Garras e Presas
11 Capítulo 11
Notas iniciais
As asas de Marianne eram da cor do crepúsculo. Ou era o crepúsculo que era da cor das asas de Marianne?
Bog se fizera aquela pergunta incontáveis vezes, sem nunca encontrar uma resposta. Os tons frios e cintilantes do fim de tarde mesclavam-se ao violeta aveludado que a rodeava, como a auréola prateada que rodeava a lua. Mas para ele, nem o astro noturno era capaz de irradiar tanta beleza.
Ela voou em sua direção quase sem um farfalhar, como se pudesse se sustentar no ar sem o auxílio das asas. Os olhos dourados pareciam queimar ao fitá-lo, a juba de cabelos castanhos esvoaçando ao sabor da brisa, o aroma suave de frésias que dela se desprendia envolvendo-o em ondas balsâmicas. A exaustão, a raiva e a dor da saudade o abandonaram como se fossem um sonho ruim. Não havia espaço para sentimentos negativos quando Marianne estava em seus braços.
Ela se aconchegou junto ao seu corpo, o calor de sua pele suave e leitosa um remédio bem vindo para o frio. Enterrou o nariz nas madeixas rebeldes, querendo se afogar naquele perfume doce, gravá-lo permanentemente na memória. Os braços dela envolveram seu pescoço com força, ao que ele retribuiu. Estavam tão enroscados que seria difícil dizer onde um terminava e o outro começava, e era assim que tinha de ser. Nunca mais iria soltá-la.
— Bog... Bog... – Ela sussurrou em seu ouvido, o timbre suave, acalentador, um cântico que ele ansiara ouvir por semanas. Os lábios quentes roçaram o lóbulo de sua orelha, e ele estremeceu em alegria e desejo.
— Eu estou aqui, amor. Não vou soltar você. Não vou... – Murmurou contra os cabelos dela.
— Bog... Bog... – A voz dela de repente se tornou mais alta, exigente – Bo.. -nhor... senhor... senhor...
Espere, desde quando ela o chamava de “senhor”?
— SENHOR!!!
Bog despertou com um grito agudo. Suas pernas compridas se sacudiram no ar, tentando encontrar apoio. Agarrou seu cetro por puro reflexo, assumindo uma pose defensiva que devia parecer bizarra em sua atual posição, prostrado em seu trono como um pedaço de trapo. Sentou-se de um salto, ofegante, virando a cabeça de um lado para o outro enquanto procurava alucinadamente por alguma ameaça.
— O quê?! O que aconteceu?! Onde-
— Senhor, se acalme. Não aconteceu nada. Somos apenas nós.
Sua visão repentinamente entrou em foco, a última réstia de sono se dissipando. Estava na sala do trono, encarando do alto o grande aposento embebido pelos raios do sol de início de tarde, derramando-se através da grande claraboia no teto. A sua frente, observando-o com semblantes apreensivos, estavam Stuff, Thang e mais cinco goblins.
Grunhindo em exasperação, o Rei do Pântano voltou a se recostar. Claro. Fora apenas um sonho. Mais um de seus muitos sonhos envolvendo um cenário onde Marianne voltava para ele, onde ela dizia que o amava e jurava que jamais o deixaria, onde os dois consumavam aquela promessa fazendo amor à luz da lua cheia. Tudo tão real e palpável, como num sonho febril... Eram seus únicos momentos de paz, de felicidade, mas ele sempre era forçado a voltar a sua realidade infernal onde só podia se lamentar por aquilo que perdera.
Em outra ocasião ele daria punições severas àqueles que tinham se atrevido a acordá-lo. Agora, porém, ele era grato a falta de semancol dos subordinados. Era sempre mais fácil suportar a dor quando acordava antes do sonho se concluir, antes do momento em que Marianne e ele matavam as saudades e tudo voltava ao seu lugar certo no mundo...
— O que é que vocês querem? – Resmungou enquanto coçava os olhos com a mão livre. Os goblins se entreolharam hesitantemente.
— Ouvimos o senhor resmungando enquanto patrulhávamos do lado de fora da sala do trono. – Stuff murmurou, encarando o chão – Achamos que estava falando com Lady Griselda.
— Foi aí que ouvimos o senhor chamar por Lady Marianne. Pensamos que ela estivesse aqui e... quisemos cumprimentá-la. – Thang uniu as pontas dos dedos, encabulado. Os demais assentiram cabisbaixos.
Bog não sabia se ficava furioso pela xeretice dos subordinados, envergonhado por eles terem-no ouvido falar durante o sono ou tocado pela óbvia tristeza nas expressões deles. Ele estava ciente de que não era o único ali que sentia saudades de Marianne, embora duvidasse que sua mãe ou qualquer um daqueles intrometidos estivesse sentindo metade da dor e da solidão que o assolavam. Aquele não era o momento para medir níveis de infelicidade, porém.
— Bem, ela não está. Vejam com seus próprios olhos. – Ele abrangeu todo o aposento com um gesto amplo do braço. Sua voz ecoou no espaço quase totalmente vazio, como que para lembrá-lo do quanto as risadas de Marianne preenchendo aquele silêncio faziam falta – Então, se não têm mais nada a me dizer, tratem de voltar aos seus postos.
— Na verdade, senhor, nós também viemos com um pedido de audiência.
— Audiência? Com quem? – Bog se sentou mais hirto no trono, subitamente alerta – É algum dos patriarcas ou matriarcas?
— Não senhor. A audiência é para nós.
— Oh. – Arqueou uma sobrancelha escamosa. Não se lembrava de alguma vez ter acontecido de quase todos os seus subordinados terem pedido uma audiência em conjunto. Aquilo lhe lembrava sinistramente as intervenções de Griselda, sempre o interrompendo em seus afazeres para lhe empurrar alguma fêmea que era supostamente uma boa candidata a esposa. Sentiu-se estranhamente encurralado – E qual é exatamente o motivo? Alguma reclamação? Alguma exigência descabida? Já adianto que não estou com cabeça para ouvir ladainhas intermináveis sobre o atual estado de nosso contingente ou da Floresta Sombria num geral. Estou fazendo o que eu posso, mas só tenho duas mãos.
— Nós sabemos disso, senhor. Não viemos reclamar de nada. – Stuff voltou-se para os demais goblins como que pedindo amparo – Na verdade, nós... Nós queremos oferecer nossa assistência.
— Já estarão oferecendo toda a assistência de que preciso apenas cumprindo com suas obrigações.
— Por favor, senhor. Não nos referimos a serviços com relação à crise. – Moss se interpôs – Nos referimos a assuntos mais... pessoais.
— É outra discussão sobre o rodízio de turnos? – Bog grunhiu, a têmpora pulsando no que parecia ser o início de uma senhora enxaqueca – Pensei que pudessem resolver essa questão entre vocês. Eu tenho coisas mais importantes com que me preocupar...
— Não é sobre nenhum de nós, Majestade. É sobre o senhor.
Por um instante, Bog desejou ser capaz de incinerar com a força do pensamento. O olhar mortífero que dirigiu aos subordinados teria sido o suficiente para fazê-los fugir com os rabos entre as pernas em outra ocasião. Agora, porém, eles pareciam determinados a questionar sua autoridade e permanecer ali apesar de estarem cientes de que estavam abusando da sorte.
— Sobre mim? – Ele repetiu num tom grave, quase uma advertência. Os goblins engoliram em seco.
— Sim. Estamos... Estamos preocupados com o senhor.
— Preocupados, é?
— P-Pois é. – O tom quase indiferente da voz do rei só os deixava ainda mais alarmados – Nós percebemos como o senhor tem se desgastado além do necessário nessas últimas semanas.
— O senhor mal come.
— E mal dorme.
— Varar a noite patrulhando neste estado pode ser perigoso.
— Tememos por sua segurança.
— Temem por minha segurança. – Bog repetiu novamente, parecendo analisar as palavras. – Se não se importarem, quero que me respondam algumas perguntas.
— C-Claro, senhor.
— Quem está sentado neste trono?
— O... O Senhor...
— Quem está segurando este cetro? – Ele se ergueu do trono, avançando para os goblins a passos lentos e calculados, aos que eles se trombaram na pressa de se afastarem – Quem decide se deve ou não comer? Quem decide como e quando deve dormir? Quem decide se deve ou não passar noites em claro tomando parte nas patrulhas, mantendo tudo sob controle e garantindo que vocês, mentecaptos que são incapazes de sequer determinar o paradeiro de um maldito gato do mato, façam seu serviço sem acabarem mortos no processo? – As quatro asas de vespa se abriram e zumbiram com ferocidade, as placas dos ombros se eriçando e vibrando, seu porte formidável se avultando sobre os goblins encolhidos e que tremiam de pavor – Como se atrevem a pensar por um mísero segundo que eu, seu rei e senhor, necessito de sua piedade? Tomam-me por um fraco? Um moleirão?
— Não senhor! Nunca pensaríamos algo assim! Queremos apenas ajudar!
— Eu não preciso de sua ajuda! – Ele rugiu, batendo com o cetro no chão – A última coisa de que necessito é de um bando de inúteis questionando meus hábitos e agindo como babás! Já basta minha mãe para se encarregar de me aporrinhar.
— Não queremos ditar como o senhor deve administrar seu tempo. Sabemos que não é algo que está em nosso direito. – Stuff assegurou, os braços em torno da cabeça como se estivesse se protegendo de uma ventania – E nós nunca o subestimaríamos. Nós apenas...
— Nós não gostamos de ver o senhor tão infeliz.
Fora Thang quem murmurara aquelas palavras, tão baixo que Bog quase não o entendera. Os demais se voltaram para ele com os queixos caídos, abismados com a ousadia do goblin menor. Aparentemente era aquilo que todos estiveram tentando dizer, embora tivessem dado preferência a uma abordagem menos direta. Thang engoliu em seco e fechou os olhos com força, preparando-se para uma pancada do cetro, um chute ou um punho maciço se fechando em sua garganta. O rompante de violência tão típico do Rei do Pântano não veio, porém.
— Infeliz? – Ele repetiu uma quarta vez, a raiva tendo desaparecido de suas feições, substituída por uma surpresa sincera. Espantados por terem conseguido pegar seu chefe com a guarda baixa, os goblins agarraram-se àquela chance com unhas e dentes.
— Sabemos que o senhor sente saudades de Lady Marianne. Sabemos que é por isso que o senhor tem se dedicado completamente à resolução da crise em detrimento de seu próprio bem-estar.
— O senhor não sabe o quando somos gratos. – Aaron fez uma reverência trêmula, ao que os demais o imitaram – Não só nós, como também todos os residentes da Floresta Sombria. É tocante ver o quanto o senhor está determinado a nos proteger e garantir que tenhamos comida e água limpa, mesmo que não possa o senhor mesmo usufruir dessas coisas.
— Mas também sabemos que, se o senhor adoecer por conta desse descaso com sua saúde, não apenas a sua vida, como também a de cada ser da Floresta Sombria estará em risco. – Os dedos grossos de Bloodwarth uniram-se com timidez – Seria uma irresponsabilidade e uma ingratidão de nossa parte permitir que o senhor continue a se negligenciar dessa maneira. O senhor não merece isso.
— Por isso estamos oferecendo nossa assistência. – Irma assentiu entusiasmada – Se é a ausência de Lady Marianne que o está deixando tão infeliz, então nós podemos dar um jeito.
— Era só o que me faltava. Agora também estão querendo meter os narizes no que não lhes diz respeito? – Bog grunhiu, tentando se passar por indignado, embora a menção ao nome de Marianne lhe tivesse provocado uma pontada de dor no peito – Meus problemas com Marianne dizem respeito a mim e somente a mim!
— Por favor, senhor, se não o estivéssemos vendo tão abatido pelo distanciamento com ela, não tentaríamos intervir. Mas ninguém merece ficar afastando assim de seu companheiro ou companheira, é um sofrimento que não desejamos a ninguém. E... E nós também sentimos saudades de Lady Marianne.
Claro. Bog estava tão certo disso quanto estaria do nascer e do pôr do sol. Ele via como seus subordinados trocavam olhares entristecidos e davam palmadinhas reconfortantes nos ombros uns dos outros. Ao longo do relacionamento deles, Marianne conseguira conquistar o respeito e o carinho de todo o contingente do Castelo Sombrio. Sua coragem, ferocidade, astúcia e disposição em sujar as mãos quando necessário eram características muito admiradas por goblins num geral. Sem contar que sua presença fazia maravilhas para o humor de Bog. Quando ela estava por perto, ele portava-se de maneira mais polida e menos agressiva. E vê-lo tão feliz, depois de testemunharem uma década inteira de solidão e angústia aquecia-lhes os corações.
Uma parte dele, a parte mais suave e molenga que ele sempre procurava esconder, se apiedava da óbvia tristeza de seus subalternos, além de se sentir ligeiramente lisonjeada com a preocupação deles, tanto com sua saúde quanto com as desventuras de sua vida amorosa. Ele não era o que se podia chamar de um governante amigável ou ponderado, e às vezes ele ainda se via surpreendido com o fato de seus asseclas o terem em alta conta. Ainda assim, baixar a guarda e maneirar em seus modos inflexíveis estava fora de cogitação: se ele não fosse forte, não haveria temor e respeito para com ele. E era com temor e respeito que ele conseguia manter a ordem naquele verdadeiro circo. Era assim que ele garantia a segurança de seu clã, mantendo-os na rédea curta e impedindo-os de definharem, vítimas da própria estupidez. E ele não queria conversar sobre Marianne. Não queria externalizar sua dor e passar-se por fraco, não em um momento como aquele, onde sua força inabalável era o pilar que impedia tudo ao seu redor de ruir, de sucumbir ao caos.
— Vocês não têm tempo para ficarem se lamuriando sobre saudades. Eu tampouco tenho. – Deu as costas a eles, voltando ao seu trono – Faremos mais uma patrulha hoje à noite, à caça do maldito gato do mato. Precisarão estar alertas e em plena possessão de suas forças, portanto é melhor que vão descansar.
— Vossa Majestade também precisa descansar.
— Eu estou ótimo. – Bog rosnou, tentando suprimir um súbito bocejo. Grunhiu baixinho ao sentir uma forte pontada de dor em suas costas enrijecidas feito pedra, o que não passou despercebido aos goblins.
— Senhor, não precisa fingir para nós. Já dissemos que estamos dispostos a ajudar no que for preciso. – Amer lhe garantiu, dando um sorrisinho trêmulo – Inclusive já bolamos algumas ideias.
— Não estou interessado.
— Se o senhor permitir, partiremos amanhã mesmo para o Reino das Fadas e não sairemos de lá até Lady Marianne concordar em nos acompanhar.
— Não! Vocês não vão aborrecer Marianne com suas asneiras e nem apavorar o povo do Reino das Fadas com exigências que mais parecem ameaças! – Ele foi categórico, esfregando a testa dolorida – Os deuses sabem que eles já não devem estar mais tão tolerantes a nossa presença...
— Então venha conosco, senhor! – Stuff exclamou – Assim mostraremos que viemos em missão de paz e convenceremos Lady Marianne do quanto o senhor a quer de volta!
— Chega dessa estupidez! – Bog exclamou, amaldiçoando o rubor causticante que tomou seu rosto, pescoço e orelhas. Os imbecis o ignoraram, agora trocando ideias animadamente entre si.
— Mas se chegarmos assim, de supetão, ela pode achar desrespeitoso.
— Sim, ela pode achar que Sua Majestade está se impondo. Precisamos causar uma boa impressão.
— Já sei! Por que não fazemos um número musical?
— Parem com essas ideias ridículas! – Bog gritou, agora mais desesperado do que devidamente zangado. Os goblins finalmente se voltaram para ele, sorrindo abertamente.
— Mas é uma ótima ideia, senhor. Fadas adoram essas chorumelas.
— Sim! Se o senhor cantar para ela, se colocar na voz toda a sua saudade e angústia, ela com certeza ficará encantada!
— Melhor ainda, faremos disso um número completo! Seremos o seu backing vocal!
— Até já escolhemos a música perfeita! O senhor que ouvir?
— Não, eu não quero-
— You should give me a chaaaaaaaaaance! This can’t be the eeeeeeeend! I’m still loving-
— SUMAM DA MINHA FRENTE!!!
Os goblins guincharam, pularam como se estivessem com os traseiros em chamas e correram o mais rápido que puderam em direção à porta que dava para fora da sala do trono. Thang foi o último a sair, tropeçando e quicando duas vezes no chão antes de desaparecer. Bufando enfurecido, sentindo-se prestes a ter um aneurisma, Bog atirou seu cetro com violência para o outro lado da sala. A arma bateu contra a parede com um estrondo metálico que fez seus tímpanos doerem. Ela girou algumas vezes no chão até parar completamente, o eco da pancada ainda soando no aposento. Ele praticamente se atirou no trono, a cabeça explodindo, suas costas, ombros e pernas o matando de desconforto, a garganta se fechando em um nó apertado enquanto ele tentava engolir em seco. Não, ele não podia chorar. Se começasse a chorar, não conseguiria mais parar. E se alguém o visse chorando, tudo o que ele tanto lutara para construir desabaria, frágil como fora sua fortaleza anterior, desmoronando em direção ao abismo escuro, engolindo a tudo, engolindo a ele e a vida que ele quase jogara fora para salvar Dawn. Para salvar Marianne.
“O amor é perigoso. Ele enfraquece. Ele apodrece. Ele destrói a ordem.”
Haveria no mundo uma verdade maior do que aquela? Desde sua fatídica separação com Marianne, ele se tornara a personificação daquilo que ele outrora desprezara. Fraco. Podre por dentro. Incapaz de reunir forças para se erguer, para governar, para lutar por ele e por seu povo.
“Se eu nunca a tivesse conhecido, as coisas não seriam assim.”
Riu amargamente com a ironia da situação. E depois sentiu nojo de si mesmo.
Jamais se arrependeria de ter conhecido Marianne. Jamais se arrependeria de amá-la. Amaldiçoar o maior presente que a vida já lhe dera seria uma atitude quase criminosa. Antes de conhecê-la, ele não passava de um monstro velho, amargurado, que odiava o mundo e a si mesmo e que queria que os outros fossem tão infelizes quanto ele. Mentira para si mesmo ao se convencer de que bania o amor na Floresta Sombria para proteger seus súditos, para poupá-los de sentirem a mesma dor que ele sentia. A verdade, porém, era uma só: ele era um infeliz egoísta. Se não posso amar e ser amado, ninguém mais pode; esse costumava ser seu mantra. E assim ele passara incontáveis anos se torturando, afundando mais e mais naquele poço de autopiedade e arrastando todos que o cercavam consigo.
Marianne mudara sua visão de mundo. Ela transformara seu mundo ordenado e enfadonho numa confusão barulhenta e colorida. O caos que antes temera nunca lhe parecera mais maravilhoso. Porque com o caos vieram novas descobertas, novos significados para sua vida, novas perspectivas. A aceitação de que ele talvez não tivesse sido feito para permanecer só. De que ele talvez merecesse ser amado apesar de sua aparência hedionda. E por isso ele sempre a amaria. A verdade é que a amava tanto que às vezes se perguntava se o que ele sentira por aquela pobre criatura há tantos anos fora mesmo amor. Amor não era egoísta, possessivo. Amor não machucava, não prendia. E ele queria Marianne feliz, livre para voar, mesmo que fosse para longe dele. Se ela não queria mais vê-lo, ele não imporia sua presença. Não a culpava, de qualquer jeito. Depois da maneira como ele agira durante o Festival da Colheita, não se surpreenderia se ela quisesse até mesmo se esquecer de que um dia estivera com ele. Ela merecia alguém que lhe passasse segurança, familiaridade, não uma besta de temperamento imprevisível e de quem ela não sabia o que esperar.
“Sim. Eu só quero que ela seja feliz. A felicidade dela é o mais importante...”
Bem, ele já estava com problemas demais nas costas para continuar se atormentando com aquela questão. Precisava resolver uma séria crise de falta de alimentos, lidar com mortes e com ameaças constantes de ataques e com a insubordinação de uma patota de velhos ridículos que não tinham a menor noção de com quem estava se metendo. Precisava continuar liderando a caça ao gato do mato, que surgira na Floresta Sombria como que por encanto e parecia empenhado em realizar o maior número possível de desastres antes de inevitavelmente ser abatido. Já haviam sido cerca de seis mortes; seis goblins devorados sem deixar vestígios, como se fossem balas. Três clãs em luto e enfurecidos, exigindo que alguma medida fosse tomada. Bog não queria admitir nem para si mesmo que temia o inevitável confronto com a besta. Não sabia se seria capaz de dar cabo dela, exausto, faminto e enfraquecido como estava.
“Se Marianne estivesse aqui, poderíamos enfrentá-la lado a lado...”
Sacudiu a cabeça para dispersar mais aquele pensamento intrusivo. Já tinha um pepino gigantesco para descascar sem continuar se martirizando...
— Que gritaria foi essa de agora a pouco?
Bog gemeu e jogou a cabeça para trás num gesto cansado. Agora mais do que nunca não queria conversar com sua mãe, mas como era de se esperar, Griselda ignorou sua reação pouco receptiva e foi entrando na sala do trono sem fazer a menor cerimônia.
— Assuntos de trabalho. Os problemas de sempre, nada que deva preocupar a senhora. – Ele grunhiu em exasperação, esperando que sua falta de animo para conversas fiadas ficasse clara. Griselda novamente não captou a mensagem.
— O seu trabalho também me diz respeito, meu filho. Não se esqueça de que fui uma rainha muito respeitada e temida quando você ainda era só um filhotinho banguela. – Ela saltou sobre o cetro caído no chão e cruzou os braços finos, virando a cabeça de lado – Estive até agora a pouco andando pela região próxima a fronteira, sabe.
Bog teve de usar de todo o seu autocontrole para não esboçar uma reação que delatasse seu estado de espírito.
— Com que objetivo?
— Estava cogitando fazer uma visitinha ao território da Poppy. – Ela revirou os olhinhos quando Bog se voltou para ela bruscamente, a boca crispada em desaprovação – O que foi? Não posso visitar meus conterrâneos? Eu vivia na região dos rochedos antes de me juntar ao seu pai, você sabe.
— Não se faça de desentendida, mãe. A senhora estava tentando contatar Poppy para pedir o auxílio do clã dela. – Ele saltou do trono e começou a andar de um lado para o outro em agitação, bufando – Eu já não disse a senhora que não preciso das esmolas de nenhum dos outros alfas? Depois de toda a desobediência e desrespeito que demonstraram para comigo, a senhora ainda quer que eu abaixe a cabeça e acate as exigências absurdas deles?
— Eu quero que você tenha noção de sua posição e das obrigações que vêm com ela, Bog. Toda a Floresta Sombria depende de sua liderança e de sua proteção e, com uma responsabilidade desse tamanho, às vezes é necessário engolir alguns sapos. Não estou dizendo que você deve atender àquele pedido ridículo de invasão, de jeito nenhum. – Ela se apressou em dizer quando ele começou a rosnar – Mas oferecer alternativas de maneira diplomática e discutir divergências de opiniões com civilidade são marcas de um governante sábio. Mostrar a cada um dos alfas as vantagens de se formar uma aliança sólida com o Reino das Fadas pode ser um bom primeiro passo. Poppy foi a única que mostrou um mínimo de interesse em suas opiniões. Por que não começar por ela?
— Hunf. Não acho que ela vá estar muito interessada em me escutar, não depois daquele... incidente durante a reunião. – Bog murmurou, passando a palma da mão por seu rosto pálido. Griselda assentiu taciturna. O comentário estúpido de Bane a respeito de Marianne teve consequências previsíveis e de certas forma merecidas, mas acarretara na indignação de todos os outros alfas, afinal, eles sentiram que também estavam sendo ameaçados de certa forma. Ao menos Bog parecia ter noção disso e demonstrava um mínimo de arrependimento.
— Sim, eu não duvido que ela esteja ofendida. Por isso pensei em fazer uma visita oferecendo uma oferta de paz. – Ela procurou sorrir – Pode ficar tranquilo, bebê, ninguém aqui entende mais de passar a conversa mole nos outros do que a mamãe. Se você permitir, pegarei Stuff e Thang emprestados e irei até a região dos rochedos para-
— Não, mãe! Eu não quero a senhora metendo o bedelho em mais um dos meus problemas e piorando ainda mais a situação! – Bog a cortou sem firulas – Já me basta aquele bando de boçais arquitetando planos mirabolantes para fazer com que eu reate com a-
Ele de repente se calou, os olhos azuis se esbugalhando, percebendo horrorizado como o rosto enrugado de Griselda se iluminara ante suas palavras.
— Oh, então foi esse o motivo da gritaria! – Ela cantarolou alegre. Bog empalideceu ainda mais.
— Oh não...
— Que gracinha! Então eles estão dispostos a ajudar meu bebê a se reconciliar com o amor da vida dele! Que sorte a sua ter subalternos tão atenciosos e prestativos, não é, querido?
— Mãe, por favor...
— Bem, isso é uma excelente notícia! Então, qual será a minha parte no plano?
— Quê?! Mas não tem plano nenhum-
— Não seja ridículo, Bog, se não há, então haverá. Então, você já teve alguma ideia? Eu tenho algumas sugestões que podem vir a calhar.
— Não quero sugestão nenhuma! – Ele exclamou, quase implorando, sentindo uma vontade quase incontrolável de arrancar as escamas de seu escalpo quando Griselda mais uma vez o ignorou.
— Já sei! Por que você não faz uma serenata debaixo da janela do quarto dela? Oh, vai ser tão romântico! – Ela suspirou com uma expressão sonhadora – Seu pai fez isso para me pedir em casamento. Todo mundo estranhou, considerando que nós nunca fomos um casal muito decoroso.
— Mãe...
— Quer dizer, nós dois já éramos piores que coelhos na época...
— MÃE!
— Mas foi tanta consideração da parte dele que eu fiquei de joelhos bambos. Aposto que Marianne também ficará. Oh, nada como uma canção de amor para fazer uma garota correr para os seus braços.
— Não vai ter canção de amor nenhuma e nem ninguém correndo para os braços de ninguém! – Bog gritou, quase soltando fumaça pelas orelhas com o constrangimento – Marianne não quer mais me ver, mãe, será que a senhora não entende isso?
— Não seja idiota! Como pode afirmar algo assim sem nem ao menos ter certeza?
— Ela não respondeu a nenhuma de minhas cartas. A senhora é testemunha. – Ele abaixou a cabeça, a raiva dando lugar a uma agonia que partiu o coração de Griselda – Eu não a culpo. Não depois do que eu fiz.
— Já disse para você não ficar se martirizando por aquilo. – Ela disse gentilmente, caminhando até o filho e dando palmadinhas em seu joelho direito – Se você procurá-la para conversar, se explicar o que aconteceu, tenho certeza de que ela irá entender.
— Não. Ela não tem a obrigação de tentar entender e eu não tenho o direito de exigir que ela o faça. – Ele murmurou com a voz um pouco embargada, abaixando-se para apanhar o cetro e se agarrando à arma como se ela fosse a única coisa que o impedisse de se despedaçar. Griselda bufou, dividida entre a dor pelo sofrimento do filho e a impaciência com aquela atitude apática, tão atípica dele.
— E o que você vai fazer, então? Deixar tudo por isso mesmo? Ficar aí se debulhando em lágrimas enquanto a melhor coisa que já aconteceu em sua vida escapa por entre seus dedos? Não foi esse o homem que eu criei!
— O homem que você criou decidiu que chegou a hora de ele deixar de ser um maldito egoísta que só pensa nele mesmo! – Ele exclamou em angústia, porém com convicção. Griselda deu um passo para trás, os olhinhos escuros se estreitando.
— O que quer dizer com isso?
— Nada. Deixa para lá.
— Não senhor! Não sairei desta sala enquanto você não explicar direitinho essa história! – Ela bateu o pé com força no piso de madeira, bem em cima da tampa que camuflava a entrada do alçapão. Bog ouviu o som oco e retumbante do túnel de emergência logo abaixo da sala do trono ressoando por alguns segundos antes do silêncio voltar a prevalecer. Arreganhou os dentes.
— Nós acabamos de concluir as reformas para tornar esta nova fortaleza habitável, mãe, não saia pisoteando tudo como um veado desgovernado.
— Então se não quer que eu saia quebrando suas coisas, comece a desembuchar! Anda logo! Não duvide de mim porque eu faço, hein! – Ela ameaçou, erguendo o pé novamente. Com um rugido frustrado, Bog deu as costas a ela, os olhos pregados no trono, recusando-se a encará-la.
— A senhora é impossível!
— Seu pai dizia o mesmo quando eu o contrariava. E eu tinha a mesma facilidade para convencê-lo a fazer o que eu queria. E então? Você vai falar?
Silêncio.
— BOG!
— Argh, o que a senhora quer que eu diga?! – Ele enterrou as garras no próprio escalpo, vencido pela fúria, pela exaustão e pela infelicidade que ameaçava esmagá-lo – Que eu não acho que a Marianne mereça ter que lidar com meu lado bestial? Que eu não quero forçá-la a conviver com algo totalmente avesso à realidade dela? Que eu cansei de ser um maldito egoísta que impõe os próprios sentimentos e não leva os dela em consideração, como eu fiz com aquela pobre de criatura há tantos anos?
O silêncio se estendeu por uns poucos segundos enquanto Bog decidia que não ia de jeito nenhum se virar, que não ia impor seu sofrimento patético à mãe que só estava tentando ajudá-lo. Cruzou os braços e esperou que ela se manifestasse.
— Explique-se melhor, Bog. Por que está se considerando egoísta?
Ele abaixou a cabeça, seu queixo proeminente quase tocando as placas em seu peito, os olhos ardendo.
— Me surpreende que a senhora faça essa pergunta. Afinal, você sabe melhor do que ninguém das coisas que eu fui capaz de fazer, simplesmente por ser contrariado. – Apoiou o cetro na lateral do trono, deixando que seus braços pendessem molemente ao lado do corpo – Eu costumava achar que, por ser um alfa e o rei, eu tinha direito a qualquer coisa que eu quisesse. Isso incluía a fêmea que eu acreditava ser a mulher dos meus sonhos. Eu a queria para mim, independentemente de qual fosse a opinião dela quanto a isso. – Ele fechou os olhos, o rosto queimando de vergonha ante a memória – Eu não conseguia aceitar que ela pudesse não retribuir meus sentimentos. Se eu a desejava, ela tinha de ser minha. A senhora se lembra disso, não é?
— Lembro sim, querido. – Griselda garantiu, agradecendo aos espíritos da Floresta pela teimosia do filho em sua resolução em não encará-la, agachando-se diante da tampa camuflada do alçapão – Continue falando. – Pediu enquanto enfiava os dedos no sulco e erguia a tampa o mais discretamente que podia. Alheio a isso, Bog suspirou e apertou a ponte do nariz entre o dedão e o indicador da mão direita.
— Foi por isso que fui até a Fada Açucarada para pedir por uma Poção do Amor. Eu estava tão desesperado para receber uma migalha que fosse do afeto daquela adorável criatura que nem parei para pensar nas consequências de meus atos. Que eu a estaria forçando a permanecer ao meu lado por meio de um feitiço, uma droga que tira toda a autonomia daquele ou daquela que por ela é atingido. O quão egoísta é isso? Como eu poderia afirmar que a amava se eu só estava pensando no que eu queria, nos benefícios que eu tiraria da situação? – Bog grunhiu em arrependimento – Foi bom que ela já estivesse apaixonada por outra pessoa. Assim escapou de passar o resto de seus dias ao lado do monstro que só se importava com ele mesmo.
— Não fale assim de você mesmo, Bog...
— É a verdade, mãe. Eu precisei ver com meus próprios olhos o que essa poção é capaz de fazer para entender a gravidade do meu erro. Pobre Dawn. – Ele suspirou.
— Bem, há males que vêm para o bem, não? Se não fosse por toda aquela doideira na primavera, você não teria conhecido a Marianne.
Bog abriu um meio sorriso triste.
— Acho que sim. – Ele concordou – Naquela noite... Eu simplesmente não conseguia acreditar que houvesse nesse mundo uma fêmea capaz de ver através de minha aparência horrível, dos meus modos selvagens e se apaixonar. Ainda mais uma fêmea de outra espécie. – Fechou os olhos, o peito se aquecendo com as memórias agridoces – O que eu tive com a Marianne naquela noite foi uma conexão que eu nunca imaginei que eu pudesse fazer com alguém. Nós conhecíamos a dor de um coração partido. Conhecíamos o medo de voltar a confiar, de voltar a se machucar. Isso sem contar as semelhanças entre nossos temperamentos, nosso prazer no combate armado e nosso desprezo por tudo o que há de meloso e romântico. – Ele riu baixinho – Eu nunca tinha conhecido alguém que fosse capaz de me compreender tão plenamente. Alguém tão forte, tão determinada, tão feroz... Mas ao mesmo tempo tão capaz de amar, de ser empática, de ver através das aparências e apreciar o que está além da superfície. Ela olhava para mim e não via um monstro horrível. Ela olhava para mim e via... eu.
Ele trincou os dentes, os punhos trêmulos, os olhos úmidos.
— Eu a amo, mãe. Eu a amo tanto, mais do que eu achava ser possível para alguém como eu. E é por isso que eu não posso fazer com ela o mesmo que fiz àquela pobre criatura. – Enterrou o rosto na mão direita – Ela já sofreu demais por causa de um imbecil interesseiro que não soube valorizá-la. Não quero vê-la sofrendo mais ainda ao ter que lidar com meu lado animalesco. Eu não posso abrir mão de algo intrínseco em minha natureza e nem posso obrigá-la a ter que suportar isso, a ter que viver com medo.
— Mas ela não precisa temer você. Você jamais a machucaria.
— Mas posso machucar outros. Quase fiz isso com o pai dela, e isso é indesculpável. Foi ele mesmo quem me preveniu disso, sabe. – Ele admitiu – É um velho ranheta e preconceituoso, mas é inegável o quanto ele se preocupa com as filhas. Foi ele quem abriu meus olhos, que disse que eu estava sendo egoísta ao tentar impor minha selvageria a Marianne, ao desconsiderar os possíveis riscos a que ela se exporia só pelo capricho de tê-la ao meu lado. Hunf. Ele a enxerga como uma garotinha indefesa e tola. – Revirou os olhos – Mas ele está certo numa coisa: existem certos aspectos da natureza que jamais poderão ser mudados. Meu instinto predatório é um deles. E sendo uma fada, Marianne é o completo oposto. Ela nasceu com o instinto de evitar as garras e as presas de criaturas como eu. E impor as minhas a ela é de um egoísmo tremendo. Não vou forçá-la a passar por cima do próprio senso de autopreservação. Eu a amo demais para obrigá-la a suportar algo assim por mim.
Ele enfim se calou, engolindo em seco para tentar desfazer o nó em sua garganta. Esperava que agora Griselda o entendesse e finalmente o deixasse em paz. O que ele ouviu, porém, foi um bufo exasperado.
— Então esse distanciamento entre vocês não tem nada a ver com você se afastando para protegê-la de si mesmo?
— Hein? É lógico que não! – Ele exclamou abismado – Ela é forte, sabe se cuidar.
Seu ultraje se acentuou ao ouvir Griselda soltar uma risadinha debochada.
— Viu só? Eu disse a você que não era essa a razão.
— Disse o quê? Que razão? A senhora ficou louca, mãe? – Os dentes ainda mais cerrados, a paciência por um fio, Bog enfim se virou para encarar sua genitora.
E ele então percebeu que a última frase de Griselda não fora dirigida a ele.
Porque quem estava ali, parada de braços cruzados ao lado dela, era Marianne.
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