Garras de Dragão
1 Garras de dragão
Era como enfrentar um dragão de duas cabeças. Os dois eram inimigos, com experiências de vida completamente opostas e o pior, ela já tinha dormido com ambos.
E apesar da animosidade que inflamava os dois espíritos guerreiros ela precisava mantê-los unidos, ou jamais sobreviveriam aos perigos da floresta de Xinjiang, lar de monstros que poucos ousavam enfrentar.
A altitude lhe permitia avistar o horizonte atrás dos companheiros. A base norte da montanha estava tomada pela lava quente e destruidora da qual haviam fugido. Estavam sem saída. Ou arriscavam a vida atravessando a floresta para escapar pelo outro lado ou teriam a morte certa no rio de fogo.
Li Wei havia se dado conta disso, mas não os outros dois; imersos em sua hostilidade.
— Seu inglês maldito! É sua culpa estarmos aqui.
- Boxer ordinário!
Num lance rápido de olhos ela percebeu que os dois iriam se atracar. Não teve escolha.
O punho feminino se fechou certeiro sob a face loira e viril. A perna ágil se ergueu sob o kimono de chita, impulsionou o pé sob o abdômen largo coberto por vestes de seda.
Os dois recuaram atônitos sob o olhar da guerreira.
- Acham que os inimigos são os homens? É por que não viram as feras de verdade. Estão vendo a lava lá embaixo? É obra do Dragão da floresta...
- Dragões não existem. – resmungou o oficial inglês, alisando a barba desgrenhada.
- Não na Inglaterra. – retrucou Li Wei, com impaciência – acha que foi o vulcão inativo que causou esse estrago? Pois não foi.
Colocando-se entre os dois, ela mirou o horizonte, abrandou a voz.
- Soube que Chang Wu havia sido capturado. Vim resgatá-lo. Sequer imaginei que estivesse no comando, John.
- É isso muda alguma coisa? – clamou exaltado o chinês.
- Isso não importa agora – continuou Li Wei, sem mudar o tom – por ignorância do terreno os ingleses montaram um cativeiro nessa região. Vim o mais rápido que pude. Não pude poupar os homens que ficaram em meu caminho, mas consegui lhe dar sua espada antes que John me impedisse de te libertar. Depois ouvimos o rugido da lava sobre a terra, e eu soube que só tínhamos uma direção para correr: a montanha onde fica a floresta, pois o dragão não ousaria estender suas chamas nas terras que protege. Agora – suspirou – nossa passagem é inviável pelo lado norte, temos que seguir para o sul e ficarmos unidos para lutar contra as feras que, sem dúvida, tentarão nos devorar.
- Unidos?! – exclamou Chang Wu horrorizado. Ia prosseguir não fosse a interrupção brusca da outra.
- Sim, unidos! Você sabe que guerreiros nunca saem em menos de cinco para enfrentarem um monstro, ainda teremos sorte se conseguirmos em três.
- Nenhum monstro é páreo para a tecnologia. – garantiu o inglês ufanista, tirando um relógio do bolso do uniforme militar azul e encarou o chinês com um ar ameaçador – mas não farei uso dela para salvar um rebelde que matou irmãos inocentes.
Sua mão pendeu lesta para a enorme garrucha que tinha à cintura. Sem perder em velocidade, Chang sacou sua longa espada de dois gumes. Foi mais uma vez o facão curvo de Li Wei que se interpôs entre as duas armas erguidas. A ponta na orla do cano metálico; a lâmina curvilínea na outra afiada e reta
- Por que os chineses confiam tanto em suas espadas? – rangeu John para o outro num olhar firme com uma nota de desdém.
- Quer que eu te mostre por que – intimidou Chang, sugestivo.
- Resolvam suas diferenças quando saírem daqui. – se interpôs Li Wei – nosso inimigo agora é o mesmo, e é mais forte que nós três juntos. – sustentando autoridade no olhar que lançou para o inglês, ela continuou — John, o que esse seu relógio é capaz de fazer?
O inglês ainda trocou um olhar hostil com o outro antes de recuar e baixar cautelosamente a garrucha, aguardando que a espada, sob a insistência da lâmina curva, também voltasse para a bainha. Quando a relativa paz se restabeleceu, John deu um passo à frente, erguendo seu pequeno aparato.
- Não é apenas um relógio, é um dispositivo gerador de freqüências eletromagnéticas que determina através da densidade dos objetos ao redor, sua posição e deslocamento. Assim, se houverem monstros na área nós saberemos, e podemos nos desviar deles.
- Ótimo – falou ela sem entusiasmo mexendo na bolsa à sua cintura – será útil junto com o que tenho aqui. – Li Wei retirou uma bússola de uma bolsa de couro à cintura, junto à bainha de seu facão.
John arqueou as sobrancelhas, frente à simplicidade, mas eficiência da invenção chinesa que ela recorria, porém, ponderou.
- Meu artefato pode interferir no posicionamento da agulha.
- Tudo bem – compreendeu ela — podemos alternar o uso deles conforme nossa necessidade.
Sem mais considerações, John balançou a cabeça, trocando um olhar cúmplice com ela antes de focar sua atenção no instrumento. Girou uma pequena manivela circular e apertou-a para dentro do relógio.
Um som alto e agudo foi emitido, fazendo Li e Chang taparem os ouvidos incomodados. John se limitou a segurar com força o objeto dourado que vibrava convulsivo na mão grossa e calejada enquanto os ponteiros davam voltas com crescente freqüência.
Como borrões de tinta os números da superfície do relógio foram absorvidos e se elevaram pontos pequenos mais finos ou mais grossos. A cada giro dos ponteiros um ou outro borrão mudava de lugar, enquanto outros permaneciam estáticos.
- Vejam – apontou ele – esses três próximos ao meio somos nós. Os outros esparsos as árvores, e os maiores que estão se movendo, provavelmente as feras que você mencionou Li. O raio de alcance é de 10 metros.
Com sobrancelhas franzidas e olhar confuso, os chineses tentavam ler os pontos caóticos na tela circular, até que Chang rosnou sarcástico.
- Com um barulho desses só vai conseguir atraí-los pra cá.
De início John contorceu o lábio com desdém, então, Li chamou sua atenção para um grosso borrão se deslocando para o centro. O rosto do inglês tornou-se lívido, enquanto a perspectiva de enfrentar uma das feras desconhecidas congelou seus músculos de tensão.
- Não disse? – reforçou Chang, sacando a espada e esquadrinhando entre as árvores, em busca da ameaça.
- Pra que lutar quando podemos correr? – protestou Saori, segundo o braço esquerdo do conterrâneo — John, para onde?
O inglês avaliou nervosamente os borrões antes de bradar.
- Oeste, agora!
E o inglês desembestou, esperando que os outros também o seguissem. Ora esquivando-se dos troncos e bloqueando a folhagem com o braço, ora checando o radar sentindo apenas parcialmente a presença dos dois atrás de si.Até que às passadas ágeis juntou-se um tremor vigoroso na terra que os fez recuar assustados.
Enxugando o suor da testa com a manga do uniforme, John olhou mais atentamente para o relógio-radar, trincando os dentes, apreensivo.
- Ele se desloca muito mais rápido do que nós. Vai nos alcançar cedo ou tarde.
Li também desembainhou seu facão, percorrendo os olhos negros e nervosos pela floresta enquanto girava ao redor de si. A terra continuava dando temores esparsos e retumbantes, cada vez mais vigorosos.
- E agora? Esperamos e lutamos? – perguntou John, ofegante.
- Não teremos tanta energia se continuarmos correndo. – ponderou Chang.
Li Wei sabia que exigiam dela uma resposta, que ela também não tinha. Eles interpretaram solenemente o silêncio dela, posicionando as armas, e recuando, por instinto puro de defesa, um na direção do outro emparelhando as costas, protegendo mutuamente suas retaguardas.
- Ele está vindo dali – indicou John uma direção acima deles e guardou no bolso seu precioso artefato.
Li tirou da bolsa quatro adagas longas, cada uma com uma argola na base do cabo onde ela inseriu o indicador da mão esquerda. Com um gesto metódico que contrastava com a tensão levantada pelos tremores da terra, ela começou a esfregar a lâmina curva com a manga longa de suas vestes.
- Achei que limpasse sua arma depois que estivesse suja de sangue, não antes. – comentou o inglês sem deixar de achar certa graça, apesar da tensão crescente. A guerreira se limitou a fitá-lo enigmática, quando um vulto gigante e esverdeado de um macaco se revelou ao fundo cortinado pelos troncos altos.
Tomando apenas a concentração necessária para mirar, Jonh moveu o dedo para pressionar o gatilho da garrucha quando seu braço foi bruscamente abaixado pela mão firme do homem ao seu lado.
- Não atire!
- O que está fazendo Chang? – reclamou Li Wei ao mesmo tempo.
- É o macaco de Jade! Não vai nos atacar a não ser que o façamos.
- Não confio nele – declarou John incisivo reerguendo o pulso armado. Foi detido pelos braços precisos de Li Wei que travaram seu ombro.
- Eu confio – sibilou ela. O inglês até tentou se debater agitado, mas sabia que era em vão antes mesmo de falhar sob a chave bem encaixada. Praguejou mentalmente aquelas incomparáveis artes chinesas de luta, que permitiam até a uma mulher deter um homem.
Fitando o chinês, apreensiva, ela continuou em voz alta
- Tem certeza absoluta disso?
- Tanto quanto odeio os ingleses. – retrucou encarando John. Depois, como que percebendo algo, esbravejou — Desligue esse relógio demoníaco. Já deveria ter...
- Mas não está mais fazendo barulho...
- A audição dos animais é muito superior à nossa, desligue!
O animal já esta ficando perigosamente perto para John ignorar o aviso por orgulho, Li afrouxou seus braços enquanto o oficial tateava dentro do bolso, tentando não se atrapalhar com balanços pesados da terra, procurando a pequena manivela que puxou levemente.
Sem aviso, Chang agarrou a mulher pelo ombro, arrastando-a até a árvore mais grossa ao redor. Mesmo à passos desordenados, John conseguiu segui-los, e para sua surpresa, o chinês não o afastou.
Um enorme macaco verde escuro avançou até onde os guerreiros estavam anteriormente; girou descompassado o corpo enorme, fazendo com que seu largo peitoral, cravejado de minúsculas pedras duras e brilhantes, refletisse os raios do sol, sob os olhares assustados que se franziam frente à luz.
Por um instante a fera se virou para eles, escorados atrás de uma árvore grossa. Os grandes olhos fixos pareciam perscrutar suas almas assustadas, com a respiração contida. Vacilante John apontou novamente sua garrucha, trêmulo, mas preparando-se para atirar se fosse necessário.
O gigante deu as costas e acabou escolhendo tomar outra direção.
Um suspiro de alívio foi impossível de ser contido, mesmo antes de a terra parar de tremer. Deixaram as costas ofegantes deslizarem contra o tronco de árvore, sentando-se na terra.
- Sem relógios ingleses dessa vez, certo? – certificou-se Chang.
- Só depois que o macaco se afastar o bastante – propôs Li Wei, resfolegando enquanto guardava suas armas.
Retomaram o fôlego, com os músculos fatigados pela tensão.
- Como sabia sobre o macaco, Chang? – perguntou Li Wei, curiosa.
O chinês hesitou incomodado pela presença do estrangeiro, mas explicou.
- Como meu pai era um mandarim, ele tinha acesso à documentos que poucos tinham. Desde garoto sempre fui fascinado pela história de Sun Wukong, e pedia para ele trazer tudo o que encontrava sobre ele para mim.
- Mandarim? – perguntou o inglês confuso. — São os altos funcionários do governo, não são?
- São – respondeu Li Wei, sem muita paciência.
- E Sun Wukong? – adiantou-se John novamente — Que história é essa?
Chang atravessou-o com um olhar reprovação, e daria uma resposta áspera se o outro não inferisse antes.
- Se eu vou lutar com vocês tenho que saber o que estou enfrentando.
- Sun Wukong, Rei Macaco, é uma lenda do nosso país — começou Li Wei acalmando-os com um gesto – ele é um ser dotado de grandes poderes como erguer toneladas ou viajar quilômetros numa só cambalhota. Pode voar montado em nuvens ou se transformar em qualquer coisa existente, incluindo pessoas e objetos, além de ser imune à fogo ou água...
- O fato é — atalhou Chang – que, em busca de sua imortalidade, Sun Wukong desafiou o inferno e com isso, apagou seu nome e os de todos os macacos que conhecia do Livro da Vida e da Morte
Ele sentiu um arrepio só de lembrar que havia estado tão perto de uma criatura que povoara apenas a sua imaginação. Olhando na direção que tomara o macaco, Cheng continuou.
- Logicamente não me lembro de todos, nem tinham na versão não autenticada que eu li, mas o macaco de Jade me chamou atenção por ser um membro do clã de Sun Wukong conhecido por sua honra e lealdade.
A respiração de Li Wei ficou contida em sua garganta.
- Então... o macaco...
- É um imortal – completou Cheng – Por isso impedi o inglês de atirar, não apenas iríamos ferir uma criatura nobre como entraríamos numa batalha perdida.
- Se é que já não estamos em uma... – murmurou Li Wei tristemente apoiando os braços nos joelhos dobrados.
O grupo foi invadido pela desesperançosa melancolia. O retumbar potente fora substituído pelo leve farfalhar das folhas, enquanto os raios solares se esvaneciam no céu escurecido.
- Vai anoitecer – observou John pragmático, — temos que pensar em comer e acampar agora.
- E decidir sobre a vigília – comentou Li Wei sabendo que seria um assunto espinhoso.
- Não vou dormir enquanto o chinês estiver acordado! – proclamou John, se levantando.
- Nem eu – afirmou Chang, imitando-o.
- Resolveremos isso de estômago cheio. – finalizou Li Wei inquieta, se afastando em passos deles largos.
O grupo avançou cauteloso buscando o topo das árvores com o olhar. Não ousaram abater um animal para que o sangue não chamasse a atenção das feras, contentaram-se com um apanhado de frutos. Achado um lugar para dormirem John tirou da mochila uma espécie de livro de capa grossa e metálica sob o olhar interrogativo dos chineses. Sorrindo, o inglês o abriu, revelando no meio do objeto não folhas, mas uma lona bem dobrada.
Depositando o “livro” cuidadosamente no chão, John pegou uma manivela longa, que rosqueou numa das extremidades internas da “capa’ e começou a girar metodicamente.
Hastes finas começaram a se estender dentro da lona dobrada, erguendo-a lentamente a sob os olhares curiosos de Li e Chang.
- É uma tenda, montada pela energia mecânica! – se entusiasmava John. Quatro pontas de metal saíram dos cantos inferiores da cobertura armada que ele esticando e fincou na terra.
Voltando a girar a manivela, as pontas externas se aprofundaram ainda mais, enquanto a lona tomava uma forma mais exata.
- Pode dormir nela comigo se quiser Li – ofereceu o inglês num tom sugestivo que fez Chang rosnar de ódio.
- Temos que decidir como faremos a vigília. – desconversou seriamente ela.
- Tenho uma idéia – falou Chang sombrio — eu e o inglês não confiamos um no outro, mas confiamos em você, Li Wei – era doloroso para ele admitir, mas esforçava-se em ser racional – faremos a vigília em duplas. Eu e você, você e o inglês, e então nós dois.
Li balançou a cabeça, achando a decisão justa. John, porém argumentou.
- Nessa ordem?
- Sim, por que a idéia foi minha. – atravessou Chang – durma nessa tenda mecânica da qual tanto se orgulha.
John fez menção de falar quando Li Wei o interrompeu, sustentando um olhar firme.
- Vá John.
Sem querer ir contra ambos, John apenas resmungou antes de ir.
- Me chame quando chegar minha vez.
Ela suspirou profundamente. Sentia que seria uma noite amarga.
Envolvidos no silêncio lúgubre da noite, Li Wei, limpava sua arma quando o companheiro a abordou.
- Por que se envolveu com um inglês?
Parou o que fazia, rebatendo com ressentimento.
- Por que se casou?
- Não tive escolha, sabe disso — suspirou com pesar — meus pais não aprovavam você...
- Não aprovavam a filha de um ferreiro que amava as armas mais que as panelas – continuou ríspida e magoada.
- E é por isso que eu amo você – declarou Chang, alisando-lhe o rosto por onde escorreu uma ligeira lágrima. – tanto como respeito meus pais, e me orgulho da minha terra.
Girando em direção à ela, continuou.
- Vamos matar o inglês depois que sairmos daqui. Podemos expulsar todos eles daqui e depois, reconquistar o nosso país para nós! Sem mais ópio, sem mais guerras.
Ela não respondeu, sequer olhou para ele, suas pupilas negras perdiam-se no horizonte ou em algum lugar dentro de si mesma.
- Minha guerreira – sussurrou ele lânguido, encostando sua face à dela – até os homens temem seu nome, se você se juntar à minha tropa, duvido que irão se opor.
Girando seus olhos apaixonados para ele, Li respondeu-o roucamente
- Ainda que conseguíssemos, ainda que devolvêssemos à China sua soberania – coisa que, intimamente, ela não achava possível, mas preferia esconder aquela opinião para não aborrecê-lo – e depois? Você correria para os braços de sua esposa ansiosa e eu ficaria sozinha, com os mesmos preconceitos dos mesmos homens.
- Sabe que sempre terá um lugar em meu coração, Wei.
- Já disse que não aceito ser sua amásia. – respondeu enérgica, girando lhe o rosto.
- Mas ser do inglês você aceita. – retrucou áspero – ou pensa que ele não tem uma esposa na terra dele?
- Eu não sei – admitiu Li – tudo o que eu sei é que ele estava lá quando eu precisei, e não você.
- E quando foi isso? – perguntou Chang alarmado.
Li soluçou, enxugando duas lágrimas que se acumularam em seus olhos.
- Quando um grupo de desonrados tentou me mostrar à que lugar uma mulher pertence.
A ira saltou às têmporas de Chang. Com a voz alterada perguntou.
- Quem fez isso?
- Já estão mortos – respondeu secamente. Os desgraçados não tinham honra nenhuma, mas eram bons, fiquei muito ferida, soube que não resistiria a todos. Mas, apenas uma coisa faria eles perderem a chance de corrigir uma mulher, atacar um inglês, e John, por imprudência, passou por aquela região.
Li balançou a cabeça, imergindo na recordação.
- Ele achou que seus revólveres o protegeriam de todos, de dois conseguiu, mas as lâminas deles eram precisas, teve tanta dificuldade quanto eu. Decidi então ajudá-lo, é sempre mais fácil pegar um inimigo pelas costas.
- Ajudou um inglês?
- Eu seria a próxima depois dele. Era o lógico e não me arrependo. Salvamos um ao outro. Ele é um homem justo e leal, vocês seriam amigos se não fossem de lugares diferentes.
Desolado, Chang cravou os olhos no chão.
- Você o ama?
Era uma pergunta que Li não conseguia responder, não para Chang que também ocupava seus sentimentos mais ternos.
Um rugido alto fê-los erguer o rosto assustados. A figura assustadora de um dragão se impôs sobre eles antes que sequer lidassem com a idéia de enfrentá-lo.
- Cuidado! – clamou Chang, empurrando ela para longe e sacando sua espada num ágil reflexo. A cabeça da fera precipitou-se sobre ele que brandiu instintivamente sua arma, atingindo o focinho protuberante da criatura.
Outro rugido ainda mais feroz saiu da boca, para onde o sangue gotejava, expelindo uma labareda de fogo sobre o guerreiro acuado.
Com um gesto pronto, Chang segurou e girou o cabo de sua arma. A lâmina comprida e grossa se estendeu como num leque, servindo como escudo às poderosas chamas.
Quatro adagas atingiram com espantosa precisão os olhos e as narinas da criatura. Em pé, afastada, Li Wei erguia o olhar determinado com o facão estendido.
Ao brandir a lâmina curva, uma força invisível arrancou as lâminas menores da face da fera que urrava de dor, recuando e batendo as asas ás cegas, lançando aleatoriamente suas chamas.
As armas menores penderam ao redor do facão quando Li saltou até a barraca, chutando-a bruscamente.
- Acorde John.
Mal terminou de falar quando o punho do inglês surgiu com a garrucha, lançando um tiro pesado e sonoro contra o peito escamoso. Uma bala grande e maciça atravessou a fera que quase caiu para trás, arrastando as patas no chão.
Chamas mais precisas saíram da boca do dragão em direção à barraca. John rolou o corpo para o lado, enquanto Li pulou para o outro, agitando o facão para frente. As lâminas menores acompanharam a trajetória da maior, depois seguiram com velocidade na direção da fera. Fazendo movimentos sutis com a lâmina curva, Li Wei conduzia as outras para as mandíbulas largas da criatura.
- Impressionante! – exclamou John, descarregando suas balas grandes no pescoço comprido e escamoso. Os trancos na culatra da garrucha eram bem mais fortes do que em armas parecidas, sacudindo o pulso de John à cada tiro.
Á cada tiro que penetrava suas escamas, o dragão cambaleava, dando gritos de agonia tão altos que pareciam ecoar por toda a floresta. Com o sangue vertendo e escorrendo de sua cabeça para seu tronco, ele deu seus últimos passos e tombou no chão agonizante, expelindo uma fraca e breve baforada.
- O que é isso que você faz com as adagas? – perguntou John tão tomado de curiosidade que até superou o susto de ter encontrando um dragão.
- Magnetismo – explicou Li, puxando as armas de volta com um movimento largo do facão. Elas saíram, mas sem a força de antes, caindo no chão ao invés de ficarem suspensas próximas à lâmina curva. – o facão estabelece um campo de atração temporário entre as adagas e através disso eu controlo seu deslocamento. Invenção do meu pai. – concluiu guardando a arma.
John continuaria, mas um gemido de Chang chamou a atenção da guerreira. Sentado no chão com as pernas queimadas, tentou em vão se levantar, mas provocou ainda mais seus ferimentos.
Li avançou alarmada na direção dele, mas foi detida pelos dedos de John em seu braço.
- Deixe-o, não vai adiantar socorrê-lo, ele será um peso morto.
— Não! – berrou ela, tentando se desvencilhar dele.
- Sua terra está em colapso Wei, e você sabe disso. Ele vai te arrastar para a guerra dele onde só haverá ruína e caos.
- E o que me sugere? – afrontou ela.
- Venha para a Inglaterra comigo! Você vai gostar de lá, tenho certeza! É muito mais tolerante com as mulheres, e a ciência cria invenções tão fantásticas como seu facão todos os dias.
Li ficou tentada. A dúvida navegou em seus olhos por um longo momento, mas o preço que ele exigia era alto demais.
- Não vou abandonar Chang. – falou, libertando o braço com um puxão – ele está ferido por ter salvado nossas vidas! – enfatizou.
Ela deu-lhe as costas, e foi até o conterrâneo que ainda gemia segurando as lágrimas de dor e ódio que lhe escorriam dos olhos puxados.
- Mato ou amaldiçôo o inglês se ele te levar pra Inglaterra – falou entre os dentes.
- Não vou pra lugar nenhum cercada por feras – tranqüilizou séria, limpando e enfaixando os ferimentos dele.
Com o orgulho ferido, John cogitou seriamente ir embora sozinho. O bom senso não lhe permitiu. Ficou aguardando até que Wei terminasse, e chegasse até ele com Chang apoiando-se em seus ombros.
- Temos que seguir, depressa. Precisamos de um médico de verdade. Seu relógio John, pode usá-lo?
A contragosto, o inglês pegou o equipamento, manuseando-o como antes até que Li colocasse a mão em forma de concha sobre o objeto.
- É para abafar o som – explicou ela frente o olhar aturdido dele.
O barulho ecoou entre as mãos fechadas e depois que estabilizou, ela se afastou suavemente.
- Não parece haver mais criaturas ao redor. Vamos.
Conforme eles avançavam, a situação parecia mudar, fazendo-os estacarem cautelosos, porém, as manchas grossas acabavam se desviando do centro do relógio.
- Devem estar atrás da carcaça do dragão – comentou Chang.
Por precaução, desligava-se esporadicamente o relógio e recorriam à bussóla.
O raiar do sol trouxe consigo uma luz de esperança para os três cansados guerreiros, revelando o declive onde a floresta terminava.
Li Wei recorreu novamente à bússola e pela primeira vez então, sorriu com alegria.
Os troncos finalmente deram lugar à clareira, mal aguardavam o alívio de um descanso sem ameaças. Porém não foi a paz que os recebeu aos pés da montanha.
Rifles apontados nas mãos de um exército de farda azul, tanques de guerra, tendas similares à de John e ao fundo, bonecos mecânicos de metal com metralhadoras no lugar dos braços.
John ergueu as mãos, rendidos, sem porém ter certeza de que aquilo o salvaria. Com um ar sarcástico, virou-se para Li Wei, perguntando.
- Ainda acha que as feras são piores que os homens?
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