Garras e Presas
13 Capítulo 13
Notas iniciais
Marianne acordou com os suaves raios de sol da tarde acariciando-a entre suas asas, que se agitaram brevemente com o estimulo. Resmungou e enterrou o rosto mais insistentemente contra o que parecia ser a casca de um tronco de árvore, áspero, grosseiro e surpreendentemente quente. Ouviu uma risada baixa e rouca pouca acima de sua cabeça e suspirou quando dedos compridos, ossudos e habilidosos massagearam seu couro cabeludo.
— Acho que é hora de levantar. – A voz baixa e cavernosa murmurou, ao que ela voltou a resmungar.
— Não é não. Não quero levantar nunca mais.
— Você vai ter que encarar a luz solar uma hora ou outra, morcega velha.
Marianne cerrou o punho e socou o peitoral que estava no momento usando como travesseiro. A voz riu ainda mais alto, a mão migrando de seu escalpo para suas costas nuas. Garras longas e afiadas arranharam-na gentilmente entre as asas. Ela gemeu baixinho e ergueu a cabeça para plantar um beijo no pescoço de seu companheiro, que respondeu com um grunhido gutural.
— Nah, você está certa. Que se dane a luz solar.
Rindo, Marianne enfim abriu os olhos, dando de cara com um Bog risonho e completamente relaxado. Aconchegou-se mais junto a ele, apreciando o comichão prazeroso que a fricção das escamas ásperas contra seu corpo totalmente nu provocava. Ele a apertou com mais força junto ao peito, aconchegando o queixo em suas madeixas desalinhadas e suspirando em contentamento.
— Espero que você tenha dormido bem. – Ele murmurou. Ela se espreguiçou longamente e voltou a se largar sobre ele, o corpo mole e totalmente satisfeito.
— Melhor impossível. Depois de um exercício desses, só o melhor dos cochilos poderia vir. – Ela sorriu abertamente ao ver que ele parecia imensamente satisfeito consigo mesmo – E você? Conseguiu dormir ao menos um pouco?
— Só por uma meia hora. É meio difícil pegar no sono quando se tem uma fada pelada deitada em cima de você e roncando para a Floresta inteira escutar.
— Vai se ferrar! Eu não ronco!
— Ronca sim. Feito um javali.
— Pelo menos eu não babo enquanto durmo!
— E quem disse que eu babo?
— Eu digo. Parece que você tem uma catarata dentro da boca. Isso para não falar do bafo.
— Cale a boca! – Ele cruzou os braços sobre o peito e virou a cara para o lado, bufando irado. Quando Marianne recomeçou a rir, Bog se vingou ao prensá-la contra o musgo que revestia o buraco em um tronco de abeto onde haviam se enfiado e começar a lhe fazer cócegas com as pontas das garras. Ela guinchou e tentou se desvencilhar ao mirar um pontapé em seu queixo. Deram seguimento ao embate corporal até ficarem sem fôlego algum. Voltaram a se esparramar sobre o musgo, abraçados novamente e rindo alto como duas crianças.
Marianne ainda estava tendo dificuldades para se convencer de aquilo não era um sonho. Nunca teria imaginado que o plano esdrúxulo de Griselda poderia ter dado tão certo, mas ali estavam Bog e ela, juntos mais uma vez, rindo e implicando um com o outro como se o mês em que estiveram separados nunca houvesse existido. Ainda sentia dores em seu ombro ferido e ainda tinha plena ciência de que apenas um de seus muitos problemas fora resolvido, mas decidira deixar o restante de suas preocupações de lado pelo menos por umas poucas horas enquanto Bog e ela matavam as saudades da maneira mais prazerosa possível.
Não tinham conseguido voar para muito longe depois de saírem do Castelo Sombrio. Bog parecera decidido a voltar a se familiarizar com seu corpo em pleno ar, beijando-a e apalpando-a com uma sofreguidão que a deixara alucinada e incapaz de evocar um pensamento coerente. Seus planos de levá-lo para um passeio romântico precisaram ser adiados. Meteram-se no primeiro buraco em um tronco que encontraram e fizeram amor ali mesmo, a cerca de quinze metros de distância de sua localização anterior e sem se preocupar se algum andarilho desavisado poderia ouvi-los. Marianne conseguia apenas se concentrar no delicioso cansaço que a deixava com os membros amolecidos, na sensação do corpo forte e endurecido de seu amante contra o seu e na felicidade exultante de estar nos braços dele mais uma vez. Bog parecia tão contente e satisfeito quanto ela, embora aparentasse estar sentindo bem mais cansaço.
— Sério, você deveria ter cochilado por pelo menos uma hora. – Ela o censurou, deixando o tom brincalhão de lado enquanto o tocava na bochecha saliente – Há quanto tempo você não tem uma noite decente de sono?
— Há alguns dias. – Ele admitiu enquanto soltava um enorme bocejo – Mas não precisa se preocupar. – Assegurou ao se deparar com o semblante culpado dela – Estar com você sempre me deixa revigorado.
Ela sorriu zombeteira ante a doçura de suas palavras. Ele a beijou no pescoço, o queixo duro e espinhoso roçando a pele entre seus seios, e ela sentiu sua excitação voltar a queimar. Apesar do cansaço e da dorzinha chata e ininterrupta em seu ombro direito, ela estava com ânimo para fazer amor uma segunda vez. Mas ele parecia absolutamente exausto, seu rosto pálido e as grandes bolsas escuras sob seus olhos desmentindo sua afirmação anterior, e ela decidiu que por hora se apiedaria dele e o deixaria descansar. Empinou o queixo, oferecendo mais de sua pele à boca faminta dele, o que ele aceitou de muitíssimo bom grado. Gemia e suspirava baixinho enquanto ele provava o gosto levemente salgado de sua pele suada com os lábios e a língua. O contato áspero estava voltado a deixá-la acesa e ela precisou se repreender mentalmente para não saltar sobre ele como um animal descontrolado. Foi então que Bog parou, erguendo um pouco a cabeça, fixando os olhos em sua clavícula com um semblante preocupado.
— O que foi? – Perguntou curiosa. Ele dedilhou a linha de sua clavícula com a ponta do dedo indicador, mordendo o lábio inferior.
— Está doendo muito?
— O quê? Isso? – Ela indagou ao voltar seu olhar para o ferimento em seu ombro – Não tanto quanto antes. Está melhorando, não se preocupe.
— Falo disso aqui. – Ele cutucou gentilmente o ponto onde seu pescoço e seu ombro se encontravam, os olhos cheios de culpa – Eu... Desculpe, eu acabei me empolgando demais...
Marianne precisou acompanhar o movimento do dedo dele para entender do que ele estava falando. Ali, pouco acima de seu ombro esquerdo, estava um grande hematoma em formato de lua crescente, as marcas de dentes visíveis ao longo da curva arroxeada. Arregalou os olhos, surpresa. Ela nem sequer percebera que ele a mordera com força o bastante para marcá-la. Ele interpretou erroneamente sua expressão e imediatamente se afastou, o semblante retorcido em arrependimento.
— Sinto muito, eu deveria ter sido mais cuidadoso, mas acabei deixando meus instintos falarem mais alto.
— De que instintos está falando? – Ela perguntou num tom que pretendia ser casual, afagando as laterais dos braços dele de maneira insinuante. Bog engoliu em seco.
— Bem... É um costume entre os goblins. Nós marcamos nossos parceiros durante os momentos mais... íntimos. – Ele ofegou baixinho quando os braços de Marianne migraram para seu pescoço e o peito dela tocou o seu, os seios delicados espremidos contra sua carapaça – É um... um sinal. Um sinal de compromisso e de... – Suspirou pesadamente quando ela começou a plantar beijos em sua garganta, fechando os olhos – E de posse. Significa... Significa que você pertence a mim e que ninguém pode tomá-la, a não ser que queira uma luta. Eu... – Balançou a cabeça para tentar dispersar o desejo repentino – Eu não quero que você pense nisso como... como um gesto possessivo ou doentio. Sei que você não é minha propriedade, mas... eu não consegui resistir, Marianne, você me deixa louco. Juro que tentarei me controlar melhor da próxima vez e- Ai!
Soltou uma exclamação de espanto e dor quando os dentes dela cravaram-se ferozmente em sua garganta. Gemendo em contentamento, Marianne sugou a pele áspera com força, lambendo gentilmente logo em seguida como que para apaziguar a dor da mordida. Bog deixou escapar um rosnado animalesco quando uma onda de deleite e excitação se quebrou sobre ele, seus instintos aflorando e permitindo que o prazer com o gesto possessivo suprimisse todo o restante. Marianne abriu um enorme sorriso ao contemplar a marca avermelhada que agora coloria o pescoço de seu amante, voltando-se para ele com uma expressão de pura satisfação.
— Pronto. Agora todos vão saber que você pertence a mim também.
Bog se atirou sobre ela antes que pudesse sequer pensar em controlar as reações de seu corpo. Beijou-a com uma voracidade totalmente inédita, ao que Marianne sentiu o corpo inteiro trepidar com a empolgação; ele era sempre muito gentil e cuidadoso mesmo em seus momentos mais íntimos, e embora apreciasse sua preocupação em não machucá-la, ela às vezes sentia falta de mais paixão e de certa brutalidade. Adorava quando conseguia fazê-lo perder as estribeiras e se lançar para ela sem nenhuma reserva, mesmo que isso resultasse em marcas de mordida e de arranhões espalhadas pelo seu corpo e numa enorme fadiga ao longo do dia. O imenso prazer que ele era capaz de proporcionar a ela fazia tudo aquilo valer à pena. Abriu as pernas para ele em total entrega, o gesto o deixando ainda mais louco de desejo enquanto a tomava uma segunda vez.
Marianne sentia-se preparada para dormir pelo resto da tarde e noite adentro quando enfim terminaram, exausta e rouca depois de tanto gemer e gritar, mas estava ciente de que não seria possível. Acariciou as costas de Bog, ainda prostrado sobre seu corpo, trêmulo e ofegante. Ele mal tinha forças para erguer a cabeça para encará-la. Ainda assim, ele conseguiu forçar os músculos de seu rosto a trabalharem, dando um sorrisinho sacana.
— Quer uma terceira rodada? Pelos deuses, Durona, você ainda vai me matar um dia desses...
— Embora a ideia de matar você nesse aspecto seja muito tentadora, infelizmente terá de ficar para outra hora. Eu... – Ela virou a cabeça para o lado com uma expressão incerta, contemplativa – Eu preciso voltar para casa.
O sorriso de Bog imediatamente se desfez, dando lugar a um semblante entristecido.
— Já? Mas você não ficou quase nada.
— Eu sei. Eu também não queria ir, mas eu não tenho escolha. Dawn deve estar preocupada comigo. E... – Suspirou pesadamente – Meu pai também deve estar.
O Rei do Pântano rosnou à menção do genitor de sua companheira.
— Ele não tem direito à sua preocupação, não depois do que ele fez.
Marianne assentiu soturnamente. A indignação e a sensação escaldante da traição não haviam abrandado com o passar das horas, mas agora havia a culpa por sua saída intempestiva e a preocupação com as consequências que ela poderia ter provocado. Ela preferira fugir a continuar encarando seu pai, e agora só os deuses sabiam que medidas ele tomaria quando ela voltasse ao Reino das Fadas. Será que a puniria? A castigaria proibindo-a de voltar à Floresta Sombria e de continua a ver Bog? Rosnou em ultraje. Que ele tentasse! Não era como se ela fosse obedecê-lo, não depois da maneira como fora desrespeitada.
Seus pensamentos então voltaram à Dawn. Lembrava-se de seu rosto amedrontado ao ver a irmã e o pai vociferando um para o outro, de como ela chorara e soluçara. A culpa voltou a se fazer ouvir, pesando em sua consciência como uma bigorna.
— Eu sei que ele não tem o direito. Mas ainda assim não quero deixá-lo mais preocupado do que ele já deve estar. Ele tem se exaurido tanto nas últimas semanas, tão estressado e preocupado com todos os problemas que surgiram no reino... – Ela aceitou de bom grado quando Bog estendeu a mão para ajudá-la a se erguer. Sentaram-se de frente para o outro com as pernas cruzadas – E eu também estou preocupada com a Dawn. – Ela admitiu – Ela estava muito transtornada na última vez em que a vi. Ela detesta quando papai e eu perdemos a calma durante discussões. Quero me assegurar de que ela está bem.
— Claro. – Ele assentiu compreensivo – Se é pela Dawn, eu entendo. Bem, acho melhor você começar a se vestir, se vamos precisar partir. Eu a acompanharei até a fronteira.
— Na verdade, eu gostaria de pedir uma coisa a você.
— O que você quiser. – Ele prometeu, segurando suas mãos. Ela sorriu enquanto procurava pelas palavras certas.
— Eu gostaria que você fosse ao Reino das Fadas comigo. Precisamos ter uma conversa muito séria com meu pai e com nosso conselho sobre todos os problemas que se abateram sobre o nosso reino e a Floresta Sombria. – Ela murmurou num tom hesitante, tentando sondar a reação de Bog por suas expressões. As feições dele imediatamente endureceram, a boca dele se retorcendo numa linha de desconforto.
— Eu não sei, Marianne. Seu pai deixou bem claro que a minha presença não é mais bem vinda em seus domínios. Sem falar na teimosia de meu próprio conselho. Eles não ficarão nada satisfeitos caso descubram que fui até o Reino das Fadas para pedir auxílio sem tê-los consultado antes.
Marianne bufou em exasperação e cansaço. Por que eles sempre precisavam dar de cara com mais um obstáculo logo depois de já terem trespassado outro?
— Não há nada que você consiga fazer a respeito disso?
— Eu poderia exigir outra reunião para retomar a pauta, mas será difícil convencê-los a comparecer. – Ela juntou os dedos indicadores de ambas as mãos, parecendo estranhamente nervoso – Os alfas não estão nada felizes comigo. Eu... perdi a cabeça durante a última assembleia.
— Oh, deuses. Bem, não é como se eu tivesse alguma moral para te julgar. – Ela suspirou – E o que foi que você fez para aborrecê-los?
— Bem... Talvez eu tenha avançado contra um dos patriarcas e tenha... tentado matá-lo estrangulado. – Ele admitiu envergonhado. Os olhos de Marianne se esbugalharam.
— Deuses, Bog!
— Eu sei, eu sei! Eu não deveria ter tido uma reação tão violenta. Minha mãe também ficou bem zangada comigo, até ameaçou me dar umas palmadas. – Ele procurou rir para aliviar o clima tenso. Marianne limitou-se a balançar a cabeça.
— Mas o que foi que ele disse para te deixar tão furioso?
Ele imediatamente virou o rosto para o lado, recusando-se a encará-la.
— Foi alguma coisa a meu respeito, não foi? – Ela adivinhou, ao que ele grunhiu, amaldiçoando a perspicácia dela. A princesa segurou-o pelo queixo e o forçou a voltar a olhá-la nos olhos.
— Diga-me agora, Bog. Eu quero saber.
Ele engoliu em seco, o rosto enrubescendo violentamente tanto pelo constrangimento quanto pela raiva com a lembrança.
— Ele fez um comentário indevido a respeito de nossa... hã... vida sexual.
— Ah!
Marianne não soube o que responder. A verdade era que ela não estava nem um pouco surpresa: era de se esperar que nem todos os conterrâneos de Bog aprovassem a ela e ao relacionamento deles. Ela também já escutara toda a classe de comentários impróprios a respeito de sua intimidade com o rei dos goblins da boca dos membros do conselho e de alguns dos membros da Guarda Real quando pensavam que ela não estava por perto. Grunhiu ao se dar conta de que, no que dizia respeito ao preconceito e à xeretice, os goblins não perdiam em nada para as fadas.
— Não fique chateada. – Bog pediu de repente, sua expressão tornando-se tempestuosa – Se ele se atrever a fazer mais um comentário estúpido a seu respeito, juro que dessa vez não hesitarei em quebrar o pescoço dele.
— Não. – Ela o advertiu severamente – Você já tem problemas demais sem deixar que seu gênio tome controle de suas ações. É, sério, Bog, você precisa controlar esse seu temperamento. Não vai conseguir o apoio de seu conselho se continuar a agir tão impulsivamente.
— Você parece a minha mãe quando fala desse jeito. – Ele resmungou, embora intimamente soubesse que ela estava com a razão. Dando uma risadinha, Marianne acariciou a lateral do rosto dele com a palma da mão direita.
— Eu digo isso porque sei muito bem o que é se deixar dominar pela raiva. Já fui proibida de participar de diversas reuniões com o conselho depois de perder as estribeiras e gritar uns bons desaforos. Aparentemente os ouvidos deles são sensíveis demais a palavrões saídos da boca de uma mulher. – Ela sorriu quando Bog revirou os olhos – Neste momento, é essencial que mantenhamos a calma e pensemos primeiro nas necessidades de nossos povos. Se você quiser, eu posso estar presente em sua próxima reunião com os alfas para dar meu parecer.
— Quê? De jeito nenhum! – Ele exclamou afrontado – Não quero nenhum daqueles cretinos se aproximando de você e despejando absurdos em sua cabeça!
— Por quê? Você acha que eu não seria capaz de lidar com um bando de velhos ranhetas que não sabem segurar a língua dentro da boca? Para o seu governo, eu lido com isso em toda santa reunião!
— Você sabe lidar com seus iguais, Marianne. Essa situação é completamente diferente. Eles estão obstinados a apelar para uma solução extrema e não vão querer dar ouvidos a você, não quando você é a futura rainha do reino que eles pretendem-
Ele imediatamente se calou, parecendo perceber que estivera prestes a dizer algo que não devia. Os olhos de Marianne se estreitaram ao vê-lo assumir uma postura tensa, seu pomo de adão subindo e descendo quando ele engoliu em seco.
— Pretendem o quê?
— Nada. Esqueça o que eu disse.
— Não senhor! Pode ir falando agora mesmo! O que eles pretendem?
Quando ele novamente hesitou, Marianne decidiu apelar para um golpe baixo.
— Se você não me disser, eu vou agora mesmo perguntar à sua mãe.
— Não! Eu digo! – Ele exclamou apressadamente – Durante a reunião, eles exigiram que eu tomasse medidas drásticas para resolver o problema da escassez. Eles... estavam dispostos a oferecer a mim seus melhores guerreiros para que invadíssemos o Reino das Fadas.
Marianne sentiu como se uma pedra de gelo estivesse escorrendo por sua espinha. Sua expressão pasmada só deixou Bog ainda mais apreensivo.
— Eu não concordei com isso! Inclusive os adverti de que pagariam com as vidas se se atrevessem a me desobedecer. – Ele garantiu, segurando-a cuidadosamente pelos braços – Eu não vou permitir que eles invadam seu reino e destruam tudo o que nós tanto lutamos para construir, Marianne. Por favor, não fique nervosa.
Marianne não conseguiu pensar em nada para responder. Sabia perfeitamente bem que Bog jamais permitiria que seus subordinados recorressem a um método tão absurdo para resolver aquela crise, mas se o sistema político da Floresta Sombria funcionava de modo semelhante ao do Reino das Fadas, então Bog não poderia continuar negando as exigências de uma maioria por muito tempo. Os conselheiros de seu pai conseguiram que ele estabelecesse um toque de recolher e permitisse o uso de força bélica contra os predadores. O que os conselheiros de seu companheiro seriam capazes de fazer caso decidissem ir contra as decisões dele?
A última coisa que Marianne desejava era que uma guerra estourasse entre os dois reinos. Os Campos de Luz não seriam capazes de resistir a um ataque em massa vindo da Floresta Sombria. Sem contar que isso destruiria completamente seus planos de diplomacia para ambos. Bog e ela se veriam em lados opostos de um confronto sangrento e a ideia de guerrear contra ele a deixava paralisada em horror.
“Não seja ridícula! Ele jamais concordaria em partir para a guerra contra seu povo, muito menos contra você!”
Sim, ela estava ciente disso. Mas essa certeza só serviu para intensificar ainda mais seu pavor. Ela conhecia muito bem os modos bárbaros dos goblins, como eles valorizavam características como força, ferocidade e impiedade acima de quaisquer outras. Gentileza e misericórdia para com inimigos, para a maioria deles, eram traços que denotavam fraqueza. O povo da Floresta Sombria poderia decidir em conjunto que Bog já não mais servia para governá-los, caso ele os exibisse. E se se rebelassem e tentassem destroná-lo, o fatigado Rei do Pântano muito provavelmente não seria capaz de defender sua posição, talvez até sua própria vida. Não queria nem imaginar o que poderia acontecer a ele, a Griselda e ao restante do contingente do Castelo Sombrio caso uma revolta chegasse a estourar. Marianne não seria capaz de suportar caso o perdesse, ainda mais agora, depois de finalmente terem feito as pazes.
— Por favor, Marianne, diga alguma coisa. – Ele implorou, a expressão transtornada dela deixando seus nervos à flor da pele. Ela engoliu em seco e abriu a boca, tencionando dizer alguma coisa, mas foi interrompida quando uma voz esganiçada gritou, vinda de algum ponto abaixo deles:
— Ei, você dois já terminaram? Ou vou precisar voltar mais tarde?
O casal se entreolhou encabulado ao reconhecerem a estridência de Griselda. Revirando os olhos, Bog se debruçou sobre a abertura no tronco do abeto e percorreu o solo da Floresta com os olhos até encontrar sua mãe, parada no pé da raiz, os braços cruzados e com uma expressão entre impaciente e divertida. E para seu absoluto horror, todos os seus subordinados se encontravam junto a ela.
— Como a senhora nos encontrou?
— Oh, não foi difícil. Você empesteou o terreno inteiro com o cheiro dos seus feromônios. E de qualquer jeito, vocês não estavam fazendo a menor questão de ficarem em silêncio.
Bog teve um violento acesso de tosse enquanto o rosto de Marianne se avermelhava como um pimentão. Sexo silencioso era uma arte que eles ainda não haviam conseguido dominar. Griselda soltou uma risadinha aguda que fez os goblins pigarrearem em embaraço e Bog grunhir mortificado.
— O que é que vocês querem, afinal?
— Sinto muito por atrapalhar a diversão de vocês, mas o dever chama, meu filho. – Ela decretou em tom de desculpas – Os cogumelos acabaram de enviar uma mensagem, e eu acho que você vai se interessar em escutá-la.
— E qual é?
Clareando a garganta seriamente, Thang estufou o peito e declarou: — Uma desmissiva do Cheiro da Gata virá de fininho!
Bog fechou os olhos com força e contou mentalmente até vinte. Voltou-se impacientemente para Marianne quando ela caiu na risada.
— Não é isso, seu idiota! – Stuff balançou a cabeça em exasperação – É “uma comitiva do Reino das Fadas está a caminho”.
— O quê?! – O Rei do Pântano exclamou em sobressalto. Virou-se novamente para Marianne em busca de explicações, mas ela mostrou-se tão espantada quanto ele.
— Eu não estava sabendo de nada! A não ser que... – Ela de repente gemeu alto, enterrando o rosto na mão direita – Oh não. Não acredito que meu pai mandou uma comitiva a minha procura...
Bog rosnou em cólera. Se o Rei Dagda achava que iria tirar Marianne de perto dele contra a vontade dela, era melhor que pensasse duas vezes.
— Como eles se atrevem a entrar em meus domínios sem minha expressa permissão? Onde estão Brutus, Vinca, Gus e Beackboy, que estavam patrulhando a fronteira?
— Estão com a comitiva. São eles que os estão guiando.
O queixo de Bog caiu. O que diabos estava acontecendo ali, afinal? Seus subordinados enlouqueceram e resolveram traí-lo? Foram rendidos pelas fadas da tal comitiva? Ou aquela era uma missão diplomática que eles resolveram apoiar mesmo sem seu consentimento? Estreitando os olhos, ele apanhou seu cetro, pôs-se de pé e novamente se voltou para Marianne.
— Seja lá o que eles queiram, acredito que seja algo que diz respeito a nós dois. Quer recebê-los comigo?
— Não precisa nem perguntar. – Ela assegurou, debruçando-se para apanhar suas roupas amontoadas num canto do buraco. Terminando de se vestir e de prender a bainha de sua espada a sua cintura, ela segurou a mão que Bog lhe estendia. Abriram as asas e plainaram em direção ao chão. Apesar de seu nervosismo, Marianne não conseguiu conter o sorriso quando os goblins soltaram exclamações de alegria ao verem-na, correndo para ela assim que seus pés tocaram o solo.
Bog deixou escapar uma risada rouca quando seus subordinados imediatamente rodearam Marianne, se empurrando e rosnando uns para os outros para decidirem quem teria o privilégio de ser o primeiro a abraçá-la. Em outra ocasião, ele teria ordenado que tivessem um mínimo de compostura, mas estava de tão bom humor que decidiu permitir que eles expressassem seu contentamento mais entusiasticamente.
Assumindo um semblante mais severo, ele imediatamente se voltou para a trilha em ziguezague que se perdia ao longe na mata. Logo foi capaz de captar os odores familiares que seus subordinados exalavam, acompanhados de outros não tão conhecidos. Conseguiu reconhecer o aroma adocicado que era típico das fadas; três, se seu olfato não lhe falhava. Reconheceu também a fragrância terrosa característica dos elfos; dois ao todo. Mas dois dos outros odores lhe eram estranhos. Eram odores animais. Ficou imediatamente tenso, perguntando-se se a comitiva estava sendo perseguida por predadores.
Um minuto de ansiedade se passou. De repente, saídos da folhagem acirrada, apareceu o grupo mais bizarro que o Rei do Pântano já vira andando por seus domínios: lá estavam Brutus, Vinca, Gus e Beackboy, abrindo caminho para o que parecia ser um gigantesco lagarto, bamboleando e lambendo o ar com a grande língua enquanto carregava três fadas e dois elfos. Um dos elfos era ninguém menos que o pequeno Sunny. Andando ao lado do lagarto, estava um roedor peludo e albino que Bog não reconheceu. A criatura levava uma amora de outono presa pela comprida cauda.
— Majestade. Temos visitantes. – Vinca foi a primeira a falar, fazendo uma reverência e sendo imitada por seus colegas de trabalho. As três fadas se entreolharam apreensivamente, parecendo não saber o que dizer. Sunny, porém, imediatamente se manifestou.
— Marianne! Ainda bem que te encontramos! – Ele exclamou em alívio, acenando animadamente para a princesa. Desvencilhando-se educadamente dos goblins que ainda a cumprimentavam, Marianne imediatamente voou até a comitiva com uma expressão dura. Passou pelas fadas, esquivou-se do outro elfo e ergueu o punho, aplicando um tremendo cascudo no topo da cabeça de Sunny, que guinchou de espanto e dor.
— Ai! Por que você fez isso?!
— Porque você é um idiota, Sunny! – Ela vociferou, sacudindo o dedo na cara dele – Por que você abandonou a Dawn? Ela estava arrasada, precisava de você ao lado dela, e ainda assim você-
— Eu sei, eu sei! Não me orgulho do que eu fiz, ta legal? – Ele jurou, gemendo e massageando o cocuruto dolorido. Encolheu-se quando ela voltou a erguer o punho – Não! Dawn e eu já conversamos e fizemos a pazes!
— Mesmo?
— Mesmo! Palavra de honra! Já apanhei o suficiente por hoje, por favor!
Ela o encarou por alguns segundos com os olhos estreitados. Depois voltou a se endireitar, cruzando os braços e assentindo solenemente.
— Acho bom mesmo. E é melhor que isso não se repita, porque se você magoar minha irmã outra vez, vai levar muito mais do que só cascudos.
Empalidecendo, Sunny rapidamente assentiu. Pareh e os quatro goblins que os acompanhavam riam com gosto enquanto as três fadas encaravam a princesa com ares de assombro. Marianne imediatamente se voltou para elas, assumindo uma pose autoritária que as fez se retesarem em alarme.
— Adrian, Ricard e Edwin. – Ela olhou de um para o outro casualmente – O que exatamente vocês vieram fazer aqui, na Floresta Sombria? Foram mandados por meu pai para me levarem para casa, mesmo que seja a força?
— Não, Alteza. A verdade é que seu pai sequer sabe que estamos aqui. – Adrian assegurou, fazendo uma educada mesura – Viemos para pedir uma audiência com o Rei do Pântano.
E como se estivessem apenas esperando aquela deixa, o conselheiro e os dois membros da Guarda Real abriram as asas e, após pedirem licença a sua princesa com educadas mesuras, voejaram em direção ao ponto onde estavam o Rei do Pântano e seus asseclas. Bog arqueou uma sobrancelha, percebendo que as fadas estavam armadas e perguntando-se se deveria se preparar para um embate. Mas o jovem macho que parecia liderar o trio, alto, de pele negra, bonitos olhos castanho-esverdeados e asas cor de creme, imediatamente apoiou-se diante dele em apenas um joelho; um óbvio gesto de respeito e servidão. Os outros dois o imitaram depois de se entreolharem nervosamente.
— Meu caro Rei do Pântano. – Ele começou em tom claro e solene – Peço humildes desculpas por adentrar seus domínios sem antes pedir por seu consentimento. Asseguro-lhe, entretanto, que possuímos fortes razões para tal. – Pigarreando, ele voltou a se erguer – Meu nome é Adrian e sou um dos membros do conselho real do Reino das Fadas. Chegaram ao nosso conhecimento todas as dificuldades que seu povo tem enfrentado nas últimas semanas, o que não chegou a nos surpreender, considerando que também precisamos lidar com problemas semelhantes. Seus subordinados nos puseram a par de tudo e gentilmente nos guiaram até aqui para termos com o senhor. Depois de certos acontecimentos que não cabe a mim discorrer, posse afirmar quase com certeza absoluta que estamos prestes a chegar ao fundo do mistério da crise que assola a ambos os nossos reinos, e parece ser algo tão absurdo e surreal que eu mesmo ainda custo a acreditar-
— Chega dessas firulas! Vamos direto ao ponto! – Sunny interrompeu o conselheiro com impaciência, voltando-se ansioso para Marianne – Marianne, nós descobrimos! Descobrimos o que é que pode estar causando as mortes dos animais, a escassez e a contaminação da água!
— O quê?! – Marianne, Bog e Griselda exclamaram em uníssono. Os goblins mais atrás imediatamente começaram a bradar agitadamente uns com os outros, pasmados e ansiosos. O rei goblin mais que depressa se voltou para seus subordinados que haviam guiado a comitiva e exigiu saber: — Como descobriram isso? E por que aceitaram guiá-los até aqui sem avisarem a mim antes?
— Não houve tempo, Majestade. Perseguimos esse aí durante nossa caçada e acabamos entrando no Reino das Fadas por acidente. – Gus apontou para o roedor albino – Foi então que ele nos revelou que sabia o que é que estava causando a crise e que poderia nos guiar até a fonte. As fadinhas e os elfos quiseram nos acompanhar e não pudemos negar, não quando eles ofereceram esse lagarto como montaria. – Ele acariciou o focinho do lagarto, sorrindo – Ela é uma mão na roda, sabe! Não fomos atacados no caminho graças a ela.
— E aparentemente, a causa da crise parece ter alguma relação com as amoras de outono. – Beackboy informou, indicando a criatura com um aceno de cabeça. O Diabinho imediatamente apanhou a amora nas patas dianteiras e a ergueu no ar para que todos pudessem vê-la. Os olhinhos de Griselda se esbugalharam.
— Ora, mas essa não é uma das amoras que eu sugeri como aperitivo para o tal festival? – Ela se voltou para Sunny, que assentiu de maneira encabulada.
— Sim, Lady Griselda. Nós as usamos para produzir um sumo de amora que é uma iguaria muito apreciada em nossas terras.
— Sim, sim, eu sei. Só recomendei que vocês tivessem cuidado ao manusear as sementes. A toxina delas é forte o bastante para... – Ela de repente se calou, parecendo perceber o peso de suas próprias palavras. Cobriu a boca com as mãos, os olhos se arregalando ainda mais – Oh!
O Diabinho assentiu solene, confirmando as suspeitas da goblin idosa. Um silêncio desagradável tomou conta de todo o grupo, o significado daquela revelação caindo sobre todas as cabeças com a potência de um tronco de árvore desabando no chão da Floresta. Marianne e Bog entreolharam-se brevemente, os rostos pálidos e desconcertados. Então o Rei do Pântano caminhou a passadas decididas até o Diabinho, que procurou não se sobressaltar e permanecer no lugar quando o monarca intimidador o encarou com um ar sisudo.
— Você, roedor. – Ele apontou para o pequeno demônio – O que sabe sobre as causas das mortes dos animais e da escassez?
O Diabinho voltou a erguer a amora de outono, encarando Bog como se questionasse a inteligência dele. O rei goblin rosnou.
— Isso eu já entendi. O que eu quero saber é como essas amoras chegaram a se tornar um problema. O que houve para que isso chegasse a essas proporções. E principalmente se isso foi uma causa natural ou se há alguém ou alguma coisa por trás disso.
O Diabinho não respondeu. Ao invés disso, passou por Bog e disparou pela trilha. Voltou-se quando já estava a uns bons metros de distância e sacudiu a pata dianteira esquerda num claro sinal de que queria que o seguissem.
— Acho que ele prefere nos mostrar a simplesmente nos dizer. – Sunny concluiu, ao que Pareh acenou afirmativamente com a cabeça. Entreolhando-se, Adrian, Ricard e Edwin voltaram a montar no lombo de Lizzie. Marianne plainou até pousar ao lado de Bog, pondo as mãos nos quadris.
— Se essa criatura pode nos levar até a fonte de todos os nossos problemas, então não hesitarei em segui-lo. – Afirmou decididamente. Bog ponderou por alguns instantes, ainda desconfiado. Griselda, por outro lado, já estava dividindo os goblins em grupos específicos.
— Metade de vocês nos acompanhará nesta expedição. A outra metade percorrerá o terreno para alertar os outros clãs e pô-los a par da situação. Andem, circulem! Não temos o dia inteiro! – Ela os apressou, ao que um dos grupos imediatamente se virou para a trilha e correu para se embrenhar pelo matagal cerrado. A convicção de sua mãe e de sua companheira fez com que Bog imediatamente tomasse uma decisão. Empertigando-se numa pose régia, ele bateu com o cetro no chão para chamar a atenção de todos.
— Então que seja. Permaneçam juntos e com os ouvidos atentos para a aproximação de predadores. Você, roedor! – Apontou para o Diabinho – Guie-nos até essa fonte!
A criatura assentiu entusiasmada. O grupo expedicionário imediatamente se pôs em marcha em seu encalço, liderados por Marianne e Bog, que voavam lado a lado. Os olhos do Rei do Pântano ainda estavam pregados nas costas peludas do Diabinho com desconfiança e uma estranha sensação de reconhecimento. Onde já vira o pequeno demônio antes? Não sabia o porquê, mas o aroma que se desprendia dele lhe lembrava o de... prímulas?
§ § §
Nos confins da Floresta Sombria, longe da trilha que demarca a rota comumente usada pelos goblins em suas caminhadas, encontra-se uma cadeia de elevações rochosas que demarcam os limites do território ao oeste. O matagal se cerra ainda mais em suas redondezas, dificultando a passagem daqueles que precisam se locomover por terra. Aqueles que possuem asas, porém, podem facilmente elevar-se por sobre a vegetação e se guiar em direção ao paredão que compõe uma elaborada cadeia de pequenas quedas d’água, correndo limpidamente pelas pedras corroídas pela erosão e desabando juntas no mesmo riacho. Todos os fios de água possuem uma mesma origem, porém: um profundo sulco num vão entre duas grandes pedras, bem no topo da formação, que aparentemente dá para uma nascente que brota direto do subsolo.
Foi para lá que o Diabinho guiou o grupo expedicionário. A fenda só poderia ser alcançada, porém, por criaturas detentoras de um par de asas ou por um escalador excepcional. Griselda, Pareh, Ricard, Edwin e o grupo de goblins mantinham-se a alguns metros de distância do paredão, as cabeças erguidas para o alto, observando com apreensão como Marianne, Bog e Adrian precisavam voar com cautela para esquivar-se das fortes torrentes de água e seus respingos. Marianne carregava Sunny (Dawn e ela eram as únicas fadas que tinham permissão para dar uma carona aérea ao orgulhoso elfo) e Adrian carregava o Diabinho, que indicava o caminho com acenos de cabeças e um apontar de dedos. Bog fechava a caravana, certificando-se que não estavam se aproximando de uma das quedas d’água mais que o necessário. Seguiram a corrente da água em queda livre orientando-se pelas marcas nas pedras corroídas até encontrarem o ponto por onde todos os fios escorriam. O Diabinho guinchou e se agitou nos braços de Adrian, apontando a fenda nos rochedos. Era espaçosa o suficiente para que entrassem, mas apenas se mantivessem as asas firmemente coladas junto ao corpo.
Bog foi o primeiro a tentar passar, encontrando alguma dificuldade por conta das placas proeminentes nos ombros. Estendeu a mão para ajudar Marianne a pousar, fazendo cara feia quando precisou fazer o mesmo com Adrian. A princesa e o conselheiro colocaram Sunny e o Diabinho no chão. A fenda se abria em uma espécie de túnel que adentrava pela pedreira a se perder de vista. O Diabinho puxou Sunny pela manga do blusão e os guiou túnel adentro. A escuridão só não era total porque as pedras estavam cobertas de fungos bioluminescentes. Chapinharam pela água que chegava à altura das canelas em completo silêncio, nervosos com a perspectiva do que estavam prestes a encontrar. Foi então que o túnel se abriu em uma espécie de caverna, um pouco melhor iluminada por falhas nas rochas acima que permitiam que alguns raios de sol entrassem. Quando seus olhos se habituaram a pouca luminosidade, viram que o fio de água se conectava diretamente ao que parecia ser uma lagoa, de tamanho médio, porém profunda. Tanto Bog quando o Diabinho repentinamente ofegaram e torceram os narizes.
— O que foi? Estão sentindo algum cheiro estranho? – Marianne perguntou. Bog limitou-se a balançar a cabeça, sua expressão se retorcendo num choque e num horror tão intensos que fizeram os cabelos na nuca da princesa ficarem de pé.
— Esse cheiro... Isso é...
O Diabinho assentiu, parecendo confirmar as suspeitas do rei goblin. O grupo se aproximou do charco a passos calculados. Todos espreitaram por sobre a beirada. Marianne, Sunny e Adrian soltaram simultaneamente exclamações de espanto e afastaram-se de imediato.
A cor da água! Marianne nunca tinha visto algo parecido antes. Ao invés de límpida e transparente, a lagoa encontrava-se opaca numa horrível coloração arroxeada que rivalizava o tom da maquiagem em seus olhos. Mal dava para divisar o leito. Adrian, Sunny e ela não tinham o olfato tão apurado, mas conseguiam imaginar o odor terrível que dela exalava, considerando as expressões de Bog e do Diabinho. Quaisquer organismos que ali tivessem vivido certamente estavam mortos pelo envenenamento. Cada centímetro do que antes era a fonte que nutria cada ser vivo na Floresta Sombria agora gritava “morte” em letras garrafais.
— Deuses! Então é isso o que está causando as mortes dos animais e a contaminação da água! – Adrian constatou em assombro.
— É óbvio que os animais morreriam, precisando beber água contaminada. – Sunny balbuciou horrorizado – E o rio que corre pela Floresta Sombria se conecta diretamente com o riacho no Reino das Fadas. É por isso que também afetou nossos animais e nossa colheita, já que usamos sua água para irrigar o solo.
— E é por isso que os goblins têm adoecido também. Vocês não possuem um sistema de escoamento e filtração de água como nós, possuem? – Marianne perguntou para Bog, que se limitou a balançar a cabeça, ainda encarando o charco como se não acreditasse no que via.
— É por isso que nossas expedições não deram nenhum resultado. A resposta estava o tempo todo na água. Nosso olfato se torna inútil próximo à água corrente. – Ele murmurou como que em transe – Mas mesmo assim a água corrente teria dissipado qualquer traço do veneno com o tempo.
— Não se a contaminação estiver diretamente na fonte. – Adrian sondou. Apanhou um pequeno grão esverdeado que o Diabinho lhe estendia e o mostrou aos demais – Há sementes de amoras de outono no leito. São elas que estão liberando a toxina. A água brota do subsolo e permanece parada, escoando lentamente para as quedas d’água. A toxina não se dissipou porque as sementes permaneceram no leito. A contaminação continuou.
— Então essa é a resposta. Não há castigo divino nenhum. Eram as amoras de outono o tempo inteiro. – Sunny segurou a cabeça com as mãos – Deuses, é tudo nossa culpa! Se não tivéssemos pegado as amoras para fazer o sumo para o festival... algumas das sementes devem ter caído na água enquanto limpávamos as polpas.
— Mas não seria o suficiente para fazer todo o estrago que fez. – Marianne decretou, ao que Bog assentiu, os dentes arreganhados em súbita cólera.
— Essas sementes não vieram parar aí por acidente. Isso foi feito de caso pensando! – Rugiu enfurecido – Alguém está contaminando a nascente de propósito!
Foi então que o Diabinho se mexeu. Correu para apanhar alguma coisa escondida entre as pedras. Voltou até parar diante de Marianne, estendendo uma pata para ela. Curiosa, a princesa estendeu a mão, soltando logo em seguida uma exclamação enojada quando uma bolota enlameada do que parecia ser pelos caiu em sua palma.
— Eca! Por que você me deu isso? – Perguntou com desgosto. Por debaixo da lama e do limo viscoso, a textura dos fios não se parecia tanto com pelos de animais. Parecia mais com...
— Marianne... eu acho que isso são fios de cabelo. – Sunny murmurou. Era verdade. Agora conseguia ver que eram fios que outrora deveriam ter sido sedosos. Retirou um pouco da lama com o dedão e colocou a pelota sob uma nesga de sol. Os fios eram amarelos e cintilantes feito ouro, como os cachos de Dawn. Ou como os cachos de...
Marianne estancou. Seu corpo inteiro ficou gelado, uma sensação engraçada de formigamento se espalhando por seus membros. Em meio ao zumbido estranho que tomara seus ouvidos, uma pequena parte de seu cérebro entorpecido, uma parte que ela preferia fingir que não existia, conjurou de imediato a imagem desfocada do brilho esmeraldino de uma armadura majestosa, de cabelos dourados como o sol das manhãs de verão e de olhos verdes, reluzentes e venenosos.
E um sorriso. Um sorriso que outrora fora capaz de deixá-la com o coração aos saltos, mas que agora só fazia seu estômago se revirar.
“Ei! Só um errinho de nada!”
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