Garras e Presas

12 Capítulo 12


Notas iniciais
Bom dia a todo mundo! Eu sei que demorou e agradeço do fundo do coração pela paciência de vocês, mas prometo que a espera vai valer a pena. Primeiramente, gostaria de agradecer a Lell Ly e a Spoilerpll pelas recomendações. Entrei agora a pouco para postar o novo capítulo e quase tive um ataque cardíaco com o que eu vi. É extremamente gratificante ver o quanto minha história é apreciada. Vocês fizeram do meu domingo um dia muito feliz. Obrigada, de coração. Agora, sem mais delongas, o momento que todos estávamos esperando. Boa leitura 0/

Bog perdera a conta de quantas vezes sonhara com um possível reencontro com Marianne. Acontecia principalmente enquanto ele dormia, sua mente reproduzindo em imagens coloridas o desejo mais ardente do seu subconsciente. As reconciliações imaginárias eram sempre regadas a abraços, beijos ardentes, declarações de amor que não combinavam em nada com eles e quase sempre terminavam com ele rasgando as roupas dela e a tomando com voracidade. A dor vinha implacável quando ele enfim acordava e, quando era particularmente intensa, o pavor da rejeição era a única coisa que o impedia de voar em disparada para o Reino das Fadas, invadir o palácio, cair de joelhos diante de Marianne e implorar para que ela o aceitasse de volta, por mais humilhante que isso fosse. Tê-la novamente já faria todo o esforço valer à pena. Repassara em sua cabeça centenas de vezes o que diria e como diria, chegando a ensaiar quando tinha certeza de que estava sozinho. Se um milagre acontecesse e os caminhos deles voltassem a se cruzar, ele estaria preparado.

Mas é claro, falar era muito mais fácil do que fazer. Agora que estava enfim cara a cara com Marianne, ele simplesmente não sabia como agir. A verdade é que não tinha nem certeza se o que estava vendo era real ou se a fome e a exaustão estavam começando a fazê-lo alucinar. Sentia-se pregado no chão, a boca escancarada e os olhos estatelados como dois ovos fritos, encarando mortificado a fada que o observava com uma expressão impassível. Somente os olhos cor de mel delatavam os sentimentos que ela habilmente impedia de chegarem às suas expressões. Saudades. Amor. Dúvida. Receio. E acima de tudo, raiva. E oh, como a raiva de Marianne era capaz de ser, ao mesmo tempo, algo maravilhoso e aterrorizante.

Sentindo que desabaria com o traseiro no chão caso se mexesse um milímetro que fosse, Bog se limitou a virar os olhos para Griselda, que observava a troca de olhares com um semblante imperturbável. Ela voltou-se para ele e empinou ligeiramente o queixo como se o desafiasse a questionar seus métodos pouco ortodoxos. Quando ele não respondeu, ela simplesmente balançou a cabeça, deu uma palmadinha encorajadora na coxa esquerda de Marianne, virou-se nos calcanhares e marchou para fora da sala do trono sem dizer uma única palavra, fechando as portas ao sair.

O eco da pancada foi sumindo até só restar o silêncio. Bog parecia ter se esquecido de como usar os músculos das pernas, vendo-se paralisado perante o olhar penetrante de Marianne como uma lebre hipnotizada pelos olhos de uma serpente. Ela mudou o peso de um pé para o outro, a expressão incerta de quem estuda a situação à frente e pondera sobre o melhor curso de ação. Quase como ela costumava estudá-lo enquanto ambos duelavam, analisando seus movimentos e esperando por uma abertura para poder atacar. Doía-lhe pensar que ela estava encarando o reencontro entre eles como um embate iminente, mas não era como se pudesse culpá-la. Ele também estava com o estômago se revirando em nervosismo pelo o que viria a seguir.

Ela então deu um passo em sua direção, ao que sua respiração prendeu na garganta. Seus dedos se agitaram brevemente, e ele não sabia se havia sido de vontade de agarrá-la pelos braços e puxá-la para si ou para apanhar seu cetro para ter com o que se defender, caso ela optasse por uma abordagem mais violenta. Mas apesar de sua apreensão, a ficha parecia enfim ter caído em seu cérebro perturbado. Ela estava ali, bem na frente dele. Não era mais uma de suas fantasias. Era real e palpável. Os cantos de sua boca tremeram quando um sorriso quis irromper, o que não aconteceu por acreditar que o momento não era adequado. Desejos conflitantes começaram a batalhar ferrenhamente dentro de si: o de correr para ela, abraçá-la e cobri-la de beijos contra o de fazer uma retirada estratégica para evitar o pior. Seus olhos chegaram a se virar para o teto, fixando-se na claraboia por onde os raios de sol se derramavam, e ele ponderou por alguns instantes sobre quais seriam as chances de uma fuga bem sucedida. Suas intenções não passaram despercebidas à Marianne.

— Nem pense nisso. – Ela rosnou num tom tão ultrajado que ele sentiu vontade de bater em si mesmo por sua insensatez. Como ele podia ser covarde ao ponto de pensar em fugir quando ela claramente viera atrás de respostas? Sabia que era sua obrigação dá-las a ela, mas estava apavorado com as possíveis consequências de seus atos. E se ela tivesse vindo para botar um ponto final na relação deles? E se ela não aceitasse nenhuma de suas explicações, desse-lhe as costas e nunca mais voltasse?

“E não era isso mesmo o que você queria?”, sua consciência indagou sardônica.

“É claro que não! Eu achava que era isso o que ela queria!”

“Mas ela está aqui agora, não está? Isso quer dizer que ela está disposta a conversar.”

“Mas e se ela estiver furiosa demais para me perdoar? E se ela nunca mais quiser me ver?”

“Você nunca vai saber se vocês não conversarem! Não seja covarde e diga alguma coisa!”

Engolindo em seco, Bog abriu a boca, ainda sem saber como começar. Mas sua voz morreu quando seus olhos pousaram no ombro direito de Marianne. Ele viu a linha grosseira do ferimento em fase de cicatrização, a pele ao redor ainda um pouco avermelhada. O nervosismo deu lugar a preocupação e ao pesar.

— Como está sua ferida? – Foi o que ele conseguiu dizer, estendendo a mão para o ombro dela num gesto automático. Marianne imediatamente se afastou, cruzando os braços novamente, a boca crispada em desconforto. A reação dela fez com que seu peito se contraísse em espanto e mágoa. Ela estava chateada ao ponto de não querer que ele a tocasse?

“A culpa disso é toda sua.”

— Está melhor. – Ela respondeu com um descaso fingido. Deu uma risada sarcástica logo em seguida – Não que você se importe.

— É claro que eu me importo! – Ele exclamou afrontado, a dor da rejeição se intensificando – Eu não fiz nada além de pensar em você por um mês inteiro!

— Oh sim. Seus pensamentos chegaram a mim em toda a sua preocupação enquanto eu esperava por uma visita sua, presa em uma cama na ala hospitalar.

Ele trincou os dentes com força, procurando não se irritar com os comentários passivo-agressivos. Ela tinha todo o direito de estar magoada com suas atitudes e nada justificaria sua ausência num momento em que ela claramente precisara dele.

— Marianne... Por favor, deixe-me explicar-

— Não. – Ela grunhiu, os punhos se cerrando – Você já falou o bastante. Agora é a minha vez, então faça o favor de calar a boca e me escutar.

Bog se calou, procurando suprimir um tremor. Estava com tanto medo do que iria ouvir...

— As coisas não foram nem um pouco fáceis no último mês. – Ela começou num tom quase casual – Como havíamos previsto, predadores vindos da Floresta Sombria começaram a atacar o Reino das Fadas em busca de comida. Felizmente, o povo foi prevenido a tempo e, até o momento, conseguimos evitar que uma tragédia acontecesse. Mas esse não é o único problema. O que quer que esteja causando as mortes e a escassez em seu reino começou a se espalhar pelo meu. Os animais começaram a morrer um atrás do outro. Tivemos que acelerar a colheita para evitar que os alimentos se contaminassem. Se não fosse por nosso sistema de encanamentos, muitos provavelmente teriam adoecido e morrido pelo envenenamento da água. Não, me escute! – Ela exclamou ao vê-lo abrir a boca para dizer algo – A situação está péssima e parece longe de melhorar, mas estamos dando o nosso melhor para seguir em frente. Os lavradores estão se esforçando para garantir que tenhamos alimentos e nossos guerreiros estão fazendo o que podem para nos proteger dos predadores. E eu, como sua princesa e futura rainha deveria estar ao lado deles. Deveria estar combatendo esse problema com minha espada em punho, lutando pela segurança do meu povo. Mas eu não posso. – O lábio inferior dela estremeceu – Meu ferimento está sarando com uma rapidez impressionante, mas eu ainda não estou em forma para voltar ao combate. Você faz alguma ideia de como isso é frustrante? – Ela perguntou com tristeza – Faz alguma ideia de como é se sentir um peso morto, um inútil que fica preso no chão enquanto assiste aos outros arriscarem os pescoços por você? Sabe como é sentir que você está falhando com as pessoas que você ama, que você jurou proteger?

Bog não soube o que responder, o que talvez fosse o melhor, considerando que Marianne não parecia querer uma resposta. Deixou que ela desabafasse, balançando a cabeça em compreensão, entendo suas palavras melhor do que ela poderia imaginar. Engoliu em seco quando ela recomeçou a falar.

— Apesar de tudo isso, uma parte de mim dizia que tudo aquilo seria mais fácil de suportar se eu tivesse alguém em quem me apoiar. – A voz dela subitamente tornou-se embargada – Eu costumava achar que buscar amparo em outra pessoa era um sinal de fraqueza, mas não é assim que a banda toca. Ninguém é feito de aço. Todos precisam de alguém que ofereça uma mão, algumas palavras de incentivo, um ombro onde você possa encostar sua cabeça, alguém com quem você possa falar sobre seus problemas e frustrações e ter a certeza de que será amparado caso comece a cair. – Os olhos dourados se voltaram para ele, marejados – Eu acreditava que tinha encontrado esse alguém em você, Bog.

— Marianne... – Ele balbuciou, arrasado e envergonhado, mas ela novamente o interrompeu.

— Mas você não estava lá para mim quando eu mais precisei. Eu estava acabada, deprimida com meu estado e com toda aquela situação e nada teria me ajudado mais do que a sua presença. Mas você sumiu, desapareceu da minha vida sem dar uma mísera explicação, sem nem se importar com como eu me sentiria com sua ausência ou mesmo com como eu estava me recuperando.

— Não é verdade! – Ele quase implorou, lutando contra o desejo de abraçá-la, sabendo que seria rechaçado – Eu não parei de me preocupar com seu estado por um instante sequer. Eu mandei inúmeras cartas ao seu pai, sua irmã e a você, perguntando como você estava e oferecendo meu auxílio, mas não recebi nenhuma resposta.

— Agora eu sei disso. Descobri a pouco mais de uma hora que meu pai esteve escondendo cada uma das cartas que você mandou para mim. – Ela soltou a bomba com a naturalidade de quem conta um causo do dia a dia. Bog ofegou, seus olhos se arregalando em choque. Uma parte dele sabia que ele não deveria estar tão surpreso, considerando que era muito pouco provável que Marianne escolhesse ignorar seus apelos mesmo que pretendesse desmanchar o relacionamento. A outra foi assaltada por uma fúria indignada, fazendo com que um rosnado ameaçador retumbasse em seu peito. Maldito velho abelhudo, sempre metendo o nariz no que não dizia respeito a ele!

— Como ele se atreve? As cartas eram para você! Ele não tinha o direito-

— Sim, sim, eu disse tudo isso a ele quando o confrontei. – Ela garantiu com impaciência – Mas isso já não tem importância. Não duvido que você esteve esse tempo todo preocupado comigo, mas isso não muda o fato de que você agiu como se estivesse oferecendo condolências a uma estranha. Eu não queria seus votos de melhoras por escrito, Bog. Eu queria você ali, do meu lado.

— Eu queria ter ido te visitar, eu juro! Mas eu não achava que seria bem vindo ali, não depois das coisas que seu pai me disse...

Ele se encolheu quando os olhos de Marianne estreitaram-se perigosamente.

— Ah sim. A conversinha que meu pai e você tiveram pelas minhas costas, decidindo meu futuro sem nem sequer pensarem em me consultar.

— Marianne...

— Ora, mas isso é óbvio, não é? Eu sou só uma mulherzinha estúpida que não sabe o que quer da vida. Quem melhor para pensar por mim do que os homens? – Ela perguntou retoricamente num sarcasmo tão venenoso que fez o rosto de Bog corar e arder – Quem se importa com o quão infeliz a Marianne vai ficar com a ausência do companheiro dela? Vamos deixá-la de castigo, plantada numa cama na ala hospitalar como a garotinha malcriada que ela é.

— As coisas não foram assim! – Ele protestou – Eu não fiquei feliz com tudo o que se desenrolou e nem concordei com as atitudes de seu pai em relação à maneira como ele te trata, mas a decisão que eu tomei teve a ver unicamente com meu comportamento durante o festival. Foi assim que seu pai me convenceu a me manter afastado, pelo menos por algum tempo. Eu pretendia te sondar nas cartas e ver se você estava disposta a me receber, mas nenhuma delas foi respondida e eu acabei desanimando. Acabei me convencendo de que talvez o seu pai estivesse falando a verdade.

— Que verdade? A de que sua presença era um perigo para mim e que você tinha de se afastar para o meu próprio bem?

— Não! A de que eu estava sendo egoísta ao tentar impor meu modo de vida a você! – Ele exclamou em frustração. Ela ouvira a conversa entre Griselda e ele, não ouvira? Por que estava fazendo perguntas cujas respostas já conhecia?

— E você subitamente decidiu que era um babaca egoísta e que não merecia estar em minha presença porque meu pai te disse assim? Meu pai, a quem você sabe muito bem que nunca aprovou nosso relacionamento e que não perderia uma oportunidade de nos afastar caso ela se apresentasse? – A voz dela estava se tornando mais esganiçada a cada palavra, denotando toda a raiva que ela estivera tentando conter – Você preferiu dar ouvidos ao meu pai a conversar comigo sobre essa situação, perguntar a mim o que eu queria fazer e decidir comigo o que seria de nós dali em diante?

— Não foi só por causa do seu pai, Marianne! Isso é algo que sempre esteve nos fundos da minha mente, me cutucando e atazanando e só agora passou para o primeiro plano, tudo por causa do meu surto durante o festival. O... O que eu fiz foi um absurdo.

— É. Talvez. – Ela assentiu mecanicamente, e ele quase voltou a se encolher com a secura de suas palavras – Mas se foi assim tão absurdo, não acha que eu merecia uma explicação? Ou você pensa que eu não passei cada minuto de minha recuperação me perguntando que diabo tinha acontecido com você, se aquilo era normal e se eu poderia te ajudar de alguma maneira?

— Não. É claro que você pensou nisso. Eu... – Engoliu em seco mais uma vez, lutando contra o nó cego que outra vez se formava em sua garganta – Eu sinto tanto, Marianne, eu... Eu não queria ter perdido a cabeça daquela maneira, ter assustado Dawn e você... Foi por isso que eu achei melhor me afastar por um tempo. Eu não sabia como você estava reagindo ao contemplar essa minha faceta e nem queria me impor. Eu não iria forçar você a entender algo que não faz parte de sua realidade, eu... Eu não queria ser egoísta como fui há tantos anos, não com você, nunca com você, então eu-

— Em guarda.

Bog parou de tagarelar. Ergueu a cabeça e sentiu seu sangue congelar nas veias ao ver Marianne desembainhando a espada num gesto feroz.

— Marianne-

— Em guarda! – Ela gritou, apontando para ele com a ponta da lâmina – Pegue o seu cetro!

— Não! Espere um pouco! – Ele pediu temeroso, erguendo as duas mãos num gesto apaziguador – Eu sei que você está zangada e eu não a culpo, mas podemos resolver as coisas de outra maneira-

Foi interrompido quando Marianne avançou para ele com um rugido de guerra, a lâmina da espada rente ao seu flanco direito, preparada para uma estocada certeira. Praguejando, Bog se esquivou desastradamente, rolando para o lado e escapando por milímetros do aço afiado. Ela rapidamente se recuperou, girando a arma para o alto num movimento fluído e trazendo-a para baixo a uma velocidade mortal, mirando as placas em seu ombro esquerdo. Soltando outro palavrão, ele apanhou seu cetro e o usou para bloquear o golpe. O choque das armas produziu um tinido agudo e faíscas luminosas que dançaram diante de seus olhos. Grunhindo, Bog aplicou pressão no cabo do cetro e empurrou Marianne para longe de si. Ela pulou para trás, batendo as asas para pousar com leveza.

— Pare com isso, Marianne! Eu não quero lutar com você! – Ele a avisou enquanto assumia uma pose defensiva. Marianne arreganhou os dentes num esgar.

— Acredite, Bog, eu também não iria querer lutar comigo mesma.

E com outro grito, avançou para ele mais uma vez.

Suas armas se chocaram novamente, os cabos trêmulos com a força que ambos aplicavam. Bog trincou os dentes e tentou desequilibrá-la, tencionando derrubá-la e rendê-la, mas Marianne previu suas intenções. Deixou que a lâmina de sua espada deslizasse pela lateral do cetro dele, batendo com ela na ponta de âmbar e empurrando a arma para o lado. O Rei do Pântano só pode abaixar a parte superior do tronco para evitar ser atingido diretamente no peito. Percebeu que ela não estava para brincadeiras, a ferocidade de seus ataques deixando-o pasmado. Ela estava mesmo tentando feri-lo? Sentia tanta raiva dele assim?

“E você pode culpá-la? Você a abandonou no momento em que ela mais precisou de você.”

Grunhiu ao sentir mais um arrombo de arrependimento no peito. Pelos espíritos, onde ele estivera com a cabeça quando resolvera se afastar? Suas atitudes impensadas só provocaram mágoa e raiva. No que ele era diferente do ex idiota dela?

Foi trazido de volta à realidade quando a espada da princesa voltou a atingir a lateral de seu cetro, produzindo vibrações que quase o fizeram derrubá-lo. Rosnando, ele segurou o cabo com mais firmeza e girou-o em círculos para bloquear uma sucessão de golpes que choveu sobre ele. Marianne grunhiu em frustração e Bog viu que a testa e pescoço dela já estavam encharcados de suor. Estreitou os olhos em ansiedade: ela possuía bem mais estamina do que aquilo.

— Marianne, chega! Você não está em condições de duelar! – Ele a lembrou, ao que foi sumariamente ignorado.

— Não me diga o que fazer, sua barata ridícula!

Os ataques dela se tornaram mais violentos, mas também mais previsíveis. Marianne era uma excelente espadachim, mas era óbvio que não estava na melhor forma para um combate. Ela girou graciosamente para tentar pegá-lo de guarda baixa, atingindo-o nos quadris, mas seu equilíbrio vacilou quando o braço de sua espada estremeceu violentamente. Bog viu quando ela fechou os olhos com força e silvou de dor, o ombro ferido se contorcendo num espasmo de agonia. Ele baixou o cetro na mesma hora e correu para ela, a expressão transtornada de preocupação.

— Você está bem? Está doendo muito? – Perguntou num tom afável, estendendo a mão gentilmente. Os olhos deles se encontraram e, por um instante, ela pareceu prestes a relaxar e aceitar seu amparo. Mas seu semblante frágil desapareceu no segundo seguinte, a cólera voltando a retorcer suas belas feições. Afastou a mão dele com um safanão e procurou atingi-lo no flanco esquerdo com outro golpe lateral. Ele xingou alto e bloqueou a tempo. Foi a vez dela de xingar. Bog quase riu, lembrando-se de seus duelos amistosos, de como ele adorava aporrinhá-la ao se vangloriar por seus anos a mais de experiência e de como ela o ameaçava com um pontapé nas partes baixas se ele não a levasse a sério. E por um mísero segundo, ele podia jurar que vira os cantos da boca dela tremerem numa sugestão de sorriso. Talvez tenha sido fruto de sua imaginação.

Por que as coisas tinham que ter chegado àquele ponto? Eles deveriam estar encarando aquele reencontro com júbilo, e não com brigas e desentendimentos. Sentia-se arrasado ao vê-la tão empenhada em atacá-lo, mesmo com suas forças no limite. E sentia que, se ela acabasse por atingi-lo, não seria nada além do merecido.

— Por favor, Marianne, pare! – Pediu mais uma vez – Nunca me perdoarei se acabar te machucando!

— Cala a boca! Pare de ficar só na defensiva e me ataque!

— Não com você nesse estado!

— Droga, Bog! – Ela gritou enfurecida, saltando para o ar e tentando atingi-lo com um golpe na cabeça. Ele novamente a interceptou. As asas deles trepidavam com o ardor da adrenalina. Encararam-se enquanto aplicavam pressão nos cabos de suas armas, e ele viu como o lábio inferior dela tremia violentamente. Ofegou em choque e infelicidade. Não se lembrava de algum dia ter visto Marianne chorando.

— Por que você não me leva a sério? Por que nenhum de vocês me leva a sério?

— Eu levo você a sério! Mas você não está em boa forma e eu não quero-

— Eu pareço do tipo que aceita que imponham alguma coisa a mim?!

— Eu... O quê?

— Eu pareço do tipo que aceita fazer algo que vai contra os meus princípios?! – Ela gritava enquanto tentava atingi-lo com uma sucessão de estocadas – Pareço do tipo que se força a aceitar algo que não me agrade?! Responda!

— N-Não! Você não é-

— Então por que você achou que estaria se impondo? Por que achou que custaria caro a mim aceitar essa parte de você? Por que achou que isso importaria para mim de alguma maneira?

— Eu não achei! Eu só pensei que... – Ele ofegou ao tentar bloquear um golpe destinado à sua perna direita – O seu pai disse que-

— Esqueça o meu pai, seu idiota! Pense em tudo o que você sabe sobre mim! Pense se eu seria capaz de me forçar a ficar ao seu lado se algum aspecto de sua natureza não me agradasse! Pense se alguma vez eu demonstrei que deixaria de amar você caso alguma dificuldade decorrente de nossas diferenças surgisse!

E naquele momento, Bog se sentiu um imbecil desalmado.

Marianne, apesar de seu gênio explosivo, sempre fora muito paciente e compreensiva com suas inseguranças. Ela sempre demonstrara através dos atos que sempre estaria ali para ele, independentemente dos obstáculos que surgissem. O preconceito que sofriam por parte dos dois reinos, as diferenças culturais e biológicas, o peso do reinado que ele carregava e do reinado que ela um dia carregaria; nada disso fora capaz de fazê-la repensar os prós de sua relação. Amava-o e pretendia que as coisas continuassem assim. E ele retribuíra abandonando-a. Mesmo que suas intenções tivessem sido nobres, não justificava tratar a autonomia dela dentro daquele relacionamento com tanto descaso. Ela não era sua propriedade para que decidisse os rumos do que deveria ser uma parceria sem consultá-la.

Ao tentar não ser egoísta, ele conseguira a façanha de ser ainda mais egoísta.

A dor e a raiva que sentia de si mesmo ante a revelação fizeram com que abaixasse a guarda. Pega desprevenida, Marianne não foi capaz de parar o golpe seguinte. Bog soltou uma exclamação de dor quando a lâmina da espada o atingiu entre as placas de seu ombro direito.

— Bog! – Marianne gritou em pânico, largando a arma na mesma hora e caindo de joelhos diante dele – Oh, deuses, me desculpe, me desculpe!

Ela apalpou a região atingida febrilmente, murmurando pedidos de desculpas ininterruptos. Quando o goblin grunhiu de dor, ela soltou um lamento choroso e inclinou-se para beijá-lo no canto da boca.

— Me perdoe, eu juro que não queria machucar você, mas eu estava contando que você bloquearia meu ataque.

— Está tudo bem, meu amor. Não está tão ruim assim. – Ele assegurou com um meio sorriso trêmulo, e era verdade. Seu exoesqueleto funcionava como uma armadura natural e fora capaz de absorver a maior parte do impacto. Ainda assim a lâmina conseguira penetrar a cavidade entre as placas de seu ombro, e ele sentia o sangue escorrendo lentamente da ferida. Marianne ofegou e imediatamente procurou estancar o sangramento ao pressionar as duas mãos sobre a cavidade. Ao contemplar sua expressão angustiada, ele compreendeu que em momento algum ela pretendera de fato atingi-lo. A sugestão de sorriso que vira enquanto duelavam não fora coisa de sua cabeça.

— Você... Você não estava mesmo tentando me ferir?

— Não! – Ela jurou, balançando a cabeça – Eu sei bem que não estou em minha melhor forma, por isso acreditei que você seria capaz de bloquear meus golpes com facilidade. Mas essa foi a única maneira de fazer você entender como eu me sentia em que consegui pensar. Sempre conseguimos nos comunicar melhor com nossas armas do que com palavras. – Ela soltou uma risada aguda, quase histérica – Talvez não tenha sido a melhor das minhas ideias.

— Você me deu um baita de um susto. Fiquei com medo de machucar você por acidente.

— Eu supostamente estava tentando te matar e você só se preocupou comigo. – Ela balançou a cabeça, incrédula. Voltou-se para ela com um meio sorriso afetuoso – Você é mesmo um idiota.

Bog riu baixinho, ao que ela o acompanhou. Por um momento, pareceu que as coisas haviam voltado ao normal entre eles. Mas ele sabia que nada era tão simples assim. Marianne continuou a pedir desculpas enquanto limpava sua ferida com um pedaço que rasgara de uma das pétalas que compunham sua túnica, mas Bog não lhe prestava atenção. Estava com os olhos fixos nos lábios dela, carnudos e arroxeados com a polpa de frutas que ela usava para colori-los, e sentiu um desejo quase incontrolável de beijá-los, de mordê-los e de sugá-los até que ela começasse a gemer o seu nome. Ele sentira tanto a falta dela!

Inclinou-se para ela quase sem perceber e, por um segundo, ele viu as pálpebras dela pesarem e sua boca se abrir num convite. O momento foi quebrado rapidamente, porém, quando ela imediatamente se afastou e virou a cabeça para o lado, mordendo o lábio inferior em incerteza. Ele voltou a sua posição anterior, entristecido pela rejeição e sentindo-se culpado por tentar forçar uma proximidade para a qual ela obviamente não estava preparada.

— Desculpe. Não queria deixá-la desconfortável.

— Você nunca me deixa desconfortável. É só que agora não é um momento adequado. – Ela murmurou – Se tentar colocar algum juízo na sua cabeça com algumas bordoadas não adiantou, então que seja com palavras. Eu preciso fazer você entender o meu lado, e não é com beijinhos e abraços que irei conseguir.

— Mas eu entendo o seu lado. Sei muito bem o quão frustrada e sobrecarregada você deve estar se sentindo, pois eu sinto o mesmo. As coisas também não têm sido fáceis por aqui.

— Eu sei disso. Sua mãe me pôs a par de tudo.

— Sim. Minha mãe inconveniente e intrometida.

— Sua mãe inconveniente e intrometida foi quem me explicou detalhadamente todas as razões por trás do seu surto e que foi a sua saliva que me salvou de uma amputação. E foi ela quem conseguiu me convencer a dar a você uma chance de se explicar. – Ela subitamente se ergueu, colocando as mãos nos quadris e encarando-o com uma expressão séria – E eu ainda estou esperando você começar.

Bog ergueu-se de um salto também, engolindo em seco e unindo os dedos das mãos num gesto nervoso.

— Você... Você ouviu toda a nossa conversa, não ouviu?

— Cada palavra.

— Então você deve entender... Nunca foi minha intenção fazer você acreditar que eu não a levo a sério ou que eu estava me afastando por temer colocar sua segurança em risco. Eu reconheço e admiro sua força. Peço desculpas por tê-la feito pensar o contrário.

Ela assentiu, embora seu semblante duro não tivesse arrefecido. Bog estava achando difícil manter contato visual com aquele olhar abrasador.

— E eu sinto muito, muito mesmo não ter aparecido para visitá-la. Não queria que você pensasse que eu não me importava com seu estado físico e de espírito, porque eu juro, Marianne, nada importa mais para mim do que ver você feliz e segura.

— Pode ser, mas advinha só: eu não me sentia feliz e segura. Eu estava deprimida, assustada com tudo o que estava acontecendo e tudo isso se acumulou dentro de mim durante um mês inteiro. Se não fosse pelo apoio da Dawn, eu provavelmente teria enlouquecido. Eu não conseguia ventilar, botar para fora todos os sentimentos ruins que estavam me fazendo mal, tudo porque a pessoa que melhor me entendia não estava ali ao meu lado me apoiando.

— Foi a mesma coisa comigo. Fazia anos que eu não me sentia tão sufocado, tão furioso, tão exausto. Eu ficava pensando o tempo todo que se você estivesse ali comigo, as coisas seriam tão mais fáceis de suportar...

— Então por que você não me procurou? Por que não apareceu para explicar a mim toda aquela doideira? Por que não conversou comigo para que pudéssemos resolver nossos problemas juntos, como qualquer casal com um relacionamento saudável faz? – Ela botou para fora todas as perguntas que martelavam em sua cabeça, a raiva tendo desaparecido de sua voz, deixando transparecer apenas a tristeza e o cansaço – E por tudo o que é mais sagrado, não me venha com essa história de egoísmo, okay? Eu conheço bem os seus defeitos, mas isso não é justificativa para-

— Eu sei que não é justificativa, mas é assim que eu me sinto! – Ele exclamou de repente, ao que Marianne se calou, surpresa – Você conhece todas as minhas inseguranças, Marianne, sabe que eu ainda tenho dificuldades para lidar com elas. Nenhuma fêmea... Não, nenhuma criatura, com exceção de minha mãe, mostrou para comigo toda a preocupação, paciência e carinho que você mostrou. Você tem alguma noção do quanto isso é precioso para mim? Você faz alguma ideia do medo que eu sinto de dar um escorregão, fazer alguma besteira que faça com que você se afaste de mim definitivamente? Eu sou egoísta demais. Eu contei a você o que eu fui capaz de fazer simplesmente por não aceitar que aquela pobre criatura não retribuísse meus sentimentos. Eu a afastei de mim para sempre, e eu sinto um pavor enorme de cometer o mesmo erro com você.

— Bog... – Ela sussurrou roucamente, os olhos cheios de espanto e angústia, mas ele balançou a cabeça.

— Deixe-me terminar. Eu não suporto a ideia de ser egoísta com você, não com tudo o que você fez e faz por mim. Você se esforça tanto para entender minhas incertezas e ser paciente, você nunca deixa que a desaprovação do seu pai e o preconceito que enfrentamos tanto com os seus conterrâneos quanto com os meus fique entre nós, você está sempre disposta a aprender coisas novas sobre mim e sobre o meu reino para que o choque cultural entre nós não seja tão intenso e... e você consegue enxergar através da minha aparência horrível, dos meus modos bestiais e me apreciar apesar de tudo isso.

— O quê? Do que você está-

— Você está sempre tão determinada a me fazer feliz, como eu não poderia fazer o mesmo? Você já se sacrifica demais pelo nosso relacionamento. Como eu seria capaz de exigir que você sacrifique também seu senso de autopreservação e aceite esses meus trejeitos de predador? Em alguns pontos o seu pai está certo, nós somos mesmo muito diferentes. E você não é obrigada a engolir essas diferenças e suportar ter que ficar ao lado de uma criatura que precisa caçar e matar para sobreviver, que tenha presas afiadas que podem perfurar sua carne e garras enormes que podem rasgar suas asas num simples roçar. Você já me aceita apesar de eu ser um goblin, eu jamais seria tão egoísta ao ponto de-

— Parou, parou, parou! – Ela bradou de supetão, sacudindo os braços – Mas que idiotice é essa que você está dizendo?

— Idiotice? – Ele repetiu com espanto – Eu estou aqui me abrindo para você e ainda assim-

— Pelos deuses, Bog, você está se ouvindo?! – Ela vociferou incrédula – Você está se autodepreciando bem na minha cara, dizendo que eu aceito você apesar do que você é e ainda quer que eu fique calada?

— É a verdade! Como é que você não entende isso?

— A única coisa que eu não entendo é toda a extensão da sua burrice!

— A única burrice extensa aqui é a sua! – Ele rosnou indignado – Minha única preocupação é com sua felicidade e seu bem-estar, mas você não quer enxergar isso e fica teimando com uma coisa que nenhum de nós é capaz de mudar! Eu sou um goblin e não há nada que se possa fazer a respeito disso!

— É lógico que não há! E eu nem quero que haja! Ponha isso na sua cabeça de uma vez!

— Você não está fazendo o menor sentido!

— É você quem não está fazendo sentido!

— Pelo amor de deus, Marianne! – Ele berrou em frustração, lutando contra o impulso de agarrá-la pelos ombros e sacudi-la. Enterrou as garras no escalpo e a encarou enraivecido, ao que ela retribuiu na mesma intensidade. Ficaram assim por alguns instantes, rosnando e bufando. Logo perceberam o quão ridícula era aquela situação e como gritar e esbravejar não resolveria nada. Desfizeram as poses hostis e desviaram os olhares, levemente envergonhados.

— Eu... Desculpe por ter gritado.

— É... Desculpe-me também.

— Mas você precisa entender. – Ele pediu no tom mais gentil que conseguiu evocar – Eu... Eu amo tanto você. – Balbuciou enquanto corava – E eu sei que você também me ama, apesar do que eu sou. Mas ainda assim-

— Não, Bog, não. – Ela gemeu, enterrando o rosto nas mãos – Era exatamente isso que eu estava tentando dizer. O que mais eu preciso fazer para que você entenda?

— Entender o quê?

— Que eu não amo você apesar de você ser um goblin! – Ela finalmente explodiu, ao que ele se sobressaltou – Eu amo você porque você é um goblin!

Bog estreitou os olhos, espantado e confuso. Marianne olhou para os lados, o rosto ruborizando.

— Hã... Tudo bem, isso soou estranho. Como eu posso explicar... – Ela coçou a nuca enquanto procurava pelas palavras certas – Sabe... Antes de nos conhecermos, eu morria de medo da Floresta Sombria. No dia do meu casamento, eu estava com a cabeça nas nuvens e acabei me distraindo enquanto voava de um lado para o outro. Foi aí que atravessei a fronteira por acidente. Dei de cara com vários goblins podando prímulas, e como eu estava com uma pétala na mão, eles pensaram que eu estava ali para roubar uma. Eles não quiseram ouvir minhas explicações e tentaram me capturar. Eu consegui escapar, mas... a má primeira impressão acabou ficando.

Bog assentiu de olhos arregalados, lembrando-se de quando Stuff e Thang vieram avisá-lo sobre uma fada que invadira a Floresta e tentara roubar uma pétala de prímula. Então fora Marianne?

— Depois, com toda aquela confusão sobre a Poção do Amor e com você levando a Dawn como refém... Eu precisei engolir o meu medo e entrar na Floresta para resgatá-la. Dei de cara com várias coisas que, na minha cabeça traumatizada, eram assustadoras e perigosas. E foi aí que eu tive a oportunidade de conhecer você melhor. – Ela sorriu com as lembranças – Não foi só a conexão imediata entre nós que possibilitou que eu começasse a me apaixonar por você. Foi o fato de você compreender minha ansiedade, estender a mão para mim e me mostrar que existia beleza nas coisas que antes eu tanto temia. A Floresta Sombria é um lugar perigoso, mas é também um lugar cheio de coisas fascinantes. E isso vale para você também.

Com o coração aos saltos, Bog a observou assumir um semblante terno.

— Eu aprendi a amar cada coisa diferente, bizarra e interessante que existe aqui. Eu aprendi que existem vários tipos de beleza e isso abriu os meus olhos. – Ela se aproximou dele, estendendo uma mão para acariciar o queixo espicaçado – Você é uma dessas coisas. Eu adoro tudo que existe de diferente e bizarro em você. Adoro suas escamas. Adoro seus braços e pernas compridos. Adoro suas asas de vespa. Adoro quando você usa suas garras para me acariciar entre minhas asas. Adoro a sensação gostosa das suas presas na minha pele. E eu adoro, adoro o quanto seus olhos são azuis.

— Marianne...

— E isso é apenas descrevendo sua aparência. Eu adoro como você é altivo e determinado. Adoro como você tenta se passar por durão e insensível, mas é na verdade carinhoso e gentil. Adoro como você é responsável, como se preocupa com sua mãe e seus subordinados mesmo que não goste de demonstrar. Adoro como você nunca se segura quando duelamos e como você fica empolgado quando me mostra coisas novas. Adoro como você fica todo envergonhado quando descrevo suas qualidades. – Ela riu ao ver o rosto dele enrubescendo furiosamente – E o que eu mais adoro é a sua capacidade de me aceitar. Eu não preciso fingir ser uma coisa que eu não sou quando estou com você. E você tampouco finge ser algo que não é. Eu adoro quando podemos conversar um com o outro sem nenhuma reserva. Mas eu odeio de verdade quando você começa a se depreciar e age como se eu estivesse fazendo um grande sacrifício ao permanecer ao seu lado. Odeio como você não consegue se enxergar como eu te enxergo. E eu odeio, odeio quando você se afasta de mim por causa dessas dúvidas e assume coisas sem nem parar para pensar em perguntar minha opinião.

— Eu não sabia que você se sentia assim. – Ele balbuciou, os ombros trêmulos pela emoção e pela vergonha – Eu nunca quis assumir coisas ou magoar você, mas você precisa entender que esse é um aspecto de minha natureza que eu não posso mudar. E eu nem quero que você se sinta obrigada a ter que conviver com isso. Você não tem obrigação de encarar algo que foge de sua realidade, Marianne.

— Você está certo. Eu não tenho a obrigação. Mas eu quero mesmo assim. – Ela então segurou suas mãos firmemente – Eu não vou mentir para você. Eu fiquei com medo quando vi você atacando aquela coruja. Fiquei com medo quando você abocanhou minha ferida. Eu não sabia o que estava acontecendo, aquela era uma faceta sua que eu nunca tinha visto antes. Mas agora eu compreendo. Sua mãe me explicou tudo. Eu finalmente entendi que isso faz parte de sua natureza, e isso não te torna alguém ruim. Esse é você, Bog. Tanto seu lado racional quanto o irracional são parte de quem você é. E eu jamais pediria a você que abrisse mão disso, porque eu quero você com tudo o que faz de você você. Eu quero todas as bizarrices, toda a selvageria, porque esse é o Bog que eu amo e eu não o quero de nenhuma outra maneira.

Ele simplesmente não sabia o que dizer, e duvidava que conseguiria caso soubesse. O nó em sua garganta nunca estivera tão apertado. Deuses, o que ele fizera para merecer uma criatura tão incrível quanto aquela?

— E sobre você ter se descontrolado por medo de me perder... Sinceramente, quem garante que o mesmo não aconteceria comigo? Quem garante que eu não me descontrolaria e decapitaria o desgraçado que ousasse tentar te machucar? Nesse aspecto, eu acho que eu sou tão selvagem quanto qualquer goblin.

— Você não precisa fazer isso, Marianne...

— E nem você precisava ter feito o que fez. Mas estamos aqui, não estamos? – Ela deu de ombros. Levou as enormes mãos dele até seus lábios, beijando os dedos nodosos. Bog ofegou e ela sorriu – Me desculpe por eu não ter conseguido te confortar naquela noite na enfermaria, quando você estava tão transtornado.

— N-Não precisa se desculpar...

— Preciso sim. Eu também falhei com você. Deuses, nós somos horríveis quando se trata de comunicação. – Ela o olhou fundo nos olhos, ainda segurando suas mãos – Entenda isso de uma vez, Bog. Você mudou toda a visão de mundo que eu tinha sobre o que é beleza, então não duvide quando eu digo que adoro cada aspecto seu, sem nenhum “apesar”. O seu lado selvagem é tão parte de você quanto seu lado civilizado, e isso se mostra mesmo nos seus momentos de descontrole. Você foi capaz de reconhecer a Dawn, afinal. Você voltou a si quando eu o chamei.

— Mas e se isso se repetir? E se eu voltar a perder o controle? – Ele balbuciou, finalmente externalizando o maior de seus receios – Posso não representar um risco para Dawn e para você, mas e para os outros? Eu... eu tentei morder seu pai, Marianne. Se eu voltar a perder a cabeça e não houver ninguém por perto para me parar, uma tragédia pode acontecer...

— Isso aconteceu porque você nunca precisou lidar com a possibilidade de perder a pessoa amada, Bog. Agora você conhece essa experiência. A pior parte já passou. – Ela fez com que a palma da mão direita dele tocasse gentilmente a lateral de seu rosto, seus olhos cheios de uma certeza que o deixou sem falas. Não conseguia acreditar no tamanho da confiança, da fé que ela era capaz de depositar nele. Aquilo o fazia desejar de todo o coração ser capaz de corresponder àquelas expectativas quase inocentes, mas sua incerteza ainda era grande. Percebendo isso, Marianne voltou a apertar suas mãos com força, o semblante cheio de uma convicção ferrenha.

— Suas garras e presas existem por uma razão. Você precisa delas para se alimentar, para sobreviver em um ambiente hostil, para lutar por você mesmo e pelas pessoas que você ama. Foram essas garras e presas que impediram que um desastre acontecesse na noite do Festival da Colheita. Foram essas garras e presas que me envolveram e tentaram de todas as maneiras me proteger, me manter a salvo. Essas garras e essas presas são capazes de fazer coisas boas. Como eu posso não amá-las? – Balançou a cabeça, olhando amorosamente nos olhos do goblin que a encarava como se ela fosse boa demais para ser real – Por isso não as tema, Bog. Caso aquela situação se repita, caso chegue um momento em que você precise dar tudo de si para se proteger, para proteger a mim ou a qualquer outra pessoa... Não se segure. Não hesite. Solte tudo o que há dentro de você, deixe que saia. E eu farei o mesmo. Porque eu posso até não ter garras ou presas... – Ela abriu um imenso sorriso, uma única lágrima caindo de seu olho direito e escorrendo por seu rosto – Mas eu sou capaz de usar minhas unhas e dentes para morder a arranhar até matar, se for por você.

E naquele momento, Bog sentiu como se toda a angústia, raiva, cansaço, saudades e temor de si mesmo fossem expurgados dele, purificando seu interior e deixando espaço somente para a felicidade e a emoção que as palavras de Marianne lhe provocavam. Lembrava-se de todas as vezes que ela lhe dissera o quanto apreciava sua aparência e agora finalmente conseguia acreditar. Ele também adorava cada aspecto dela sem nenhum “apesar”, desde sua personalidade ferina até sua aparência, tudo o que a fazia ser única. Tudo o que a fazia ser ela. E agora tinha total certeza de que ela também apreciava sua ferocidade, seus modos predatórios, porque ela também seria capaz de se tornar uma completa selvagem, se fosse por ele. Sentiu-se então ainda pior por ter lhe dado as costas, por não ter sido capaz de confortá-la e de permanecer ao seu lado no momento em que ela necessitou, por ter dado ouvidos ao pai dela e priorizado suas dúvidas. Trêmulo, ele estendeu os braços para ela, tencionando apertá-la junto ao seu peito, mas Marianne novamente se afastou. Ela ergueu a mão direita como que pedindo calma.

— Eu sinceramente espero que, com tudo o que eu acabei de dizer, você tenha finalmente entendido o quanto suas atitudes me magoaram.

— Eu... Marianne, eu sinto-

— Não, Bog, me escute. Uma das coisas que eu sempre apreciei no nosso relacionamento é como estamos sempre em pé de igualdade. Pelo menos até o último mês. Seu abandono doeu principalmente porque eu fiquei com a impressão de que você não me respeitava tanto quanto eu acreditava. – Ela mordeu o lábio inferior, abaixando os olhos em tristeza – Eu pensava que eu fosse sua parceira. Sua igual.

— E você é!

— Mas não foi assim que você me tratou. Eu me senti como uma criança sendo punida por má criação. Eu era tratada exatamente assim no meu relacionamento anterior. – Ela então deu um risinho – Mas você não é como o Roland.

— Não. – Ele concordou, a voz transbordando culpa – Perdoe-me, Marianne. Nunca foi minha intenção passar essa impressão. Eu adoro o quão forte e independente você é e não te quero de nenhuma outra maneira.

— Eu sei. Por isso quero que você me escute bem. – Ela ergueu um dedo indicador, encarando-o com severidade – Se você fizer isso outra vez, Bog, eu vou embora. Vou embora e não volto nunca mais. Você entendeu?

Bog estremeceu. Sabia que ela estava falando muito sério. Abaixou a cabeça em vergonha.

— Entendi. Eu sinto muito, muito mesmo.

Marianne virou a cabeça de lado, arqueando uma sobrancelha, parecendo avaliá-lo. E então seu semblante rigoroso se desfez, substituído por um sorriso iluminado.

— Tudo bem. Eu perdoo você.

Ele soltou o ar que estava preso em seus pulmões, as pernas bambas de alívio. Seus braços tremiam de cada lado de seu tronco enquanto ele a encarava com uma expressão de quem implorava. O sorriso de Marianne se ampliou enquanto ela abria os próprios braços para ele.

— Agora sim você pode me abraçar.

Não foi preciso dizer duas vezes. Ele a puxou para si com uma empolgação que a fez rir. Enterrou o nariz nas madeixas castanhas, aspirando o doce perfume de frésias enquanto ela afagava suas costas com os dedos. Ergueram as cabeças e seus olhares se encontraram. Ele ainda não conseguia acreditar que ela estava mesmo ali e que ambos tinham enfim feito as pazes, e como que para se certificar, abaixou-se e começou a distribuir beijos pelo rosto dela. Ela riu ainda mais enquanto passava os braços por seu pescoço. Segurou-o pelo queixo e plantou-lhe um beijo demorado nos lábios, ao que ele retribuiu com entusiasmo. Ela gemeu quando ele pediu passagem com a língua, e ele precisou segurá-la quando as pernas dela fraquejaram. Foi a vez dele de rir. Beijaram-se apaixonadamente até ficarem sem ar nenhum. Suas testas se tocaram enquanto tentavam recuperar o fôlego.

— Eu sentia tanta falta dos seus beijos... – Ele sussurrou roucamente – Sentia tanta falta de tocar você, de abraçar você...

— E de fazer amor comigo? Você sentiu falta? – Ela indagou com uma inocência fingida, batendo as pestanas. Ele rosnou baixinho.

— Mais do que qualquer outra coisa.

Ela sorriu maliciosa. Voltou a beijá-lo, fazendo questão de prender o lábio inferior dele entre os dentes e sugar demoradamente. Bog estremeceu e a apertou mais junto ao corpo.

— Marianne... – Ele murmurou com os olhos fechados, extasiado com a carícia. Isso a fez ficar ainda mais ousada. Espalmou a mão direita nas costas dele e massageou-a de cima a baixo, ao que ele gemeu. Dedilhou a longa espinha, subindo num ritmo lento e provocante. Ele rosnou novamente.

— Se você não parar com isso agora, eu não respondo por mim.

Ela arqueou uma sobrancelha e sorriu numa candura que não o convenceu. Serpenteou a língua para dentro e para fora da boca dele, sem parar sua lenta subida pelas costas escamosas, e ele estremecia com cada toque de seus dedos. Então aplicou o golpe fatal: mordeu-o com ainda mais força nos lábios ao mesmo tempo em que o beliscava na base entre as asas.

A reação dele foi imediata: seu corpo deu um violento espasmo, as grandes asas se abriram e zumbiram loucamente, os olhos azuis giraram nas órbitas e o longo gemido que ele soltou era uma das coisas mais indecentes que ela já escutara. Marianne soltou uma risada triunfal antes de Bog atacar sua boca com um beijo voraz. Seu riso se transformou num suspiro quando ele começou a beijar e chupar a pele de seu pescoço.

— Você. É. Terrível! – Ele pontuava cada palavra com mais um beijo enquanto ela só conseguia agradecer aos deuses por seu companheiro ter uma zona erógena tão fácil de ser explorada.

— Oh... Eu sou, é? – Murmurou marotamente, soltando um longo gemido quando ele a lambeu da clavícula até a mandíbula – Então... Então por que você não me pune por isso?

— Oh, acredite, é exatamente o que eu pretendo fazer. – Ele prometeu enquanto ela estremecia pela antecipação. Ele então revirou os olhos, fixando o olhar nas portas da sala do trono – Mas precisamos primeiro nos livrar da minha mãe.

— Meus lindinhos!

As portas foram abertas com violência enquanto uma Griselda saltitando em júbilo corria até eles. Ignorando a posição indecorosa do casal, ela colidiu com as pernas deles, quase os derrubando no chão.

— Estou tão feliz por vocês terem feito as pazes! – Ela exclamou enquanto os abraçava – Eu não disso que tudo poderia se resolver se vocês conversassem?

— A senhora esteve nos bisbilhotando?

— Bisbilhotar é uma palavra tão feia, querido! Prefiro dizer que eu estava me certificando de que minha intervenção não seria necessária. – Ela sacudiu as mãos com desinteresse – Eu achei que ia precisar me intrometer quando vocês começaram a tentar se matar, mas pelo visto essa é maneira como jovens com temperamentos violentos chegam num consenso. Bem, quem sou eu para julgar, não é mesmo? – Deu de ombros, voltando a sorrir – Mas não podemos deixar um momento como esses passar em branco! Isso pede uma comemoração!

— Concordo plenamente. – Bog abriu um enorme sorriso sugestivo para Marianne, que retribuiu com igual disposição. Estendeu a mão para ela e convidou: — Gostaria de me acompanhar, Alteza?

— Ora, será um prazer.

— Hein? Vocês vão sair? – Griselda arqueou uma sobrancelha, não se deixando enganar pelo tom casual da conversa – O que é que vocês vão aprontar?

— Não se preocupe, Griselda. Será apenas uma voltinha inocente. – Marianne assegurou com uma singeleza que não enganaria nem a criatura mais inepta. Abriu suas grandes asas cor de violeta e, voltando-se para Bog com um olhar convidativo, chamou: — Vamos lá, Rei do Pântano. Vamos esticar as nossas asas.

O queixo de Griselda caiu enquanto assistia seu filho quase tropeçando nas próprias pernas enquanto corria para junto de sua companheira.

— Ei, esperem! Vocês não podem sair assim! – Ela exclamou quando eles alçaram voo em direção à claraboia – E o jantar romântico de reconciliação que eu preparei? Como é que fica? – Quando eles a ignoraram, ela limitou-se a dar de ombros – Bah! Façam como quiserem, então. Eu só espero que essa “voltinha inocente” me renda alguns netos.

Mas ambos estavam ocupados demais com as bocas um do outro para ouvirem-na.