se redimir! Por quê? É realmente pelo delito que ele cometeu? Ou assim como ao Bog, o senhor o rejeita por causa do seu especismo? Ele automaticamente não é bom o bastante para mim só por ser um elfo? É isso, pai?
— Não! Dawn, eu-
— É por isso que nós estamos nessa situação! É por isso que começaram a espalhar histórias maldosas sobre castigos divinos e coisas que não se pode misturar! Esse separatismo e preconceito só serviram para nos dividir e agravar ainda mais essa crise! – As asas dela trepidavam agitadas, levantando-a do chão e fazendo-a encarar Dagda do alto. Ela nunca se parecera tanto com a irmã mais velha quanto naquele momento – Se nós não mudarmos nossa maneira de pensar, as coisas continuaram como estão e nunca seremos capazes de melhorar, de seguir em frente! É isso o que a Marianne tem tentado te dizer esse tempo inteiro, mas o senhor tem pavor de mudanças e prefere continuar em sua zona de conforto mesmo que isso leve nosso reino à ruína!
— Não, Dawn! Não fale do que você não sabe! Estive esse mês inteiro me exaurindo à procura de soluções para resolver todos esses problemas e salvar meu povo de uma catástrofe!
— Como? Deixando que essas histórias cruéis se espalhassem e plantassem o medo no povo? Ignorando o fato de que nós precisamos da ajuda dos goblins para combater esses predadores? Ignorando as cartas do Bog e todas as ofertas de ajuda que ele ofereceu só por não aceitar o relacionamento dele com a Marianne? Porque isso não ajudou em absolutamente nada, papai! Continuamos a ser atacados, a crise está longe de ser resolvida, estamos deixando que o medo do que é diferente nos impeça de fazer algo a respeito e o senhor só tem conseguido afastar suas filhas mais e mais! Nós queríamos poder contar com seu apoio, queríamos estar ao seu lado nesta época difícil, mas o senhor desdenha das nossas escolhas e não respeita nosso julgamento! É assim que você pensa em nos proteger? Trancafiando-nos, nos impedindo de aprendermos por nós mesmas e nos afastando de quem nós amamos? Não parou para pensar nem por um segundo que você pode acabar perdendo a nós duas com essas atitudes? Em como o senhor está sendo egoísta?
Depois disso, Dawn pareceu perder toda a vontade de continuar gritando. O silêncio que se seguiu na sala do trono retumbou, como se o mundo inteiro houvesse perdido a capacidade de produzir sons. Os guardas olhavam do rei para a princesa com expressões de choque e temor. Açucarada encarava Dawn com uma admiração genuína. E Dagda nunca parecera tão exausto e alquebrado. Mantinha a cabeça baixa e os olhos fechados, as rugas e linhas de expressão em seu rosto ainda mais acentuadas. Dawn nunca pensara em seu pai como um homem velho, mas naquele momento, ele lhe pareceu absolutamente centenário. Frágil. Talvez tenha sido por isso que ela parara de esbravejar.
Ele finalmente ergueu o olhar para ela. Não parecia zangado, ou mesmo que tivesse adquirido alguma determinação depois de seu discurso acalorado. Ele parecia meramente resignado.
— Guardas. – Ele disse numa voz monótona – Mantenham os olhos na Fada Açucarada. Não deixem que ela escape.
— Fica tranquilo, Big D, não vou a lugar algum. – Ela gracejou, mas ele não lhe deu atenção. Seu olhar estava focado inteiramente em Dawn.
— Venha comigo, querida. Há algo que preciso lhe mostrar.
Surpresa, ainda ofegando e com as bochechas molhadas pelas lágrimas, ela assentiu e pousou. Sem dizer uma palavra, Dagda marchou para fora da sala do trono, saindo pela porta dos fundos que dava para o corredor e a escadaria. Dawn o seguiu, perguntando-se para onde iam e se seria castigada por sua insolência. O palácio estava silencioso; o único som era o de seus passos ecoando pelos corredores de pedra. Seu pai não disse absolutamente nada durante toda a caminhada, e ela começava a ficar preocupada com sua expressão quase entediada. Subiram um último lance de escadas e saíram em um corredor ricamente decorado com pinturas e archotes. O corredor do gabinete real. A porta do aposento havia sido fechada, mas seu interior continuava igual à última vez que Marianne e ela estiveram ali: os papéis e documentos espalhados, os envelopes rasgados, a bandeja com a xícara de chá em cima da escrivaninha. Fechou a porta suavemente ao passar, e Dagda e ela se encontravam agora no centro do gabinete. Ele então se voltou para ela, unindo as mãos atrás das costas.
— Marianne e você leram todas as cartas que o Rei do Pântano enviou, eu presumo.
— Sim. – Dawn assentiu, um pouco surpresa com o rumo repentino da conversa.
— Vocês leram os papéis que já estavam espalhados pelo chão quando entraram no gabinete?
— Não, mas não é como se precisássemos. Eram mais cartas, não estou certa?
— Sim e não. – Ele se abaixou e apanhou um dos papéis aos seus pés, desamassando-o com desinteresse – Eu não menti para vocês quando disse que não li nenhuma das cartas do Rei do Pântano. Tenho meus defeitos, mas não sou bisbilhoteiro. Respeito a privacidade de vocês, mesmo que não acreditem.
— Então... Se essas não são cartas do Bog... – Dawn imitou o pai e apanhou outro dos papéis no chão. Ergueu os olhos para ele com uma expressão confusa. Ele gesticulou para o papel em suas mãos.
— Leia.
Ainda aturdida, mas repentinamente dominada pela curiosidade, Dawn se pôs a ler. Reconheceu de imediato a caligrafia elegante do pai e, por um instante, achou se tratar de um documento real. Mas assim que se deu conta do tipo de conteúdo contido no papel, sua boca se abriu num grande O. Leu avidamente até o fim, os olhos de Dagda nunca a deixando. Quando enfim terminou, ela levantou a cabeça e encarou o pai, seu bonito rosto de boneca tomado pelo espanto.
— Os outros papéis... também são iguais?
Ele assentiu tristemente.
— Deuses, papai... – Dawn balbuciou, os olhos mais uma vez inundados de lágrimas – Por que o senhor não nos disse nada?
— De que adiantaria, Dawn? Não mudaria o fato de que eu estava privando vocês duas de sua correspondência e que vocês se enfureceriam comigo.
— Mas isso muda tudo! – Ela exclamou, sacudindo o papel no ar – Nós achávamos que o senhor só se preocupava com o nosso lado da crise e que não dava a mínima para o sofrimento dos goblins! Como imaginaríamos... – Ela engoliu em seco, pondo a mão direita sobre a boca quando as lágrimas mais uma vez voltaram a cair – Como nós iríamos saber que o senhor esteve escrevendo para o Bog e oferecendo seu auxílio?
Dagda abriu um meio sorriso infeliz. Encostou-se rente à escrivaninha, os braços cruzados.
— Mediante a condições. Mas sim, era o que eu estava fazendo. – Balançou a cabeça – Não enviei nenhuma das cartas, como você deve ter notado. Eu simplesmente não sabia o que e como escrever.
— Mas o senhor nunca levou o problema dos goblins ao conselho. Nunca discutiu a pauta, quem fazia isso era a Marianne.
— Sua irmã vai ser um diabo de uma rainha um dia. O conselho que se cuide.
— Achamos que teríamos que tomar uma atitude nós mesmas. Achamos que o senhor não se importava-
— Deuses, o que Marianne e você pensam que eu sou? Um tirano desalmado? – Ele indagou impaciente, e sua expressão de mágoa genuína fez Dawn enrubescer – É claro que eu estava ciente dos problemas que o povo da Floresta Sombria enfrentava e é óbvio que eu sabia que não poderíamos combater os predadores sem o auxílio dele. Mas como eu disse a vocês inúmeras vezes, não posso tomar decisões definitivas sem a aprovação de pelo menos a maior parte do conselho. Não posso fazer o que eu bem entender só por ser rei. – Passou a mão direita pelo rosto, bufando em cansaço – Ainda assim, eu sabia que algo precisava ser feito, mesmo que eu tivesse que passar por cima do conselho. Foi aí que decidi que uma reunião particular entre monarcas poderia ser a melhor solução. Eu pretendia enviar uma carta em segredo ao Rei do Pântano e pedir para que nos encontrássemos em um ponto não patrulhado da fronteira. A ideia de voltar a me encontrar com ele depois do fiasco do Festival da Colheita não me era nem um pouco agradável, mas um bom líder precisa saber a hora de engolir o orgulho e fazer o que for preciso para garantir o bem-estar daqueles que estão sob seu comando.
— Então o senhor ia propor uma aliança ao Bog?
— Não. Proporia uma parceria temporária. Ele me ofereceria auxílio no combate aos predadores e eu ofereceria doações para que o povo dele não passasse fome e sede, pelo menos até a situação abrandar. Depois disso, cada reino seguiria seu rumo.
— Mas não é isso o que precisamos, papai. Precisamos de uma aliança real e duradoura, uma amizade sincera entre os dois reinos.
— Isso não é mais possível, querida. Eu tentei dar ao Rei do Pântano uma chance de provar que poderíamos forjar uma aliança sólida, mas ele atirou essa chance na lama ao zombar de nós com aquele presente abominável e dar uma demonstração absurda de selvageria.
— Eu tenho certeza de que a intenção dele não foi ofender. Goblins tem costumes diferentes dos nossos, talvez aquela seja a ideia que eles fazem de um presente adequado.
— E isso já não diz tudo o que precisamos saber, Dawn? Somos diferentes demais. Somos vizinhos, mas estamos a mundos de distância. Dia e noite, luz e escuridão, presas e predadores. Essa separação é a ordem natural das coisas. Sua irmã se recusa a enxergar e veja só até onde isso a levou...
— Argh, o senhor está fazendo de novo! – Dawn exclamou em frustração – Está outra vez apelando para essa ideia de “ordem natural das coisas” por medo de mudanças! Nós não podemos mais viver assim, papai, com medo do que é diferente, paralisados no tempo. Isso está fazendo mal para as classes mais simples também. Isso está fazendo mal para mim e para o Sunny, para a Marianne e para o Bog.
Dagda escondeu o rosto na mão, parecendo desolado.
— Por que vocês duas tinham que se apaixonar por pretendentes tão inadequados? Por que as coisas tem que ser assim tão complicadas?
— Somos nós quem temos que te perguntar isso. O único que está complicando as coisas é o senhor. Marianne e eu encontramos dois caras incríveis que nos amam por aquilo que somos, nos respeitam e querem nos fazer feliz. Nada poderia ser mais simples.
Ele suspirou pesadamente, olhando para o lado.
— Lembra-se de que eu disse que oferecia auxílio aos goblins mediante a condições? Eu exigiria ao Rei do Pântano que ficasse longe de sua irmã.
— Papai! – Ela bradou indignada. Ele mordeu o lábio inferior
— Você acha que eu sou uma pessoa horrível por isso? Acha... – Seus olhos verdes se encheram de lágrimas – Acha que eu sou um péssimo pai?
A visão de seu pai chorando deixou Dawn sem chão. O lábio inferior trêmulo, os olhos ardendo, ela caminhou até ele e passou os braços por sua cintura avantajada.
— Não, não acho. A Marianne também não acha. É só que... Pensamos que, às vezes, o senhor se preocupa mais com costumes e aparências do que com a nossa real felicidade.
Não teria doido tanto se as palavras dela fossem substituídas por um soco. Ele ofegou, enxugando as lágrimas com uma mão enquanto afagava as costas de Dawn com a outra.
— Não é por causa de aparências e costumes. Eu... Eu só não quero perder vocês.
— Eu não estou entendendo...
Ele repentinamente se voltou para trás, contemplando o enorme quadro atrás de sua escrivaninha. Seus olhos estavam cheios de um querer, de uma saudade tão intensa... como se ele desejasse que a mulher ali retratada saísse da moldura, que mostrasse outras expressões que não aquele eterno sorriso fantasma, que dissesse alguma coisa, qualquer coisa.
— Quando sua mãe morreu, eu acreditei que uma parte de mim havia morrido junto com ela. Fique... perdido por algum tempo. – Murmurou, parecendo perdido em contemplações. Dawn observou o retrato também, olhando para olhos azuis idênticos aos seus, emoldurados por mechas brilhantes de cabelos castanhos, para o sorriso meigo e elegante. Sua mãe, a Rainha Mab. O único amor na vida de seu pai, aquele que ele nunca fora capaz de esquecer ou substituir – O que me impediu de sucumbir totalmente à depressão foi vocês. Minhas duas filhas, meus tesouros mais preciosos. – Ele abriu um meio sorriso úmido – Nada era mais importante que ter vocês ali comigo. Nada. Mas eu sabia que, uma hora ou outra, vocês encontrariam seus companheiros e formariam as próprias famílias. Eu queria ser uma parte essencial em tudo isso. Foi uma das razões de eu ter dado total apoio ao relacionamento de sua irmã com Roland. Ele não era só charmoso, educado e um cavaleiro formidável. Ele era meu subordinado, alguém que eu pensava que conhecia e alguém que eu poderia manter sempre debaixo de minhas vistas, garantindo que Marianne estivesse sempre feliz e ao mesmo tempo a mantendo sempre perto de mim. Eu pretendia fazer o mesmo com você, encontrando uma boa fada de família nobre para ser seu marido. Claro que essa sua mania de namoradeira atrapalhou um pouco – Ele riu – Mas eu acreditei que era só uma fase. E então sua irmã terminou o noivado sem qualquer razão e se transformou naquela criatura cínica, amarga e agressiva. Você ficou livre para sair por aí paquerando. Vocês estavam se afastando mais e mais de mim e eu fui ficando desesperado. E foi aí que o Rei do Pântano apareceu e acabou de vez com todos os meus planos.
Dawn observou, espantada e arrasada, como os olhos de Dagda se encheram de raiva e pesar.
— Sunny não é o melhor partido do mundo, mas ele ao menos é um dos meus súditos e posso ficar sempre de olho nele. Ele me teme e, por isso, posso mantê-lo na rédea curta e consequentemente proteger você. Mas o Rei do Pântano é alguém de meu nível, um monarca com tanto poder e influência quanto eu. Não posso mandar e desmandar nele, não posso intimidá-lo, não posso garantir a segurança de Marianne quando ela está com ele. Ele pode estar até planejando leva-la para a Floresta Sombria permanentemente, leva-la para longe de nós, de mim. Se algo acontecer a ela, se aquele goblin se descontrolar como na noite do festival e a atacar...
— Ele não vai fazer isso. Bog jamais a machucaria, papai, já te disse isso milhares de vezes.
— Como pode estar tão certa? Você viu o que ele foi capaz de fazer, Dawn! Ele não só atacou a ela, como também a mim e a você!
— Bog não me atacou! Ele não tentou me morder ou me arranhar, só tirou a Marianne dos meus braços! E não sabemos o que ele estava tentando fazer com ela naquela hora, mas seja lá o que fosse, não piorou o estado dela, então não podemos tirar conclusões precipitadas. E sobre o que ele tentou fazer com o senhor... tudo bem, não vou negar que foi um ataque. – Ela admitiu com um quê de constrangimento – Eu sinto muito pelo o que houve naquela noite, papai. O senhor deve ter ficado tão assustado...
— Mais por vocês do que por mim. E não é você quem precisa sentir muito, Dawn.
— Eu sei. Mas sabe, é justamente por isso que uma reunião entre o Bog e o senhor poderia ser de grande ajuda. Vocês poderiam esclarecer muitas dúvidas, ele poderia se desculpar apropriadamente – não faça essa cara, papai, eu estou certa de que ele está arrependido! – e vocês também poderiam tratar da questão do relacionamento dele com a Marianne. Com ela presente, é lógico.
Dagda gemeu, passando os dedos por seus fios grisalhos e entortando a coroa em sua cabeça.
— Eu já expressei minha opinião sobre o assunto. Eu não aprovo. Eu simplesmente não consigo. Aquele... goblin é uma criatura totalmente desconhecida para mim, e sua irmã está se atirando de cabeça em algo que pode representar um sério risco de vida para ela. Se algo grave acontecer, eu não sei se estarei por perto para salvá-la. – Ele estremeceu ante a suposição, o rosto tão cheio de medo que Dawn sentiu seu peito se contrair dolorosamente – Podem dizer que sou superprotetor e controlador. Podem dizer que eu não tenho o direito de decidir com quem vocês passarão o resto de seus dias. Podem dizer que isso não é sobre mim, que estou sendo egoísta. Eu sei de tudo isso e não me importo.
— Pai...
— Não, Dawn. Vocês são jovens, ingênuas, então não entendem. – Ele voltou seu olhar torturado para ela, não mais o imponente e pomposo rei das fadas, mas sim um pai exausto e muito amedrontado – Eu já perdi a sua mãe. Não vou suportar se perder vocês também.
Ficar sem palavras era uma ocorrência extremamente rara para a princesa tagarela. Mas quem poderia culpa-la, quando tentar falar com um nó gigantesco obstruindo sua garganta era uma tarefa quase impossível? Agora que entendia todos os temores de seu pai, era impossível não se sentir solidária. O abraçou o mais gentilmente que pode, não se importando com o frio do metal de sua armadura. Dagda passou o braço direito por seu quadril e plantou um beijo carinhoso em sua testa. Os lábios dele estavam úmidos pelas lágrimas.
— O... O que faremos agora, papai? – A pergunta saiu de sua boca inesperadamente, parecendo não ter uma razão. Dagda foi capaz de compreender suas implicações, porém.
— Eu... tentarei reescrever e enviar a bendita carta. Pedirei por mais detalhes a Tristan e, se a comitiva de Adrian demorar demais, mandarei mais uma a procura deles. E por enquanto... vamos esperar por notícias de sua irmã.
A loirinha assentiu, fungando. No momento, era tudo o que poderiam fazer. Ela chamou uma das criadas e pediu por mais duas xícaras de chá, e quando já estavam razoavelmente confortáveis e abastecidos de bebida quente e reconfortante, ambos se sentaram próximos à escrivaninha e esperaram.
E esperaram. Esperaram. Quanto tempo, Dawn já não sabia mais dizer. O dia foi se arrastando inexorável, e em nenhum momento receberam sequer um sopro de notícia a respeito da comitiva ou do paradeiro de Marianne. Conversavam muito pouco, a preocupação e o medo obstruindo suas gargantas. Suas pernas e costas doíam, mas não se atreveram a deixar o gabinete. Logo o sol já estava se pondo, escondendo-se atrás do denso arvoredo que demarcava a fronteira, colorindo o céu em tons frios de violeta. A noite não tardaria. A inquietação de Dagda já atingira níveis estratosféricos. Se não recebesse nenhuma notícia nos próximos cinco minutos, ele mesmo montaria e lideraria uma bendita expedição. E foi naquele momento que três batidas surdas ecoaram na porta, acompanhadas de um grito.
— Majestade!
Pai e filha retesaram-se, tensos. Dagda se ergueu e ajeitou a coroa em sua cabeça, tentando se recompor. Pigarreou algumas vezes antes de falar.
— O que foi? Traz notícias? Se for algo sobre Marianne, diga de uma vez-
— Majestade, é urgente! – A voz o cortou, esganiçada pelo pânico – Recebemos notícias dos vigias na fronteira! São goblins, senhor! Uma horda enorme, vinda da Floresta Sombria em nossa direção!
— É a comitiva do Bog! – Dawn exclamou extasiada, mas a voz do outro lado a desmentiu.
— Não, Alteza, o Rei do Pântano não se encontra com eles! É um grupo totalmente desconhecido e aparentemente estão sendo liderados por dois goblins! Estão todos armados até os dentes!
O rosto de Dagda ficou assustadoramente branco.
— Avisarei à Guarda Real que se coloque em posição de marcha! Mande o mestre do estábulo selar meu esquilo! Partiremos para a fronteira imediatamente! – Ele se voltou para Dawn com uma expressão tempestuosa – Aconteça o que acontecer, não saia do palácio. Não estou brincando, Dawn. Não se atreva a me desobedecer.
— Mas papai-
— Chega! Não discuta! – Ele gritou imperiosamente, sobressaltando-a. Sem olhar para trás, Dagda rumou para fora do gabinete, o guarda que viera dar a notícia saindo de seu caminho para cumprir a ordem dada. Na sala do trono, o restante da Guarda Real já estava ciente dos acontecimentos. O rei das fadas deu a ordem oficial, e em poucos minutos todos rumavam para fora do palácio em direção aos estábulos. Com o nervosismo pairando sobre todos com uma nuvem de marimbondos, ninguém reparou que a Fada Açucarada discretamente deixou a sala do trono e flutuou escadaria acima.
Os minutos seguintes passaram num borrão. Antes que Dagda pudesse perceber, seus homens já o haviam ajudado a ajustar a armadura, tirar sua coroa, prender seu velho elmo em sua cabeça e a montar em seu fiel esquilo, um belo espécime albino. Bateu com as esporas de suas botas nos lados do animal e, com uma exclamação de comando, a cavalaria imediatamente se pôs em marcha. Um dos guardas mais atrás puxou um grande chifre ornamentado e o soprou, o som anasalado da trombeta anunciando a passagem da cavalaria do rei e alertando a todos nas proximidades que procurassem abrigo: o perigo estava próximo.
Quando Dagda enfim conseguiu avistar a raiz em arco que demarcava a fronteira, ele sentiu como se seu estômago tivesse se liquefeito. Os goblins haviam chegado antes dele, e havia dezenas. Dezenas, dezenas e mais dezenas. Ele nunca vira tantos goblins juntos em um mesmo espaço, nem mesmo nas duas ocasiões em que a comitiva do Rei do Pântano viera ao Reino das Fadas. Seus tamanhos eram variados, alguns tão pequenos quanto elfos, outros enormes como coelhos, mas todos exalavam auras selvagens e ameaçadoras, com presas afiadas e garras enormes, carregando lanças toscas, arcos e flechas e porretes cravejados de espinhos. E o pior: eles já pareciam ter rendido todos os vigias.
— Olha só, pessoal! A cavalaria chegou! – Um dos goblin mais à frente, aparentemente um dos líderes exclamou, e todos os outros responderam com gargalhadas e uivos animalescos. O que falara tinha uma voz estranhamente aguda; Dagda só podia supor que se tratava de uma fêmea. Ela carregava um porrete na mão direita e, na esquerda, erguia acima do chão um dos pobres elfos que trabalhava como vigia, seus dedos firmes em torno do pequeno pescoço.
— Alto! – Ele ordenou ao erguer o braço direito, e a cavalaria imediatamente parou atrás dele. Desembainhou sua espada e a apontou para a goblin – O que significa isso? O que pensam que estão fazendo, adentrando o domínio do Reino das Fadas sem prévio aviso e ainda por cima atacando meus homens? – Ele rosnou enquanto observava o elfo dependurado e totalmente inerte, rezando para que ainda estivesse vivo. Havia mais guardas e vigias aos pés dos invasores, claramente desacordados, alguns com pedaços de armadura faltando, outros muito ensanguentados. Trincou os dentes quando o outro goblin, um macho, riu debochado.
— O que lhe parece, fadinha? – Ele ergueu o queixo papudo em desafio, e Dagda pode ver claramente o horrível hematoma que tomava toda a sua garganta. Parecia ter o formato de um punho, mas não tinha certeza.
— Uma invasão, é isso o que parece. – Ele grunhiu, fazendo um sinal para que os guardas mais atrás se preparassem – Já adianto que não terão sucesso. Estão em território totalmente desconhecido e em clara desvantagem numérica. Digam-me seu propósito e, se se retratarem, deixarei que partam sem maiores problemas.
O grupo invasor explodiu em gargalhadas que fizeram a espinha do velho rei gelar. A fêmea atirou o elfo ao chão sem a menor cerimônia e sacudiu a clava num gesto displicente.
— Acho que você não entendeu, colega. Não estamos aqui para declarar propósitos, fazer acordos nem nada do tipo. Estamos aqui para fazer exigências.
— Exatamente. Diga a seus homens que larguem as armas e se rendam!
Os guardas imediatamente assumiram poses tensas, os arqueiros já com flechas preparadas, só esperando pelas ordens do rei.
— Que audácia. Invadem meu reino, atacam meus homens e ainda acham que estão em posição de exigir alguma coisa? Quem pensam que são?
— Se está tão interessado, velhote, então lhe diremos. Sou Bane, e esta é Arnica. Somos os líderes de clãs da Floresta Sombria. – O macho fez uma reverência sarcástica – Como você deve saber, nossa Floresta tem sido assolada por uma crise de grandes proporções. Estamos em enorme falta de água limpa e alimentos. Estamos perecendo aos montes.
— Estou ciente. Se este é seu problema, então garanto que poderemos chegar a um consenso de maneira pacífica. Retratem-se, digam a seus guerreiros que baixem as armas e poderemos discutir a questão calmamente-
— Você está caducando ou o quê? Já dissemos, não viemos aqui para negociar. Somos goblins, e quando queremos alguma coisa, nós simplesmente a tomamos. – A fêmea arreganhou as presas ameaçadoramente – Deem-nos todo o seu estoque de alimentos e de água potável, e rápido! Se não obedecerem, mataremos vocês e cada fada, elfo, pixie e brownie que encontrarmos pelo caminho!
Dagda sentia o suor frio escorrendo por debaixo de sua armadura. Lembrava-se claramente da noite em que o contingente do Rei do Pântano invadira seu reino, como seus homens não puderam fazer nada contra os terríveis goblins. Se um confronto estourasse, ele duvidava que a maior parte de sua guarda sobrevivesse, ou mesmo ele. Engoliu em seco. Não era hora de se preocupar com sua segurança. Era um rei e tinha obrigações para com seu povo, e uma delas era lutar pelo bem-estar dele mesmo que fosse a última coisa que fizesse.
— Então temos um problema, senhores. Não pretendo entregar nada a vocês sem que haja um acordo. Sinto que as coisas tenham que chegar a esse ponto, mas se é guerra que vocês querem... FOGO!
Os arqueiros já esperavam pelo comando repentino. Flechas zuniram pelo ar, certeiras e letais, muitas delas atravessando o couro resistente dos goblins invasores. Eles urraram em dor e fúria, sangue vertendo de suas feridas, mas como Dagda temera, aquilo não foi o suficiente para detê-los.
— ATACAR!!! – Bane e Arnica bradaram juntos, e a enorme horda de goblins avançou num tropel ensurdecedor. O rei das fadas deixou escapar seu próprio grito de guerra, erguendo sua espada no ar. Comandou que metade do grupo recolhesse os feridos e que a outra metade o acompanhasse, liderando o ataque logo em seguida.
Os dois grupos se chocaram, e Dagda logo viu que todas a sua coragem e resolução não o ajudaria a ganhar um combate contra aqueles monstros tão mais fortes e imparáveis. Não era mais um rapaz, o príncipe audacioso que fora um dos melhores espadachins de sua época. Estava velho, cansado, dolorido. Nem sequer era mais capaz de voar. O embate feroz soava ao seu redor, ensurdecedor; ele via seus homens caindo de suas montarias, alguns sendo pisoteados pelas próprias, outros sendo imediatamente atacados pelos goblins. Alguns eram capazes de lutar e se defender, os mais jovens e ágeis. Não ele. Nunca ele.
Conseguiu atingir um goblin parrudo no ombro, sua lâmina se enterrando em suas escamas. Golpeou a garganta de outro, não parando para ver se o havia matado. Ouvia gritos, lamentos. Havia sangue para todo lado. Flechas continuavam a zunir, de que lado, ele não sabia. A adrenalina não abrandou em nada sua fadiga. Um terrível espasmo de dor o atingiu na espinha e ele gritou em agonia. Malditas câimbras. Sua montaria esbarrou em alguma coisa dura. O esquilo se empinou, guinchando, e ele foi atirado para o ar. Suas asas trepidaram inutilmente. Bateu no chão, seu corpo velho chacoalhando dentro da armadura. O ar lhe faltou, a dor da queda lancinante. O peso de sua armadura o manteve preso ao chão, pesado como um pedregulho. Tonto, exausto e sofrendo com dores quase insuportáveis, ele não foi capaz de lutar quando um enorme punho se fechou ao redor de seu pescoço e o ergueu acima do solo. Viu os olhos avermelhados do macho que se chamava Bane, suas presas irregulares e imundas arreganhadas num sorriso triunfante.
— E o grande rei caiu. Fácil que nem roubar favos de mel. – Ele rosnou, fazendo troça – E então, Majestade? Vai ordenar aos seus homens que se rendam?
Tudo o que saiu de sua garganta foi um som gorgolejante, abafado, mas não menos feroz. O goblin balançou a cabeça.
— Então está selado seu destino. Vamos acabar com toda essa joça, matar a todos os seus súditos e tornar estas terras propriedade da Floresta Sombria. O Rei do Pântano é um fracote molenga, mesmo. Recusando-se a invadi-los quando fazê-lo era tão simples... – Ele agarrou a perna direita de Dagda com o punho livre, puxando com força e fazendo-o gritar – E então, por onde eu devo começar? Arranco suas pernas, seus braços ou a sua cabeça? Ou quem sabe prolongo a diversão um pouco mais e começo por suas asinhas...
Dagda já não o ouvia. Os sons, as imagens diante de seus olhos, o cheiro de morte: tudo estava se apagando, escurecendo. A consciência lhe fugia. Num momento de absoluto egoísmo, ele sentiu que não poderia ficar mais grato. Só lamentava que fosse morrer assim, de maneira tão degradante, indigna de um rei, longe de suas filhas. E prestes a se deixar sucumbir, o abismo da inconsciência a apenas gloriosos segundos de distância, tudo em que ele conseguia pensar era nos rostos de Marianne e Dawn.
“Me perdoem, meninas. Eu amo vocês.”
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