Garotinha cega
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Garotinha cega
Escrito por Meiline Damestein
— Mas vejo bem, mesmo sem meus olhos
Abri a porta com receio. Não fale com estranhos. Não abra a porta para ninguém além de mim. Dizia papai para uma garotinha afetada com babados e laços. Eu? Não era ninguém na porta. Ninguém que eu pudesse ver com meus cegos olhos. Sou cega na verdade. Meus olhos perderam sua visão há muitos anos. Papai deixou sua filhinha cega sozinha em casa para se encontrar com sua "amiguinha". Papai está com uma puta, e mamãe não sabe. Apesar disto sinto que meus olhos veem muito melhor do que os que realmente têm visão. Pobre mamãe, olhe nas fotografias, ela é tão bonita. Papai não sabe do que eu sei, e é bom continuar assim. Frente a uma garotinha cega todos se descuidam e revelam verdades.
Mamãe está em uma viagem de negócios. O que é tudo pretexto para virar mais de três doses de vodka pura em sua garganta seca de amor e fidelidade. A fervura da bebida queima em sua garganta. Talvez ela saiba que papai está com sua "amiguinha". Papai está com uma puta, e mamãe não sabe. Uma brincadeira de mal gosto bater na porta de uma garotinha cega com ninguém em casa e depois saber que não tem ninguém. Fechei a porta e adentrei a casa lentamente. Toda vez eu quebrava algo de valor por ainda não ter decorado as posições dos móveis. Me desculpe, mas tenho mais coisas para fazer como aceitar que papai trai mamãe e que guardo este segredo. E que a tal puta na verdade é minha melhor amiga.
Nada como trazer sua melhor amiga para uma viagem com sua família, e no fim da viagem você ver com seus cegos olhos que eles estavam trocando carícias sobre a cama de casal onde sua mãe repousa ao fim do dia. Fingir não é fácil. Talvez eu devesse contar a mamãe. Mas ela se divorciaria dele, e eu não quero ter que escolher entre eles dois. Eu os amo muito. E até minha amiga eu amo, porque afinal ela não tem culpa. Mas no fundo algo me diz que isto não vem ocorrendo há muito tempo. Não importa. Sentei em uma cadeira de cordas presa em um dos galhos da árvore Sequoia de meu quintal. Preciso pensar. Ajeitei bem a bengala. Não via nada além de escuridão, eu só podia inspirar o ar e ouvir bem, e claro sentir com meus toques.
Mas minha amiga não é cega para ter que usar o paladar e o tato com meu papai. Todo dia ela vêm aqui para me visitar, confirmando que é para ver como estou, mas sei que na verdade é para garantir território com meu pai. Porque vejo ela olhando de soslaio para ele, e quando se aproximam acariciam as mãos um dos outros. Pobre mamãe. Você não está vendo, mas eu estou. E como estou. Meus olhos não veem mais de acordo com inúmeros laudos médicos. Mas não de acordo com inúmeras situações. Ironia, não é mesmo?
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