Garras e Presas
14 Capítulo 14
Notas iniciais
Girando a cabeça em diversos ângulos e soltando um longo suspiro dramático, Roland contemplou com desgosto o seu reflexo na superfície do riacho. Deuses, o estado de seu cabelo, outrora sedoso e magnífico, estava de dar piripaques! Seus cachos estavam sujos, oleosos e cobertos de folhas secas e galhos espinhosos que machucavam seu couro cabeludo. E isso não era tudo. Seu rosto de querubim estava pálido e decorado com escoriações e arranhões próximos à linha da mandíbula, coberta com uma barba por fazer que pinicava ao ponto de quase enlouquecê-lo. Suas roupas estavam imundas, rotas e exalavam um forte odor de suor acumulado. Seu estômago soltou um longo e profundo ronco, queixando-se de seu vazio.
Como é que ele, o mais extraordinário cavaleiro a agraciar o Reino das Fadas com sua presença e aquele que deveria estar sentado no trono, ostentando uma esplendorosa coroa em sua cabeça, acabara naquela situação?
Era tudo culpa daquele maldito Diabinho! Se não o tivesse seguido até o conjunto de quedas d’água e descoberto seus planos, nada daquilo estaria acontecendo! Supunha que deveria ter sido mais cuidadoso e ter apagado seus rastros, mas contara com sua habilidade de zanzar por aí sem ser notado e acabara vacilando. Bem, o que se podia fazer? Ele não tinha culpa por possuir tal beleza e ser incapaz de passar despercebido. Mas aquele animal imundo precisara saltar sobre sua cabeça e quase lhe escalpelar? Precisara obstruir seu campo de visão, fazê-lo pisar em falso e cair por quase dez metros de altura até o leito duro do riacho? Ele perdera todas as sementes de amoras de outono que conseguira juntar e agora não podia mais voar até a nascente! Mal conseguia escapar do olfato aguçado e dos olhos certeiros do gato do mato! Oh, como ele seria capaz de encarar seu precioso botãozinho de rosa agora?
Fechou os olhos e respirou fundo, procurando se controlar. Águas passadas não movem moinhos, lembrou a si mesmo. Você é esperto e sabe improvisar. Ainda é possível contornar essa situação. Pense em seu pãozinho de mel, em como ela ficará feliz quando oferecer a ela prestígios e riquezas com os quais ela sequer sonhara. Mas primeiro precisava focar em despistar o gato do mato e encontrá-la. Ela adorava se esconder dele, a danadinha.
Isso, Roland, visualize. Visualize você e sua adorada mosquinha sentados juntos na sala do trono, na fortaleza da Floresta Sombria. Veja-a radiante com uma coroa enfeitando aquela cabecinha redonda e perfeita. Rei Roland e sua amada rainha, desfrutando juntos dos prazeres da vida aristocrática. Sim, sim, ele precisava visualizar. Visualizar, visualizar, visuali-
— ROLAND!!!
O ex-capitão da Guarda Real deu um salto de meio palmo do chão, voltando-se de imediato e erguendo a cabeça. Um borrão vermelho e violeta vinha voando por entre as árvores na velocidade de um relâmpago, acompanhado do brilho frio e letal de uma lâmina preparada para o abate. Gritando estridente, ele se atirou para o lado a tempo de evitar o golpe certeiro da espada.
— EU VOU MATAR VOCÊ, SEU MONTE DE ESTERCO!!!
Seu rosto ficou, se é que isso era possível, ainda mais pálido. Avultando-se sobre ele como o próprio demônio, estava uma Marianne que parecia não caber em si de tanta fúria. Seus dentes arreganhados quase pareciam presas sob as sombras densas do arvoredo. Arrastou-se para o mais longe possível dela, tentando não deixar que seu pavor transparecesse enquanto procurava abrir o sorriso sedutor que já o tirara de inúmeras enrascadas.
— Marianne! Ora, mas que surpresa agradável. Está simplesmente radiante.
— Corte o papo furado, seu galãzinho de fundo de quintal! – Ela rosnou, avançando ferozmente para ele e sentindo um prazer absolutamente selvagem ao vê-lo engolir em seco e se encolher – Você sabe muito bem o porquê de eu estar aqui.
— Para implorar por meu perdão e por meu amor, eu presumo. Bem, docinho, agora é um pouco tarde. – Desconversou zombeteiro. Marianne jogou a cabeça para trás, gargalhando incrédula.
— Deuses, o tamanho do seu ego é diretamente proporcional ao da sua imbecilidade. Não vim aqui para perder meu tempo com seu falatório insuportável, mas sim para arrancar umas respostas. E você vai dá-las a mim, nem que seja na base da porrada. – Agarrou-o pela gola rota da camisa, puxando-o para perto até seus narizes quase se tocarem – Desde quando você tem se esgueirado até aquela nascente para contaminá-la com sementes de amoras de outono?
Roland precisou usar de toda a sua habilidade de atuação para não deixar seu choque transparecer. Como ela descobrira? Quem havia contado? Será que o Rei do Pântano também já sabia de suas intenções e estava naquela instante em seu encalço, preparando-se para esmagar sua cabeça com aqueles punhos enormes e mortíferos? Ele sinceramente não sabia qual dos dois preferia enfrentar, se o rei dos goblins ou sua ex-noiva agressiva e rancorosa. Procurou dissimular seu nervosismo ao dar de ombros.
— Juro que não sei do que está falando. Dói-me vê-la fazendo acusações sem nenhuma prova, ainda mais considerando que essa é a primeira vez que nos vemos em meses.
— Nenhuma prova, é? E o que é que você me diz disso? – Ela quase esfregou em sua cara a pelota enlameada e fedida. Roland fez um som enojado e cuspiu.
— Uma pelota de coruja? Pelos deuses, bombonzinho, não é adequado para uma princesa sair por aí brincando com essas coisas.
— Isso é o seu cabelo, sua ameba! O cabelo que o Diabinho conseguiu arrancar dessa sua cabeça descerebrada e que eu deveria fazer você engolir!
Roland praguejou em pensamentos. O quanto ela sabia, afinal?
— Agora já era. Eu te peguei com as calças na mão!
— Que escolha de palavras interessante. Você quer me ver com as calças arriadas, Marianne? Eu não a culpo, afinal, você não é a primeira-
O punho direito de Marianne conectou-se violentamente contra suas costelas. Todo o ar fugiu de seus pulmões, o grito de dor preso em sua garganta. Emborcou para frente, abraçando o tronco com os braços e tossindo violentamente, um bocado de saliva escorrendo de sua boca e pingando de seu queixo. Que hora para lembrar-se do quão demolidor era o gancho de direita da herdeira do trono.
— Poupe-me dos seus comentários nojentos. Passei anos precisando fingir que via alguma graça neles. – Ela grunhiu, agachando-se e encarando-o com os olhos cheios de repulsa – Dê-me logo as respostas que eu quero e eu posso até pensar em não te esfolar vivo.
— Antes de tudo, me responda uma coisa. Só a título de curiosidade, como conseguiu me encontrar?
— Seu fedor de suor, ranço e Poção do Amor é um rastro bem fácil de seguir, ainda mais para o olfato do Diabinho.
— Você prefere confiar naquele ratinho imundo e mequetrefe do que no seu bom senso? Que pena, Marianne. Eu achava que você fosse mais esperta do que isso. – Deixou que seus olhos vagassem a esmo, focando-se num ponto acima do ombro da princesa – Oh, por que não tiramos essas dúvidas com ele, agora que ele acabou de chegar?
Marianne voltou-se para trás num reflexo, surpresa. E Roland aproveitou seu momento de distração para se apoiar nos cotovelos e mirar um chute certeiro em seu estômago, fazendo-a cair no chão de costas. Ela gritou de espanto e fúria, sacudindo-se enquanto tentava se erguer.
— Filho de uma-
Apanhou sua espada que havia caído ao seu lado e se levantou a tempo de ver Roland disparando por entre o matagal como se o próprio diabo estivesse em seu encalço. Correu atrás dele, só parando para se perguntar o porquê de ele não estar voando segundos depois.
— Marianne! – Ela ouviu Sunny gritar em algum ponto mais atrás. Aparentemente o grupo conseguira alcançá-la durante o tempo em que ficou batendo um papo com seu ex-noivo. Bog não deveria estar muito longe, provavelmente já seguindo a trilha de Roland e bastante zangado por ela tê-lo deixado para trás em sua pressa de ir tirar satisfações com o idiota que voltava a lhe causar problemas. Não havia tempo para se desculpar, porém. Roland era um imbecil, mas era incrivelmente bom em apagar seus rastros e se manter incógnito. Se perdesse sua trilha, seria um sacrifício achá-la depois.
Sua aparente recusa em voar tornava as coisas mais fáceis, embora Marianne desconfiasse que pudesse se tratar de uma armadilha. Precisava ficar de olhos abertos e ouvidos atentos. Logo pode ver as costas do ex-capitão da Guarda Real e, ao se aproximar, viu o ângulo estranho em que a asa direita dele se fechava. Subitamente compreendeu.
Ofegando e xingando alto, Roland tentou apressar o passo. Se Marianne o apanhasse, ela lhe daria uma surra que até seus futuros descendentes sentiriam. Olhou para trás por um segundo para se certificar de que estava a uma distância segura e, quando voltou a atenção para o caminho a frente, deu de cara com uma muralha maciça de escamas ásperas e pontiagudas. Soltou um berro de congelar o sangue ao se ver cara a cara com o Rei do Pântano, parando de chofre e quase perdendo o equilíbrio.
— Onde é que você pensa que vai, seu saco de lixo voador?! – O terrível goblin rugiu. Se a fúria de Marianne era assustadora, a do monarca da Floresta Sombria era provavelmente a coisa mais aterrorizante que ele já vira na vida. A pesada pedra de âmbar na ponta do cetro se conectou brutalmente com seu flanco direito, atirando-o para o lado. Roland gritou de dor enquanto se encolhia feito uma bola no chão. O desgraçado do goblin devia ter quebrado pelo menos duas de suas costelas com aquele golpe, tinha quase certeza. Ofegou ao sentir o pé maciço sobre suas costas, mantendo-o preso no chão, cruelmente ignorando o fato de que o gesto piorava ainda mais sua dor. Guinchou de agonia, quase não ouvindo a exclamação de Marianne.
— Bog! Não precisa fazer isso!
— Se eu não fizer, ele vai acabar fugindo outra vez!
— Não vai! Não percebeu que ele nem sequer estava tentando voar? A asa direita dele está quebrada.
O loiro choramingou de alívio quando a pressão em suas costas imediatamente sumiu. Como que para confirmar a observação de Marianne, sua asa esquerda trepidou como uma folha atingida pela brisa, enquanto a direita permaneceu paralisada naquele mesmo ângulo esquisito. Roland imediatamente contorceu suas belas feições na melhor expressão de desamparo que conseguiu conjurar, erguendo os olhos verdes para os dois valentões.
— Vocês não machucariam uma pobre alma ferida e desarmada, machucariam? Eu não posso escapar e muito menos defender-me, continuar com essas agressões seria covardia.
— Fale mais sobre covardia, Roland. Você é que é o perito nesse departamento. – Marianne grunhiu em escárnio, voltando a se aproximar dele com a espada em punho. Bog imediatamente esticou o braço direito na frente dela, bloqueando sua passagem.
— O que está fazendo? – Ela indagou com impaciência.
— Não quero você se aproximando dessa sanguessuga. Já vi o que ele é capaz de fazer quando se sente acuado.
— Não seja ridículo! Ele não tem chance nenhuma contra mim, quanto mais contra nós dois juntos.
— Prefiro não arriscar.
— Eu sei cuidar de mim mesma!
Bog rosnou para ela, nervoso e indeciso. Sua parte racional sabia que não havia porque temer pela segurança de Marianne; Roland não estava armado, e mesmo que estivesse não seria páreo para ela no mano a mano. Mas sua parte irracional e protetora não a queria nem a cinquenta metros de distância do desperdício de cromossomos que já tentara drogá-la com uma Poção do Amor.
Roland assistia a discussão, perguntando-se se poderia tirar alguma vantagem da superproteção do goblin. Se aproveitasse a distração deles, desarmasse Marianne e a usasse como refém, o mostrengo faria qualquer coisa para salvá-la. Quem sabe até lhe entregaria o que ele queria...
— Sir Roland!
O ex-capitão da Guarda Real arregalou os olhos ao reconhecer as vozes de... quais eram mesmo os nomes deles? Rico e Edmundo? Rivaldo e Edgar? Só sabia que eram membros da Guarda Real. Imprecou contra os deuses e a injustiça de tudo aquilo ao vira-se e se deparar com a bizarra comitiva que vinha abrindo caminho pelo matagal denso até eles. Os goblins a serviço do Rei do Pântano mais a bruaca velha que era a mãe, os dois zes-ninguém da Guarda Real e o conselheiro Adrian e dois elfos montados nas costas daquela lagartixa superdesenvolvida. E na frente da caravana estava o maldito demônio peludo que era a causa de todas as suas desventuras.
— Ora, ora, olhe só quem resolveu aparecer. – Comentou com descaso – Vieram se divertir com a desgraça alheia? Ou trouxeram esse farejador imundo para que ele termine de me escalpelar?
O Diabinho arreganhou os dentinhos afiados para ele. Roland encarou o grupo a procura de uma brecha por onde pudesse escapar até fixar a atenção em um dos elfos. Reconheceu-o depois de alguns segundos.
— E olhem só, se não é o Sammy.
— É Sunny!
— Que seja. Você não vai deixar que me façam mal, vai? Somos parceiros, afinal. Se não fosse por minha orientação, você não teria conseguido por as mãos na Poção do Amor e não estaria hoje nos braços de sua amada Dawn.
Sunny corou e abaixou os olhos, subitamente envergonhado.
— Não coloque o Sunny no seu balaio. – Marianne o advertiu – Vocês não são nada parecidos, ainda mais agora, depois de todas as suas ações traiçoeiras.
— Que ações traiçoeiras? Acho que não estamos falando a mesma língua, Marianne...
— Quer que eu exemplifique? Então vamos lá: você manipulou o Sunny, convencendo-o a roubar uma Poção do Amor. Manipulou meu pai e toda a equipe de expedição que foi até a Floresta Sombria, convencendo-os de que eu não seria capaz de dar conta do recado. Aproveitou-se de um momento de fraqueza meu para tentar me drogar. Colocou uma lâmina contra o pescoço da Dawn quando Bog e eu te acuamos.
— Ordenou aos seus asseclas que demolissem minha fortaleza, quase matando a todos que estavam lá dentro. Quase me matando. – Bog entrou no embalo, encarando Roland com puro asco – Tentou capturar Marianne. E como se isso não bastasse, tentou drogá-la com a Poção do Amor mais uma vez.
— Hunf. Teria funcionado se ela não tivesse resolvido se apaixonar por você, sua barata mutante...
— Fale assim de novo e te damos de comer ao Brutus! – A princesa vociferou, e Roland empalideceu ao ver o enorme goblin lambendo os beiços.
— E aparentemente nem tudo isso bastou, nem quando o Rei Dagda lhe deu uma punição mais leve que o merecido. – Adrian se manifestou – Descobrimos que é você quem esteve contaminando a nascente do rio que corre pela Floresta Sombria e pelo Reino das Fadas.
— Eu não fiz isso! Vocês não podem provar!
— Oh, nós podemos. Temos testemunhas. – Griselda indicou o Diabinho com um aceno de cabeça – E você, da cabeça engordurada, vai descobrir que as leis vigentes aqui na Floresta são muito mais severas que as de seu reino de origem. Banimento não é o bastante, oh não. Banimento vai parecer fichinha perto da sua sentença final, não é, querido?
— Certamente. – Bog concordou rispidamente – A sentença para alta traição é a execução pública por minhas mãos.
A comitiva explodiu em exclamações alteradas. Roland só ouvia zumbidos, porém: a perspectiva de ser morto na frente de uma multidão e pelas mãos impiedosas do Rei do Pântano lhe aterrara a níveis indescritíveis. Lutou contra o pânico que ameaçava seu pensamento coerente, seus olhos procurando alucinados por qualquer brecha no cerco que possibilitasse sua fuga. Viu então que Marianne e o goblin estavam de costas para o que parecia ser uma ribanceira, o chão da Floresta se inclinando na diagonal e parecendo sumir diante de seus olhos. Considerou suas opções rapidamente enquanto seus algozes discutiam ao seu redor.
— Sir Roland pertence à jurisdição do Reino das Fadas e, portanto, é o Rei Dagda quem deve decidir sua punição! – Ricard decretou e Edwin assentiu ao seu lado.
— Mas ele foi apanhado cometendo o crime em nossas terras, portanto quem decide a punição dele é o nosso rei! – Stuff protestou, ao que todos os goblins rosnaram em concordância.
— Mas ele cometeu crimes contra nossas princesas, portanto contra o nosso reino como um todo!
— E ele tentou matar o nosso rei, para não falar no crime contra nosso povo e nosso habitat em si!
— O crime em questão afetou o Reino das Fadas também!
— Mas nós fomos muito mais prejudicados!
— Quietos! – Marianne e Bog gritaram juntos, ao que os demais imediatamente se calaram.
— Não importa quem saiu mais prejudicado aqui! O que interessa no momento é que finalmente descobrimos a causa da crise e apanhamos o culpado! – A princesa proclamou enquanto se voltava para seu companheiro – A punição dele pode ser decidida depois em conjunto. Mas uma coisa é certa: devemos levá-lo até o Reino das Fadas para que ele revele toda a verdade ao meu pai e ao restante do reino. Vamos acabar com essa história ridícula de castigo divino de uma vez por todas.
— Concordo. Os outros clãs da Floresta também devem ser informados de nossa descoberta.
— De um jeito ou de outro, é minha obrigação formalizar a sentença provisória. – Adrian determinou enquanto estufava o peito e encarava Roland, que havia se erguido nos joelhos e fixava os olhos num ponto qualquer entre as pernas de Bog – Sir Roland, pelo crime de alta traição e atentado deliberado contra os povos de ambos os reinos e ambas as famílias reais, eu o declaro culpado e o sentencio a-
Sem mais nem menos, Roland jogou todo o peso do corpo para frente, colidindo violentamente contra as pernas de Bog, que perdeu o equilíbrio e caiu de costas junto ao loiro.
— Bog! – Marianne gritou, tentando ampará-lo, mas já era tarde. O Rei do Pântano e o ex-capitão da Guarda real rolaram ribanceira abaixo, levantando nuvens avermelhadas de terra, gritando e xingando alto. Griselda e os goblins exclamaram em alarme e Sunny, Pareh, Ricard e Edwin soltaram palavrões.
Bog praguejou alto ao bater as costas contra o chão nivelado, seu cetro escapando de suas mãos. Conseguia ouvir Marianne, sua mãe e os outros chamando por ele no alto, mas suas atenções estavam fixas na fada que gemia de dor ao seu lado. Rosnou encolerizado e tentou avançar para ele, mas Roland já estava preparado. Apanhou um punhado de terra e atirou-o contra o rosto de Bog, que rugiu em raiva e agonia quando os grãos entraram em seus olhos.
— Inferno sangrento!
Suas córneas ardiam e se enchiam de lágrimas, dificultando sua visão. Sentiu as vibrações no solo quando Roland se ergueu e disparou para longe dele ao mesmo tempo em que ouvia o farfalhar inconfundível das asas de Marianne se aproximando.
— Bog! Você está bem?
— Estou! Vá atrás dele, não deixe que escape!
Marianne assentiu e disparou atrás do fugitivo com a espada em riste. Bog se sentou e esfregou os olhos, soltando uma torrente de impropérios. Foi quando ouviu a voz de sua mãe gritar mais atrás, alarmada:
— Bog! Como pode deixar Marianne prosseguir? Não está sentindo o cheiro?
Foi então que ele parou para se atentar ao aroma intenso que lhe assaltava as narinas, mas que não chamara sua atenção inicialmente por conta da distração. Congelou no lugar, os olhos se esbugalhando em descrença e súbito temor ao finalmente se dar conta de onde estava.
— Marianne! – Gritou do topo dos pulmões – Pare! Você precisa sair daí!
Marianne estreitou os olhos, confusa. Por que ele a estava mandando parar logo depois de lhe dizer para não deixar Roland fugir? Balançando a cabeça, disparou velozmente na direção do fujão, alcançando-o rapidamente com a vantagem das asas. O loiro gritou quando ela o agarrou pelos ombros e se atirou sobre ele, prensando-o com firmeza no chão da Floresta. Grunhiu quando ele tentou se debater, aplicando ainda mais força nos braços.
— Desista! Você não pode fugir de mim!
Roland voltou-se para ela, tentando esconder o pavor com um sorrisinho sardônico.
— Ora, docinho, seu desespero é comovente. Arrependeu-se de ter me trocado por aquele projeto de louva-a-deus e quer reatar comigo? Sinto desapontá-la, mas a fila andou. Eu agora tenho minha adorada mosquinha e não preciso de mais ninguém.
Revirando os olhos, Marianne preparou-se para erguer o cabo da espada e acertar a cabeça de Roland com o pomo. Foi então que um súbito formigamento na nuca e um espasmo de sua orelha direita fizeram seus instintos aflorarem. Se não houvesse aprimorado sua habilidade em antecipar ataques furtivos, ela provavelmente não teria sido capaz de se salvar do que veio a seguir.
Jogou-se para trás no instante em que um objeto pontiagudo cortou o ar com um zunido e se cravou no solo, bem no ponto onde suas costas estiveram no segundo anterior. Roland soltou um grito agudo e se encolheu numa posição fetal. De olhos esbugalhados, Marianne instintivamente empunhou a espada em uma instância defensiva ao mesmo tempo em que encarava a flecha espetada no chão.
— Você! Fada! – Uma voz possante vinda do alto a fez se sobressaltar – Largue a espada e erga as mãos onde possamos vê-las!
Erguendo a cabeça, Marianne ofegou estupefata ao ver que Roland e ela estavam completamente cercados. Havia dezenas e mais dezenas de goblins ao seu redor, saídos por entre os arbustos ou pendurados nos galhos mais baixos das árvores, rosnando e arreganhando os dentes ameaçadoramente, os olhos estreitados em desconfiança e malícia. Alguns estavam armados, segurando arcos já com flechas preparadas para serem atiradas ou equilibrando entre os lábios pedaços compridos de bambu, os furos escuros mirando entre seus olhos. Zarabatanas, cujas munições provavelmente estavam embebidas em veneno.
Deuses, como ela não percebera a presença deles antes? Estivera assim tão distraída em seu empenho em recapturar Roland? Ou aqueles eram os goblins mais ariscos e furtivos que já vira na vida? De um jeito ou de outro, sua imprudência lhe pusera numa tremenda enrascada. Praguejou baixinho, ainda segurando a espada e mantendo os olhos pregados no cerco acima.
— Senhores! Que prazer em vê-los! – Roland exclamou de repente – Não poderiam ter chegado em melhor hora! Essa louca esteve prestes a me matar! Muitíssimo obrigado por terem me salvo, prometo que serão bem recompensados-
— Fecha a matraca, mariposinha, ou eu mesma vou aí e a fecho para você! – A voz possante de antes voltou a gritar. Marianne chegou a ouvir o estalo da boca de Roland se fechando. O goblin que falara saltou quase graciosamente de um dos galhos mais altos da árvore mais próxima, pousando no mais perto do chão. Agora mais próxima e longe das sombras, a princesa viu que se tratava de uma fêmea, provavelmente a líder do grupo. Ela grunhiu com desagrado ao pousar os olhos em sua espada.
— Você é surda? Eu a mandei largar a espada e erguer as mãos!
— Eu não sei quem você é, mas certamente não é alguém com cacife para dar-me ordens. – A fada respondeu com petulância. Talvez fosse estupidez de sua parte bancar a audaciosa quando estava em clara desvantagem numérica, mas não estava com a menor vontade de abaixar a cabeça para aquela goblin fanfarrona.
— Ora, a fadinha é bem corajosa. Ou bem estúpida, dependendo do ponto de vista. – Ela respondeu com zombaria – Para o seu governo, você e o miolo-mole aí estão neste instante pisando no território pertencente ao clã dos rochedos. Meu território, que vocês adentraram sem serem convidados.
— Este território, bem como toda a extensão da Floresta Sombria, pertence ao Rei do Pântano. E ele certamente não verá problemas em dar-me o passe livre, a não ser que você queira discutir a questão com ele. – Marianne sondou na esperança de intimidá-la. Viu que seu plano havia falhado, porém, quando a goblin soltou uma gargalhada. Os demais a acompanharam.
— Você não sabe mesmo como funcionam as nossas leis, não é, borboletinha? Cada território é governado por um alfa que controla tudo e toma todas as decisões. Nem o Rei do Pântano mete o bedelho em assuntos dos domínios de outros goblins. Você e o cabeça-de-traça aí estão por conta própria. E pelo que eu estou vendo, você está inclusive disposta a desafiar minha autoridade. Quer tomar meu território?
— Hein? Eu não tenho interesse nenhum no seu território!
— Então por que está nessa posição de ataque? Por que está apontando essa espada para mim?
— Como “por que”? Vocês me atacaram primeiro! – Marianne vociferou, impaciente e nervosa com o rumo que as coisas estavam tomando.
— Te atacamos porque você é uma invasora, e que até o momento não especificou as razões para o ser. Seu namorado resolveu bancar o engraçadinho ao decidir me desafiar e você foi na onda dele?
— Ele não é meu namorado! – Ela protestou nauseada. Foi então que se lembrou das razões de estar ali e de quem aquela golbin alegara ser. Se ela era uma alfa, então certamente se interessaria em ouvir sobre as descobertas do dia! – Olhe, eu sinto muito ter entrado em seu território assim, de supetão, mas garanto a você que há uma boa razão. Eu estou aqui na companhia do Rei do Pântano...
— Ah, claro! E como espera que eu acredite que o Rei do Pântano está zanzando pela Floresta a esta hora na companhia de uma fada?
— Porque é o próprio Rei do Pântano quem confirma!
As duas imediatamente se viraram, enquanto Roland gemia e se encolhia mais no chão. Lá vinha Bog, voando na direção do grupo com uma expressão tempestuosa. O restante da comitiva vinha correndo mais atrás. A súbita invasão causou uma grande comoção nos goblins ao redor.
— Mas que palhaçada é essa? Vocês estão achando que meu território é uma zona para farrear?! – A goblin bradou indignada, cerrando os punhos. Griselda ergueu as mãos num gesto pacificador.
— Sentimos muito por isso, Poppy. Garantimos a você que não é nossa intenção destituí-la de sua autoridade. Também garantimos que a Marianne aqui não teve qualquer intenção de ofendê-la.
— Marianne? – A goblin que Griselda chamara de Poppy voltou-se para a princesa com os olhinhos estreitados. Dilatou as narinas e farejou longamente, ao que Marianne se remexeu em desconforto. Ela então arregalou os olhos em súbita compreensão – Oh, agora entendi. Você é a fadinha do Rei do Pântano.
Os goblins ao redor murmuravam entre si com interesse. Marianne arreganhou os dentes em indignação, querendo dizer que ela não era a fadinha de ninguém, mas Bog tomou a dianteira ao se dirigir a Poppy com um fio de paciência.
— Marianne não teve a intenção de desafiá-la, Poppy. Ela adentrou seu território por acidente enquanto estava no encalço desse embuste. – Ele indicou Roland com um apontar do polegar – Acabei não a prevenindo porque me distraí durante a perseguição e demorei a perceber que estávamos nos aproximando de seus domínios.
— Oh, é mesmo? Então por que ela se recusou a obedecer aos meus comandos e ainda teve a audácia de usar de sua autoridade para tentar me intimidar? – Ela encarou Marianne com furor, ao que a princesa retribuiu da mesma forma. Bog e Griselda se entreolharam nervosamente.
— Bem... Como eu disse, estávamos no meio de uma perseguição e você sabe como esse tipo de coisa pode exaltar os ânimos. – O rei goblin tentou desconversar – Aliás, isso é algo que diz respeito tanto a você quanto a todos os alfas. E é bom que os guerreiros de seu clã estejam aqui também. Assim já ficarão a par da situação.
— Que situação?
Bog e Griselda tentaram, nos minutos seguintes, resumir todas as descobertas feitas e explicar como todas as evidências apontavam para Roland como o culpado. Os goblins da comitiva ajudaram no relato, às vezes pedindo pelo parecer de Sunny e Adrian, que se mostravam hesitantes e temerosos ante o olhar escrutinador da alfa mal-humorada. Roland tentou escapar mais uma vez nesse meio tempo, sendo impedido quando um dos goblins nas árvores atirou uma flecha em sua direção. Poppy observou-o com uma expressão insondável, a boca crispada e as sobrancelhas cerradas como se estivesse em um debate interno. Depois do que pareceram horas, ela finalmente descruzou os braços e apoiou as mãos nos quadris largos.
— Entendi. É bom finalmente ter uma confirmação de que essa história de castigo divino não passa de uma balela que os velhos matusquelas inventaram.
— Exato.
— E ainda por cima o culpado é o ex-noivo da boneca aqui. – Ela constatou com desinteresse, ao que Marianne a encarou irada.
— Sim. Estávamos inclusive planejando levá-lo para o Reino das Fadas para que ele receba a devida punição. – Adrian se manifestou. Poppy então abriu um sorriso afetado que os pôs em estado de alerta.
— Jura? Bem, sinto muito estragar seus planos, mas a mariposinha não sai daqui.
— O quê?! – Marianne e Bog exclamaram em uníssono.
— Vocês ouviram. A belezura ali caiu no meu território e, portanto, agora pertence a minha jurisdição. Sou eu quem decide o que será dele a partir de agora.
— Só nos seus sonhos! – Marianne bradou, avançando contra Poppy – Esse cretino cometeu crimes contra o meu reino e responderá conforme as nossas leis!
— Que gracinha, princesa. A questão é que aqui, na Floresta Sombria, o seu reino e as suas leis não significam nada. Esse imbecil causou uma crise de proporções desastrosas em nosso habitat e colocou em risco as vidas de milhares de goblins, muitos pertencentes ao meu clã. Ele vai pagar muito caro, mas será conforme as minhas regras.
— Você não dá ordens aqui, Poppy! – Bog se interpôs, rosnando encolerizado – A questão da crise afetou aos dois reinos, e por isso a decisão do que fazer cabe aos monarcas que os regem!
— Docinho aqui não é uma monarca, até onde eu sei. – Ela encarou Marianne com ares de chacota. Bufando furiosa, Marianne apontou para ela com a lâmina da espada.
— Pode parar com os apelidinhos! Meu nome é Marianne, princesa e futura rainha do Reino das Fadas, e não aceito acatar sua exigências descabidas!
— Não precisa acatar ou deixar de acatar nada. Você nem é parte da equação. O assunto é entre o Rei do Pântano e eu.
— O assunto diz respeito a mim também! É algo que envolve meu reino, meu povo, e não admitirei que você os trate com esse descaso!
— A Floresta Sombria vem primeiro. Não se meta se sabe o que é melhor para você.
— Isso foi uma ameaça?
— Foi um aviso, um que não pretendo repetir.
— Não há necessidade. Não pretendo ouvi-lo, de qualquer jeito.
— Você não sabe com quem está se metendo, fadinha.
— Você também não parece saber, o que já me diz muito sobre sua capacidade cognitiva.
— Ora, sua...
— Senhoritas, por favor, não briguem por minha causa! Tem Roland o bastante para todo mundo! – Roland se intrometeu, sorrindo sedutoramente para as fêmeas que o encaravam como se ele fosse a coisa mais repugnante que já tivessem visto.
— Cale a boca antes que eu arranque sua língua! – Bog rosnou para ele, voltando-se em seguida para as duas brigonas – Não se atreva a ameaçar minha companheira, Poppy. Você sabe quais serão as consequências.
— Sinto muitíssimo, Majestade. – Ela ergueu os braços numa rendição fingida – Prometo que não levantarei um dedo contra sua companheira indefesa.
— Indefesa?! – Marianne rugiu enfurecida. Bog rosnou de novo.
— Pare com as provocações agora mesmo, Poppy-
— Não se intrometa, Bog! – A princesa empurrou-o para o lado, avançando ainda mais para a outra com os olhos soltando faíscas – Já cansei de tentar ser razoável! Desça daí e diga isso na minha cara, se for mulher o bastante!
— Marianne! – Bog, Griselda e Sunny gritaram juntos em alarme. Poppy, por outro lado, abriu um sorriso maquiavélico. Saltou do galho direto para o chão, estalando o pescoço com uma expressão satisfeita.
— Devo interpretar isso como um desafio?
— Que seja!
— Alteza! O que a senhorita está fazendo?! – Adrian exclamou sobressaltado – A senhorita não pode lutar contra um goblin em seu habitat!
— Não vai ser a primeira vez. – Marianne deu de ombros, ainda com os olhos fixos em sua adversária, que sorriu zombeteira quando o conselheiro e os dois membros da Guarda Real começaram a ter ataques histéricos em cima do lagarto.
— Estão preocupados com você, boneca. Talvez seja uma boa hora para dar ouvidos aos conselhos deles e desistir. Eu entenderei, mas não sem antes ouvir um pedido de desculpas de sua boca.
— Espere sentada.
— Oh? Então que assim seja. – Ela meteu a mão direita sob a saia da toga feita de couro animal que vestia, tirando de dentro dela uma soqueira que parecia ser feita de osso. A ponta era longa e afiada como a lâmina de sua espada – As regras são simples. Vale tudo, inclusive usar o terreno ao seu favor. A vencedora fica tanto com o miolo-mole quanto com o território, que é o que você parece tanto querer.
Marianne optou por não discutir. Não valia a pena. Assumiu uma posição de combate, a espada em riste próxima ao seu rosto. Respirou fundo, os membros tensos e a asas agitadas, tentando ignorar o falatório mais atrás.
— Oh, deuses, como as coisas chegaram a esse ponto? – Adrian gemeu.
— Deveríamos proteger a princesa, impedi-la de duelar. – Edwin disse a Ricard, mas foram impedidos de tomar uma atitude quando Griselda ergueu um braço.
— Nem tentem. Marianne propôs um desafio e Poppy aceitou. Agora a muriçoca foi para o brejo.
— Mas a princesa não está em condições de lutar! – Pareh protestou. Sunny assentiu.
— Isso! A ferida no ombro dela ainda não sarou completamente! Um movimento mais violento e ela pode abrir de novo! – Ele se voltou para Bog – Rei Bog, senhor, por favor, impeça isso!
— Não posso.
Sunny engasgou, encarando-o pasmado.
— Como assim o senhor não pode?! O senhor é o rei! A sua palavra deveria ser lei por aqui!
— Eu já disse que não posso! – Bog rugiu, ao que Sunny se encolheu – Eu não tenho escolha! É uma disputa territorial! – Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de preocupação e desolamento ante sua inépcia – Já está fora da minha jurisdição.
— Não estou entendendo.
— É uma das leis na Floresta Sombria. – Griselda explicou – Goblins são criaturas territoriais. Defendemos nossos domínios de invasores e os marcamos com nosso odor característico para manter possíveis adversários longe. Quando Marianne invadiu o território de Poppy e puxou a espada contra ela, apresentou-se como uma desafiante, questionando sua autoridade como alfa.
— Mas não foi de propósito! Ela nem sequer sabia-
— Não importa. Marianne não abaixou a cabeça e nem demonstrou submissão ou respeito. Isso é um desafio que nenhum alfa deixa barato. – Ela cruzou os braços – Disputas territoriais são muito pessoais e envolvem uma questão de orgulho. Por isso nem o Rei ou Rainha do Pântano pode intervir. Não há nada que o Bog possa fazer.
Bog quase gemeu em frustração. Os elfos, o conselheiro e os guardas observaram amedrontados como todo o corpo dele tencionou, o rosto transtornado em temor por sua companheira. Griselda deu uma palmadinha consoladora em seu joelho direito.
— Tudo o que podemos fazer agora é assistir e torcer para que o pior não aconteça.
— E... E o que seria o pior? – Sunny perguntou num sussurro. Griselda suspirou.
— O que você acha? Um território, para um goblin, é tão valioso quanto uma vida. Portanto, Marianne e Poppy lutarão até que uma das duas desista...
Uma sombra agourenta caiu sobre seus olhos.
—... Ou morra.
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