Garras de aço
1 Sweet fantasy
Notas iniciais
Enquanto eu preparava o café da manhã, Helena, minha mãe dormia. Eu odiava os serviços domésticos, principalmente cozinhar, mas era obrigado a fazer tudo em casa. Quer dizer, na nossa casa nós tínhamos um faxineiro, mas ele só vinha uma vez por semana, o que não aliviava muito pra mim. E a mamãe? Bom, ela não fazia nada, a limpeza da casa e todos os outros serviços eram, obrigatoriamente, realizadas pelos homens. O nosso gênero era considerado inferior então essas tarefas são de nossa responsabilidade.
Minha mãe disse que antes, era justamente o contrário, as mulheres eram oprimidas. Por mim, isso parecia bizarro porque quando eu nascera, o PFL, o Partido Feminista Liberal, partido o qual minha mãe ajudou a fundar, já estava no poder. Mamãe sempre me contava que as mulheres já estavam cansadas e decidiram criar a chapa, e não é que deu certo ? ( Nessa hora do discurso, seu rosto se iluminava e seus olhos brilhavam esperançosos).
Helena, simples estudante que tinha ideais utópicos se tornou a senadora Helena. E aí tudo mudou. Foram aprovadas diversas leis feministas. As crianças da minha geração foram todas criadas em laboratório, a família era composta por mãe e filhos, a sociedade matriarcal. A mulher, quando atingia a idade de 25 anos, era convocada a ir nos laboratórios credenciados do governo e escolher o doador do material genético. O governo estabelecia que cada mãe deveria ter um menino para realizar os trabalhos domésticos ( nem todas as famílias possuíam condições para ter um empregado) e quantas meninas desejasse, o que gerou um desequilíbrio populacional. Então, o governo estabeleceu a proporção 1 menino para 1 menina.
Também era proibido a reprodução natural, claro, o homem só serve para limpar casa e doar esperma. Aliás, quem precisava de pai? (Pai, o que é isso, afinal?) E quem desobedecia as ordens era mandado para fora das fronteiras, para as florestas, onde deveria viver a própria sorte. Às vezes me perguntava se viver á seria tão ruim, pelo menos eu não precisava cozinhar. Mas entendia o que minha mãe fez. Talvez não concordasse tanto com o modo que ela realizou, mas pelo menos tentou fazer alguma coisa pra mudar, o que me deixava orgulhoso dela.
Finalmente, peguei a bandeja e subi as escadas com todo o cuidado do mundo com medo que o suco de laranja coado na hora virasse ( eu sou um total desastre, então era melhor ter precaução). Bati na porta de leve e esperei ela permitir minha entrada.
— Dimi, pode entrar.
— Com licença. Preparei tudo como a senhora gosta- eu disse, e deixei a bandeja no colo dela.
dela.
— Pode se retirar, você tem que se arrumar para a escola.
— Sim- e fechei a porta atrás de mim.
Saí e fui para o meu quarto. Coloquei o uniforme e fui para o colégio. Ele estava localizado a uma quadra da minha casa, então fazia esse percurso a pé. Minha escola era um complexo gigante, havia a ala masculina e a feminina. Os gêneros só eram misturados na sala quando alguma garota indisciplinada era levada para a ala masculina para estudar com a raça inferior e ser punida.
E nesse dia, chegou uma garota na minha turma .Ela era ousada e se sentia superior, não hesitava em responder as questões mais complexas. Ela não era bonita, mas a sua audácia a fazia brilhar por onde passava .Então, tive que falar com ela. Algo me dizia isso ( desespero? Carência? Uma queda por ela? OK, talvez seja tudo isso, mas que ela era legal isso era).
— Oi- eu disse tímido enquanto ela estava sentada na quadra, virada de costas para mim.
— Oi.
—Desculpa perguntar mas por que você não foi pra ala feminina passar o recreio?
— Recreio? — ela virou para mim e me encarou- Nossa, quantos anos você tem? 10?
— Ah, você entendeu — disse, mais envergonhado ainda.
— Senta aí.
Espantado, aceitei o seu convite.
— Ah, respondendo sua pergunta fiquei aqui porque queria entender mais os garotos.
— Tipo o quê? Eu só limpo a casa e estudo, bem tedioso.
— Não isso, eu quero entender por que as coisas são desse jeito.
— Não tô entendendo nada, buguei.
— Ah, enfim, eu quero entender por que vocês são tão oprimidos o que fizeram de tão errado...
— A gente não fez nada, mas os outros homens sim
— E você acha isso justo? Pagar por algo que você não cometeu?
— Eu não tô pagando nada.
— E ser escravo da sua mãe é o quê? Sua diversão por acaso? — ela bufou enquanto revirava os olhos.
— Ser considerado inferior é o quê? Não poder ser livre pra ter o filho quando quiser, hein ? Ser largado na floresta por querer amar, me diz, qual é o preço disso tudo? — ela continuou me atacando.
— Eu sei que esse sistema não é perfeito, mas você sabe como era antes? Sabe por que elas lutavam? Pra você ter uma ideia na China eles matam meninas porque lá só os garotos são valorizados... Elas tinham um ideal mas se perderam, o poder subiu a cabeça. E é só isso.
— Só isso? Destruir a vida das pessoas é só isso mesmo, nada demais...
— Olha, eu só quis dizer que elas se perderam no caminho, no começo era bom... O aborto era legalizado, mas muitas pegavam DST. Além disso, o governo não conseguia controlar os homens, então, elas decidiram se meter na vida particular das pessoas, dai inventaram toda essa parada de laboratório.
— Ah, a ditadura era bem mais fácil né? Ter tudo nas mãos, controle, poder, a população... Aliás, por que você defende tanto elas?
— Cresci ouvindo esses ideias de transformar o mundo num lugar melhor, para você pode parecer besteira e idiota, mas pra minha mãe era tudo que ela tinha.
— Ah, OK.
— Desculpa se pareço um cara ruim e alienado mas amo minha mãe apesar de tudo.
— Quem é sua mãe, afinal?
— A senadora Helena.
— Ah, agora tá explicado... — ela riu, irônica.
Não respondi.
— Olha, você é um cara legal
— Como assim? A gente tava discutindo até agora.
— Você foi sincero comigo, podia concordar comigo e eu veria na sua cara que está mentindo pra mim, mas fingiria que não percebi e poderíamos sair e ir para um lugar mais privado e se pegar. Mas não, você preferiu me conhecer, o que é bem legal da sua parte.
— Ah, merda, eu e minha sinceridade maldita.
Ela riu e não respondeu.
— OK, eu mas não te conheci direito porque não sei seu nome...
— Ah, verdade- ela riu- é Tatiana. O seu é...?
— Dimi.
— Quê?
— É Dimitri mas não curto muito.
— Da onde sua mãe tirou esse nome?
— Bom, quando minha mãe encontrou na faculdade ela virou vermelhinha e decidiu ir pra Rússia.
— Não era mais fácil ir pra Cuba?
— Ah, sei lá, essa mulher é pirada- eu ri- enfim, ela conheceu um cara, um tal de Dimitri, professor de piano, ela se apaixonou por ele, eles dormiram juntos por um bom tempo mas depois ela descobriu que ele era casado.
— Que merda ...Mas tua mãe é masoquista hein? Pelo amor de Darwin...
— Pois é, vai entender... — apenas sorri.
— O papo tá bom mas vamos pra aula que se eu me atrasar tô fudida...
— OK.
Ela só ficou uma semana. Mas essa semana mudou tudo. Eu finalmente entendi o que a Tatiana queria me dizer. Entendi que o oprimido não poderia virar o opressor ( por que um escravo liberto compraria escravos para si?) e era justamente isso que estava acontecendo. Toda a luta do partido perdeu o significado, lutar para quê? Para impor mais regras? Para destruir famílias?
Entendi que não podia aceitar as coisas do jeito que elas eram, me acomodar. Tudo que para mim era tão certo, minhas ideais tão concretas, minhas verdades prontas e pré-fabricadas caíram por terra ao conhecer aquela garota. Nossos encontros eram cheios de ideais, sonhos e sexo. OK, era proibido mas sei lá, eu tinha 17 anos e só queria aquela garota pra mim, de qualquer forma. Queria a alma, o corpo e o coração. Parece exagerado, mas nunca tinha conhecido nenhuma garota daquela forma, nunca tinha me apaixonado, então acabei virando um bobão. E para minha sorte e pro azar dela, eu era correspondido.
Naquela época eu era trouxa e trouxas nunca acreditam que vão se ferrar. Eu realmente achava que minhas escapadas com a Tatiana, não trariam nenhuma consequência. Mas tiveram. E a consequência se chama Isa.
E como a Tati escondeu a gravidez? Não escondeu, o governo incentivava a delação de grávidas, e dava dinheiro aos x9. Ao primeiro enjôo a suposta infratora era encaminhada para um hospital do governo para realizar os devidos exames. E se fosse descoberto a tentativa de aborto, a mulher era encaminhada para uma espécie de convento, aprender a ser uma mulher "decente" segundo as definições do governo que não eram lá muito corretas.
Se fosse comprovado a gravidez, o casal era enviado para a floresta. E foi isso que aconteceu comigo .A mídia logo me expôs e a autoridade do partido feminista foi questionado. Se mesmo o filho de uma das fundadoras do partido ignora e desrespeita as leis, por que os cidadãos deveriam obedecer?
A população foi às ruas, pedindo mais justiça. Até as mulheres sentiram empatia pela raça inferior e decidiram protestar. A oposição tomou força, porém como a maioria do senado era feminista extrema, nada foi feito.
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