Garotas bonitas sempre são solitárias
4 Capítulo 04
Notas iniciais
Cap.04
Cinco meses de solidão.
Fazem exatamente quatro meses que meus amigos me deixaram, sim, deixada, eles receberam uma enxurrada de treinamentos das arias em que eles trabalham assim como eu, Pedro teve que ir para BH pra implementar o nosso novo sistema de logística, Eu ainda estou aqui na central de SP, Andreia foi para o RJ, Roberto está na minha terrinha, na BA, Ana me colocou pra ser sua serva cedendo a todas as suas vontades, o que gerou um desconforto entre meus colegas, alguns diziam que eu era filha de alguém importante, outros que eu estava dormindo com Thomas, outros que eu estava dormindo com Thomas e Ana, mas ninguém teve a coragem de vir me perguntar.
Foram quatro meses comendo sozinha, dormindo sozinha em casa, trabalhando sozinha, nos dias de solidão eu lia meus livros no refeitório, tomava café com Ana que provou uma vez e não parou mais, em casa eu lia, escrevia, via filmes na Netflix, comia umas besteiras, então depois de dois meses tive que ir no medico para ver minha glicemia o que me causou uma internação, o Dr. Gato que eu sei que vocês se lembram, cuidou de mim, não só clinicamente falando. O Marcos foi um bom companheiro de solidão, me levava para jantar, cinema, shows, filmes em dias chuvosos, mas depois eu descobri uma namorada no interior que ele disse que era coisa da cabeça dela, mas ela veio passar o fim de semana para fazer uma surpresa e nos achou aos beijos no sofá, bom eu nunca achei que ia ser “a mulher do sofá”, ele me pediu desculpas e um taxi, nunca mais nos vimos, ele também nunca mais ligou e, por mais incrível que parecesse eu não me senti mal, acho que era isso que eu precisava, ficar só, sem pessoas me protegendo o tempo todo, sendo dona do meu mundo.
O que mudou no final do quarto mês em SP foi que eu já não olhava para baixo quando as pessoas olhavam para mim, eu não me retraia quando ouvia múrmuros em relação a mim, eu sorria por um bom dia, eu ria das piadas de Thomas, eu comia sem pressa, então os rumores sobre mim também pararam, eles viram que eu não seria derrubada por boatos, que estou onde estou pelo meu trabalho, eles (elas) poderiam falar mal de mim o quanto quisessem, mas nunca do meu trabalho. O mês de setembro estava no meio quando entrava em minha sala, ao abrir minha solitária sala, ela não estava mais tão solitária assim, uma cesta de café da minha em cima da minha mesa, e o tsc, tsc do computador de Pedro com ele sentado ali com um sorriso de lado, ele ficou de pé. –O guria, tu mudaste um pouco nesses meses sozinha, o que foi? Nunca me viu?
Minha reação foi gritar e correr em sua direção, seus braços fortes me pegaram a cintura e me apertaram, ele gargalhou no meu ouvido e foi muito gostoso de ouvir de novo. –Só estou assim por que você me trouce comida, agora pode voltar para BH. Eu rio de sua reação frigidamente ofendida e, ele me aperta mais.
—Sentiu minha falta né Laurinha? Não aguentou o tranco do tralho? –Ele folga um pouco o aperto em que me tinha, para me olhar nos olhos.
—Não, eu aquentei bem tudo, mas me senti sozinha não vou negar, nunca me senti tão só sem vocês três aqui, com a minha família longe vocês são o mais próximo disso que eu tenho. –Ele alisou meu rosto e sorriu minimamente.
—Eu também senti falta tua, dos outros também, olha ali na sua mesa, tem doces, chocolates, queijo, tudo sem açudar para ti, eu achei que você não come muito esses tipos de coisas. –Me desgrudei dele e fui até minha mesa abrir o tablete de chocolate 100% cacau, tirei um pedaço para mim e, outro para ele. –Nossa isso é horrível tem gosto de café puro.
—Eu sei, é por isso que eu gosto, já me acostumei a comer sem açúcar, mas não vou chorar por isso, tive minha taxa de irresponsabilidade á dois meses atrás, há tem uma coisa que quero te contar, Thomas quer que nos dois visitássemos as novas instalações em São Jose do Rio Preto. Quando voltei a olhar para o seu rosto vi uma ruga de irritação. –Algum problema Pedro?
—Sim, como assim irresponsabilidade? E desde de quando você e o Sr. Solomon são tão íntimos a ponto de se chamar pelo primeiro nome? –Ele cruzou os Braços em frente ao seu peitoral largo, formando uma linha reta nos lábios, prensando o maxilar.
—Bom... Foram quatro meses trabalhando perto de Ana, fazendo o seu e o meu trabalho, eu encontrava ele o tempo todo, ele disse para não chamar ele assim por que parecia que eu estava falando com o pai dele, já a minha saúde eu quase não ia para casa, comia na rua, acabei saindo da dieta mais vezes que o normal, passei mal, mas não durou muito, consultei uma nutricionista ela passou uma nova dieta, até emagreci.
—Ok... Mas nã.. –Nesse momento a porta foi rompida por nada mais, nada menos que Roberto, com um bronzeado impressionante. –Beto?
—Sim amor! O papai chegou*! –Ele vai até Pedro e o abraça, dando batidas em suas costas, depois o deixa e vem a mim. –Querida, você está tão linda, soube por aí que está sendo chamada de Rainha do gelo, as moças do financeiro têm até medo de ti dar os orçamentos.
—Não é bem assim, eu só não tenho o que conversar é tanta coisa para fazer que não me resta tempo para fazer amigos e, amigos eu já tenho. –Digo ainda abraçada a ele. –Então, como fio em Salvador? Descobriu o que a Bahiana tem?
—Men* ... Elas tem...Hum –A boca de Roberto foi tampada por Pedro que deteve a asneira que ia sair dali.
***
—Então quer dizer que não fez nada de diferente aqui? Puxa me senti culpado por ter te ligado tão pouco nesses meses em salvador Laurinha, falando nisso fui na sua casa, sua mãe é massa* pequena.
—Massa? Tu ficas* quatro meses em Salvador e já está falando com sotaque? Tu não tens vergonha não guri*?—Diz Pedro que diz sem nem nota que estava fazendo o mesmo que Roberto, então comecei a rir histericamente no refeitório lotado, e todos olhando a louca sorrir.
—Estas rindo do que?
—É, está rindo do que nega*?
—Simples, ambos estão usando sotaque, só falta Andreia voltar falando carioques, vocês são ótimos, que falto eu senti disso, o que acham de ir lá em casa depois do expediente para comer alguma coisa? –Digo me levantando e indo em direção a bancada para pôr minha bandeja, eles vieram logo atrás colocar a deles também.
—Eu acho ótimo nega, quando fui levar os presentes na sua casa sua mãe me levou para passear, conheci seus amigos, seus tios, seus irmãos, falando em irmãos sua irmã é um perigo, serio! Tipo ela me levou a tipo um monte de festas, quase perdi a hora. –Ele coloca seu braço esquerdo sobre meus ombros, vai me arrastando, percebo que Pedro fica calado todo o tempo só nos ouvindo. –Laurinha sua mãe mandou um monte de coisas para você, será que ainda do tempo de ela me adotar?
—Claro... –Rimos andando, até que paramos em frente à minha sala, ele beija minha testa, depois eu e Pedro entramos, percebo Pedro bufar com uma expressão séria, ele fazia isso quando achava que tinha alguma coisa errada. –O que foi Pedro, está tão quieto.
—Apenas entendo os boatos agora, vocês são íntimos de mais, isso não está certo, você assim com Roberto, com Thomas eu acho que é.... –Não deixei ele terminar, ele já estava chegando em uma linha muito fina de se romper.
—E você? Por que não incluiu você nessa pequena lista de pecados? Por que eu sou assim com todos, independentemente de quem seja, até mesmo você Pedro, mas se minhas atitudes te deixam tão incomodado, então vou trata-lo de forma menos afetivo. –Disse já pegando a cesta que ele me trouce e entregando a ele, que recebeu pasmo.
—Desculpa Laura eu não... não foi isso que eu quis dizer, eu...-Ele percebeu que estava indo longe demais, mas eu já estava ofendida.
—Eu entendo, mas agora eu estou magoada, se não se importa eu quero terminar isso e sair, tenho um exame de rotina ainda hoje, quando eu for para casa e você estiver lá mais tarde já vai ter passado, mas nunca mais coloque minha honra em dúvida, eu levo muito a sério meu trabalho para eu me aproveitar de meus colegas, agora vamos encerrar isso eu estou com dor de cabeça.
—Pelo menos fique com a cesta, eu não tinha a intenção de te ofender, eu não sei o que me deu, serio... eu não me sinto eu mesmo, desde que Elisa terminou comigo sem motivo. –Ele parecia meio perturbado, mas com toda certeza estava falando a verdade, para não o ver daquela forma por mais tempo, sorri para que ele visse que estávamos bem.
-Ok eu fico com a comida, afinal de contas ela não tempo culpa das suas asneiras.
Ele colocou a cesta em cima da minha mesa, veio até mim beijou minha cabeça sussurrou um “obrigado” e se sentou sem sua cadeira.
***
JP P.V
Cinco meses sem ela aqui, eu não consigo me sentir eu mesmo sem ela aqui, saber que qualquer um pode machuca-la, que a qualquer momento ela pode sofrer algum acidente, que ela come doce escondido agravando ainda mais a doença dela, quando me ligaram a cinco meses atrás dizendo que ela estava internada, só eu sei a dor que eu senti.
Cinco meses atrás, Bahia, Salvador...
Será que Lu me ajuda com essas alianças? Até agora ela não me mandou resposta das fotos dos anéis de noivado, será que ela vai achar ruim se eu ligar para ela agora? Se bem que agora ela devi estar em casa já.
—Lu? Amor, será que você pode dar sinal de vida? Por que não me dá uma resposta logo sobre as... –Fui interrompido por uma voz familiar.
—Oi João, aqui é a Tia, estou com Laura na emergência, ela teve um desmaio o médico está me explicando que foi uma crise de estresse, depois a gente te retorna viu? –Eu não sei o que me deu, meu peito doeu tanto que me faltou o ar, Natalia que estava me esperando para irmos embora do trabalho juntos.
—Como assim desmaio por estresse? Estão pegando muito pesado com ela no trabalho tia? Ela anda sumida essas semanas, ela não me conta mais nada, será que não o diabetes?
—Não o médico disse que é estresse mesmo, o açúcar dela está um pouco alto mais não é grande coisa, mas só vai para casa no domingo, sinto muito querido, acho que ela vai faltar ao jantar dos seus pais, se acontecer mais alguma coisa te aviso.
Eu fico meio que sem palavras, no dia mais importante da minha vida, e ela não vai estar? Eu tenho que ir lá.
***
E eu nem sabia que depois desse dia nossas vidas iam mudar drasticamente, eu soube de uma coisa que parece que Deus e o mundo sabia menos eu, ela me amava, mas não como um irmão e, sim como homem, confesso que até agora me sinto aturdido com isso.
Estou sentado no bar da família de Laura, Lá Formosa é o bar do falecido pai dela, o Sr. Jorge, ele era um negão alto muito forte, jogava capoeira e tinha um sorriso malandro, ele colocava ela em seus ombros sempre quando andava pelas ruas no pelourinho quando ela tinha oito anos, depois dos oito anos dela ele sofreu um acidente do mar, morreu jovem desde então meu pai tem sido o mais próximo de pai para ela e por isso nos aproximamos. Enfim, olhando o meu celular me dou conta da realidade que eu tenho que enfrentar todos os dias, várias chamadas perdidas da minha noiva, várias mensagens na caixa postal, a única coisa que eu desejava eu não tenho a cinco meses, uma resposta de Laura, meu casamento é no final do ano, estamos reformando um apartamento para quando me casar, roupas para o casamento, comida, decoração, Deus isso tudo está sendo um verdadeiro martírio, sem ela aqui para me ajudar, para me ouvir, para me apoiar, sinto uma mão pesada no meu ombro esquerdo, é Vini o meu irmão de outra mãe.
–Mano era aqui que você estava? Tua mulher ta loca a atrás de você, está aqui por que vey?! –Vini sorri como o pai, de um jeito maroto de ser, ele tem a cabeça raspada, barba bem-feita o que deixa ele juvenil mesmo essa peste tendo a mesma idade que eu.
—Vini tem falado com sua irmã? Ela já não me retorna tem meses, tenho que ficar Stalkeando ela pelas redes sociais, ela estava com um médico mês passado, agora está com aquele cara imbecil que veio aqui, eu me sinto tão irritado, tão frustrado, mas eu nem sei o porquê e ela está tão linda... –Eu nunca tinha me dado conta do quanto ela era linda, até ver ela partir.
—Você é uma idiota filha da ... não vou xingar sua mãe, ela é legal, mas JP, minha irmã pagou paixão por você por muito tempo, agora ela tem o direito de ser feliz, você vai se casar cara, ela foi embora por que já não suportava mais fingir felicidade estando morrendo, todo mundo já não suportava mais também essa situação, ela si anulava completamente para ser aquilo que você precisava, você acha justo? –Ele está calmo, mas suas palavras tem um peso de magoa, eu nunca percebi isso. –João, ela nunca se permitiu amar de verdade alguém por que você nunca tirou as esperanças dela, agora que você a rejeitou, ela pode seguir em frente.
—Mas eu não entendo por que dói tanto, eu estou com tanta raiva por ela me deixar Vinícius, eu me sinto traído...
—Você talvez esteja se sentindo assim por que ela colocou finalmente a felicidade dela acima da sua, deixa ela cara, vá atrás da sua noiva, esqueça minha irmã, quem sabe ela não volta para o seu casamento? Ou talvez você vá ao dela.
Ele disse isso com um sorriso maldoso no rosto, ele sabia que isso me afetaria, o nó na minha ó apertou, eu tenho que deixar ela ser feliz, eu tenho que deixar esses sentimentos confusos de lado... ou pelo menos esconde-los até que eles sumam de mim.
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