Garotos educados não dizem "Adeus"

2 Minha breve conversa sobre sonhos


Notas iniciais
Vou tentar manter os capítulos na linha das mil palavras até dois mil, de modo que não fique cansativo, mas também não fique curto.

Qual a pior parte de um sonho? — Ela me perguntava arrumando os óculos na ponta do nariz.

– Quando você acaba e percebe que não é real? — Disfarcei minha resposta com uma pergunta, ela pareceu animada e logo esticou a mão em minha direção.

– Meu nome é Iara!

– O meu é Miguel... — Respondi um pouco tímido, respondendo o gesto.

Era meu primeiro dia de aula no último ano do ensino médio, a mudança de escola justo naquele período complicado fez-me pensar que não conseguiria amigos, porém, aquela estranha me fazia sentir aliviado. Os óculos um pouco tortos, cabelos longos e enrolados, faziam equipe com suas milhares de pintinhas espalhadas pelo rosto, principalmente três enfileiradas do lado de seu olho esquerdo, parecia uma adolescente normal, não passando de meu tamanho.

Eu era relativamente novo no colégio, e ela foi à primeira garota que veio em minha direção por algum motivo que ainda era difícil de explicar. Então instintivamente apenas a segui, como um cachorro perdido segue um estranho na rua.

– Novo aqui, não é? — Ela me questionou encostando-se do lado da escada principal do colégio. — É fácil notar, te notaria se estivesse aqui há mais tempo, aliás, o motivo pelo qual vim falar com você é que sua mochila está um pouco aberta!

– Você veio falar comigo só porque minha mochila estava minimamente aberta? — Disse a tirando dos ombros e fechando o espaçamento entre o zíper.

– Sim, você carrega um livro.

– Ah, está falando do livro Sete ossos e uma maldição de Rosa Amanda Strausz?

– Sim, esse eu tenho certeza que já li quando mais nova, foi um dos meus primeiros livros de terror na verdade!

– Quer dizer que você gosta de terror?

– Não garoto, quer dizer que eu tenho um elefante mágico que voa batendo as orelhas. — Ela disse em um tom irônico, segurando uma risada. — É claro que eu gosto de terror, na real, eu amo terror!

– Isso aí é Dum...

Então o sinal bateu, era a entrada, todos subindo de uma vez em direção as escadas e logo se dispersando cada um para sua sala de aula. A minha sala de aula era a três, de um modo curioso, a dela também, não que eu acreditasse em um destino, contudo, eu sabia que devia ter um motivo para estarmos nos encontrando naquele momento, daquele jeito.

Eu tentei não a perder de vista, sentei do lado dela, logo outra garota pareceu a reconhecer e sentou a sua frente, de algum modo aquele cenário parecia bem irreal para mim, uma sala e uma nova amizade, é engraçado como uma amizade pode surgir quando se menos espera. A professora entrou na sala e começou a falar, mas não prestei ao menos uma das palavras soltas por ela.

Esse dia é uma boa lembrança, nada de ruim aconteceu, em outras palavras, nada de ruim que eu não estivesse acostumado. Como eu sabia que não ia ter nenhuma matéria, apenas várias apresentações vazias, peguei meu caderno e costumei a rabiscar na última página, estrelas, um ser com o olhar opaco e talvez a imensidão de um universo vazio, limitado e com várias partes deixadas em branco.

– Então qual seu nome garoto? — A professora estava do meu lado perguntando, ela perguntou para todos e eu não percebi. — Pelo visto gosta de desenhar.

– Meu nome é Miguel e eu gosto de fazer uns rabiscos às vezes...

– Qual sua idade?

– Eu tenho dezesseis...

– O que gosta e não gosta?

– Bem, gosto de filmes, música, desenhar, escrever, ler, esses tipos de coisas que quando se vêm de um adolescente vocês dizem ser uma simples bobagem...

– E o que não gosta?

– Bem, eu acho detestável ter que falar em público...

Todos riram, e ela imediatamente se sentiu ofendida, mandou todos se calarem e repetiu o mesmo procedimento com outro estudando atrás de mim, olhei para Iara e ela possuía um sorriso de canto de boca. Por algum motivo, eu tinha certeza que essa professora ia me incomodar muito todo o ano letivo.

As aulas passaram tão rápido quanto podiam, eu tentava me entreter lendo ou desenhando, podia ver Iara de canto de olho conversando com aquela garota. Sentia-me estranho, como se estivesse em casa, mas ao mesmo tempo muito longe de meu verdadeiro lar. Então quando o sinal do intervalo entre aulas bateu, tentei não me mover da carteira, entretanto, vi as garotas se aproximando.

– Ei Miguel, essa é Andressa. — Iara disse.

– Oi... — A outra respondeu com um ar meio tímido, tentando não ser bombardeada por qualquer comentário.

– Oi... — Respondi tão silenciosamente quanto.

– Bem, Miguel é novo aqui, e pensei se podíamos mostrar nosso...

– Não! — Andressa a cortou, pelo visto sabia como a outra planejava acabar a frase.

– Tudo bem, eu entendo... — Iara tentou rebobinar seu cérebro antes de continuar. — E bem, então o que pretendem fazer?

– Onde fica a biblioteca? — Perguntei não respondendo a pergunta dela.

– Fica ali no corredor ao lado esquerdo do banheiro.

– Obrigado! — Disse e sai sem me despedir, logo as notei sussurrando atrás de mim.

Então meus passos foram rápidos, entrei na biblioteca e passei um tempo olhando os livros sem lê-los, apenas esperando o sinal. Aquelas garotas realmente me deixavam assustado, enquanto Iara era uma jovem estranha que se esgueirou, tão social quando podia ser, Andressa parecia me repudiar. Eu nunca estive acostumado com as pessoas, por mais que conversasse como um garoto comum, risse e brincasse, minhas horas de silêncio eram predominantes, nunca tendo amizades tão profundas. Logo eu me tornava distante para todos, conversando comigo mesmo, o vazio era meu melhor amigo assim como meu pior inimigo. Amigos imaginários indo e vindo. Um conjunto de sons que rebatiam em minha mente e tentavam encontrar algo para se agarrar, alguém para ouvi-los antes de se dissiparem.

Então logo quando ouvi o sinal fazer o máximo de barulho possível, tentei fazer minha volta a sala de aula ser o mais lenta que conseguia. Quando estava perto da porta de entrada, o clima se encontrava quase deserto no corredor, por isso todos olharam para mim quando eu entrei, sentei no local habitual e tentei não olhar para o lado até o fim da aula.

Quando tudo se finalizou naquele dia, joguei todas as coisas dentro da mochila de qualquer jeito e tentei caminhar para fora, mas a jovem de óculos me colocou a mão em meu ombro e perguntou:

– Você desce ou sobe a rua para ir pra casa?

– Eu desço...

– Pelo visto terei companhia hoje!

Iara e Andressa de despediram, logo fui acompanhada pela primeira em toda trajetória para casa. Permanecemos em silêncio olhando as arvores ou cachorros que corriam em nossas direções latindo como se realmente fossemos nos sentir intimidados, até que ela resolveu soltar algumas palavras:

– Desculpe pela minha amiga, ela não é habituada a confiar em ninguém.

– Tudo bem, eu sou meio estranho mesmo.

– Não é isso, sei que tudo parece estar acontecendo rápido demais para você, mas fui na sua direção porque você parece ser alguém legal, ela só é daquele jeito por questões dela.

– Tudo bem...

– Não fique repetindo isso, eu só quero que saiba que ela resolveu te conhecer melhor amanhã antes de qualquer julgamento, e bem, até amanhã, eu moro para essa rua aqui!

Ela disse virando a esquina e acenando de modo delicado, tudo o que eu pude fazer foi voltar para casa.

Chegando em casa tentei ir para o meu quarto, minha mãe perguntou:

– Como foi seu primeiro dia de aula?

– Normal mãe, normal.

Era raro trocarmos mais de algumas poucas palavras.

Notas finais
Deixe seu comentário ou crítica, pode animar meu dia ou me ajudar bastante. ^^
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.