Garoto de Papel (Hiato)
4 Sopro de esperança
Notas iniciais
O despertador tocou estridente na manhã do dia 28 de março. Eu não tinha forças nem vontade para levantar. Com certeza, Mel e minha mãe estariam na mesa tomando um super café da manhã, rindo e me esperando para uma sessão cheia de beijos e abraços.
Não me leve a mal, eu só não estava disposta a toda essa demonstração de carinho hoje. Dois dias antes, minha mãe havia me avisado que faria uma “reunião familiar” no dia do meu aniversário. Uma desculpa muito mal inventada para dizer festa de aniversário. Tentei contradizer, mas ela disse que tudo estava planejado e que a “reunião” iria acontecer de qualquer modo.
Suspirei alto, fazendo com que alguns fios de cabelo que estavam cobrindo minha visão pulassem. Sorri levemente com a visão.
Levantei com um pulo, absorvendo o impacto de ficar em pé após tanto tempo deitada. O chão frio em contato com meus pés fez meu corpo se arrepiar. Meus olhos, mesmo que embaçados, foram atraídos imediatamente às pastas de minhas histórias, e o título de "Sempre Nos Amamos" se destacou. Daniel.
Conduzi-me cambaleante até a cozinha onde — pasmem ! — Mel tomava café da manhã com minha mãe.
— Quem faz aniversário hoje? Você! — Mel exclamou feliz, com uma voz de criança e prolongando os “Es”. Abraçou-me forte, sorrindo. — Vou te dar o melhor presente, pode crer!
Quando ela finalmente me largou, minha mãe caminhou até mim com os braços abertos. Apertou-me tão forte que não consegui levantar os braços para abraçá-la de volta.
— Minha menina tem 17 anos! Que orgulho! — ela me soltou, mas apenas para me conduzir até a mesa e me apresentar à refeição mais completa e calórica que já havia estado em minha casa.
A mesa estava coberta com três tipos de pão diferentes, frios dos mais variados tipos, cream cheese, Nutella, dois tipos de suco e bolachas. Pelo cheiro, percebi que havia ovos na frigideira.
Minha barriga roncou e meu lado gordo falou mais alto (na verdade, ele gritou). Agradeci minha mãe pela comida e sentei-me ao lado de Mel, colocando um pedaço de cada coisa no prato. Quando minha mãe voltou a se sentar, colocando os ovos num pratinho ao meu lado, senti como se aquele pudesse ser o melhor dia da minha vida.
•
— Obrigada, tia Manuela! — gritei, descendo as escadas com Mel no encalço de minha mãe.
— Uau, os presentes que ela te dá são melhores do que os que me dá! — Mel exclamou, puxando meu presente sem pedir permissão. Era uma pequena televisão azul-turquesa com uma imagem de Audrey Hepburn em “Bonequinha de Luxo”, meu filme preferido.
— Pois é, se conforme e me devolva minha televisão. — arranquei o objeto de suas mãos.
O caminho até o colégio foi a mesma coisa: nós duas cantando como loucas e fazendo coreografias estranhas enquanto minha mãe gritava para que parássemos.
Mal abri a porta do carro e Guilherme já correu até mim, girando-me no ar.
— A Alana faz anos, o azar é só dela, cada ano que passa, ela fica mais velha! — ele cantarolava feliz, me fazendo rir e ficar envergonhada pela quantidade de pessoas que nos observavam.
— Imagina a mãe dela! — Mel completou, sorrindo.
— Ah, não, não, não, tia Lu é linda em qualquer idade. — Guilherme afirmou, fingindo seriedade. Soquei seu ombro.
— É da minha mãe que estamos falando. — lembrei, em tom de brincadeira.
Como chegamos atrasadas por causa do enorme café da manhã, mal pisamos no pátio do colégio e o sinal já tocou. Dei de ombros e subi as escadas devagar.
Senti Mel puxando meu ombro levemente, para sussurrar no meu ouvido:
— Vamos hoje para o Johnny e depois voltamos para sua casa a tempo da reunião familiar, okay? — por que mentir, Mel? Sei que não é porcaria de reunião familiar nenhuma. Mesmo sabendo das mentiras deslavadas que minha mãe e minha melhor amiga estavam contando, eu assenti e segui para a minha sala, que era diferente da de Mel e a mesma que a de Gui.
— Então, sua mãe me convidou para essa tal de reunião familiar. — Gui tentou parecer casual ao falar, mas ele não sabia mentir muito bem. Soltei uma risadinha, e, quando ele olhou para mim, percebeu que eu já tinha entendido e sorriu de volta. — Sabia que você iria descobrir de primeira. Você não é tonta na maioria das vezes.
— Obrigada, eu acho. — antes que ele pudesse sequer responder, Isis, a professora de Português, olhou-nos com um olhar ameaçador. Bom, o melhor olhar ameaçador que uma pessoa de 1,64m pode dar.
— Se comporte mocinha — Gui sussurrou quando sentamos em nossas carteiras, que eram uma ao lado da outra —, porque a qualquer momento posso ficar chateado e resolver cantar “parabéns para você” no meio da sala, com direito a “com quem será”.
— Eu te odeio mais do que o Batman odeia o Coringa, seu imprestável. — ele soltou uma risada abafada e virou para frente para prestar atenção.
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— Ah, você está linda, Alana!
Mel tinha esses ataques às vezes.
Só porque eu estava usando aquela roupa que ela escolheu para mim, era como se o mundo me abrisse as portas. Oh, agora você está usando uma roupa nova, o que acha de um emprego novo de acompanhamento? É, acho que não.
Ela tinha escolhido uma regata leve preta, junto com uma calça jeans da mesma cor. Uma blusa vermelha xadrez e — bum! — estava pronto.
Tentei revirar os olhos, mas fiquei com dor de cabeça, então apenas bufei e disse, com voz de tédio:
— Para que tanto alvoroço por causa de uma roupa?
Mel fez cara de ofendida, mas não respondeu. Saiu com seu vestido florido com tons de rosa e com o cardigan azul enfiado num braço só. Demos tchau à minha mãe e nos encaminhamos ao shopping mais próximo, onde combinamos de nos encontrar com Gui, enquanto ela terminava de colocar o casaco.
Quando finalmente chegamos ao shopping, eu estava suando e tinha amarrado a blusa na cintura e prendido meu cabelo em um rabo de cavalo, e alguns fios mal cortados escapavam do elástico.
Gui veio correndo até nós, com cheiro de maconha. Admirou Mel por uns instantes, depois sorriu e disse:
— Está linda, Melzita. — ela corou, e ele se virou para mim. — Legal a blusa.
Só. Horas com Melissa naquele shopping para um “legal a blusa”. Vá se catar, Guilherme.
— Vamos, eu estou morrendo de fome, meu Deus. — exclamou Gui, pesaroso. — Já gastei vinte reais no McDonald’s, mas preciso de mais sustância. Vamos ao lugar mais gorduroso daqui!
Só de ouvir a palavra gordura meu estômago roncou. Era disso que eu precisava, algo bem gorduroso e delicioso para me fazer aguentar a “reunião familiar” de hoje.
Assim que a lanchonete entrou em meu campo de visão, senti o cheiro de comida frita e meu estômago roncou, prevendo de antemão o que estava por vir. Enxergava os funcionários dançarem uma música antiga dos anos 90, com cara de “tudo pelo dinheiro, fazer o quê?”. Eu adorava rir deles, apesar de sentir um pouco de pena.
Gui foi até o balcão fazer nossos pedidos enquanto pegávamos uma mesa. Quando me sentei, olhei para as pessoas ao meu redor, Mel, Gui, que estava vindo em nossa direção, e senti uma coisa boa no peito. Talvez fosse a felicidade de ter sobrevivido até os 17 anos sem nenhuma ameaça de morte. Eu só me senti feliz, e foi muito bom.
•
— Surpresa!
Foi essa a frase que eu ouvi assim que abri minha porta, com Mel e Gui atrás de mim. Fingi surpresa, abrindo a boca teatralmente e colocando as mãos para cima.
— Nossa, eu nem imaginava! — exclamei, sorrindo. Não sei por que, mas a preocupação da minha família em fazer essa festa me deixou muito bem. Aquele parecia ser o melhor dia da minha vida inteira.
Enquanto passava pelos convidados beijando e abraçando cada um, vi de soslaio minha mãe colocando um bolo de chocolate na geladeira. Meu Deus, as pessoas não colaboram. Como querem que eu não engorde dessa forma?
Depois das obrigações sociais, sentei-me em minha cama, junto com Mel, Gui, Julia e Luana, minhas primas. Gui pegou um maço de cigarros e foi para perto da janela, se apoiando no batente. Quando minha mãe abriu a porta do quarto para nos chamar para os parabéns, o cigarro de Gui estava no chão da rua e nossa conversa especulava o comprimento dos chifres de unicórnios, se fossem reais.
Levantamos fazendo muito barulho, nos empurrando e rindo, até Chegar à cozinha, que estava um breu. Meus olhos só captaram a luz das velas brancas e simples que minha mãe tinha comprado para mim. Guiei-me até a mesa por essa luz, e me posicionei de frente a todos.
Começaram, então, a cantar aquela música estranha de aniversário e a exclamar “hey!” no intervalo entre as frases. Quando terminaram, alguém do fundo gritou:
— Apague as velinhas e faça um pedido!
Pensei, pensei, pensei... Cheguei a cogitar a hipótese de pedir livros e muita criatividade, como faço todo o ano. Então Daniel, o garoto de papel, me veio à mente. Tudo o que eu queria era ele.
“Eu preciso de você, Daniel. Se torne realidade.”
Então soprei.
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